Apologética Bíblia - Tradição - Magistério Protestantismo

É Correto Interpretar a Bíblia Livremente?

Autor: Joel Adán Domínguez

Desde Martinho Lutero se tem defendido fortemente esta doutrina, que consiste em dizer que o homem é iluminado pelo Espírito Santo no momento em que abre a Bíblia, de modo que cada um pode entender e receber a Mensagem com a clareza de Deus.

Isto é um passo atrás na evangelização, pois todo dia, graças a esta doutrina, surgem novas seitas que afirmam ter encontrado, cada uma delas, a verdade e a vontade de Deus; fundam sua congregação para o que chamam “cumprir com a Bíblia”; vão e tentam evangelizar com suas ideias aqueles que já conhecem a Cristo, edificando sobre o que a Igreja Católica começou.

Se fosse certo que nada senão o Espírito Santo ilumina cada um a entender a Bíblia e interpretá-la, e não a Igreja, eu gostaria de perguntar: do lado de qual congregação cristã está o Espírito Santo? Isto porque todas, hoje, pretendem ensinar a verdade. Se alguém supõe que nada, senão o Espírito Santo, nos ilumina a ler uma obra Dele mesmo, então todos os cristãos tenderiam a afirmar uma mesma coisa, uma só doutrina, não é verdade? Já que o Espírito Santo não é Espírito de confusão, mas de verdade (cf. 1Coríntios 14,33), a quem deveremos ouvir? Já que sabemos que não pode existir mais do que uma só verdade, nem tampouco pode haver muitos espíritos santos, a confusão não pode vir de Deus, mas apenas de outro lado.

A própria Bíblia proíbe a posição protestante da livre interpretação:

2Pedro 3,15-16: “Como também nosso amado irmão Paulo, segundo a sabedoria que lhe foi dada, vos escreveu em quase todas as suas epístolas, falando nelas sobre estas coisas, entre as quais há algumas difíceis de se entender e que os ignorantes distorcem, como fazem com as outras Escrituras, para sua própria perdição”.

Fica claro aqui que as Escrituras não podem ser tomadas e interpretadas de qualquer jeito, com alguém afirmando “que o Espírito Santo me ilumine” e passando logo a pregar o que entendeu. Isto é falso, tão falso que hoje existem milhares de denominações afirmando possuir a verdade. A livre interpretação da Bíblia veio a ser a quebra da unidade do Cristianismo, rompendo com os desejos de Jesus:

João 17,21: “Que todos sejam um, com tu, Pai, em Mim e eu em Ti. Que eles também sejam um em nós, pois assim o mundo crerá que Tu me enviaste”.

João 10,16: “Haverá um só rebanho e um só Pastor”.

A ideia de Martinho Lutero e John Wycliff passou a ser cada vez mais um retrocesso à evangelização: bastaram passar alguns anos do surgimento do Protestantismo e já existiam mais de 200 novos grupos com doutrinas diferentes, fazendo renascer entre eles a heresia do Arianismo. A livre interpretação da Bíblia faz com que cada vez mais nos afastemos uns dos outros; os frutos da livre interpretação, entre outras coisas, é a divisão, que segue contrária à vontade de Deus. É para nos questionarmos: Deus queria que interpretássemos as Escrituras por nós mesmos? Claro que não, pois as consequências são estas:

