(Extraído parcialmente do áudio “When Did the Old Testament End?”, do “Councel of Trent Podcast”, uma produção de Catholic Answers)

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Allen Parr:
Outra razão pela qual os protestantes rejeitam os apócrifos como inspirados por Deus é porque os próprios judeus rejeitaram os apócrifos e não consideraram esses livros como parte do seu cânon ou Escritura do Antigo Testamento. Uma citação muito útil é a de um homem chamado Josefo…

Trent Horn:
Bom, primeiro, antes de continuarmos com Josefo, vou apenas dizer isto: alguns judeus rejeitaram os livros deuterocanônicos das Escrituras; alguns judeus rejeitaram alguns livros protocanônicos das Escrituras; e alguns judeus aceitaram os livros deuterocanônicos das Escrituras. Alguns! No tempo de Jesus, é mais apropriado falar de judaísmos [no plural] do que de judaísmo [no singular]. Havia diferenças marcantes entre diferentes escolas de pensamento judaicas e até mesmo dentro de escolas de pensamento judaicas específicas, pois entre os fariseus havia disputas entre os seguidores de Shammai e os de Hillel, dois rabinos diferentes. Mas vamos pular isto e ouvir o que ele fala sobre Josefo.

Allen Parr:
Uma citação muito útil é a de um homem chamado Josefo, que era um historiador judeu e escreveu por volta do ano 100 d.C. Ele afirmou claramente que havia certos livros que os judeus aceitavam e acreditavam como parte do cânon das Escrituras do Antigo Testamento. Observe o que ele diz aqui: “Pois não temos uma infinidade de livros entre nós, que discordam e se contradizem, como os gregos”. Então ele está dizendo aqui: “Ei! Não temos um monte de livros que consideramos inspirados por Deus, mas apenas 22 livros”.

Trent Horn:
Tudo bem. Essa passagem que Allen leu é de [Flávio] Josefo, o historiador judeu, que viveu por volta do final do século I d.C.. Ele escreveu uma história dos judeus chamada “Antiguidades”, que traz a história da guerra judaica. Ele também escreveu uma obra chamada “Contra Apion”, que é uma espécie de peça de retórica e propaganda; é uma defesa apologética do Judaísmo contra a ideologia e mitologia pagãs. Ele escreve para Apion, que é um escritor egípcio, com o objetivo de mostrar que o Judaísmo é superior a outras religiões e sistemas de crenças não-judaicos. O que Josefo fez e o que estudiosos modernos reconhecem é que ele embeleza, exagera e pega algumas coisas e tenta torná-las universais para fazer com que o Judaísmo pareça ser a melhor coisa do mundo.

Mas como sabemos que ele faz isso? Bem, primeiramente, tentando dizer que os judeus nunca discordaram sobre nenhum dos livros das Escrituras: que temos apenas 22 livros e todos nós concordamos com isso. Bom, mas esse não era o caso! Havia os samaritanos, que cultuavam no monte Gerizim, e os saduceus: estes acreditavam [apenas] no Pentateuco. [É verdade que] os samaritanos podem ter acreditado em alguns dos Profetas, mas parece que os saduceus, os membros da classe sacerdotal, acreditavam apenas nos cinco primeiros livros, no Pentateuco. Havia os fariseus, cujo cânon era semelhante ao cânon protestante do Antigo Testamento, mas que é possíver ter sido diferente; pode, p.ex., não ter incluído o livro de Ester. Havia os essênios, os hassídicos (João Batista pode ter pertencido a eles); e o cânon deles incluía alguns dos livros deuterocanônicos já que encontramos livros deuterocanônicos entre os Manuscritos do Mar Morto. Falaremos sobre isso um pouco mais abaixo.

Mas quando você lê Josefo neste trecho, onde ele diz que “não temos uma infinidade de livros”, que temos “apenas 22 livros”, o que ele continua dizendo mostra o teor de embelezamento que ele está fazendo. P.ex., ele continua: “Durante tantas épocas que já se passaram, ninguém foi tão ousado para acrescentar algo a eles – os Livros Sagrados judaicos -, tirar algo deles ou fazer qualquer alteração neles”. Mas isto não é verdade. Havia vários manuscritos judeus: havia a Septuaginta (a tradução grega das Escrituras Hebraicas) – uma tradição manuscrita que gerou diversas Septuagintas; havia diferentes tradições, hebraica e aramaica, entre os manuscritos – constatamos isso nos manuscritos do Mar Morto. Portanto, havia sim outras tradições manuscritas em que as pessoas adicionavam ou subtraíam textos. Então, como diz certo estudioso (acho que o nome dele é Campbell) que escreveu um estudo sobre Josefo e o cânon, neste momento a retórica de Josefo ultrapassava a realidade.

