Congregação para a Educação Católica
EDUCAR JUNTOS NA ESCOLA CATÓLICA: MISSÃO PARTILHADA DE PESSOAS CONSAGRADAS E FIÉIS LEIGOS

Introdução

1. A evolução repentina e por vezes contraditória do nosso tempo suscita desafios educativos que interpelam o mundo da escola. Eles induzem a encontrar respostas adequadas não só a nível dos conteúdos e dos métodos didácticos, mas também a nível da experiência comunitária que caracteriza a acção educativa. A importância destes desafios transparece do contexto de complexidade social, cultural e religiosa na qual crescem concretamente as jovens gerações, e influencia significativamente a sua vida. Trata-se de fenómenos amplamente difundidos, tais como o desinteresse pelas verdades fundamentais da vida humana, o individualismo, o relativismo moral e o utilitarismo, que invadem as sociedades ricas e desenvolvidas. A elas acrescentam-se as rápidas mudanças estruturais, a globalização e a aplicação das novas tecnologias no campo da informação que incidem cada vez mais na vida quotidiana e nos percursos formativos. Além disso, com o processo de desenvolvimento, cresce o fosso entre países ricos e países pobres e aumenta o fenómeno das migrações, acentuando a diversidade das identidades culturais no mesmo território com as relativas consequências concernentes à integração. Numa sociedade ao mesmo tempo global e diversificada, local e planetária, que hospeda diversos e contrastantes modos de interpretar o mundo e a vida, os jovens encontram-se face a diferentes propostas de valores ou desvalores cada vez mais estimulantes, mas também cada vez menos partilhados. A isto acrescentam-se as dificuldades derivadas de problemas de estabilidade da família, de situações de mal-estar e de pobreza, que geram um sentido difundido de desorientação a níveis existencial e afectivo num período delicado do seu crescimento e maturação, expondo-os ao perigo de serem “batidos pelas ondas e levados por qualquer sopro de doutrina” (Ef 4, 14).

2. Neste contexto, torna-se particularmente urgente oferecer aos jovens um percurso de formação escolar que não se limite à fruição individualista e instrumental de um serviço apenas em vista de um título que deve ser obtido. Além da aprendizagem dos conhecimentos, é necessário que os estudantes façam uma experiência de forte partilha com os educadores. Para uma realização positiva desta experiência, os educadores devem ser interlocutores afáveis e preparados, capazes de suscitar e orientar as melhores energias dos estudantes para a busca da verdade e do sentido da existência, uma construção positiva de si e da vida no horizonte de uma formação integral. De resto, “não é possível […] uma verdadeira educação: sem a luz da verdade” [1].

3. Esta perspectiva interpela todas as instituições escolares, mas ainda mais directamente a escola católica, a qual presta atenção de modo constante às entidades formativas da sociedade, porque “o problema da instrução sempre esteve estreitamente ligado à missão da Igreja” [2]. A escola participa nesta missão como verdadeiro sujeito eclesial, com o serviço educativo, vivificado pela verdade do Evangelho. Ela, de facto, fiel à sua vocação, apresenta-se “como lugar de educação integral da pessoa humana através de um claro projecto educativo que tem o seu fundamento em Cristo, [3]orientado para realizar uma síntese entre fé, cultura e vida.

4. O projecto da escola católica só convence se for realizado por pessoas profundamente motivadas, porque são testemunhas de um encontro vivo com Cristo, o Único no qual “o mistério do homem encontra a sua luz verdadeira” [4]. Portanto, pessoas que se reconhecem na adesão pessoal e comunitária ao Senhor, assumido como fundamento e constante ponto de referência da relação interpessoal e da colaboração recíproca entre educador e educando.

5. A actuação de uma verdadeira comunidade educativa, construída com base em valores projectuais partilhados, representa para a escola católica uma tarefa empenhativa a ser realizada. De facto, a presença nela de alunos, assim como de professores, provenientes de contextos culturais e religiosos diferentes exige um maior compromisso de discernimento e de acompanhamento. A elaboração de um projecto partilhado torna-se um apelo imprescindível que deve estimular a escola católica a qualificar-se como lugar de experiência eclesial. A sua força de conexão e as potencialidades de relacionamento derivam de um quadro de valores e de uma comunhão de vida radicados na própria pertença a Cristo e no reconhecimento dos valores evangélicos, assumidos como normas educativas, estímulos motivacionais e ao mesmo tempo metas finais do percurso escolar. Certamente o grau de participação poderá ser diversificado em virtude da própria história pessoal, mas isto exige dos educadores a disponibilidade para um compromisso de formação e autoformação permanente, em relação a uma escolha de valores culturais e de vida, que devem ser feitos presentes na comunidade educativa.[5]

6. A Congregação para a Educação Católica, depois de já ter tratado em dois respectivos documentos os temas da identidade e da missão do leigo católico e das pessoas consagradas na escola, no presente documento considera os aspectos pastorais relativos à colaboração entre fiéis leigos e consagrados [6] na mesma missão educativa. Nela, encontram-se a escolha dos fiéis leigos de viver a tarefa educativa “como uma vocação pessoal na Igreja e não só como a prática de uma profissão” [7] e a escolha das pessoas consagradas, porque chamadas “a viver os conselhos evangélicos e a levar o humanismo das bem-aventuranças ao campo da educação e da escola” [8].

7. Este documento coloca-se em continuidade com textos precedentes da Congregação para a Educação Católica relativos à educação e à escola [9] e tem claramente em consideração as diferentes situações nas quais se encontram as instituições escolares católicas nas diversas regiões do mundo. Ele pretende chamar a atenção para três aspectos fundamentais que dizem respeito à colaboração entre fiéis leigos e consagrados na escola católica: a comunhão na missão educativa, o necessário caminho de formação na comunhão para a missão educativa partilhada e, por fim, a abertura aos outros como fruto da comunhão.

I. A comunhão na missão educativa

8. Cada ser humano está chamado à comunhão em virtude da sua natureza criada à imagem e semelhança de Deus (cf. Gn 1, 26-27). Portanto, na perspectiva da antropologia bíblica, o homem não é um indivíduo isolado, mas uma pessoa: um ser fundamentalmente relacional. A comunhão para a qual o homem está chamado requer sempre uma dupla dimensão, isto é, vertical (comunhão com Deus) e horizontal (comunhão entre os homens). É essencial reconhecer a comunhão como dom de Deus, como fruto da iniciativa divina realizada no mistério pascal.[10]

A Igreja: mistério de comunhão e de missão

9. O projecto originário de Deus foi comprometido pelo pecado que feriu todas as relações: entre o homem e Deus, entre o homem e o homem. Contudo, Deus não abandonou o homem na solidão e, na plenitude dos tempos, enviou o seu Filho, Jesus Cristo, como salvador, [11] para que o homem pudesse reencontrar, no Espírito, a plena comunhão com o Pai. Por sua vez a comunhão com a Trindade, tornada possível pelo encontro com Cristo, une os homens entre si.

