“Rogo-vos, irmãos, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo, que todos estejais em pleno acordo e que não haja entre vós divisões. Vivei em boa harmonia, no mesmo espírito e no mesmo sentimento. Pois acerca de vós, irmãos meus, fui informado pelos que são da casa de Cloé, que há contendas entre vós. Refiro-me ao fato de que entre vós se usa esta linguagem: Eu sou discípulo de Paulo; eu, de Apolo; eu, de Cefas; eu, de Cristo. Então estaria Cristo dividido? É Paulo quem foi crucificado por vós? É em nome de Paulo que fostes batizados?” (I Coríntios 1, 10-13)

Qualquer semelhança entre a passagem bíblica acima e os dias atuais não é mera coincidência. Hoje vemos pessoas dizendo “eu sou de Lutero”, “eu sou de Calvino”, “eu de Wesley”, “eu de Edir Macedo”, “eu de R.R. Soares”, “eu de Estevam Hernandes”, “eu de fulano”, “eu de sicrano”, e assim sucessivamente. Percebe-se o quanto a advertência de São Paulo é atual. Na ausência de um legítimo princípio de autoridade — tal como o encontramos na Igreja Católica — a tendência é essa mesmo, ou seja, que cada um siga o seu próprio entendimento, e que mais e mais pessoas se julguem no direito de fundar uma nova “igreja”, como tem acontecido há quase 500 anos. Rechaçam-se a Tradição e o Magistério de sempre em troca de um arremedo de tradição e de um magistério que se baseia exclusivamente na autoridade humana. Pois cada nova “igreja” tem a sua própria tradição (ex.: “a tradição luterana”, “a tradição calvinista” etc.) e o seu “magistério”, composto, em nível local, pelos pastores, pelos diáconos e presbíteros, e nos níveis regional, nacional e internacional, pelos sínodos, concílios, convenções, federações etc. Por que não seguir a Tradição bimilenar inaugurada por Jesus Cristo e pelos Apóstolos, em vez da uma tradição de 400, 200, 80, 50 ou 30 anos? E por que não obedecer ao Magistério instituído pelo próprio Deus Filho, com a escolha dos doze Apóstolos sob a chefia de Pedro, em vez de se submeter ao “magistério” luterano, calvinista, iurdiano ou ainda ao “magistério de um homem só” (no caso daqueles que não se filiam a nenhuma igreja, com a convicção de o Espírito Santo lhes revela, individualmente, a verdadeira ortodoxia)?

Como já foi dito alhures, se Cristo quisesse que cada um O seguisse à sua maneira, isto é, que cada cristão tivesse liberdade tanto para interpretar a doutrina como bem lhe parecesse quanto para seguir a interpretação de uma outra pessoa qualquer (Lutero, Calvino, Edir Macedo…), se fosse essa a vontade de nosso Senhor Jesus Cristo, Ele não teria escolhido doze Apóstolos, nem teria eleito Pedro como o chefe deles (cf. Mt. 16,15-19 e Jo. 21,15-17). Em outras palavras, não haveria razão para existir, desde os primórdios da Igreja, essa distinção entre os que são incumbidos de ensinar e aqueles aos quais cabe obedecer. É evidente que, quando falta a autoridade, instaura-se o relativismo, o subjetivismo, enfim, o caos. Basta olharmos para as comunidades cristãs não-católicas para comprovarmos esse fato de modo cabal. (Aliás, é triste reconhecer, mas somos forçados a dizer que mesmo no meio católico pode se instalar a desordem, bastando para isso que os católicos ponham de lado a autoridade do Magistério… Mas isso é assunto para um outro artigo.)

