Orlando Fedeli fez fama na internet por sua postura ácida, pouco caridosa, como que a resumir todo o Evangelho na passagem em que Nosso Senhor, movido pela ira santa, expulsa os vendilhões do Templo. Ao lado disso, um tradicionalismo intransigente, nada afeito ao diálogo, e, ousamos dizer, com doses cavalares de distorção.

Bem diferente, é bom frisar, de outros tradicionalistas com quem tomamos contato – como a FSSPX, por exemplo –, ou dos sedevacantistas. Deles também discordamos, mas o diálogo é respeitoso e não se vê má-fé em seus discursos. A FSSPX, por exemplo, mesmo antes da retirada das excomunhões, nunca negou que Bento XVI apóia o Concílio Vaticano II e o novo rito da Missa. Também agem assim os sedevacantistas – e é esse um dos motivos de negarem legitimidade ao Papa reinante.

Fedeli não é assim. Desde a eleição de Bento XVI, apostou em uma tese: este é o Papa contrário ao Vaticano II, que irá revogá-lo, combatê-lo, rasgar o novo Missal…

“Estranhamente”, o Romano Pontífice, embora tenha um especial carinho pelo rito antigo da Missa e o tenha autorizado universalmente, sem necessidade de audiência aos Bispos locais, não só continua autorizando o rito moderno, como celebra, diariamente, com o novo Missal, e, mais ainda, fez alguns ajustes nele agora em sua reimpressão da terceira edição típica latina. Fedeli, quando do Motu Próprio, insistia, porém, que o Papa estava acabando com a “Missa Nova”… Vimos, pois, não ser verdade.

O Papa, enfim, fez inúmeros, dezenas, quiçá centenas, de discursos, em que exaltava o Concílio. Mesmo que tenha dito, também, que era preciso interpretá-lo adequadamente, condenando, aliás, o tal “espírito do Concílio” – coisa que Paulo VI e João Paulo II também fizeram, saliente-se –, nunca se posicionou contra esse sínodo. Aliás, citou várias vezes seus textos e o elogiou efusivamente. Chegou a proclamar, quase que solenemente, que o Concílio Ecumênico Vaticano II é a diretriz de seu pontificado.

Quando atacou os que, em nome do Concílio, rompem com a Tradição, condenou também os que, em nome da Tradição, rompem com o Concílio. Os dois devem estar atrelados: é o que Bento XVI chamou de “hermenêutica da continuidade”. Isso, porém, Fedeli não leu, e, se leu, não entendeu, ou, se entendeu, distorceu… Não me surpreende.

Agora, por ocasião do levantamento das excomunhões dos quatro Bispos sagrados por D. Marcel Lefebvre, Orlando Fedeli apronta mais uma de suas molecagens. Disse, em dois artigos – Glória a Dom Lefebvre e a Dom Mayer e Justiça e coragem de Bento XVI –, que, com tal gesto, o Papa estaria, implicitamente, reconhecendo os erros do Concílio, autorizando que se possa atacá-lo, e que quem estava com a razão era D. Lefebvre. Nada mais tosco e mentiroso! Que estripulia o senhor fez, Professor Fedeli! Onde se lia “x”, o senhor leu o alfabeto inteiro.

Pois bem, um dos erros de Fedeli já demonstramos neste artigo do Alessandro Lima. Bento XVI não “desexcomungou” Lefebvre: apenas os quatro Bispos. Outros erros são refutados aqui .

Trato agora de refutar o novo erro do professor. Mais um… Sim, está ficando feio. Apostou no Papa anti-Vaticano II e errou. Melhor seria Fedeli dizer: “pois é, pessoal da Montfort, achei que Bento XVI iria acabar com o rito novo e o Concílio, mas me enganei; esse Papa é modernista”. Enquanto todos os demais tradicionalistas sempre viram em Bento XVI um defensor do Vaticano II e do rito novo, e, por isso mesmo, é que mantinham suas reservas ao Papa – um erro, claro, mas um erro, ao menos, honesto –, Orlando Fedeli convocou o Pontífice para suas hostes: fez das palavras do Papa e de seus atos um testemunho contra o Concílio. Mesmo que, pasmem, o Papa não só nunca tenha pronunciado uma condenação ao Vaticano II, como, ao contrário, o tenha elogiado e exaltado! Um erro honesto é o de se colocar contra o Papa porque ele defende o Concílio. O que dizer, porém, da atitude de ser contra o Concílio também, mas querer, a todo custo, que o Papa também seja?

Que a Montfort queira atacar o Concílio e a “Missa Nova”, isso se compreende. O que não podemos tolerar é que coloque o Papa no meio disso tudo, como que a corroborar as teses fedelistas. Faça Orlando Fedeli seus ataques em seu próprio nome, não no do Papa. Não coloque palavras na boca do Romano Pontífice! Não queira trazer Bento XVI para o seu “time”.