10. Quando os cristãos dizem comunhão, referem-se ao mistério eterno, revelado em Cristo, da comunhão de amor que é a própria vida de Deus-Trindade. Ao mesmo tempo diz-se também que o cristão é co-partícipe desta comunhão no corpo de Cristo que é a Igreja (cf. Fl 1, 7; Ap 1, 9). A comunhão é, portanto, “essência” da Igreja, fundamento e manancial da sua missão de ser no mundo “a casa e a escola da comunhão” [12], para conduzir todos os homens e mulheres a entrar cada vez mais profundamente no mistério da comunhão trinitária e, ao mesmo tempo, a difundir e restabelecer as relações internas da comunidade humana. Neste sentido, “a Igreja é como uma família humana, mas é ao mesmo tempo a grande família de Deus, mediante a qual Ele forma um espaço de comunhão e de unidade através de todos os continentes, culturas e nações” [13].

11. Portanto, isto dá origem a que na Igreja, enquanto ícone do amor encarnado de Deus, “a comunhão e a missão conjugam-se profundamente entre si, compenetram-se e exigem-se mutuamente, a ponto que a comunhão representa a fonte e ao mesmo tempo o fruto da missão: a comunhão é missionária e a missão é para a comunhão” [14].

Educar em comunhão e para a comunhão

12. A educação, precisamente porque tem por objectivo tornar o homem mais homem, só pode realizar-se autenticamente num contexto relacional e comunitário. Não é por acaso que o primeiro e originário ambiente educativo é constituído pela comunidade natural da família. [15] A escola, por sua vez, coloca-se ao lado da família como o espaço educativo comunitário, orgânico e intencional e apoia o seu empenho educativo, segundo a lógica da subsidiariedade.

13. A escola católica, que se caracteriza principalmente como comunidade educadora, configura-se como escola para a pessoa e das pessoas. De facto, ela tem por finalidade formar a pessoa na unidade integral do seu ser, intervindo com os instrumentos do ensino e da aprendizagem onde se formam “os critérios de juízo, os valores determinantes, os pontos de interesse, as linhas de pensamento, as fontes inspiradoras e os modelos de vida” [16]. Mas sobretudo envolvendo-a na dinâmica das relações interpessoais que constituem e vivificam a comunidade escolar.

14. Por outro lado, esta comunidade, em virtude da sua identidade e da sua raiz eclesial, deve aspirar a constituir-se em comunidade cristã, isto é comunidade de fé, capaz de criar relações de comunhão, em si educativas, cada vez mais profundas. E são precisamente a presença e a vida de uma comunidade educativa, na qual todos os membros são partícipes de uma comunhão fraterna, alimentada pela relação viva com Cristo e com a Igreja, que fazem da escola católica o âmbito de uma experiência autenticamente eclesial.

As pessoas consagradas e os fiéis leigos juntos na escola

15. “Um dos frutos da doutrina da Igreja como comunhão, nestes anos, foi a tomada de consciência de que os seus vários membros podem e devem unir as suas forças, numa atitude de colaboração e permuta de dons, para participar mais eficazmente na missão eclesial. Isto concorre para dar uma imagem mais articulada e completa da própria Igreja, para além de tornar mais eficiente a resposta aos grandes desafios do nosso tempo, graças ao concurso harmonioso dos diversos dons” [17]. Neste contexto eclesial a missão da escola católica, vivida por uma comunidade constituída por pessoas consagradas e por fiéis leigos, assume um significado muito particular e manifesta uma riqueza que é preciso saber reconhecer e valorizar. Esta missão exige, de todos os membros da comunidade educativa, a consciência de que uma iniludível responsabilidade em criar o estilo original cristão compete aos educadores, como pessoas e como comunidade. Exige deles que sejam testemunhas de Jesus Cristo e manifestem que a vida cristã é portadora de luz e de sentido para todos. Assim como a pessoa consagrada está chamada a testemunhar a sua vocação específica à vida de comunhão no amor [18], para ser na comunidade escolar sinal, memória e profecia dos valores do Evangelho [19], assim também ao educador leigo é pedido que realize “a sua missão na Igreja vivendo na fé a sua vocação secular na estrutura comunitária da escola” [20].

16. O que torna verdadeiramente eficaz este testemunho é a promoção, também no interior da comunidade educativa da escola católica, daquela espiritualidade da comunhão que foi indicada como a grande perspectiva que se abre de par em par à Igreja do terceiro milénio. E espiritualidade da comunhão significa “capacidade de sentir o irmão de fé na unidade profunda do Corpo místico, isto é como ‘um que faz parte de mim'” [21]; “capacidade que tem a comunidade cristã de dar espaço a todos os dons do Espírito” [22] numa relação de reciprocidade entre as várias vocações eclesiais. Também naquela particular expressão da Igreja que é a escola católica, a espiritualidade da comunhão deve tornar-se o respiro da comunidade educativa, o critério para a plena valorização eclesial dos seus componentes e o ponto de referência fundamental para a realização de uma missão autenticamente partilhada.

17. Assim, nas escolas católicas que nasceram das famílias religiosas, das dioceses, das paróquias ou de fiéis, que hoje no seu interior contam com a presença de movimentos eclesiais, esta espiritualidade de comunhão deverá traduzir-se numa atitude de marcada fraternidade evangélica entre as pessoas que respectivamente se reconhecem nos carismas dos Institutos de vida consagrada, nos dos movimentos ou das novas comunidades, e nos outros fiéis que trabalham na escola. Deste modo a comunidade educativa dá espaço aos dons do Espírito e reconhece estas diversidades como riqueza. Uma genuína maturidade eclesial, alimentada no encontro com Cristo nos sacramentos, permitirá valorizar, “quer nas formas mais tradicionais, quer nas mais recentes dos movimentos eclesiais […] uma vivacidade que é dom de Deus” [23], para toda a comunidade escolar e para o próprio percurso educativo.

