D. Estêvão Tavares Bettencourt, osb (+2008)

Educação Sexual

– “Se pessoas autorizadas afirmam que a educação sexual é indispensável, porque é que outras ainda a proíbem e condenam?” (Pedro J. – Rio de Janeiro-RJ).

Há quem diga que a excitação febril e a depravação moral da juventude moderna provêm da insuficiência de ensinamento referente à questão sexual. Em consequência, propugnam um tipo de educação sexual que, sem observar limites, desvenda ao discípulo tudo o que concerne ao assunto, não levando em conta idade, temperamento, reações do adolescente etc.

Esta tese moderna, por muito capciosa que seja à primeira vista, na prática mostra-se extremamente nociva.

A Moral cristã não desaprova a educação sexual; chega a recomendá-la a fim de se contrabalançarem ou impedirem influências daninhas sobre o adolescente. Requer, porém, seja feita dentro de certas cláusulas:

1) Toca aos pais, tutores ou mestres honestos falar aos jovens sobre a vida sexual; façam-no antes que colegas, empregados ou estranhos o empreendam. Distingam, porém, entre educação e iniciação sexual: ao passo que a iniciação visa apenas a fisiologia, a educação se dirige ao homem todo (incutindo a disciplina das paixões e a formação da vontade).

2) A educação sexual não deve ser feita em público, à guisa de aula na escola, e de maneira igual para todos os ouvintes. Ao contrário, será levada a efeito em caráter particular, e graduada de acordo com as necessidades e a receptividade de cada jovem de per si, a fim de não se despertarem prematuramente a atenção o instinto sexuais — o que criaria problemas sérios tanto de ordem psíquica como de ordem fisiológica. Na escola, o mestre se limitará a afirmações gerais de biologia e à ética ou formação do caráter para a vida sexual.

3) Ao mesmo tempo que se vai desvendando ao jovem o que concerne à fisiologia, é indispensável procurar educar a sua vontade, dando-lhe sadia concepção geral da vida e mostrando-lhe a finalidade das tendências espontâneas do homem. Assim, o educador fornece ao adolescente os meios de dominar (sustentado, sim, pela graça de Deus) os movimentos que a iniciação fisiológica nele pode desencadear.

É a negligência na formação do caráter que constitui uma das grandes lacunas dos métodos modernos de educação sexual. Apenas consideram o aspecto material, fisiológico, do problema; e se dirigem tão somente à inteligência, descuidando-se de preparar e enriquecer a vontade. Tal proceder não pode deixar de acarretar desequilíbrios no funcionamento psicofísico do adolescente. É preciso, pois, que o educador sexual forneça outrossim uma educação geral sadia: seja um pedagogo completo, capaz de se servir de todos os recursos da pedagogia a fim de garantir a preservação sexual; caso contrário, ele dá à sociedade uns gozadores mórbidos, viciados, não os construtores do mundo de amanhã. Diz-se com razão que as atitudes sexuais de um adolescente vêm a ser o produto e a pedra de toque de sua educação geral.

A razão de ser das restrições acima, ditadas pela Moral cristã, não é de modo nenhum a falsa crença de que os atos da sexualidade sejam por si pecaminosos ou de que o primeiro pecado (a culpa de Adão e Eva no paraíso) tenha sido pecado sexual. São exclusivamente inspiradas pela consciência de que a desmedida reflexão sobre a fisiologia humana e, em particular, sobre a fisiologia do sexo é, tanto do ponto de vista físico como do ponto de vista moral, nociva ao indivíduo; assim como a excessiva análise do funcionamento do coração ou do aparelho digestivo pode perturbar gravemente o funcionamento do organismo, assim também a consideração indiscreta da sexualidade e de seus movimentos profundos é capaz de produzir desajustamentos. A natureza quer ser respeitada; quer que suas funções decisivas fiquem até certo ponto recobertas pelo véu do inconsciente (é nesse inconsciente, aliás, que está importante fator de autodefesa da natureza).

O Santo Padre o Papa Pio XII, repetindo normas de seus antecessores, lembrou mais de uma vez ao mundo a necessidade de recato no tocante à educação sexual:

– “Há um terreno no qual a educação da opinião pública, a sua retificação, se impõem com urgência trágica (…) Queremos falar aqui de escritos, livros e artigos acerca da iniciação sexual, os quais muitas vezes obtêm hoje enormes êxitos de livraria e inundam o mundo inteiro, invadindo a infância, submergindo a geração que sobe para a vida, perturbando noivos e jovens casais. (…) Essa literatura (…) parece não levar em conta a experiência geral de ontem, hoje e sempre, a qual, fundada na natureza, atesta que, na educação moral, nem a iniciação nem a instrução apresentam de si qualquer vantagem e que, pelo contrário, são gravemente mal-sãs e prejudiciais, se não vão fortemente unidas a uma constante disciplina, a vigoroso domínio de si mesmo e sobretudo ao uso das forças sobrenaturais da oração e dos sacramentos” (Discurso aos pais de família franceses, proferido aos 16 de setembro de 1951; transcrito da «Revista Eclesiástica Brasileira» 11, 1951, pp.965-966).

– “Referimo-nos à iniciação sexual completa, que nada quer ocultar nem deixar na escuridão. Não há nisso uma excessiva e perniciosa estima do saber? Existe também uma educação sexual eficaz, que com toda a segurança ensina na calma e objetividade o que o jovem deve saber para se guiar a si mesmo e tratar com o seu meio. De resto, há de se insistir, na educação sexual, como aliás em toda a educação, sobre o domínio de si mesmo e a formação religiosa” (Discurso aos psicoterapeutas, proferido aos 13 de abril de 1953; transcrito da «Revista Eclesiástica Brasileira» 13, 1953, p.484).

  • Fonte: Revista Pergunte e Responderemos nº 2 – fev/1958
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