O fato é que Fedeli fez uma profecia: Bento XVI é anti-Vaticano II e anti-Missa nova. Deu com os burros n’água! Em vez de voltar atrás, permaneceu no erro e fez mais acrobacias teológicas para justificar o injustificável. Claro, Fedeli nunca erra. Briga com todos, desde sua época na TFP. Nenhum grupo presta. Nem a TFP da qual fez parte. Nem D. Mayer, com quem rompeu depois de ter feito toda a fofoca contra a TFP, logrando que o Bispo não mais apoiasse a entidade. Nem Campos quando no cisma, nem Campos quando depois dos acordos. Nem a FSSPX, que ele sempre atacou, mas que agora tenta acolher, posando de bonzinho.

Mais honroso é dizer, professor, com todas as letras: o Papa é pró-Concílio. É assim que fizeram a FSSPX e os sedevacantistas. É assim que faz D. Lourenço Fleischman, OSB.

Neste ponto, sugerimos a leitura do seguinte artigo, do Marcos Grillo, antes de continuar a leitura deste nosso: AFINAL, BENTO XVI É FAVORÁVEL OU CONTRÁRIO AO CONCÍLIO VATICANO II? 

Pois bem, dizíamos que iríamos refutar Fedeli. Não vamos mais. Deixamos essa tarefa para a Igreja, mediante o Diretor da Sala de Imprensa da Santa Sé.

Deliciem-se e, após a leitura, não deixem de fazer a mesma pergunta que vai no título deste despretensioso texto.

http://www.acidigital.com/noticia.php?id=15157

L’Osservatore Romano: Gesto de misericórdia do Papa deve alentar acatamento do Vaticano II

ROMA, 25 Jan. 09 / 05:35 pm (ACI).- O editorial deste domingo de L’Osservatore Romano, titulado “O Vaticano II e o gesto de paz do Papa”, destaca que a decisão de Bento XVI de levantar a excomunhão aos 4 bispos ordenados por Dom Marcel Lefebvre é um “gesto de misericórdia” que deve alentar aos membros da Fraternidade Sacerdotal São Pio X a acatar o Concílio Vaticano II que “após meio século de seu anúncio está vivo na Igreja“.

No texto se lembra que “faz meio século, em 25 de janeiro de 1959, o anúncio do Vaticano II por parte de João XXIII foi uma grande surpresa, que ultrapassou os limites visíveis da Igreja Católica. Já no dia seguinte o Arcebispo de Milão –que em 1963 se converteria em Paulo VI– definiu o futuro Concilio como um ‘acontecimento histórico de enorme grandeza’, quer dizer ‘grande hoje, amanhã, grande para os povos e para os corações humanos, grande para toda a Igreja e para toda a humanidade'”.

Paulo VI, prossegue a nota editorial, seguindo os passos de João XXIII “viu rapidamente e com claridade, as perspectivas históricas e religiosas do Vaticano II: a mais vasta assembléia celebrada na história foi intuída e aberta por um Papa de 78 anos, um século depois da interrupção do Vaticano I (querido por Pio IX quase na mesma idade), levando com valor a sua realização uma idéia já ventilada sob o Pontificado de Pio XI e Pio XII”.

Seguidamente a nota, assinada pelo diretor do jornal do Vaticano, Giovanni Maria Vian, explica que a aplicação do Concílio Vaticano II não foi fácil “pela incidência das decisões conciliar na vida da Igreja, na liturgia, na missão, nas relações com as outras confissões cristãs, com o judaísmo, com as outras religiões, com a afirmação da liberdade religiosa, na atitude para o mundo”.

“O último Papa, Bento XVI, ao ter participado plenamente e com paixão –como um teólogo novíssimo– no concílio, delineou em 2005 a interpretação católica do Vaticano II: um acontecimento que é lido não na lógica de uma discontinuidade que, absolutizando-o, isolaria-o da tradição; senão na da reforma, que o abre ao futuro. Um concílio que, como todos os outros, deve inserir-se na história e não ser mitificado, inseparável de seus textos, que propriamente do ponto de vista histórico não podem ser contrapostos a um suposto ‘espírito’ do Vaticano II”.

O editorial, cuja data coincide além com a Festa da Conversão de São Paulo, resenha logo que “os bons frutos do Concílio são inumeráveis e entre estes aparece agora o gesto de misericórdia relacionado aos bispos excomungados em 1988”.