18. As associações católicas de categoria constituem outro exemplo de “comunhão”, uma ajuda estruturada à missão educativa, e são um espaço de diálogo entre as famílias, as instituições do território e a escola. Estas associações, com as suas ramificações a níveis local, nacional e internacional, são uma riqueza que dá uma contribuição particularmente fecunda para o mundo educativo a nível das motivações e da profissionalidade. Muitas associações reúnem professores e responsáveis presentes tanto na escola católica como noutras realidades escolares. Graças ao pluralismo das pertenças, elas podem desempenhar uma importante função de diálogo e de cooperação entre instituições diversas, mas que têm em comum as mesmas finalidades educativas. Estas realidades associativas são chamadas a ter em consideração a mudança das situações, adequando assim a sua estrutura e o seu modo de trabalhar, para continuar a ser uma presença eficaz e incisiva no sector educativo. Elas devem intensificar também a colaboração recíproca, sobretudo para garantir a consecução dos objectivos comuns, no pleno respeito do valor e da especificidade de cada associação.

19. Além disso, é de importância fundamental que o serviço desempenhado pelas associações seja impulsionado pela plena participação na actividade pastoral da Igreja. Às Conferências Episcopais e às suas expressões continentais está confiado um papel promotor para valorizar as especificidades de cada associação, favorecendo e encorajando um trabalho mais coordenado no sector escolar.

II. Um caminho de formação para educar juntos

20. Educar as jovens gerações em comunhão e para a comunhão, na escola católica, é um compromisso sério que não se improvisa. Ele deve ser oportunamente preparado e apoiado mediante um projecto de formação, inicial e permanente, capaz de colher os desafios educativos do momento presente e de fornecer os instrumentos mais eficazes para os poder enfrentar, na linha da missão partilhada. Isto exige dos educadores uma disponibilidade à aprendizagem e ao desenvolvimento dos conhecimentos, à renovação e à actualização das metodologias, mas também à formação espiritual, religiosa e à partilha. No contexto hodierno isto é particularmente exigido para responder às insistências que vêm de um mundo em contínua e rápida transformação, no qual é cada vez mais difícil educar.

Formação profissional

21. Um dos requisitos fundamentais do educador da escola católica é possuir uma sólida formação profissional. A baixa qualidade do ensino, devido à insuficiente preparação profissional ou aos métodos pedagógicos inadequados, repercute-se inevitavelmente em desvantagem da formação integral do educando e do testemunho cultural que o educador deve oferecer.

22. A formação profissional do educador não só implica um amplo leque de competências culturais, psicológicas e pedagógicas, caracterizadas por autonomia, capacidade projectual e avaliativa, criatividade, abertura à inovação, disposição para a actualização, a pesquisa e a experimentação, mas exige também a capacidade de sintetizar competências profissionais e motivações educativas, com uma particular atenção à disposição relacional hoje exigida pela prática cada vez mais colegial da profissionalidade docente. De resto, nas expectativas dos alunos e das famílias, o educador é visto e desejado como um interlocutor amável e preparado, capaz de motivar os jovens para uma formação completa, de suscitar e orientar as suas energias melhores para uma construção positiva de si e da vida, de ser uma testemunha séria e credível da responsabilidade e da esperança da qual a escola é devedora à sociedade.

23. A transformação contínua e acelerada, que investe o homem e a sociedade do nosso tempo em todos os âmbitos, produz o rápido envelhecimento dos conhecimentos adquiridos e exige novas capacidades e métodos. Ao educador é pedida uma constante actualização dos conteúdos das matérias que ensina e dos métodos pedagógicos que usa. A vocação do educador requer uma capacidade pronta e constante de renovação e de adaptação. Portanto, não é suficiente alcançar só inicialmente um bom nível de preparação, mas ao contrário, é preciso mantê-lo e elevá-lo, num caminho de formação permanente. Além disso, a formação permanente, pela variedade dos aspectos que abrange, requer uma constante busca pessoal e comunitária das suas formas de realização, assim como um percurso formativo partilhado e alimentado também pelo intercâmbio e pelo confronto entre educadores consagrados e leigos da escola católica.

24. Apenas a preocupação da actualização profissional em sentido estreito não é suficiente. A síntese entre fé, cultura e vida que os educadores da escola católica são chamados a realizar, verifica-se, de facto, “através da integração dos diversos conteúdos do saber humano, especificado nas várias disciplinas, à luz da mensagem evangélica e através do desenvolvimento das virtudes que caracterizam o cristão” [24]. Isto exige dos educadores católicos a maturação de uma particular sensibilidade em relação à pessoa a ser educada para saber captar, além da exigência de crescimento em conhecimentos e competências, também a necessidade de crescimento em humanidade. Isto requer que os educadores se dediquem “ao outro com as atenções sugeridas pelo coração, de modo que ele experimente a sua riqueza de humanidade” [25].

25. Por isso, os educadores católicos precisam “também e, sobretudo, da “formação do coração”: é preciso levá-los àquele encontro com Deus em Cristo que neles suscite o amor e abra o seu íntimo ao outro”, de modo que façam do seu compromisso educativo “uma consequência resultante da sua fé que se torna operativa pelo amor (cf. Gl 5, 6)” [26]. De facto, também “a solicitude pela educação é amor” (cf. Sb 6, 17). Só assim, eles poderão fazer com que o seu ensinamento seja uma escola de fé, isto é, uma transmissão do Evangelho, como é pedido pelo projecto educativo da escola católica.

Formação teológica e espiritual

26. A transmissão da mensagem cristã através do ensinamento implica o domínio de conhecimentos das verdades da fé e dos princípios da vida espiritual que exigem um aperfeiçoamento contínuo. Por isso é necessário que os educadores da escola católica, consagrados e leigos, percorram um adequado percurso formativo teológico [27]. Isto ajuda a conciliar melhor a inteligência da fé com o empenho profissional e com o agir cristão. Juntamente com a formação teológica é necessário que os educadores cultivem também a sua formação espiritual para fazer crescer a relação com Jesus Cristo e configurar-se com Ele que é o Mestre. Neste sentido, o caminho formativo, quer dos leigos quer dos consagrados, deve integrar-se no percurso de construção da pessoa para uma conformidade com Cristo cada vez maior (cf. Rm 8, 29) e da comunidade educativa em volta de Cristo Mestre. De resto, a escola católica está consciente de que a comunidade que ela constitui deve alimentar-se e confrontar-se continuamente com as fontes das quais deriva a razão do seu existir: a palavra salvífica de Deus na Sagrada Escritura, na Tradição, sobretudo litúrgica e sacramental, iluminada pelo Magistério da Igreja [28].