– Os luteranos se dividiram, até agora, em 22 grupos com doutrinas diferentes;
– Os presbiterianos históricos, em 10 grupos com doutrinas diferentes;
– Nas igrejas batistas há fundamentalistas e outros não-fundamentalistas, em 24 grupos com doutrinas diferentes umas das outras, algumas com características sectárias;
– Os metodistas possuem 19 ramos doutrinários: livres, autônomos, radicais etc.;
– Os adventistas têm 5 denominações diferentre, sendo a do “Sétimo Dia” a maior delas;
– Os pentecostais e evangélicos constituem milhares de congregações ou seitas, com doutrinas diferentes; adotam o simples nome de “cristãos” apenas para dissimular a divisão doutrinária que reina entre eles; também entre eles surgiram ideias bem ingênuas, como por exemplo o caso do “apóstolo” José Luis de Jesús Miranda, que se autoproclama Deus na Terra, Jesus Cristo homem. A livre interpretação nos grupos evangélicos e pentecostais faz com que tendam ao fanatismo e criem doutrinas ingênuas, além da grande maioria se tornarem anticatólicos.
– Saídos do Adventismo, os Testemunhas de Jeová resolveram deixar de lado a livre interpretação da Bíblia, de modo que quem interpretar algo de maneira diferente corre o risco de ser expulso da congregação;
– A “Luz do Mundo” saiu da igreja pentecostal “Apostólica da Fé em Cristo”, formando sua própria denominação com base na livre interpretação; e dela já se separaram diversos ramos.

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É incrível ver a divisão em que se encontra o Protestantismo e, mesmo assim, a livre intepretação da Bíblia vai se difundindo e é defendida. Querer ser cristão primitivo apenas com a Bíblia, como pretende ser a “Luz do Mundo” entre outras denominações, não é outra coisa senão ignorar a História e a própria Bíblia; é o mesmo que dizer que amamos o Senhor mas não nos interessa o que Ele diz, nem a doutrina que Ele nos entregou há 20 séculos:

João 7,17-18: “Quem quiser fazer a vontade de Deus, verificará se a doutrina é de Deus ou se eu falo por Mim mesmo. Quem inventa sua própria doutrina, busca sua própria glória”.

João 14,23-24: “Quem me ama, guarda as minhas palavras; meu Pai o amará e viremos até ele; e faremos morada com ele”.

É interesante notar como o Antigo Pacto de Deus preservava tanto a ordem de interpretação das Escrituras (cf. Neemias 8,5-8; 2Crônicas 19,11; Malaquias 2,7): as Escrituras eram interpretadas apenas pelos sacerdotes; ninguém que não recebesse autoridade da parte de Deus podia interpretar as Escrituras para o povo. É absurdo crer que Deus, aperfeiçoando as obras de seu antigo povo no Novo Pacto, nos deixasse em desordem. Mas vemos que Deus não quis assim (cf. Lucas 10,16; Mateus 10,40), pois continuou gostando de ordem. Como vemos, os irmãos separados pretendem fazer a vontade de Deus apenas com a Bíblia; mas, como vimos, somente a Bíblia não basta para averiguar toda a verdade. Ao formarem um novo grupo cristão, estão formando uma nítida divisão, de modo que não guardam as palavras de Cristo, pois a Bíblia é contrária à divisão e à livre interpretação dela mesma.

– 1Coríntios 1,10-13: “Eu vos rogo, irmãos, em nome de Jesus Cristo, que faleis todos uma mesma coisa e que não haja entre vós divisões, para que estejais perfeitamente unidos em uma mesma mente e em um mesmo parecer, porque fui informado que (…) há contendas entre vós; quero dizer que cada um proclama: ‘eu sou de Paulo’; ‘eu, de Apolo’; ‘eu, de Cefas’; ou ‘eu, de Cristo’. Por acaso Cristo está dividido?”;

– Efésios 4,3-5: “Procurando manter a unidade no Espírito, no veículo da paz, um só corpo, um só espírito; como fostes chamados em uma só esperança da vossa vocação, um só Senhor, uma só Fé, um só Batismo; um só Deus e Pai de todos”;

– Filipenses 1,27: “Estejais firmes em um só espírito e lutai com um só coração pela fé do Evangelho”;

– Filipenses 2,2: “Cumulem minha alegria colocando-se de acordo entre vós, estando unidos no amor, em um mesmo projeto”;

2Pedro 1,20: “Porém, antes de mais nada, entendei que nenhuma profecia da Escritura é de interpretação particular”.