Josefo continua: “Mas tornou-se natural para todos os judeus, imediatamente e a partir do nascimento deles, estimar esses livros como doutrinas divinas e a persistir nelas; e, se for o caso, de bom grado morrer por elas”. (…) Obviamente, é um exagero dizer que esses livros eram conhecidos por todos os judeus desde o nascimento e que todos estavam dispostos a morrer por eles. Isto também, certamente, não era o caso.

Continuemos…

Allen Parr:
Agora você pode estar se perguntando: “Espere um segundo! Por que os judeus aceitaram apenas 22 livros e nós temos 39 no nosso Antigo Testamento?” Bom, sem entrar em muitos detalhes, essencialmente, os judeus agruparam os seus livros de uma maneira bem diferente do que temos hoje na Bíblia protestante. Em outras palavras, dou um exemplo: os Doze Profetas Menores, nós consideramos cada um deles como um livro diferente, enquanto que os judeus os agrupam todos em um único livro chamado “Os Doze”. Além disso, temos Samuel dividido em dois livros diferentes: 1Samuel e 2Samuel; mas os judeus os consideram como um único livro, assim como consideram 1Reis e 2Reis como um único livro; Esdras e Neemias como um único livro; Rute e Juízes como um único livro; e ainda 1Crônicas e 2Crônicas como um único livro. Então, quando você conta tudo dessa forma, essencialmente eles acreditam em apenas 22 livros.

Trent Horn:
Isso não é totalmente verdade. Alguns judeus acreditavam em 24 livros, dependendo da forma como os contava. E alguns judeus acreditavam em um cânon bem maior. O livro apócrifo de Esdras documenta que alguns judeus acreditavam que o seu cânon consistia de 94 livros! Você também encontra outros judeus numerando 70, sendo 70 um número simbólico. Muitos números têm valor simbólico para eles: empregar 22 [livros], p.ex., é uma [clara] referência ao seu alfabeto hebraico. Com efeito, tomar o número de letras do alfabeto hebraico e referenciá-las ao número de livros no cânon era o que Josefo provavelmente estava fazendo aqui; e, naquela época, outros judeus o faziam.

Mas o principal argumento aqui é, mais uma vez, que [tal afirmação] não era uniforme. Vimos aqui que os judeus apresentavam números diferentes no cânon: os saduceus, os samaritanos, os essênios, os diferentes grupos de fariseus discordavam quanto o cânon porque este não se encontrava fixado naquele momento. As pessoas não acreditavam que a profecia havia cessado e que o Antigo Testamento estava encerrado. Eles não tinham o que chamamos de “Antigo Testamento”; eles não acreditavam que toda a Bíblia já tinha sido colocada por escrito porque o Messias ainda não havia chegado; [e acreditavam que] ainda havia profetas. Veremos isso no próximo argumento feito por Allen:

Allen Parr:
Josefo diz: “Mas apenas 22 livros, que contêm os registros de todos os tempos passados, que justamente se acredita que sejam…” – o quê? Divino, certo? “E destes, cinco pertencem a Moisés, que contém as suas leis e as tradições da origem da humanidade até a sua morte”. Esse intervalo de tempo foi pequeno, de 3000 anos. Mas quanto ao tempo desde a morte de Moisés – preste atenção agora – até o reinado de Artaxerxes, rei da Pérsia, que reinou após Xerxes: “os Profetas que vieram depois de Moisés anotaram o que foi feito em seus tempos em 13 livros”. Portanto, observe o prazo que Josefo está dizendo aqui, em que se estende o Antigo Testamento. Dos tempos de Moisés até Artaxerxes – que como protestantes acreditamos – é onde o Antigo Testamento realmente termina. Mas vamos continuar.

Trent Horn:
O problema com esse argumento é que o reinado de Artaxerxes da Pérsia terminou por volta de 424 a.C.; digamos então, cerca de 400 a.C. Por isso, muitos protestantes afirmarão que de 400 a.C. até o nascimento de Cristo não houve revelação divina. Deus teria ficado em silêncio por 400 anos. Mas o problema aqui é que muitos estudiosos protestantes conservadores, evangélicos, afirmarão que havia vários livros do Antigo Testamento que começaram a ser escritos após esse período ou tiveram grandes porções adicionadas a eles, de modo que os editores os finalizaram e chegaram a um ponto final em algum momento após o reinado de Artaxerxes. Logo, se o Antigo Testamento terminou com Artaxerxes da Pérsia, em 424 a.C., quando seu reinado acabou, o que deveríamos fazer com livros como Eclesiastes, Crônicas, Esdras, Neemias e Daniel, já que os próprios estudiosos protestantes conservadores dirão que esses livros foram escritos depois dessa época ou que partes importantes foram adicionadas a eles depois desse tempo? Como veremos, a revelação divina não cessou após esse momento; isso é uma leitura errada do que Josefo está dizendo.