A contribuição dos consagrados para a formação partilhada

27. As pessoas consagradas com a profissão dos conselhos evangélicos manifestam viver para Deus e de Deus e tornam-se testemunho concreto do amor trinitário, para que os homens possam sentir o fascínio da beleza divina. Assim o primeiro e original contributo para a missão partilhada é a radicalidade evangélica da vida das pessoas consagradas. Em virtude do seu caminho vocacional, possuem uma preparação teológico-espiritual que, centrada no mistério de Cristo vivo na Igreja, tem necessidade de progredir incessantemente, em sintonia com a Igreja que caminha, na história, rumo “à verdade plena” (Jo 16, 13). Sempre nesta dinâmica requintadamente eclesial, as pessoas consagradas são convidadas a partilhar os frutos da sua formação também com os leigos, sobretudo com quantos se sentem chamados “a viver aspectos e momentos específicos da espiritualidade e da missão do Instituto” [29]. Deste modo, os Institutos de vida consagrada e as Sociedades de vida apostólica comprometidos na educação conseguirão garantir a abertura indispensável à Igreja e a manter vivo o espírito das Fundadoras e dos Fundadores, renovando além disso um aspecto particularmente precioso da tradição da escola católica. De facto, desde a origem as Fundadoras e os Fundadores dedicaram especial atenção à formação dos formadores e a ela dedicaram com frequência as melhores energias. Uma tal formação, hoje como então, visa-se não só consolidar as competências profissionais, mas sobretudo evidenciar a dimensão vocacional da profissão docente, favorecendo a maturação de uma mentalidade inspirada nos valores evangélicos, segundo as características específicas da missão do Instituto. Por esta razão “são bastante vantajosos aqueles programas de formação que incluem cursos periódicos de estudo e de reflexão orante sobre o fundador, o carisma e as constituições” [30].

28. Em muitos Institutos religiosos, a partilha da missão educativa com os leigos existe há muito tempo, tendo nascido com a comunidade religiosa presente na escola. O desenvolvimento das “famílias espirituais”, dos grupos de “leigos associados” ou de outras formas que permitem que os fiéis hauram fecundidade espiritual e apostólica do carisma originário, apresenta-se como um elemento positivo e de grande esperança para o futuro da missão educativa católica.

29. É quase supérfluo observar que, na perspectiva da Igreja-comunhão, estes programas de formação para a partilha da missão e da vida com os leigos, na luz do próprio carisma, devem ser considerados e realizados também onde as vocações para a vida consagrada são numerosas.

A contribuição dos leigos para a formação partilhada

30. Também os leigos, enquanto são convidados a aprofundar a sua vocação como educadores na escola católica, em comunhão com os consagrados, são também chamados a fornecer ao percurso formativo comum a contribuição original e insubstituível da sua plena subjectividade eclesial. Isto comporta, antes de mais, que eles descubram e vivam na sua “vida laical […] uma vocação específica e maravilhosa no âmbito da Igreja” [31]: a vocação a “procurar o reino de Deus tratando as coisas temporais e ordenando-as segundo Deus” [32]. Como educadores, eles são chamados a viver “na fé a [sua] vocação secular na estrutura comunitária da escola, com a maior qualificação profissional possível e com um projecto apostólico inspirado na fé para a formação integral do homem” [33].

31. É positivo ressaltar que a contribuição peculiar que os educadores leigos podem dar para o caminho formativo, surge precisamente da sua índole secular, que os torna particularmente capazes de captar “os sinais dos tempos” [34]. De facto, vivendo a sua fé nas condições ordinárias da família e da sociedade, podem ajudar toda a comunidade educativa a distinguir com mais clareza os valores evangélicos e os contravalores que estes sinais contêm.

32. Com a progressiva maturação da sua vocação eclesial, os leigos são tornados cada vez mais conscientes de participar na mesma missão educadora da Igreja. Ao mesmo tempo, são estimulados a desempenhar um papel activo também na animação espiritual da comunidade que constroem juntamente com os consagrados. “A comunhão e a reciprocidade na Igreja nunca vão em sentido único” [35]. De facto, se noutros tempos eram sobretudo os sacerdotes e os religiosos que nutriam espiritualmente e dirigiam os leigos, hoje pode acontecer que sejam “os próprios fiéis leigos que ajudam os sacerdotes e os religiosos no seu caminho espiritual e pastoral” [36].

33. Na perspectiva da formação, os fiéis leigos e as pessoas consagradas, partilhando a vida de oração e, nas formas oportunas, também de comunidade, alimentarão a sua reflexão, o sentido da fraternidade e da dedicação generosa. Neste comum caminho formativo catequético-teológico e espiritual, podemos ver o rosto de uma Igreja, que apresenta o de Cristo, rezando, escutando, aprendendo, ensinando em comunhão fraterna.

Formação no espírito de comunhão para educar

34. Pela sua própria natureza, a escola católica requer a presença e o envolvimento de educadores não só cultural e espiritualmente formados, mas também intencionalmente orientados para fazer crescer o seu compromisso educativo comunitário num autêntico espírito de comunhão eclesial.

35. Os educadores estão chamados, também através do percurso formativo, a construir os seus relacionamentos, quer a nível profissional quer pessoal e espiritual, segundo a lógica da comunhão. Isto exige, de cada um, a tomada de atitudes de disponibilidade, de acolhimento e profundo intercâmbio, de convivência e vida fraterna no âmbito da própria comunidade educativa. A parábola dos talentos (cf. Mt 25, 14-30) pode ajudar a compreender como cada um está chamado a fazer frutificar os seus dons pessoais e a acolher as riquezas dos outros na missão educativa partilhada.

36. De resto, a missão partilhada é enriquecida pelas diferenças das quais são portadoras as pessoas consagradas e os leigos, onde convergem em unidade expressões de carismas diversos. Estes carismas são apenas dons diferentes com os quais o próprio Espírito enriquece as Igrejas e o mundo [37]. Portanto, na escola católica “a reciprocidade das vocações, evitando quer a contraposição, quer a homologação, coloca-se como uma perspectiva particularmente fecunda para enriquecer o valor eclesial da comunidade educativa. Nela as várias vocações […] são vias correlativas, diversas e recíprocas que concorrem para a actuação plena do carisma dos carismas: a caridade” [38].

