Eu moro na roça. Por isso, acabo vendo algumas realidades que passam despercebidas quando se lê o noticiário sobre a legislação florestal. Uma delas é que a briga é de cachorro grande, e quem sofre é o meio ambiente e o pequeno sitiante.

De um lado do ringue de pesos-pesados, o agronegócio. Eficientíssimo, com plantações gigantescas, campos enormes, mecanizados. Gera riqueza e possibilita alimentar o enorme porcentual da população brasileira que mora em cidades, sem plantar uma folhinha de hortelã que seja, sobrando ainda, e muito, para exportar.

Do outro, o mesmo pessoal que vive nas cidades e come o que é plantado industrialmente pelo agronegócio. O pessoal da cidade parece não entender que a comida deles vem da roça, e em grande parte apoia entusiasticamente ambientalistas radicais, que parecem, por sua vez, querer que se tenha de um lado a cidade, suja e cinzenta, com todas as pessoas trancadas lá, e do outro uma floresta virgem em que seres humanos não podem pisar.

No meio da briga, o pequeno proprietário rural, o pequeno agricultor, é quem mais sofre. A lei permite que se plante eucalipto industrialmente, secando as nascentes e virtualmente eliminando ecossistemas inteiros, mas não permite que se plante uma roça de feijão, que se use a água de um córrego para irrigar uma pe­­quena lavoura.

O grande plantador obtém – pagando caro – as permissões necessárias para alimentar as cidades com suas plantações, mas o pequeno se vê cerceado no seu direito de usar a sua própria propriedade para subsistir. Só lhe sobra, neste modelo desordenado de civilização, ir para a cidade comer ovos esbranquiçados, sojas transgênicas e maçãs infladas e sem gosto, pagos com algum trabalho menos dignificante que plantar em sua própria terra.

Ora, é o pequeno sitiante quem tem mais interesse na preservação do meio ambiente: é ele que precisa de água corrente e limpa, é ele que precisa de terra fértil em que possa plantar sem gastar uma pequena fortuna em insumos. E é ele quem é esquecido nesta briga de cachorro grande.

É utópico esperar que isso venha a ocorrer na nossa sociedade movida pelo lucro, mas um caminho são para o cuidado do meio ambiente do Brasil deveria forçosamente priorizar o pequeno agricultor e a fixação do homem na terra, não a criação de reservas desumanas ao lado de monoculturas maciças, em torno de cidades cinzentas e poluídas. O que falta, como sempre, é sensatez.

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