Como expus no outro artigo, a Igreja Católica, ao gozar da liberdade conquistada através da Revolução Americana, por meio dos Pais Fundadores, conheceu um período de grande crescimento, tanto pelo aumento do número de fiéis como pela estruturação, com escolas, universidades, hospitais, que surgiram com o alvorecer dos Estados Unidos da América. Vale lembrar que os Padres católicos também foram beneficiados com o comprometimento do Estado em promover a catequização dos índios, levando a fé cristã, a tradição e a língua inglesa, proposta essa oriunda de Thomas Jefferson, que mesmo não sendo fiel praticante defendia a manutenção de uma sociedade tradicionalmente cristã.

Bento XVI, na sua homília no “Yankee Stadium” de Nova Iorque, lembrou que “Nesta terra de liberdade religiosa, os católicos encontraram não só a liberdade para praticar sua fé, mas também para participar plenamente na vida civil, levando consigo suas convicções morais para a esfera pública, cooperando com seus vizinhos a forjar uma vibrante sociedade democrática.” De fato, na recém fundada federação americana, se instituiu uma realidade muito particular, podemos dizer que foi na terra estadunidense onde a Igreja Católica vivenciou maior liberdade sob um país majoritariamente protestante. Dessa forma, o clero americano pôde acolher com maior zelo os imigrantes de fé romana, principalmente vindos da Irlanda, num primeiro momento, e depois da Itália, Polônia e Alemanha, assim como sedimentar uma forte presença no país, seja através de instituições ou por meio do crescente número de vocações.

Essa liberdade propiciou não só a difusão do catolicismo e seu fortalecimento, tornando-se a maior denominação cristã dos EUA, mas também a criação de uma sociedade onde o cristianismo passou a ser fator determinante nas decisões e no espírito. Falando ao Presidente dos EUA o Papa cementou que “Desde o amanhecer da República, a busca da América pela liberdade foi guiada pela convicção de que os princípios que governam a vida política e social estão intimamente ligados à ordem moral baseada no domínio de Deus, o Criador. As marcas dos documentos de fundação desta nação foram feitas sobre esta convicção, quando proclamaram o «self-evident truth», segundo o qual todo homem é criado de forma igual e com direitos inalienáveis, fundamentados nas leis da natureza e do Deus da natureza.”  A liberdade, tão ardorosamente defendida pelos Pais Fundadores, não foi a ratificadora do relativismo, do subjetivismo moral. Vale frisar que esse princípio não entra no mérito teológico, apenas estimula um sadio ambiente no qual se insere uma diversidade de crenças que goza de toda a autonomia para defender aquilo que considera verdade. A liberdade, como defendida pelos Founding Fathers, não renega o legado tradicional, os ensinamentos cristãos oriundos dos primeiros habitantes da América Anglo-Saxônica. O Papa, enquanto Cardeal Ratzinger, disse que os males que atacam os EUA não são os mesmos que assolam a Europa; “Nos Estados Unidos, a secularização está avançando num passo acelerado, e a confluência de várias culturas diferentes rompe o consenso cristão básico. No entanto, há um sentimento mais claro e mais implícito na América do que na Europa, de modo que a fundamentação religiosa e moral, legada pelo cristianismo, é maior do que qualquer denominação particular. A Europa, diversamente da América, está num ciclo de colisão com sua própria história. Com freqüência ela proclama uma negação quase visceral de qualquer possível dimensão pública para valores cristãos”

O então Cardeal Ratzinger nunca escondeu suas previsões a respeito do alto grau de importância que a comunidade americana passaria a ter dentro do catolicismo. O ex-Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé via na nação americana uma das bases fundamentais da Igreja Católica. Hoje já é perceptível o acentuado comprometimento dos leigos católicos, assim como a constante reforma da mentalidade do clero estadunidense que, desde a década de 70, se viu invadido por uma onda de relativismo. O resgate da Tradição fomentou o reflorescimento dos seminários, das Congregações, das Ordens, até da vida paroquial. Da própria espontaneidade da comunidade surgem iniciativas grandiosas e pertinentes, como novas Universidades, Escolas e Hospitais, fundados por católicos conscientes e obedientes.

Essa incondicional entrega dos católicos leigos, que foram peças chaves na manutenção da ortodoxia no momento mais crítico da Igreja americana, é reflexo do espírito cristão arraigado na formação mais primitiva do homem americano. O Presidente George W. Bush, em saudação a Bento XVI, disse que “Quando (…)  nossos Fundadores declararam a independência de nossa nação, eles lançaram sua causa no apelo às “leis da natureza, e do Deus da natureza”. Acreditamos na liberdade religiosa. Acreditamos também que um amor pela liberdade e uma lei moral comum são escritas em cada coração humano, e que estes constituem a firme fundação na qual cada sociedade livre bem sucedida deve ser construída.”  Se faz pertinente lembrar que esse ethos cristão nasceu de um comprometimento pessoal de cada americano, ou como nas palavras de Ratzinger “O reconhecimento desta orientação religiosa e moral básica, que foi além das denominações singulares e definiu a sociedade a partir de dentro, reforçou o corpo da lei. Ele definiu os limites da paz individual a partir de dentro, criando, desta forma, as condições para uma paz comum compartilhada”.