“Um gesto –continua– que João XXIII e seus sucessores teriam gostado muito, em um oferecimento limpo que Bento XVI, Papa de paz, quis fazer público ao coincidir o aniversário do anúncio do Vaticano II, com a intenção clara de ver logo sanada uma fratura dolorosa. Intenção que não será ofuscada por inaceitáveis opiniões negacionistas e atitudes para o judaísmo de alguns membros da comunidade aos que o Bispo de Roma tende a mão”.

Finalmente, a nota precisa que “após meio século do anúncio, o Vaticano II está vivo na Igreja. Assim também o Concílio fica em mãos de todo fiel para que mais forte e claro seja o testemunho no mundo de quantos acreditam em Cristo”.

http://www.acidigital.com/noticia.php?id=15161

O Pe. Lombardi comenta em Rádio Vaticano a suspensão das excomunhões

VATICANO, 25 Jan. 09 / 10:34 pm (ACI).- O Pe. Federico Lombardi, Diretor da Sala de Imprensa da Santa Sé, comentou este sábado, através de Rádio Vaticano, a decisão do Papa Bento XVI de levantar a excomunhão que pesava sobre os quatro bispos ordenados sem consentimento da Sé Apostólica por Dom Marcel Lefebvre.

“A Semana de oração para  a unidade dos cristãos  se conclui com uma  formosa notícia, que auguramos seja fonte de gozo em toda a Igreja. O levantamento da excomunhão dos quatro bispos da Fraternidade sacerdotal São Pio X é em efeito um passo fundamental para alcançar a reconciliação definitiva com o movimento iniciado e guiado por Dom Marcel Lefebvre”.

“Para compreender o significado deste passo -explicou o Pe. Lombardi-,  voltam imediatamente para a mente as palavras do Papa Bento XVI em sua carta de introdução ao Motu Próprio Summorum Pontificum de 7 de julho de 2007, quando escrevia que ao olhar no passado as divisões que no curso dos séculos rasgaram o Corpo de Cristo faz pensar que com freqüência as omissões da Igreja provocaram a consolidação das divisões. Assim, escrevia o Papa: ‘temos a obrigação de fazer todos os esforços para que todos aqueles que verdadeiramente têm o desejo da unidade, seja-lhes possível permanecer nesta unidade ou voltar a encontrá-la… Abramos generosamente nosso coração …’”, citou o Porta-voz da Santa Sé.

“O Cardeal Ratzinger -prosseguiu-  foi protagonista das relações com Dom Lefebvre em  1988 e já após tinha tratado de fazer tudo quanto foi possível para servir à união da Igreja. Então não foi suficiente e as consagrações episcopais de 30 de junho daquele ano, realizadas sem mandato pontifício, criaram uma situação de grave ruptura”.

“Mas a Comissão Ecclesia Dei, constituída por João Paulo II naquela circunstância, trabalhou com paciência para manter abertas as vias do diálogo e distintas comunidades unidas de diversos modo ao movimento Lefebvrista puderam já, no curso dos anos, voltar a recuperar a plena comunhão com a Igreja católica”, adicionou.

Entretanto, “a Fraternidade Sacerdotal São Pio X, com quatro bispos, seguia sendo, em todo caso, a comunidade mais importante com a qual restabelecer a comunhão. Bento XVI manifestou que de maneira indubitável seu compromisso por fazer tudo o possível para alcançar este objetivo. Lembremos naturalmente acima de tudo o Motu Proprio Summorum Pontificum sobre o rito para a celebração da Missa,  mas podemos também lembrar o documento da Congregação da Doutrina da Fé que esclarecia alguns pontos discutidos da doutrina eclesiológica do Concílio Vaticano II, assim como algumas grandes intervenções  sobre a correta hermenêutica  do mesmo Concílio, em continuidade com a tradição”.

“Tudo isto –prosseguiu o Pe. Lombardi- criou naturalmente um clima favorável, no que os bispos da Fraternidade São Pio X pediram o levantamento da excomunhão testemunhando explicitamente sua vontade de estar na Igreja católica romana e de acreditar firmemente no primado do Pedro”.

Por eles, “é formoso que o levantamento da excomunhão tenha lugar no iminente 50º aniversário do anúncio do Concílio Vaticano II, de maneira que este evento fundamental não possa agora ser jamais considerado como um motivo de tensão; mas sim de comunhão”.

“O texto do decreto põe em evidência que, de por si, está-se ainda em caminho para a plena comunhão, da que o Santo Padre deseja a solícita realização. Por exemplo, aspectos como o estatuto da Fraternidade e dos sacerdotes que pertencem a ela não são definidos no decreto publicado hoje”, adicionou.

“Mas a oração da Igreja está toda ela unida a do Papa, para que se supere logo toda dificuldade e se possa falar de comunhão em sentido pleno e sem incerteza alguma”, concluiu.

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