– “Existem testemunhos não-cristãos da existência de Jesus?” (Célia – Rio de Janeiro-RJ).

Sim, há nas literaturas judaica e romana certas alusões à vida de Jesus. Não são tão numerosas quanto nós hoje, conhecendo a importância do Cristianismo, poderíamos esperar; os homens não-cristãos das gerações contemporâneas e imediatamente subsequentes a Cristo não percebiam todo o alcance da personalidade e da obra de Jesus, humilde filho de carpinteiro, nascido num recanto de insignificante província romana, pertencente ao desprezado povo judeu. Contudo, os testemunhos não-cristãos, por muito sóbrios que sejam, obrigam a reconhecer a existência histórica de um personagem chamado Jesus ou Cristo, crucificado na Palestina sob o governo de Tibério (14-37). Examinemo-los, pois, sumariamente:

1. Testemunhos judaicos

A literatura religiosa dos judeus posteriores a Cristo é representada principalmente pelo Talmud, que vem a ser uma coleção de leis e comentários histórico-jurídicos devidos aos rabinos e aos fariseus. Transmitidos oralmente desde o início da era cristã, esses ensinamentos foram finalmente codificados nos séculos V e VI d.C., na Palestina e na Babilônia. Apresentam algumas passagens referentes a Jesus. O valor de tais testemunhos está em que, embora se oponham à Tradição cristã, não negam a existência de Cristo, mas procuram interpretá-la de maneira a ridicularizar os fundamentos da fé cristã (quem se daria ao trabalho de desfigurar uma figura lendária?). Eis um ou outro dos espécimes mais significativos dessa tradição:

1.1) O tratado Sanhedrim 43a do Talmud da Babilônia refere:

– “Na véspera de Páscoa, suspenderam a uma haste Jesus de Nazaré. Durante quarenta dias um arauto, à frente dele, clamava: ‘Merece ser lapidado porque exerceu a magia, seduziu Israel e o levou à rebelião. Quem tiver algo a dizer para o justificar, venha proferi-lo!’. Nada, porém, se encontrou que o justificasse; então suspenderam-no à haste na véspera de Páscoa”.

Este texto parece envolver contradição: Jesus fora condenado à lapidação, mas a pena aplicada foi a de pender do lenho. Talvez se possa explicar a incoerência pelo fato de que a lapidação era o castigo judaico infligido aos magos, sedutores do povo e idolatras; dizendo-se, pois, que Jesus fora condenado ao apedrejamento, procurava-se justificar a sua condenação; contudo, a crucificação de Jesus era fato demasiado arraigado na Tradição para que se pudesse dizer que morrera lapidado. Note-se, outrossim, a acusação de magia feita a Jesus: supõe que o Senhor haja realizado milagres (os milagres de que fala o Santo Evangelho); interpreta-os, porém, em sentido pejorativo, como obras diabólicas; chama a nossa atenção a semelhança entre esta interpretação e a que os fariseus proferiram, imputando a Jesus colaboração com Beelzebul, o príncipe dos demônios (cf. Marcos 3,22). Outro pormenor interessante: as narrativas evangélicas dão a entender que o processo de Jesus se realizou às pressas, já estando sua condenação preconcebida. Ora, o Talmud admite o surpreendente e inverossímil intervalo de quarenta dias entre a condenação e a execução, intervalo oferecido às testemunhas para se manifestarem; o que vem a ser uma tentativa de reabilitar os juízes de Jesus.

1.2) Em Aboda Zara 40d, Jesus é dito “Ben-Pandara” ou “Ben-Panthera” (=”filho de Pantera”). Esta expressão aramaica não parece ser senão a transposição do grego “huiòs tes parthénou” (=”filho da virgem), título com que os cristãos designavam Jesus; segundo a intenção polêmica dos talmudistas, o substantivo comum “parthénos” foi transformado em nome próprio e passou a designar o pai ilegítimo que os rabinos atribuíam a Jesus (Maria estava oficialmente casada com um varão cujo nome no Talmud é “Pappos” ou “Stada”); teríamos nesta passagem rabínica uma confirmação da antiguidade da fé no nascimento virginal do Senhor.

1.3) Jesus, na mesma coleção, é geralmente chamado “um tal” ou “Balaã” (antigo mago de Números 22-24), “louco”, “bastardo”, ou ainda por outro título mais injurioso, o que de certo modo evidencia a atitude geral dos talmudistas em relação a Cristo.

Em suma: ao considerar os dados da tradição rabínica concernentes a Jesus (os quais ainda foram ampliados no livrinho Totedoth Jeshua, dos séculos VIII/IX), os críticos modernos têm-nos como argumentos indiscutíveis da existência de Cristo; esses escritos supõem, e em certo sentido confirmam, o que dizem os Evangelhos; as interpretações, porém, que sugerem, apresentam-se demasiado tendenciosas para gozar de autoridade. Sendo assim, os próprios críticos judeus não utilizam o Talmud para escrever a vida de Jesus; haja vista, por exemplo, a obra “The Jewiah Encyclopedia”, de autores israelitas (em 12 volumes, Nova Iorque, a partir de 1904): o seu artigo “Jesus of Nazareth” (vol. 7, col. 160-178) se divide em três partes: “Jesus na História” e “Jesus na Teologia”, estudos baseados sobre documentos cristãos; e “Jesus na Tenda Judaica”, apresentação dos dados talmúdicos(!).