37. Articulada na diversidade das pessoas e das vocações, mas vivificada pelo mesmo espírito de comunhão, a comunidade educativa da escola católica tem por finalidade criar relações de comunhão, em si educativas, cada vez mais profundas. E, precisamente nisto, “exprime a variedade e a beleza das diversas vocações e a fecundidade a nível educativo e pedagógico que isto oferece à vida da instituição escolar” [39].

Testemunho e cultura da comunhão

38. Esta fecundidade expressa-se, antes de tudo, no próprio testemunho oferecido pela comunidade educativa. Na escola, certamente, a educação desenvolve-se de modo completo através do ensino, que é o veículo pelo qual se comunicam ideias e convicções; neste sentido, “a palavra é a via-mestra na educação da mente” [40]. Contudo, isto não impede que a educação se realize também noutras situações da vida escolar. Assim os professores, como todas as pessoas que vivem e trabalham num âmbito escolar, que educam, ou podem também deseducar, com o seu comportamento verbal e não verbal. “Fundamental na obra educativa, e especialmente na educação para a fé, que é o vértice da formação da pessoa e o seu horizonte mais adequado, é em concreto a figura da testemunha” [41]. “Mais do que nunca, isto exige que o testemunho, alimentado pela oração, seja o ambiente abrangente de cada uma das escolas católicas. Como testemunhas, cada um dos professores deve dar a razão da sua esperança (cf. 1 Pd 3, 15), vivendo a verdade que eles mesmos propõem aos seus estudantes, sempre com referência Àquele que encontraram e cuja bondade confiante eles experimentaram com alegria. Assim, juntamente com Santo Agostinho, eles dizem: “Nós que falamos e vós que ouvis reconhecemo-nos como co-discípulos de um único Mestre” (Sermões, 23, 2)” [42]. Portanto, na comunidade educativa o estilo de vida tem uma grande influência, sobretudo se as pessoas consagradas e os leigos trabalham juntos, partilhando plenamente o compromisso de construir, na escola, “um ambiente educativo imbuído do espírito evangélico de liberdade e caridade” [43]. Isto exige que cada um contribua com o dom específico da própria vocação, para construir uma família sustentada pela caridade e pelo espírito das bem-aventuranças.

39. Dando testemunho de comunhão, a comunidade educativa católica é capaz de formar para a comunhão, a qual, como dom que vem do alto, anima o projecto de formação para a convivência e o acolhimento. Não só cultiva nos alunos os valores culturais que brotam da visão cristã da realidade, mas também envolve cada um deles na vida da comunidade, onde os valores são mediados por relações interpessoais autênticas entre os diversos membros que a compõem e pela adesão individual e comunitária a eles. Deste modo, a vida de comunhão da comunidade educativa assume o valor de princípio educativo, de paradigma que orienta a sua acção formativa, como serviço para a realização de uma cultura da comunhão. Por isso, a comunidade escolar católica, através dos instrumentos do ensino e da aprendizagem, “não transmite […] a cultura como meio de poder e de domínio, mas como capacidade de comunhão e de escuta dos homens, dos acontecimentos, das coisas” [44]. Este princípio informa qualquer actividade escolar, a didáctica e também todas aquelas actividades extra-escolares tais como o desporto, o teatro e o compromisso no âmbito social, que favorecem a contribuição criativa dos alunos e a socialização.

Comunidade educativa e pastoral vocacional

40. A missão partilhada vivida por uma comunidade educativa de leigos e de consagrados, com uma profunda consciência vocacional, faz da escola católica um lugar pedagógico favorável para a pastoral vocacional. De facto, pela sua própria composição a comunidade educativa da escola católica ressalta a diversidade e complementariedade das vocações na Igreja [45], das quais também ela é expressão. Neste sentido, a dinâmica comunitária da experiência formativa torna-se o horizonte no qual o educando pode experimentar o que significa ser membro da comunidade maior que é a Igreja. E fazer experiência da Igreja significa encontrar-se pessoalmente com Cristo vivo nela. E “só na medida em que faz uma experiência pessoal de Cristo, o jovem pode compreender na realidade a sua vontade e, portanto, a própria vocação” [46]. Neste sentido, a escola católica sente-se comprometida a guiar os alunos no conhecimento de si, das próprias capacidades e dos seus recursos interiores, para os educar a conduzir uma vida com sentido de responsabilidade, como resposta quotidiana ao apelo de Deus. Fazendo assim, a escola católica acompanha os alunos a fazer opções de vida conscientes: a seguir a vocação para o sacerdócio ou para a especial consagração, a realizar a própria vocação cristã na vida familiar, profissional e social.

41. De facto, o diálogo quotidiano e o confronto com os educadores, leigos e consagrados, que oferecem um testemunho jubiloso da própria chamada, orientarão com mais facilidade o jovem formando a considerar a própria vida como uma vocação, como um caminho que deve ser vivido em conjunto, captando os sinais através dos quais Deus conduz à plenitude da existência. De modo análogo, far-lhes-á compreender como é necessário saber ouvir, interiorizar os valores, aprender a assumir compromissos e fazer escolhas de vida.

42. Deste modo a experiência formativa da escola católica constitui um formidável baluarte contra a influência de uma mentalidade difundida que induz, sobretudo os mais jovens, “a considerar a si próprio e à sua própria vida como um conjunto de sensações a serem experimentadas, e não como uma obra a ser realizada” [47]. E, ao mesmo tempo, ela contribui para “formar personalidades fortes, capazes de resistir ao relativismo debilitador e de viver as exigências do próprio baptismo” [48].

III. A comunhão para se abrir ao próximo

43. A comunhão vivida pelos educadores da escola católica contribui para fazer com que todo o ambiente educativo seja lugar de uma comunhão aberta à realidade externa e não fechada em si mesma. Educar em comunhão e para a comunhão significa orientar os estudantes para crescer autenticamente como pessoas, “capazes de se abrirem progressivamente à realidade e de formarem uma determinada concepção da vida” [49], que os ajude a alargar o seu olhar e o seu coração ao mundo que os circunda, com capacidade de leitura crítica, sentido de responsabilidade e vontade de empenho construtivo. Dois tipos de motivações, antropológicas e teológicas, fundam esta abertura ao mundo.