Allen Parr:
“Os quatro livros restantes contêm hinos a Deus e preceitos para a conduta da vida humana”. Pois bem, esta declaração é super importante para entendermos. Assim, se você não tirar mais nada desta seção, preste muita atenção ao que estou me preparando para compartilhar com você: “É verdade que a nossa História foi escrita desde Artaxerxes de uma maneira muito particular, mas não foi estimada com a mesma autoridade que a anterior pelos nossos antepassados”. O que Josefo está tentando dizer? Ele está dizendo, sim, de outros livros históricos; livros históricos, não livros que tenham natureza divina. Ele diz: “Sim, existem outros livros históricos que foram escritos desde a época de Artaxerxes, mas eles não são considerados da mesma autoridade ou natureza divina que esses outros 22 livros”. E por que ele diz isso? Ele mesmo o diz: “porque não houve uma sucessão exata de profetas desde então”. Em outras palavras, Josefo reconhece que Malaquias foi o último profeta inspirado por Deus e não houve outras vozes proféticas entre os 400 anos em que o Antigo Testamento terminou e quando Jesus Cristo nasceu.

Trent Horn:
Na verdade, não é isso o que Josefo diz. Josefo acredita que a profecia ocorreu muito depois, antes e mesmo após o tempo de Jesus; ou seja, mesmo depois de Artaxerxes teria havido profecia. O que ele está falando aqui é que não havia uma linha exata de sucessão dos profetas a ser historicamente registrada; ele não diz que o dom de profecia cessou como um todo entre o povo. Podemos saber disso consultando os seus escritos, bem como os escritos do Novo Testamento. (…)

Então, quando você lê Josefo, constata que ele fala de outros profetas depois da época de Artaxerxes: ele fala de João Hircano; Manamo; de Jesus Ben Ananias (ou Jesus, filho de Ananias), que profetizou a destruição do templo cerca de 30 anos após a crucificação de Jesus de Nazaré. Mesmo antes do nascimento de Cristo, mas depois de Artaxerxes, durante o período intertestamentário, Josefo afirma que João Hircano era um profeta; que Manamo era um profeta.

E temos também evidências de que as pessoas acreditavam que a profecia ainda era possível. Elas não acreditavam que Deus tinha ficado 400 anos em silêncio simplesmente porque ainda estavam aguardando o Messias. Elas esperavam a revelação de Deus. Ninguém lhes havia dito que a profecia tinha se encerrado ou que não haveria mais profetas, porque Lucas 2,36 afirma que Ana era uma profetisa. E Jesus afirma às pessoas que João Batista era um profeta. E o mais importante: vemos várias vezes que as pessoas pensavam que Jesus era um profeta.

Me vem à mente, porém, João 9: o homem que nasceu cego. (…) Eles lhe perguntaram: “Este homem (Jesus) curou a sua cegueira. Quem é ele?” E no vesículo 17, o agora ex-cego diz: “Ele é um profeta”. Por que ele diria isso? Observe que ninguém lhe retruca: “Ei, você não sabe que não há profetas há 400 anos?” Não! O povo acreditava que poderia haver profetas. E se poderia haver profetas, isso significa que poderia haver revelação divina!

E é por causa disso, que os judeus discordavam sobre o cânon. Com efeito, Josefo pode estar articulando um cânon que era popular entre certos rabinos no final do século I d.C., mas que não era uniforme porque havia judeus que discordavam dos rabinos sobre a natureza desse cânon, incluindo aí os livros deuterocanônicos das Escrituras. O rabino Ben Akiva, p.ex., que viveu no final do século I e morreu próximo da Segunda Revolta Judaica (chamada “a revolta de Bar Kokhba”), afirmava que “os evangelhos cristãos e os livros heréticos não mancham as mãos”. “Não manchar as mãos” significa que quando alguém pega/segura no templo a palavra inspirada de Deus, esta lhes “mancha” as mãos. Não é que isso torna tal pessoa impura, mas é um reconhecimento de que qualquer pessoa é impura em relação a esses livros divinos. Por isso tal pessoa tinha que se purificar [antes]. Mas ele diz aqui que os Evangelhos cristãos NÃO são Palavra de Deus, por isso não mancham as mãos. E tal como os Evangelhos cristãos, ele diz o mesmo acerca dos livros de Ben Sira (Sirácida ou Eclesiástico) e todos os outros livros deuterocanônicos: não mancham as mãos.

