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Evangelho de lucas i

EVANGELHO DE LUCAS I

 

Divisão
. 1,1 – 4 – Prólogo;

. 1,5 – 2,52 – Relatos da concepção e nascimento de João Batista e Jesus e infância de Jesus;
. 3,1 – 9,50 – Missão de João Batista; Batismo, primeira parte da missão: pregação na Galileia e preparação para o ministério de Jesus. Parte mais paralela com Marcos e Mateus;
. 9,51 – 19,27 – A subida para Jerusalém. É a parte mais original de Lucas: ensinamentos e parábolas de Jesus;

. 19,28 – 24,53 – A segunda parte da missão de Jesus: a entrada em Jerusalém, Paixão, Morte, Ressurreição e Ascensão;


Estrutura
O terceiro evangelista apresenta o mesmo esquema geral que os Evangelhos de Mateus e Marcos: uma introdução, a pregação de Jesus na Galiléia, sua subida à Jerusalém, o cumprimento final, nesta cidade, da sua missão, sua paixão e ressurreição. Mas a construção de Lucas é elaborada com esmero: ela visa fazer sobressair na História os tempos e lugares da História da Salvação.


O Evangelho de Lucas é mais longo, embora tenha sido dividido em menos capítulos que o de Mateus, contém mais 80 versículos. Além disso, quase metade do seu conteúdo não aparece nos outros três Evangelhos.


Quase todas as cenas da infância e Jesus são exclusivas deste Evangelho. só ele nos conta episódios como o da ressurreição do filho único da viúva de Naim, a unção e o perdão da mulher pecadora, a cura dos dez leprosos e da mulher encurvada, a conversão de Zaqueu e do bom ladrão, as mulheres no caminho do Calvário, os discípulos de Emaús. Há também uma série de parábolas que só Lucas refere: a da dracma perdida, do filho pródigo, do pobre Lázaro, do bom samaritano, do fariseu e do publicano, da mulher que importuna o juiz.


Pelo contrário, a alma fina e delicada de São Lucas omite pormenores que poderiam ser chocantes e de menor interesse para os seus leitores vindos do paganismo, como os episódios da Cananéia e da degolação de São João Batista, ou então maçantes por parecerem repetições como o da segunda multiplicação dos pães e o da unção de Betânia.

Uma das características mais conhecidas da estrutura do terceiro Evangelho é que uma parte importante deste cap 9 19, uns 10 capítulos agrupa uma série de episódios e ensinamentos de Jesus ao longo de um demorado itinerário a caminho de Jerusalém.

A vida pública começa pelo relato da pregação na sinagoga de Nazaré. Jesus é apresentado como alguém que segue “o seu caminho”; pelo contexto vê-se que este caminho significa orientar a sua vida para Jerusalém, aonde vem a entregar-se à morte, onde aparece ressuscitado e onde é elevado ao céu. Ele conclui o seu Evangelho deixando os discípulos no Templo, onde ficam a louvar a Deus; nos Atos, Jerusalém é o foco de irradiação da fé cristã. A cidade santa é o lugar onde se deve realizar a Salvação: foi lá que o Evangelho começou (1,5s) e é lá que ele deve terminar (24,52).


Seu plano reproduz as grandes linhas de Marcos com algumas transposições ou omissões. Certos episódios são deslocados, por questão de clareza ou de lógica, para um lugar mais significativo, por exemplo: a pregação inau-gural de Jesus na sinagoga de Nazaré (4,16-30) aparece bem mais cedo do que em seus paralelos de Mateus (13,53-55) e de Marcos (6,1-6); em Lucas (5,1-11), o engajamento dos primeiros discípulos vem mais tarde do que em Mateus (4,18-22) ou em Marcos (1,16-20).

Alguns episódios são omitidos por serem menos interessantes para os leitores pagãos (Mc 9,11-13). A diferença mais notável em relação a Marcos está na grande adição (9, 51-18,14), onde Lucas utiliza uma coleção de logia combinando-a com informações pessoais. Paralelo a Mateus, Lucas introduz o seu livro com dois capítulos sobre o nascimento e a infância de Jesus, muito mais extensos que os de Mateus, e nos quais se ocupa também da figura de São João Batista. A terceira sessão da Galileia até Jerusalém (Lc 9, 51- 19,28), está tão desenvolvida que abarca uns dez capítulos, isto é, uma terça parte da extensão total do livro; está apresentada como uma longa viagem de Jesus com os seus discípulos; não se trata só de um esquema geográfico, mas sim teológico: expansão da “Boa Nova”, desde a Galileia até Jerusalém, centro religioso do mundo judeu e ponto culminante da vida Jesus. Nesta sessão a maioria dos episódios ou seqüências é da autoria de Lucas, ainda que algumas se encontrem também em Mateus.


Como Mateus, e ao contrário de Marcos, Lucas transmite grande parte das palavras ou logia de Jesus. Mas, em contraste com Mateus, Lucas não só agrupa formando os “discursos”, mas também as distribui, situando-as em circunstâncias concretas, no encadeamento dos episódios e passagens narrativas. Assim três quartas partes das palavras que Mateus apresenta e que formam o “Discurso da Montanha”, Lucas também as conserva, mas distribuídas em passagens muito diversas, como que saltando para frente e para trás nos capítulos, se os comparamos com o discurso de Mateus. Esta característica de Lucas fez com que seja classificado como “o primeiro historiador de Jesus”: é que Lucas preocupou-se de situar as palavras no contexto do tempo e do lugar, que são “os dois olhos da História”. Mateus, por outro lado, teria sido “o primeiro catequista cristão”, agrupando por temas as palavras de Jesus.

Jerusalém ocupa no escrito de Lucas um lugar mais destacado que nos outros Evangelhos. Os relatos da infância começam e terminam com duas cenas cujo centro é o Templo de Jerusalém: o anúncio a Zacarias e o episódio do Menino perdido e achado no meio dos doutores. Nas tentações de Jesus no deserto, Lucas apresenta uma ordem diferente da de Mateus, de maneira que a terceira e a última tentação são precisamente no Templo. Já desde o começo da vida pública, Jesus começa a caminhar rumo a Jerusalém, onde culminaram os acontecimentos salvíficos. Só Lucas é que não fala das aparições de Jesus ressuscitado na Galileia, talvez para não ter de alterar este esquema literário e teológico e para dar mais relevo às aparições em Jerusalém.

Finalmente, o terceiro Evangelho termina com uma cena passada no mesmo lugar onde tinha começado, o Templo: “e eles, depois de O adorarem, voltaram para Jerusalém com grande alegria, e estavam continuamente no Templo louvando a Deus”.

Este esquema do Evangelho não é uma mera casualidade, mas é intencional pela parte de Lucas. Com efeito, no segundo livro, o dos Atos dos Apóstolos, ele obedece a um esquema paralelo: os Atos começam com o relato da Ascensão do Senhor e a vinda do Espírito Santo em Jerusalém. Jerusalém é, pois, a Cidade Santa que tinha sido designada pelos profetas como centro da salvação e na qual Jesus é, como eles, rejeitado. Depois, o livro dos Atos narra a difusão do Evangelho pelo mundo, e também algumas viagens, primeiro de Pedro e depois sobretudo de Paulo, até Roma, novo centro do mundo conhecido na sua época.

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