O catolicismo floresce nos EUA; Legionários de Cristo, Opus Dei, Fraternidade de São Pedro, Cônegos Regulares de São João Câncio, TFP. Inclusive para o falecido fundador dos Legionários de Cristo, o mexicano Pe. Marcial Maciel, LC, o futuro da Igreja no mundo se encontra, com muita força, no profundo desenvolvimento de elites intelectuais nos Estados Unidos. Surge então o “New Catholicism” encravado no “Bible Belt”, nos estados tradicionalmente protestantes e/ou nas regiões WASP (White, Anglo-Saxon, Protestant), principalmente devido ao resgate das Tradições, da piedade e fidelidade. Ente os vários exemplos é importante citar a “Ave Maria University”, fundada por Thomas Stephen, o dono da Domino’s Pizza, uma Universidade tradicionalmente católica. Outro bom exemplo é a EWTN, a maior rede católica de notícias do mundo, fundada por uma freira clarissa do estado do Alabama. Esse alvorecer católico é movimentado por sinceras conversões ou pela redescoberta do legado da Igreja de 2000 anos, engraçado que boa parte dos responsáveis são jovens que não se alinham ao relativismo e a onda modernista que assolou os ambientes religiosos, acadêmicos, políticos, nas décadas passadas.

Esses jovens, esses novos movimentos, estão em perfeita sintonia com as heranças dos primeiros católicos e com o legado cristão do Pais Fundadores. Ademais, vale frisar que, como disse Bento XVI aos Bispos americanos, “nos Estados Unidos, ao contrário de muitos países europeus, a mentalidade secular não foi colocada como intrinsecamente oposta à religião. Dentro do contexto da separação entre Igreja e Estado, a sociedade estadunidense sempre foi marcada por um respeito fundamental pela religião e de seu papel público e, se quisermos acreditar nas sondagens, o povo estadunidense é profundamente religioso. Mas não é suficiente contar com essa religiosidade tradicional e comportar-se como se tudo fosse normal, enquanto suas bases estão lentamente se corroendo. Um sério compromisso no campo da evangelização não pode prescindir de um diagnóstico profundo dos desafios reais que o Evangelho encontradiante da cultura contemporânea.”  De fato, esse é o maior objetivo da comunidade católica americana. Ela precisa reacender a chama que ainda existe nas pilastras fundamentais da nação. Diferentemente da Europa, onde o seu legado cristão é corroído e destruído, os EUA ainda atestam a sua origem histórica sobre a fé, se essa relação ainda é vivida de forma sincera e incondicional, é algo a ser discutido, entretanto, o simples fato de  se veincular todo um país ao espírito cristão, mesmo com as fortes investidas do relativismo anti-cristão, é louvável e digno de admiração, além disso, essa origem deve ser reforçada através do resgate da constante adesão, muito mais que uma formalidade cultural e tradicional a essa herença tão arraigada.

Nas palavras do Papa, em discurso aos Bispos americanos; “A América é também terra de grande fé. Seu povo é bem conhecido pelo fervor religioso e é orgulhoso de pertencer a uma comunidade fiel. Tem confiança em Deus e não hesita em introduzir nos temas públicos razões morais enraizadas na fé bíblica.” Sem dúvida alguma esse espírito é conseqüência imediata da influência cristã presente na formação da nação americana. Muitas vezes pretendem fazer uma dicotomia entre esse pretenso cristianismo estadunidense e a liberdade religiosa, como se fossem realidades opostas e distintas. É claro que o cristianismo em sua mais pura tradição não comporta o relativismo religioso e moral assim como o subjetivismo teológico. Não obstante, a liberdade religiosa como defendida pelos Pais Fundadores, e também pelo Magistério católico, em nada se distancia da defesa radical da Verdade, apenas atesta a legalidade de se cultuar a Deus de maneira livre e independente, uma defesa muito sincera da consciência e da real adesão de fé, que deve ser reflexo imediato da mais pura entrega e conversão do coração. Como disse Bento XVI; “A “ditadura do relativismo”, em poucas palavras, è simplesmente uma ameaça à liberdade humana, que amadurece somente na generosidade e na fidelidade à verdade.”

Talvez a síntese dos EUA se encontre na fusão dessas duas memoráveis frases, uma de Tocqueville, autor muito admirado por Bento XVI, e outra de Patrick Henry, um dos revolucionários americanos;

Tocqueville: “Le despotisme peut gouverner sans la foi , mais pas la liberté.”

Patrick Henry: “Give me Liberty, or give me Death!”

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