Artigos (por Carlos Ramalhete)

Escrever é Pensar

Um pesquisador amigo recebeu um pedido de estágio assustadoramente mal escrito. Tão chocado ficou que o mostrou a algumas pessoas, após retirar tudo o que pudesse identificar o autor.

Simplesmente não havia pontuação. A concordância inexistia. O infinitivo, o imperativo e o indicativo eram evidentemente considerados intercambiáveis pelo escrevedor. Tratava-se, basicamente, de uma tentativa orientada mais ou menos foneticamente de reproduzir por escrito um discurso oral incoerente e cheio de idas e voltas. Não faria feio se fosse assinado “em cruz, porque não sei escrever”, como o famoso recado que, no Samba do Arnesto, deveria ter sido “ponhado” na porta da casinha no Brás.

A graça deste samba, contudo, é justamente a dificuldade de comunicação entre amigos analfabetos. Já o candidato a estágio tem 12 ou 13 anos de escola, mais três anos e meio de faculdade. E este Arnesto-quase-estagiário, por incrível que pareça, acha que o que escreveu está bom. Ele acha que assim basta; mais ainda, ele tem certeza da perfeição formal daquele nível absurdamente baixo de domínio do vernáculo. Afinal, ele quer o tal estágio, e está dando seu melhor para consegui-lo. Seu texto, se é que assim se o pode chamar, era autoelogioso, informando, entre outras coisas, tratar-se de alguém com “ingles intermediario” – assim mesmo, sem acento algum.

Isso é gravíssimo. Considera-se hoje normal que alguém já no último ano de uma faculdade seja incapaz de escrever um texto minimamente eficiente. Não se trata de ter um belo estilo, de escrever elegantemente, de ter talento literário; é simplesmente questão de conseguir ordenar as ideias, de conseguir perceber que as ações têm sujeitos e objetos, que a pontuação organiza o que se está tentando comunicar. É, em suma, questão de conseguir comunicar-se por escrito, coisa que o estagiário em potência parece ser completamente incapaz de fazer. Após no mínimo 15 anos de inútil frequência a supostas instituições de ensino.

O que um texto desses revela é mais grave que uma mera incapacidade de domínio da norma culta, que já seria grave o bastante a esta altura da vida acadêmica do rapaz. O que ali se vê é a incapacidade de razão; é um raciocínio confuso, aos trancos e barrancos, que não tem a universalidade mínima para que possa ser transmitido ao próximo senão como emoção. Sem dominar o básico da própria língua, faltam àquele “estudante” os instrumentos da razão.

Não é de espantar que nosso ensino fique sempre em último nos testes internacionais.

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