Fora da tradição rabínica, existe o importante historiador judeu Flávio Josefo, do séc. I d.C. Menciona duas figuras da história do Novo Testamento: João Batista, sua pregação e sua morte (Antiguidades Judaicas 18,116-119) e Tiago, “irmão de Jesus, chamado o Cristo” (Ant. 20,200). Além disto, encontra-se em Antiguidades 18,63-64, o seguinte trecho:

– “Por essa época apareceu Jesus, homem sábio, se é que há lugar para o chamarmos ‘homem’, porque ele realizou coisas maravilhosas; foi o mestre daqueles que recebem com júbilo a verdade, e arrastou muitos judeus, e igualmente muitos gregos. Esse era o Cristo. Por denúncia dos príncipes da nossa nação, Pilatos condenou-o ao suplício da cruz; mas os seus fiéis não renunciaram ao seu amor por ele, porque ao terceiro dia ele lhes apareceu ressuscitado, como o anunciaram os divinos profetas, juntamente com mil outros prodígios a seu respeito. Ainda hoje subsiste o grupo que por sua causa recebeu o nome de ‘cristãos'”.

Este testemunho, tão explícito e forte, está sujeito a dúvidas dos críticos. Autores católicos como o Pe. Lagrange, Mons. Batiffol, tem-no como interpolado por mãos cristãs na obra de Flávio Josefo; ao contrário, críticos protestantes ou liberais, como Harnack e Burkitt, defendem sua autenticidade. Muito provável é a sentença de Reuss, Renan, Reinach e outros, que afirmam tratar-se de uma passagem retocada, ou seja, originariamente escrita por Flávio José, mas no séc. II explicitada e melhorada no sentido cristão por um copista entusiasta.

A razão porque Flávio Josefo, geralmente rico em notícias, se mostra tão sóbrio nas suas referências a Jesus é, como se julga, o fato de que, por seus escritos, queria bajular os romanos e conciliar-se às suas boas graças; por isto, terá omitido os temas que poderiam melindrar os senhores do Império, temas entre os quais estava o messianismo judaico (a esperança messiânica de Israel implicava a ruína dos impérios terrestres, que deveriam ser substituídos pelo Reino do Messias).

2. Testemunhos Romanos

No segundo decênio do séc. II, três escritores romanos deixaram-nos o seu depoimento sobre Cristo e os cristãos.

No ano de 112, Plínio o Jovem, governador da Bitinia (Ásia Menor), enviava uma carta ao Imperador Trajano, na qual pedia instruções sobre o modo como proceder com relação aos cristãos: estes, que se iam difundindo cada vez mais, “estavam acostumados a se reunir em dia determinado, antes do nascer do sol, e cantar um cântico a Cristo, que eles tinham como Deus” (=”quod essent soliti stato die ante lucem convenire carmenque Christo quasi Deo dicere”) (Epístolas 10,96).

O mais importante é o testemunho de Tácito, que, escrevendo os seus Anais por volta de 116, noticiava, a propósito do incêndio de Roma ocorrido cm 64:

– “Um boato acabrunhador atribuía à Nero a ordem de pôr fogo à cidade. Então, para cortar o mal pela raiz, Nero imaginou culpados e entregou às torturas mais horríveis esses homens detestados pelas suas façanhas, que o povo apelidava ‘cristãos’. Este nome vem-lhes de Cristo, que, sob o reinado de Tibério, foi condenado ao suplício pelo Procurador Pôncio Pilatos. Esta seita perniciosa, reprimida a principio, expandiu-se de novo, não somente na Judeia, onde tinha tido a sua origem, mas na própria cidade de Roma…” (Anais 15,44).

Estas linhas atestam com clareza a existência e o quadro histórico da obra de Jesus; executado na Judéia, sob Tibério (14-37) por ordem de Pôncio Pilotos (26-36; cf. Lucas 3,1), foi chamado ‘Cristo’ ou ‘Messias’ pelos seus discípulos, que até o início do séc. II persistiam fervorosos. Julgam os críticos que Tácito colheu as notícias acima não em fonte cristã (dado o tom hostil da narrativa), nem em fonte judaica (os judeus, entre outras coisas, nunca teriam designado o chefe da seita como ‘Cristo’, vocábulo grego equivalente ao hebraico ‘Messias’), mas em fonte pagã (o que é particularmente importante).

O terceiro depoimento, datado de cerca de 120, é o de Suetônio, o qual confirma que sob Nero foram “sujeitos a suplício os cristãos, estirpe de homens de uma superstição nova e maléfica” (Nero 10). Referindo-se ao reinado de Cláudio (41-54), diz outrossim que este “expulsou de Roma os judeus, os quais, sob o impulso de Cresto, se haviam tornado causa frequente de tumultos” (=”ludacos impulsore Chresto assidue tumultuantes expulit”) (Cláudio 25). A expulsão é confirmada pelos Atos dos Apóstolos 18,2, devendo-se ter dado por volta de 49/50. Não resta dúvida de que “Chrestós” é forma equivalente a “Christós” (“e” e “i” se permutavam facilmente na linguagem grega vulgar), de mais a mais que os cristãos ainda no séc. III eram chamados “chrestianoi” (cf. Tertuliano, Apologeticum 3; Ad Nationes 13; Latâncio, Div. Inst. 4,7). Suetônio, escrevendo setenta anos após os acontecimentos, estava insuficientemente informado; julgava que Cristo se achava presente em Roma, instigando as desordens.

Descendo pela história da literatura pagã, o estudioso encontra outros testemunhos a respeito de Cristo e dos cristãos; sendo mais tardios, interessam-nos menos.

Em conclusão, verifica-se não serem muitas as noticias que a literatura romana fornece a propósito de Jesus. A sobriedade compreende-se, dado que o Cristianismo, aos olhos dos pagãos, não era mais do que desprezível superstição oriental; só merecia atenção na medida em que se tornava ocasião de perturbações políticas ou sociais.

  • Fonte: Revista Pergunte e Responderemos nº 7:1957 – nov/1957
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