Fundamentos antropológicos e teológicos

44. O ser humano, como pessoa, é unidade de alma e corpo que, se realiza dinamicamente mediante a abertura de si à relação com o outro. Constitutivo da pessoa é o ser com e para os outros, que se realiza no amor. Mas, é precisamente o amor que leva a pessoa a dilatar progressivamente o raio das suas relações além da esfera da vida privada e dos afectos familiares, até assumir o alcance da universalidade e abraçar pelo menos como desejo toda a humanidade. E neste mesmo impulso está contida também uma forte exigência formativa: isto é, a exigência de aprender a ler a interdependência de um mundo, cada vez mais atormentado pelos mesmos problemas de carácter global, como um sinal forte para o homem do nosso tempo; como uma chamada a sair daquela visão do homem que tende a conceber cada qual como indivíduo isolado. Trata-se da exigência de formar o homem como pessoa: um sujeito que, no amor, constrói a própria identidade histórica, cultural, espiritual, religiosa, colocando-a em diálogo com outras pessoas, numa dinâmica de dons reciprocamente oferecidos e recebidos. No contexto da globalização, é necessário formar sujeitos capazes de respeitar a identidade, a cultura, a história, a religião e sobretudo os sofrimentos e as necessidades dos outros, na consciência de que “todos somos verdadeiramente responsáveis por todos” [50].

45. Esta exigência assume ulterior relevo e urgência, na perspectiva da fé católica, vivida na caridade da comunhão eclesial. De facto, na Igreja, lugar de comunhão e imagem do amor trinitário, “pulsa a dinâmica do amor suscitado pelo Espírito de Cristo” [51]. O Espírito age como “poder interior” que harmoniza o coração dos crentes com o coração de Cristo e “transforma o coração da comunidade eclesial, para ser no mundo testemunha do amor do Pai” [52]. Portanto, “partindo da comunhão dentro da Igreja, a caridade abre-se por sua natureza ao serviço universal, frutificando no compromisso de um amor activo e concreto por com cada ser humano” [53]. Neste sentido, a Igreja não é finalizada para si mesma, existe para mostrar Deus ao mundo; existe para os outros.

46. De igual modo, como sujeito eclesial, a escola católica coloca-se como fermento cristão do mundo: nela, o aluno aprende a superar o individualismo e a descobrir, à luz da fé, que está chamado a viver de modo responsável, uma específica vocação para a amizade com Cristo e em solidariedade com os outros homens. Em definitiva, a escola está chamada a ser testemunho vivo do amor de Deus entre os homens. Aliás, ela pode tornar-se um meio através do qual é possível discernir, à luz do Evangelho, o que há de positivo no mundo, o que é preciso transformar e também as injustiças que é preciso superar. Também o acolhimento vigilante dos contributos do mundo para a vida da escola nutre e favorece uma comunhão aberta, particularmente nalguns âmbitos educativos, como a educação para a paz, para o viver juntos, para a justiça e para a fraternidade.

Construtores de comunhão aberta

47. A partilha da mesma missão educativa na diversidade das pessoas, das vocações e dos estados de vida é sem dúvida um ponto de força da escola católica na sua participação na dinâmica missionária da Igreja, na abertura da comunhão eclesial para o mundo. Nesta óptica, um primeiro contributo precioso provém da comunhão entre leigos e consagrados na escola.

Os leigos que, em virtude das suas relações familiares e sociais, vivem imersos no mundo, podem favorecer a abertura da comunidade educativa a um relacionamento construtivo com as instituições culturais, civis e políticas, com as diversas agregações sociais das mais informais às mais organizadas presentes no território. A escola católica garante a sua presença no território também através da colaboração activa com as outras instituições educativas, antes de mais com os centros católicos de estudos superiores, com os quais partilham um vínculo eclesial especial, com as entidades locais e as diversas agências sociais. Ela, neste âmbito, fiel à própria inspiração, contribui para construir uma rede de relações que ajuda os alunos a maturar o sentido de pertença e a própria sociedade a crescer e a desenvolver-se de modo solidário.

Também as pessoas consagradas participam, como “verdadeiro sinal de Cristo no mundo” [54], nesta abertura ao externo para partilhar os bens dos quais são portadores. A eles compete, em particular, mostrar que a consagração religiosa pode dizer muito a cada cultura, porque ajuda a revelar a verdade do ser humano. Do testemunho da sua vida evangélica deve poder emergir que “a santidade é a proposta da mais alta humanização do homem e da história: é um projecto que cada um nesta terra pode fazer seu” [55].

48. Outro pilar da comunhão aberta é constituído pela relação entre a escola católica e as famílias que a escolheram para educar os seus filhos. Esta relação configura-se como participação plena dos pais na vida da comunidade educativa, não só em virtude da sua responsabilidade primária na educação dos filhos, mas também em virtude da partilha da identidade e do projecto que caracterizam a escola católica e que eles devem conhecer e partilhar, com disponibilidade interior. Precisamente por isto, a comunidade educativa indica como espaço decisivo de colaboração entre escola e família o projecto educativo, a ser conhecido e realizado em espírito de comunhão, mediante a contribuição de todos, na distinção das responsabilidades, dos papéis e das competências. Aos pais, de modo particular, compete enriquecer a comunhão em volta deste projecto, tornando vivo e explícito o clima familiar que deve caracterizar a comunidade educativa. Por este motivo, a escola católica, aceitando de bom grado a colaboração dos pais, considera como momento essencial da própria missão também um serviço orgânico de formação permanente oferecido às famílias, para as apoiar na sua tarefa educativa e para promover uma coerência cada vez mais estreita entre os valores propostos pela escola e os que são propostos em família.

49. As associações e os grupos de inspiração cristã, que reúnem os pais das escolas católicas, representam uma ulterior ponte entre a comunidade educativa e a realidade circunstante. Estas associações e grupos podem restabelecer o vínculo de reciprocidade entre escola e sociedade, mantendo a comunidade educativa aberta à mais ampla comunidade social e, ao mesmo tempo, desempenhando uma acção sensibilizadora da sociedade e das suas instituições em relação à presença e à acção desempenhada pela escola católica no território.

50. Também a nível eclesial, a comunhão vivida no âmbito da escola católica pode e deve abrir-se a um inter-câmbio enriquecedor na mais ampla comunhão com a paróquia, a diocese, os movimentos eclesiais e a Igreja universal. Isto exige que os leigos (educadores e pais) e os consagrados pertencentes à comunidade educativa participem significativamente, também fora da escola católica, na vida da Igreja local. Os membros do clero diocesano e os leigos da comunidade cristã local, que nem sempre têm um adequado conhecimento da escola católica, devem redescobri-la como escola da comunidade cristã, uma expressão viva da própria Igreja de Cristo à qual pertencem.

