Uma vez que alguns “tradicionalistas” insinuam que o Vaticano II foi supostamente uma mudança completa e súbita para os Católicos no que se refere ao ecumenismo, útil é explorar o que a Igreja Católica tem ensinado a esse respeito nas três ou quatro gerações anteriores ao Concílio. Muitos católicos conservadores e ortodoxos são indiferentes ao movimento ecumênico, até mesmo céticos quanto ao mesmo, pensando que necessariamente envolve concessões doutrinárias e relativismo (ou até mesmo, na hipótese mais extrema – revoluções ou conspiração dentro da Igreja Católica). De fato, muitos escritos papais de tempos antigos sugerem que todo diálogo com não-católicos deve ser de natureza apologética.

O pensamento católico evoluiu nesta área (da mesma forma que em muitas – se não em todas – outras áreas), especialmente nos cinqüenta anos ou mais durante os quais o desenvolvimento tem sido notório e rápido. Mas existem suficientes precedentes explícitos para o ecumenismo pelo menos desde o Papa Leão XIII (1878-1903), que tentou encorajar uma atitude de respeito e amizade para com as Igrejas do Oriente. Em sua encíclica Praeclara Gratulationis (1894), ele usou expressões antes raramente vistas em documentos papais:

“Voltamos os nossos olhos com afeto para o Oriente (…) as Igrejas Orientais, tão ilustres na fé ancestral e em passado glorioso (…) a distância que nos separa não é tão grande(…)”

Leão XIII nunca chama os Ortodoxos de cismáticos, ou se refere a eles desta maneira. Ele tenta descrever o cisma de uma forma que – embora seja fiel às suas próprias convicções católicas – não seja ao mesmo tempo ofensiva ou arrogante com os cristãos orientais. Para Leão XIII os Ortodoxos são cristãos separados ou “cristãos dissidentes”.

O Papa Leão XIII enfatiza que a unidade se torna mais gloriosa e atrativa se abarcar uma grande diversidade de ritos litúrgicos e eclesiológicos, costumes e formas. Essa abordagem ecumênica adotada por Leão XIII tem sido altamente influente na política do papado desde então. Em todos os documentos sobre as Igrejas Orientais desde essa época, encontramos um tom amigável, um chamado à unidade e reconciliação e respeito mútuo, e um reconhecimento formal das tradições cristãs Orientais.

Com o Papa Pio XI (1922-1939), a atitude ecumênica com relação aos cristãos orientais torna-se ainda mais explícita. Pela primeira vez, os documentos oficiais da Igreja Católica confessam que as barreiras para a reconciliação e reunião não são todas causadas pelos Orientais… Na Rerum Orientalium (1928), ele afirma:

“O remédio para os grandes males da separação não pode ser aplicado a não ser que se remova primeiro o impedimento da ignorância mutua, do desprezo e do preconceito (…). Os Católicos também têm às vezes falhado em avaliar com justiça a verdade ou, por conta de conhecimento insuficiente, em mostrar um espírito fraternal. Conhecemos nós tudo o que há de valor, de bom e de Cristão nos fragmentos da ancestral verdade Católica? Fragmentos separados de protominério de ouro também contêm o precioso minério (…)”

O Papa Pio XI, cautelosamente, e o Papa Pio XII (1939-1958), mais abertamente, anteciparam as bênçãos que a unidade poderia trazer à Igreja Universal, Oriente e Ocidente…

Igualmente notável é a crescente abertura na abordagem aos protestantes pelos papas recentes. Este desenvolvimento tem sido mais lento do que aquele em relação aos Ortodoxos, mas inegavelmente existe e pode ser demonstrado.

O Papa Leão XIII endereçou muitas cartas a cristãos protestantes nas quais ele evita o jargão insultuoso do passado. Ele nunca se referiu a eles como hereges. Do Cristão Escocês ele diz:

“Muitos dos cristãos separados amam o nome de Cristo com todo o coração, se propõem a obedecer sua regra de vida, e por imitação buscam seguir seu exemplo sagrado.”

O desejo de Leão XIII por unidade incluía os protestantes. Ele foi peça-chave em diversos momentos da oração por unidade, e procurava fórmulas de unidade que seriam consenso entre católicos e protestantes.

Nos documentos oficiais da Igreja, o desenvolvimento do olhar ecumênico “moderno” em direção aos protestantes é notável no pensamento do Papa Pio XII. Em sua primeira encíclica, Summi Pontificatus (1939), um novo tema é enfatizado:

“Não queremos que passe despercebido o grande eco de comovido reconhecimento que vieram suscitar em nosso coração os augúrios daqueles que, se bem não pertençam ao corpo visível da Igreja católica, não se esqueceram, em sua nobreza e sinceridade, de sentir tudo aquilo que, ou por amor à pessoa de Cristo ou pela sua crença em Deus, os unem a nós.”

A referência constante aos protestantes como irmãos separados é impressionante, uma vez que assume o que os documentos eclesiais mais antigos não estavam tão dispostos a admitir: a boa-fé da parte dos Cristãos não-Católicos. Os escritos de Pio XII presumem que muitos, talvez a maioria dos Cristãos protestantes estão fora da Igreja sem culpa. Em outras palavras, não são hereges (especialmente no sentido subjetivo), mas antes, irmãos separados. Têm fé em Deus e em seu filho Jesus Cristo, e muitos atributos espirituais que dão a eles uma profunda afinidade com os Católicos e a Igreja Católica.

A noção de que os Cristãos protestantes têm acesso à verdadeira fé, à fé que justifica, à graça, e ao mesmo Deus, está implícita nos princípios da teologia católica de todos os tempos (que é o porque o ecumenismo é um desenvolvimento consistente e não uma inovação, ou corrupção). Nos escritos de grandes convertidos como Newman, Manning, Chesterton e Knox, Católicos que lembraram seus próprios preciosos estados de mente – encontramos esse ponto de vista afirmado claramente.

Santo Agostinho, por exemplo, uma vez se dirigiu aos homens de fora da Igreja que procuravam unidade:

 “Deixe que tenham raiva de vocês os que não sabem com quanta angústia a verdade é buscada;(…) Eu acho impossível ter raiva de vocês.”

“Sobre o Movimento Ecumênico” foi publicado pelo Santo Ofício em 1949. Permitia a Católicos, com aprovação de seus bispos, participarem em diálogo teológico com cristãos protestantes. Isso foi um reconhecimento oficial católico ao movimento ecumênico. O documento permitiu que reuniões ecumênicas fossem abertas e encerradas com oração em comum.

Todo o desenvolvimento do ecumenismo católico mencionado acima ocorreu nos 80 anos entre o tempo do pontificado de Leão XIII (desde 1878) até o reino de Pio XII (que morreu em 1958). Os conhecidos, extensivos e profundos esforços ecumênicos do Papa João XXIII, que convocou o Concílio Vaticano II, não estão sequer incluídos. Claramente, o ecumenismo tem sido o desenvolvimento católico mais digno de nota de nosso tempo, superando até mesmo o desenvolvimento mariológico, cujas raízes foram deitadas bem anteriormente às do ecumenismo Católico moderno.

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