Você procura manter a unidade? Há irmãos que creem que a Igreja de Cristo está unida, porém espiritualmente. Mas Paulo nos fala para não estarmos divididos nem na forma de pensar. Alguns irmãos que interpretam bem 2Pedro 1,20 afirmam que a Bíblia não deve ser interpretada particularmente, dando conta de que na prática existe um magistério da Igreja desde o início da mesma.

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Vemos que com a livre interpretação da Bíblia, cada vez mais se divide o corpo místico de Cristo (cf. 1Coríntios 1,13). Inclusive, o próprio Paulo não foi por conta própria pegando as Escrituras, mas foi pedir autorização para pregar, de modo que percebemos que a livre interpretação da Bíblia existe apenas desde o Protestantismo. O que teria custado para Paulo ter ido pregar por conta própria? Ele conhecia muito bem as antigas Escrituras; disto não temos qualquer dúvida:

– Gálatas 2,2-5: “Expus em privado aos que tinham certa reputação (os Apóstolos, cf. versículo 9) o Evangelho que prego entre os gentios, para que eu não estivesse correndo em vão”

E, mesmo assim, nos ensinou a guardar a doutrina da única Igreja para evitar divisões:

– 1Timóteo 4,16: “Cuida de ti mesmo e da doutrina; persiste nisto, pois fazendo isto te salvarás a ti mesmo e também os que te escutam”;

– Romanos 16,17: “Eu vos rogo, irmãos, que vos fixeis nos que causam divisões e levantam tropeços contra a doutrina que aprendestes; afastai-vos deles”.

Outra coisa que se deve saber é que os irmãos [protestantes] defendem a livre interpretação com o mesmo versículo de 2Pedro 3,15; porém, dizem que Pedro não é contrário à livre interpretação, mas sim que os ignorantes não podem interpretar (isto é, aqueles que nunca estudaram). Contudo, irmão, continuam defendendo o indefensável:

– As testemunhas de Jeová estudam a Bíblia 5 horas por semana;
– Os mórmons, lendo tanto a Bíblia, interpretam que podemos ser deuses.

Ora, nossos sacerdotes católicos, antes de serem ordenados, estudam a Bíblia por muito tempo.

– Também José Luis Miranda, pastor da igreja “Crescendo em Graça”, estudou teologia e Bíblia como pentecostal, e interpreta que ele próprio é Deus e que somente São Paulo era cristão, enquanto que os demais Apóstolos eram judaizantes e apostataram.
– O mesmo se dá entre outras denominações que leem e estudam a Bíblia muito tempo.

E então? Permanecemos no erro com a livre interpretação, já que todos estudam a Bíblia e continuam separados?

A Igreja, ao proclamar algo como dogma, não inventa ou faz uma descoberta ou nova interpretação bíblica como muitos dizem. Os novos dogmas não são revelações do Espírito Santo; define-se um dogma através do uso de três ciências importantíssimas para a interpretação bíblia: a Exegese, a História e a Antropologia – mas, sobretudo, pela Tradição Apostólica que recebemos. Toda a doutrina da Igreja é dogma de fé, mas os dogmas proclamados anteriormente não são revelações do Espírito Santo, mas algo que já havia sido depositado na Tradição Oral e Escrita e que [agora] apenas se define.

É inimaginável que para palavras tão simples do Senhor como: “Isto é meu Corpo” e “Isto é meu Sangue”, existam mais de 20 interpretações e apenas uma delas possui 20 séculos, tal como os Apóstolos e Padres Apostólicos: a que afirma que “a fração do pão” é o próprio corpo de Cristo. A estas palavras tão simples do Senhor:

– Os anglicanos afirmam que Cristo está presente em comunhão, mas a partir do céu;
– Os presbiterianos, que Cristo está espiritualmente presente;
– Os testemunhas de Jeová afirmam que “isto” quer dizer “significa” o corpo de Cristo;
– Muitos “cristãos” evangélicos, batistas e pentecostais simplesmente dizem: “Oras! Isso não é teu corpo, Senhor; nada mais é do que um símbolo”.