51. A dimensão eclesial da comunidade educativa da escola católica, se for vivida autêntica e profundamente, não pode limitar-se à relação com a comunidade local. Quase por natural extensão, ela tende a abrir-se para os horizontes da Igreja universal. Nesta perspectiva, a dimensão internacional de muitas famílias religiosas oferece aos consagrados o enriquecimento da comunhão com quantos partilham a mesma missão nas mais variadas partes do mundo. Ao mesmo tempo, oferece o testemunho da força viva de um carisma que une para além das diferenças. A riqueza desta comunhão na Igreja universal pode e deve ser participada, por exemplo através de ocasiões formativas e de encontro a nível regional ou mundial, também para os leigos (educadores e pais) que, no respeito pelo seu estado de vida, partilham a missão educativa dos relativos carismas.

52. Configurada deste modo, a escola católica apresenta-se como uma comunidade educativa na qual a comunhão eclesial e missionária amadurece profundamente e cresce em extensão. Nela pode ser vivida uma comunhão que se torna testemunho eficaz da presença de Cristo, vivo na comunidade educativa reunida em seu nome (cf. Mt 18, 20) e que, precisamente por isto, abre para uma compreensão mais profunda da realidade e a um compromisso mais convicto de renovação do mundo. De facto, “se pensamos e vivemos em virtude da comunhão com Cristo, então abrem-se-nos os olhos [56], e compreendemos que “unicamente de Deus provém a verdadeira revolução, a mudança decisiva no mundo” [57].

53. A comunhão vivida na comunidade educativa, animada e apoiada por leigos e consagrados plenamente unidos na mesma missão, faz da escola católica um ambiente comunitário imbuído do espírito do Evangelho. Mas, este ambiente comunitário configura-se como lugar privilegiado para a formação das jovens gerações para a construção de um mundo fundado no diálogo e para a busca da comunhão, mais do que na contraposição; na convivência das diferenças e não na oposição. Desta forma, a escola católica, inspirando o seu projecto educativo na comunhão eclesial e na civilização do amor, pode contribuir em grande medida para iluminar as mentes de muitos, “para que surjam homens verdadeiramente novos, artífices de uma nova humanidade” [58].

Conclusão

54. “Num mundo no qual o desafio cultural é o primeiro, o mais provocador e cheio de efeitos” [59], a escola católica está consciente das tarefas importantes que está chamada a enfrentar e conserva a sua máxima importância também nas circunstâncias actuais.

55. Ela, quando é animada por pessoas leigas e consagradas que vivem em sincera unidade a mesma missão educativa, mostra o rosto de uma comunidade que tende para uma comunhão cada vez mais profunda. Esta comunhão sabe fazer-se acolhedora em relação às pessoas em crescimento, fazendo-lhes sentir, mediante a solicitude materna da Igreja, que Deus leva no coração a vida de cada um dos seus filhos. Ela sabe envolver os jovens numa experiência formativa global, para orientar e acompanhar, à luz da Boa Nova, a busca de sentido que eles vivem, de formas inéditas e muitas vezes ambíguas, mas com uma urgência preocupante. Por fim, uma comunhão que, fundando-se em Cristo, o reconhece e o anuncia a todos e a cada um, como o único verdadeiro Mestre (cf. Mt 23, 8).

56. Ao entregar este documento a quantos vivem a missão educadora na Igreja, confiemos à Virgem Maria, Mãe e educadora de Cristo e dos homens, todas as escolas católicas para que, como os servidos nas núpcias de Caná, sigam docilmente o Seu convite amoroso: “Fazei o que Ele vos disser” (Jo 2, 5) e sejam assim, juntamente com toda a Igreja, “a casa e a escola da comunhão” [60] para os homens do nosso tempo.

O Santo Padre, durante a Audiência concedida ao abaixo assinado Prefeito, aprovou o presente documento e autorizou a sua publicação.

Roma, 8 de Setembro de 2007, Festa da Natividade da Bem-Aventurada Virgem Maria.