Eis então o que disseram os rabinos no final do século I d.C., início do segundo século II d.C.: eles rejeitaram os livros deuterocanônicos das Escrituras. E daí? Eles também rejeitaram os Evangelhos e os outros escritos do Novo Testamento. Então, se não devemos seguir o conselho deles quanto aos escritos do Novo Testamento, por que deveríamos seguí-los quanto aos livros deuterocanônicos, já que muitos outros judeus também discordavam deles? E foi exatamente por isso que o rabino Akiva precisou tratar dessa questão em primeiro lugar e tentar colocar ordem.

Quando olhamos para estudiosos protestantes, encontramos um estudioso batista chamado Lee Martin McDonald, que escreveu um grande livro intitulado “The Biblical Canon” (“O Cânon Bíblico”). Ele afirma que a tradição farisaica é na verdade uma tradição babilônica do cânon que os judeus têm em sua Bíblia hoje. Mas este não era o cânon das Escrituras durante o tempo de Jesus. McDonald diz que essa tradição, que não inclui os livros deuterocanônicos, data de meados do século II d.C., mas não há indicação de que tenha sido universalmente reconhecida pelos judeus da época. O Antigo Testamento protestante – e, recorde-se, McDonald é protestante – reflete um “sabor babilônico” que não era atual ou popular na terra de Israel do tempo de Jesus. Com efeito, alguns judeus rejeitaram os livros deuterocanônicos? Sim! Mas alguns judeus também rejeitaram o Novo Testamento! Essa era a crença comum no tempo de Jesus e dos Apóstolos? Não! Jesus e os Apóstolos citaram a Septuaginta, a tradução grega das Escrituras hebraicas, que continha os livros deuterocanônicos das Escrituras.

Allen Parr:
Embora esses livros apócrifos tenham sido escritos em algum lugar antes do nascimento e da vida de Jesus Cristo, os judeus durante esse tempo rejeitaram esses livros como parte do cânon do Antigo Testamento. Agora, por que isso é importante? É importante porque o argumento vai e volta e os católicos dizem que os protestantes removeram certos livros da Bíblia.

Trent Horn:
Bom, eles certamente rejeitaram. E, como eu disse, havia judeus que discordavam sobre o cânon no tempo de Jesus porque este não estava fechado, não estava estabelecido. E houve judeus durante o tempo de Jesus que aceitavam esses livros deuterocanônicos, pelo menos alguns deles. Um exemplo disso seriam [os judeus] do Mar Morto. Eu realmente estive aí; estive em Israel duas vezes e amo essa área que passa pelo Mar Morto (…); adoro ir às cavernas de Qumran, para ver onde os Manuscritos do Mar Morto foram encontrados.

Esses pergaminhos foram escritos entre os anos 400 a.C. e 100 d.C. Eles nos dizem muito sobre o judaísmo da época de Jesus. Eles foram encontrados aqui, nessas cavernas. Pastores jogaram pedras e quebraram um vaso que continha esses pergaminhos. É uma história notável sobre a origem dos Manuscritos do Mar Morto. De fato, havia os livros que faziam parte do cânon protestante do Antigo Testamento; mas também, em estilo de pergaminho especial, reservado para as Escrituras Sagradas, havia livros como Eclesiástico, Tobias e Baruc. Com efeito, havia judeus – os essênios -, aos quais João Batista poderia pertencer, que aceitavam esses livros como Escrituras canônicas, como Palavra inspirada de Deus. Logo, não havia um cânon uniforme como Josefo diz; pelo contrário, judeus semelhantes a João Batista e Jesus aceitavam também esses livros.

Allen Parr:
Os protestantes dirão: “O que você sabe? Você pode argumentar que esses livros nunca deveriam ter sido colocados na Bíblia: em primeiro lugar, porque os judeus nunca receberam ou acreditaram que esses livros tinham o mesmo nível divino e autoritário que esses 39 livros que possuímos no Antigo Testamento (ou, se você é judeu, 22 livros)”.

Trent Horn:
Não, mas alguns judeus. Os judeus rabínicos que subiram ao poder após a Segunda Revolta Judaica rejeitaram esses livros juntamente com os Evangelhos do Novo Testamento; mas nem todos os judeus o fizeram. Ainda hoje há judeus – os judeus etíopes – que se apegam à inspiração desses e de outros livros. Então, mais uma vez: nós cristãos não somos obrigados a seguir as decisões canônicas desse [grupo de] judeus do século II. Eles excluíram o Novo Testamento. Por que deveríamos excluir livros deuterocanônicos que cristãos e [uma boa parte dos] judeus aceitavam no tempo de Jesus e dos Apóstolos, e que também eram extensivamente citados pelos Padres da Igreja nos séculos seguintes?

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