Caro Irmão Nabeto,
Antes de mais nada, parabenizo pelo site Agnus Dei, pela diversificação dos temas e pela qualidade. […] Lendo um dos assuntos abordados dentro do texto “Cânon de Muratori” me deparei com a afirmação do autor do texto, escrito por volta de 150 dC, o qual reproduzo abaixo a afirmação completa:
“Quanto aos apocalipses, recebemos dois: o de João e o de Pedro; mas, quanto a este último, alguns dos nossos não querem que seja lido”.
Caro Irmão, sinceramente é a primeira vez que escuto sobre um apocalipse “escrito” por Pedro. Você poderia me fornecer maiores informações sobre isso??
Agradeço sua atenção. Saudações em Cristo Jesus Nosso Senhor !! (Maristone)

Caro Maristone,

Pax Domini!

Agradeço pela visita ao site do Agnus Dei e por suas cordiais palavras. Quanto ao Apocalipse de Pedro, trata-se de um livro apócrifo redigido entre 125 e 150 d.C. (i.é, séc. II) e falsamente atribuído ao príncipe dos apóstolos, São Pedro. De fato, alguns cristãos consideravam-no inspirado, como, por exemplo, o escritor e doutor grego Clemente de Alexandria e o autor do já citado fragmento de Muratori (ainda que faça a ressalva).

Além disso, algumas igrejas da Palestina liam partes de seu texto na liturgia da Sexta-Feira Santa (até meados do séc. V) mas, com a definição oficial do cânon bíblico no final do séc. IV, e consequente classificação do Apocalipse de Pedro como “apócrifo”, o mesmo deixou de ser lido e empregado, sendo destruído ou caindo no esquecimento até que, por fim, acabou por desaparecer.

E assim foi durante muito tempo; só se tinha conhecimento de sua existência através de alguns fragmentos (como um que foi encontrado num túmulo do Alto Egito) ou por ter sido citado nas obras de Clemente de Alexandria. Porém, em 1910, foi descoberto o texto completo em uma tradução etíope, que foi pesquisado por mons. Sylvain Grebaut e publicado na íntegra vários anos depois.

Possui uma parte que pode ser considerada, de certa forma, paralela a Mt 24: “Muitos virão em meu nome e dirão: ‘Eu sou o Cristo’. Não confieis neles e nem vos aproximeis. Na realidade, a época da vinda do Filho do Senhor não é conhecida. Mas, como o raio que surge do oriente até o poente, assim chegarei nas nuvens do céu, com um exército numeroso para minha glória e minha cruz virá na frente. Virei em minha glória resplandecendo sete vezes mais que o sol. Virei em minha glória com todos os meus santos e os meus anjos, e meu Pai me colocará, então, uma coroa sobre a cabeça para que eu julgue os vivos e os mortos e pague a cada um de acordo com seus atos. […] Não sabes que a árvore do figo é a casa de Israel? […] Certo eu te digo que, quando os seus ramos tiverem esverdeado no último dia, virão falsos messias. E eles dirão nas suas promessas: ‘Eu sou o Cristo que vim ao mundo’. E, quando tiverem visto a malícia de suas obras, irão atrás deles e renegarão o primeiro Cristo, aquele que foi crucificado e ao qual nossos pais deram glória. Esse mentiroso não é o Cristo. E quantos se lhe opuserem, ele os matará a todos com a espada. Haverá então muitos mártires”.

Mas talvez a passagem mais interessante seja sobre como deverá acabar o mundo… Provavelmente teria feito muito “sucesso” no último dia 11 de agosto de 1999, dia previsto por alguns falsos profetas como final dos tempos… 🙂 Trata-se da passagem – que muitos talvez já tenham escutado e até acreditam que será verdade (mas não será!) – que afirma que o mundo irá ser destruído pelo fogo: “Serão escancaradas as cataratas de fogo. Sobrevirá escuridão e trevas que revestirão e cobrirão com véu o mundo todo. As águas serão mudadas e transformadas em carvões de fogo. Tudo o que está nelas queimará. Também o mar se tornará fogo. Sob o céu haverá um fogo cruel que não se apagará jamais. E escorrerá para o julgamento da ira. Também as estrelas serão fundidas pelas chamas e ficarão como se não tivessem sido criadas. […] Os espíritos dos cadáveres se assemelharão ao fogo e se tornarão fogo por ordem do Senhor. Então todas as criaturas serão liquefeitas. Em todo lugar a ira do fogo pavoroso alcançará os filhos do homem. E, empurrando-os, as chamas que não se apagarão os obrigarão a ir para o julgamento da ira, em um rio de fogo que não se apagará e que correrá queimando. […] E me vereis chegar sobre uma nuvem luminosa e eterna. […] E suas ações se apresentarão perante cada um deles. E cada um será retribuído segundo seus atos”.

Assustador?? Talvez, afinal faz parte do gênero literário classificado como “Apocalipse” (v. livro de Daniel, Apocalipse de João)… Mas o Apocalipse de “Pedro” não tem valor nenhum para nós, cristãos, por dois motivos:

Primeiro, porque é um livro *apócrifo*, escrito por alguém que não sabemos quem é, mas que, para dar “autoridade” à sua obra, resolveu atribuir a “autoria” a São Pedro (mesmo este estando morto há pelo menos 60 anos naquela época!). Além disso, a análise do conteúdo da obra demonstra várias discordâncias com o resto do Novo Testamento… uma delas é o fato de que tal Apocalipse se diz ser “revelação secreta de Jesus a Pedro”; contudo, o próprio Jesus deixou bem claro que o Reino está aberto a todos os homens de boa vontade, sendo esta a Boa Nova a ser pregada para todas as nações; percebemos, assim, que não há espaço para “revelação secreta”… Devemos, ainda, observar que qualquer “revelação secreta” só serve para beneficiar a pessoa que a recebeu e não as demais!

Segundo, porque o cristão não deve temer o final do mundo e pouco lhe interessa saber como e quando isto se dará. Ora, tendo recebido a salvação por Cristo e perseverado como cristãos, reconhecemos que devemos estar sempre preparados para o segundo advento de Cristo, uma vez que não sabemos nem o dia e nem a hora em que Ele virá para nos julgar… O próprio Jesus, aliás, já alertara: “Orai e vigiai…”. Portanto, estando sempre “rigorosamente em dia” com as nossas obrigações como cristãos, ficamos apenas fazendo eco ao penúltimo versículo da Bíblia – que, por sinal, pertence ao Apocalipse de São João (este sim divinamente inspirado e de revelação pública e geral): “Vem, Senhor Jesus!” (Ap 22,20).

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