ZENON Card. GROCHOLEWSKI
Prefeito

D. ANGELO VINCENZO ZANI
Subsecretário

_________
NOTAS:
[1] Bento XVI, Discurso na abertura do Congresso eclesial da Diocese de Roma sobre família e comunidade cristã (6 de Junho de 2005): AAS 97 (2005), 816. * [2] João Paulo II, Alocução à UNESCO (2 de Junho de 1980), n. 18: AAS 72 (1989), 747. * [3] Congregação para a Educação Católica, A escola católica no limiar do terceiro milénio (28 de Dezembro de 1997), n. 4. * [4] Concílio Ecuménico Vaticano II, Constituição pastoral sobre a Igreja no mundo contemporâneo Gaudium et spes (7 de Dezembro de 1965), n. 22: AAS 58 (1966), 1042. * [5] Cf. Sagrada Congregação para a Educação Católica, A escola católica (19 de Março de 1977), n. 32. * [6] Neste documento referimo-nos aos sacerdotes, religiosas, religiosos e pessoas que, com diversas formas de consagração, escolhem a vida do seguimento de Cristo para se dedicarem a Ele com um coração indiviso (Cf. João Paulo II, Exortação apostólica pós-sinodal Vita consecrata (25 de Março de 1996), nn. 1-12: AAS 88 (1996), 377-385. * [7] Sagrada Congregação para a Educação Católica, O leigo católico testemunha da fé na escola (15 de Outubro de 1982), n. 37. * [8] Congregação para a Educação Católica, As pessoas consagradas e a sua missão na escola, n. 6; cf. João Paulo II, Exortação pós-sinodal Vita consecrata, n. 96; AAS 88 (1996), 471-472. * [9] A escola católica (19 de Março de 1977); O leigo católico testemunha da fé na escola (15 de Outubro de 1982); Orientações educativas sobre o amor humano. Orientações de educação sexual (1 de Novembro de 1983); Dimensão religiosa da educação na escola católica (7 de Abril de 1988); A escola católica no limiar do terceiro milénio (28 de Dezembro de 1997); As pessoas consagradas e a sua missão na escola. Reflexões e orientações (28 de Outubro de 2002). * [10] Cf. Congregação para a Doutrina da Fé, Carta aos Bispos da Igreja Católica Communionis notio, (28 de Maio de 1992), n. 3b: AAS 85 (1993), 836. * [11] Cf. Missal Romano, Prece eucarística IV. * [12] João Paulo II, Carta apostólica Novo millennio ineunte (6 de Janeiro de 2001), n. 43: AAS 93 (2001), 297. * [13] Bento XVI, Homilia na Vigília de oração em Marienfeld (20 de Agosto de 2005): AAS 97 (2005), 886. * [14] João Paulo II, Exortação apostólica pós-sinodal Christifideles laici (30 de Dezembro de 1988), n. 32: AAS 81 (1989), 451-452. * [15] Cf. Concílio Ecuménico Vaticano II, Declaração sobre a educação cristã Gravissimum educationis (28 de Outubro de 1965), n. 3: AAS 58 (1966), 731; C.I.C., cânn. 793 e 1136. * [16] Paulo VI, Exortação apostólica pós-sinodal Evangelii nuntiandi (8 de Dezembro de 1975), n. 19: AAS 68 (1976), 18. * [17] João Paulo II, Exortação apostólica pós-sinodal Vita consecrata, 54: AAS 88 (1996), 426-427. Para a colaboração entre fiéis leigos e pessoas consagradas ver também os nn. 54-56: AAS 88 (1996), 426-429. * [18] Cf. Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica, Recomeçar a partir de Cristo (14 de Junho de 2002), n. 28. * [19] Cf. Congregação para a Educação Católica, As pessoas consagradas e a sua missão na escola. Reflexões e orientações, n. 20. * [20] Sagrada Congregação para a Educação Católica, O leigo católico testemunha da fé na escola, n. 24. * [21] João Paulo II, Carta apostólica Novo millennio ineunte, n. 43: AAS 93 (2001), 297. * [22] Ibid., n. 46: 299. * [23] Ibid., n. 46: 300. * [24] Sagrada Congregação para a Educação Católica, A escola católica, n. 37. * [25] Bento XVI, Carta encíclica Deus caritas est (25 de Dezembro de 2005), n. 31; AAS 98 (2006), 244. * [26] Ibid. * [27] Cf. Sagrada Congregação para a Educação Católica, O leigo católico testemunha da fé na escola, n. 60. * [28] Cf. Concílio Ecuménico Vaticano II, Constituição dogmática sobre a Divina Revelação Dei Verbum (18 de Novembro de 1965), n. 10: AAS 58 (1966), 822. * [29] Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica, Recomeçar a partir de Cristo , n. 31. * [30] Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica, A vida fraterna em comunidade (2 de Fevereiro de 1994), n. 45. * [31] Sagrada Congregação para a Educação Católica, O leigo católico testemunha da fé na escola, n. 7. * [32] Concílio Ecuménico Vaticano II, Constituição dogmática sobre a Igreja Lumen gentium (21 de Novembro de 1964), n. 31: AAS 57 (1965), 37. * [33] Sagrada Congregação para a Educação Católica, O leigo católico testemunha da fé na escola, n. 24. * [34] Concílio Ecuménico Vaticano II, Constituição pastoral sobre a Igreja no mundo contemporâneo Gaudium et spes, n. 4: AAS 58 (1966), 1027. * [35] Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica, Recomeçar a partir de Cristo , n. 31. * [36] João Paulo II, Exortação apostólica pós-sinodal Christifideles laici , n. 61: AAS 81 (1989), 514. * [37] Cf. Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica, A vida fraterna em comunidade, n. 45. * [38] Congregação para a Educação Católica, As pessoas consagradas e a sua missão na escola. Reflexões e orientações, n. 21. * [39] Ibid., n. 43. * [40] Bento XVI, Discurso aos representantes de algumas comunidades muçulmanas (20 de Agosto de 2005): AAS 97 (2005), 918. * [41] Bento XVI, Discurso na abertura do Congresso eclesial da Diocese de Roma sobre família e comunidade cristã (6 de Junho de 2005): AAS 97 (2005), 815. * [42] Bento XVI, Discurso aos Bispos de Ontário, Canadá, em visita ad limina Apostolorum (8 de Setembro de 2006): ed. quot. de L’Osservatore Romano (9 de Setembro de 2006), 9. * [43] Concílio Ecuménico Vaticano II, Declaração sobre a educação cristã Gravissimum educationis, n. 8: AAS 58 (1966), 734. * [44] Sagrada Congregação para a Educação Católica, A escola católica, n. 56. * [45] Cf. João Paulo II, Exortação apostólica pós-sinodal Christifideles laici, n. 20: AAS 81 (1989), 425. * [46] Bento XVI, Discurso aos seminaristas (19 de Agosto de 2005): AAS 97 (2005), 880. * [47] João Paulo II, Carta encíclica Centesimus annus (1 de Maio de 1991), n. 39: AAS 83 (1991), 842. * [48] Sagrada Congregação para a Educação Católica, A escola católica, n. 12. * [49] Ibid., n. 31. * [50] João Paulo II, Carta encíclica Sollicitudo rei socialis (30 de Dezembro de 1987), n. 38: AAS 80 (1988), 566. * [51] Bento XVI, Carta encíclica Deus caritas est, n. 28b: AAS 98 (2006), 240. * [52] Ibid., n. 19: 233. * [53] João Paulo II, Carta apostólica Novo millennio ineunte, n. 49: AAS 93 (2001), 302. * [54] João Paulo II, Exortação apostólica pós-sinodal Vita consecrata, n. 25: AAS 88 (1996), 398. * [55] Congregação para a Educação Católica, As pessoas consagradas e a sua missão na escola. Reflexões e orientações, n. 12. * [56] Bento XVI, Homilia durante a celebração eucarística em Marienfeld (21 de Agosto de 2005): AAS 97 (2005), 892. * [57] Bento XVI, Homilia na Vigília de oração em Marienfeld (20 de Agosto de 2005): AAS 97 (2005), 885. * [58] Concílio Ecuménico Vaticano II, Constituição pastoral sobre a Igreja no mundo contemporâneo Gaudium et spes, n. 30: AAS 58 (1966), 1050. * [59] João Paulo II, Discurso a pais, estudantes e professores das escolas católicas (23 de Novembro de 1991), n. 6: AAS 84 (1992), 1136. * [60] João Paulo II, Carta apostólica Novo millennio ineunte, n. 43: AAS 93 (2001), 296.

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