A maior parte das pessoas não tem privacidade onde mora. Os vizinhos ouvem chegar e sair, escutam o que se diz, sabem quem ronca e acompanham juntos a programação da tevê.

Na internet, então, a privacidade é perfeitamente nula. Qualquer dado que se digite, qualquer fotografia que se poste torna-se, na prática, algo de domínio público. A cópia digital não tem nenhuma perda de qualidade, o que faz com que seja possível copiar indefinidamente qualquer dado. Caiu na rede, não sai mais.

Como a maioria dos usuários de internet cria perfis em redes sociais (Facebook, Orkut etc.), a falta de privacidade cresce exponencialmente. Ainda que não se pense muito no assunto, as redes sociais não são a pracinha da cidade. Vai-se a elas para interagir com os amigos, mas isso é apenas a isca, a minhoca no anzol. Redes sociais são um negócio, feito para ganhar dinheiro vendendo uma mercadoria. A mercadoria é o usuário, e os fregueses são os anunciantes. Todo e qualquer dado postado em uma rede social ou provedor de e-mail gratuito (Gmail, Hotmail etc.) é filtrado para encontrar palavras-chave que indiquem os interesses daquela pessoa, para que seja possível mostrar a ela anúncios que tenham uma probabilidade maior de lhe interessar.

A persona que se cria numa rede social ou num e-mail gratuito é o alvo do anunciante. Nada disso, na verdade, é gratuito; estamos pagando com nossos dados, com informações sobre nós mesmos, o serviço que nos é prestado.

Não há nada moralmente errado nisso; é uma troca como qualquer outra, e não é nada mau que nos sejam mostrados anúncios mais interessantes. O que não se deve ter, contudo, é qualquer expectativa de privacidade quando se faz uma troca destas. Seria como esperar que a carteira continuasse cheia depois de uma incursão ao mercado.

A coisa só começa a complicar quando estes dados são vendidos ou cedidos ao governo. É bem verdade que todos assinam um enorme contrato de cessão de direitos sobre seus dados pessoais ao inscrever-se num desses serviços “gratuitos” na rede. É, no entanto, ainda mais verdadeiro que ninguém lê o tal contrato. Soube, outro dia, que um sujeito resolveu ler o contrato de um programa e descobriu que o vendedor oferecia US$ 1 mil ao comprador. Introduzir tal piadinha no contrato mostra o quanto o vendedor tinha certeza de que ninguém o leria.

Esta ficção contratual, no entanto, vigora. Os dados que introduzimos em e-mails e redes sociais não mais nos pertencem. Vendemos a nossa privacidade, e depois de nada adianta reclamar.

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