Artigos (por Carlos Ramalhete)

Eugenia e Inteligência

O que é inteligência? Os chineses parecem achar que sabem: o laboratório de genética cognitiva do Instituto de Genômica de Pequim (BGI) está tentando descobrir uma origem genética dela. Para isso, coletaram amostras de algumas milhares de pessoas consideradas geniais. Uma delas, o psicólogo evolucionista Geoffrey Miller, entusiasmado com o projeto, acha que em poucos anos os genes que interessam já terão sido isolados, e será possível passar para a aplicação prática do conhecimento obtido.

Um detalhe macabro, que talvez faça soar os alarmes de quem não tenha ainda percebido aonde leva este tipo de coisa, é que só foram coletadas amostras de brancos e de orientais. Aparentemente, os chineses acham que não vale a pena procurar em negros os genes da alta inteligência.

Quando os genes que causariam a inteligência acima da média fossem descobertos, seria a hora de selecionar ativamente, por inseminação artificial, crianças que os portassem. Assim seria possível gerar sempre a criança mais inteligente possível, que depois seria cruzada com outra selecionada pelo mesmo processo, mais ou menos como se faz com cachorros ou galinhas. Ao cabo de algumas gerações, teria sido criado um grupo de supergênios.

O horror eugenista desta proposta – que é apenas o outro lado do aborto seletivo de crianças com síndrome de Down, por exemplo – faz lembrar os planos nazistas de construção de um super-homem. Não é difícil imaginar a criação de uma casta de gênios, outra de soldados ou operários fortíssimos e intelectualmente limitados, e por aí vai. O inferno é o limite.

Há, porém, um pequeno detalhe olvidado: ao contrário da força física ou da cor da pele, a inteligência é um mistério. Quem é inteligente? O que significa ser inteligente?

Os chineses parecem considerar que cientistas com muitas publicações ou com exposição de mídia teriam a inteligência comprovada, tanto que pedem aos candidatos um currículo acadêmico completo, além de testes de QI. Será? O ambiente acadêmico muitas vezes é mais propício à esperteza que à inteligência. Briguinhas e ciúmes, bajulações e relações pessoais frequentemente acabam tendo mais peso no sucesso de uma carreira que a inteligência do pesquisador.

Não duvido de que, após longas e nada éticas pesquisas, o projeto chinês acabe por gerar não uma população de inventores ou literatos, mas sim um grupo de pessoas geneticamente predispostas ao carreirismo mais escancarado. E vamos continuar sem ter como definir o quê, afinal, vem a ser a famosa inteligência.

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