Os protestantes afirmam que a única autoridade é a Bíblia (sola Scriptura), mas como pode ser assim, se cada pessoa interpreta a Escritura Sagrada de um jeito? Mesmo entre os próceres do protestantismo há divergências sérias e inconciliáveis, como no que diz respeito ao batismo (por imersão ou por aspersão? Infantil ou só para adolescentes e adultos?), à Santa Ceia (presença real de Cristo nos elementos ou simples simbolismo?), à liturgia de um modo geral, à escatologia, à moralidade (aborto, divórcio, uso de preservativo e controle da natalidade, relacionamentos homossexuais etc.), e outros temas. Imaginem se cada cidadão brasileiro tivesse liberdade para interpretar a Constituição Federal (que é a lei maior do país) à sua maneira! Seria o caos total! É para evitar essa desordem generalizada que existe o Supremo Tribunal Federal, corte máxima do país. Como poderia ser diferente na Igreja de Cristo? Ademais, é inegável que, nos primeiros anos, décadas ou mesmo séculos do cristianismo, a Bíblia, tal como a conhecemos hoje, simplesmente não existia! Primeiro porque os livros que a compõem foram sendo escritos paulatinamente (não surgiram prontos de uma hora para outra!). Em segundo lugar, demorou um bom tempo até que fosse definido o cânon, isto é, a lista definitiva dos livros reconhecidos como legítimos e divinamente inspirados (os quais viram a compor a Bíblia). E aqui é importante ressaltar que esse cânon foi proclamado oficialmente pela Igreja, com base na autoridade delegada por Cristo aos Apóstolos e necessariamente aos seus sucessores. Sem essa definição solene da Igreja, a Bíblia simplesmente não existiria, e até hoje teríamos uma quantidade enorme de livros, sendo literalmente impossível saber, de forma absoluta e definitiva, quais eram realmente inspirados. E em terceiro lugar, durante quase mil e quinhentos anos (repito: mil e quinhentos anos, ou quinze séculos!), a Bíblia estava fora do alcance da grande maioria dos cristãos, seja porque muitos eram analfabetos, seja porque, antes da invenção da imprensa, cópias da Bíblia eram muito caras e trabalhosas. Ora, durante todo esse longo período, ou seja, da fundação da Igreja por nosso Senhor Jesus Cristo até a invenção da imprensa, a que autoridade os cristãos obedeciam? Será que nosso Senhor deixaria Suas ovelhas vagarem a esmo, ou permitiria que elas fossem levadas ao erro, e isso durante 1500 anos (isto é, até que a imprensa fosse inventada e todos os cristãos enfim tivessem acesso à Bíblia), sendo que Cristo prometeu que as portas do inferno jamais prevaleceriam contra a Sua Igreja (Mt. 16,18) e que Ele permaneceria conosco até a consumação dos séculos (Mt. 28,20)?

É claro que essa idéia protestante, de que a Igreja se “desviou” pouco depois de nascer e permaneceu desviada até ser “restaurada” no século XVI, não tem o menor sentido. Se isso fosse verdade, então Cristo teria faltado com Sua promessa, o que obviamente é impossível. Entre a palavra dos “reformadores” (e dos seus seguidores) e a palavra do Cristo, dos Seus Apóstolos e sucessores, não pode haver dúvida de que lado devemos ficar. Não está claro que, se há erro, esse erro não pode ter sido dos legítimos sucessores dos Apóstolos (Deus não o permitiria!), e sim daqueles que rejeitaram a autoridade do Magistério, preferindo seguir o seu próprio entendimento, como insistem em fazer até hoje os protestantes?

Como é bom saber que, em meio ao relativismo, ao subjetivismo e ao caos que grassam em nossos dias, encontramos na autoridade da Igreja o verdadeiro e único porto seguro no qual nossa mente e nosso coração podem descansar! Como é bom saber que nosso Senhor Jesus Cristo não nos deixou órfãos, não nos deixou a sós, mas nos deu a Igreja como Mãe e Mestra! Como é maravilhoso ter a certeza do caminho a seguir, e uma certeza que não está baseada em nenhuma opinião individual ou meramente humana, mas que está enraizada nas promessas de nosso Senhor Jesus Cristo, no Seu amor e na Sua misericórdia por nós! Como é glorioso saber que na Igreja Católica Apostólica Romana, e somente nela, podemos encontrar a unidade querida por São Paulo e pelo próprio Senhor Jesus Cristo, quando orou ao Pai dizendo: “Não rogo somente por eles, mas também por aqueles que por sua palavra hão de crer em mim. Para que todos sejam um, assim como tu, Pai, estás em mim e eu em ti, para que também eles estejam em nós e o mundo creia que tu me enviaste. Dei-lhes a glória que me deste, para que sejam um, como nós somos um: eu neles e tu em mim, para que sejam perfeitos na unidade e o mundo reconheça que me enviaste e os amaste, como amaste a mim.” (Jo. 17,20-23).

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