Com efeito, se fôssemos [diretamente] iluminados pelo Espírito Santo para ler a Bíblia, porque teríamos crenças diferentes, já que todos nos entregamos ao Espírito Santo? E por que deveríamos seguir a interpretação do pastor? Devemos crer em tudo o que ele nos diz? E se descobrirmos coisas novas na Bíblia, o pastor aceitará?

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Sabemos que Deus não quer que a sua Palavra seja interpretada individualmente e, para isto, estabeleceu uma Igreja neste mundo, assim como o eunuco etíope, quando lia as Escrituras no deserto, recebeu Felipe da parte de Deus para que as interpretasse; e quando Felipe perguntou a ele se as entendia, o eunuco respondeu:

– Atos 8,32: “Como entenderei se ninguém me explicar?”

Observemos que Felipe não diz a ele como os irmãos separados nos dizem hoje: “Pede a iluminação do Espírito Santo, pois é o único que pode interpretá-las para ti”. E podemos observar outra coisa: ao interpretar para o eunuco, Felipe não entregou a ele nenhum evangelho escrito, mas apenas *pregou* o evangelho de Jesus (cf. Atos 8,35).

A livre interpretação da Bíblia foi um desastre desde o começo da Reforma Protestante, de modo que Martinho Lutero acabou percebendo o erro em que caiu: os crentes iniciaram uma divisão de crenças; todos criavam uma religião segundo os seus desejos; ressurgiram heresias antigas que já tinham desaparecido; vários se autoproclamaram profetas… Em suma: é o desastre que vemos hoje; todo dia surgem novos grupinhos; há, inclusive, livros de OVNIs[1], numerologia[2] e ocultismo[3] contendo referências bíblicas!

Você continua acreditando que é certo cada um interpretar a Bíblia a seu modo? Você pode achar que o que vimos é uma profanação da Palavra de Deus; precisamente, irmão, a Palavra de Deus não pode ser tomada à furtiva; Deus estabeleceu uma ordem em sua Igreja, pois se cada um pudesse interpretá-la [individualmente] nos levaria à profanação.

O que um irmão que sustenta a livre interpretação da Bíblia poderia reclamar contra autores de livros esotéricos e de ficção científica que emprega citações bíblicas? E se proclamam a livre interpretação da Bíblia, porque ficam discutindo e insultando as interpretações da Igreja Católica? É por isso que ninguém pode interpretá-la a seu modo, nem sequer pretendendo ou levantando o pretexto de que é [pessoalmente] iluminado pelo Espírito Santo, pois milhares e milhares de denominações dizem o mesmo e nenhuma concorda na doutrina. – O Espírito Santo não estaria fazendo bem o seu trabalho?

Ao perceber o que estava ocorrendo em seu tempo, Martinho Lutero disse o seguinte:

“Há tantas congregações e crenças quanto cabeças (…) Aquele membro não quer ter nada a ver com o batismo; outro nega o Sacramento (Eucaristia); um terceiro crê que existe outro mundo entre este e o último dia; alguns andam dizendo que Jesus não é Deus. Uns dizem isto, outros aquilo. Se alguém sonha ou imagina algo, logo crê que o Espírito Santo falou com ele e acredita que já é profeta” (Martinho Lutero, cf. Grisar 4).

Eis aí, senhor Lutero, o que você semeou! E continua ainda dando frutos vários séculos depois!

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NOTAS
[1] Maussán, Jaime. “As Profecias da Biblia”.
[2] Drosnim, Michael. “Os Códigos Secretos na Bíblia”; Coleção “Muito Interessante”.
[3] Strachan, Gordon. “A Cosmologia Oculta da Bíblia”.

  • Fonte: http://www.voxveritas.com.mx
  • Tradução: Carlos Martins Nabeto

 


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