Escrevo um testemunho, o testemunho de um ex-anti-americano. Isso mesmo, eu era um ferrenho opositor dos EUA, obviamente não tinha essa aversão fundamentada nos clichês da juventude brasileira, muito menos no discurso esquerdista. O alicerce do meu anti-americanismo era o tradicionalismo, principalmente de cunho espiritualista. Eu via nos Estados Unidos da América a personificação de um ideal anti-cristão, destruidor das bases fundamentais da tradicional Civilização Ocidental.

Talvez a visita do Papa Bento XVI aos EUA tenha acendido em mim uma luz vermelha; “algo não está certo!” Foi aí que começou meu interesse por um estudo mais profundo. Peguei alguns livros, comprei outros, imprimi artigos, acompanhei discussões. Como reflexo do meu esforço intelectual passei a ver que o ideal de liberdade, defendido pelos Pais Fundadores, não se distanciava em muita coisa dos princípios católicos de liberdade da consciência como exposto por Leão XIII e, posteriormente, pelo Concílio Vaticano II. A liberdade de consciência, juntamente com a liberdade religiosa, não servem como a porta de entrada do relativismo e indiferentismo. João Paulo II, em mensagem para a celebração do dia mundial da paz, lembrou que “A verdade só se impõe por si própria. Negar a uma pessoa a plena liberdade de consciência, e especialmente a liberdade de procurar a verdade, ou tentar impor-lhe um modo particular de compreender a verdade, vai contra os seus direitos mais profundosFalando sobre a liberdade de consciência, S.S Leão XIII, disse; “Mas pode-se tomar no sentido de que o homem, no Estado tem o direito de seguir, segundo a consciência do seu dever, a vontade de Deus, e de cumprir os seus preceitos, sem que ninguém possa impedi-lo.” (Libertas Praestantissimum). A Dignitatis Humanae, do Concílio Vaticano II, abordou, com grande maestria, afirmando, entre outras coisas, que “todos os homens devem estar livres de coação, quer por parte dos indivíduos, quer dos grupos sociais ou qualquer autoridade humana; e de tal modo que, em matéria religiosa, ninguém seja forçado a agir contra a própria consciência, nem impedido de proceder segundo a mesma, em privado e em público, só ou associado com outros, dentro dos devidos limites

De fato, a defesa inconteste dessas liberdades na nascente América foi essencial para o florescimento do catolicismo já que, como ocorria na Mãe-Pátria, a Igreja era severamente perseguida no Novo Mundo anglo-saxônico a não ser quando havia a revogação dos éditos da Coroa pelas assembléias locais que, infelizmente, eram derrubados pela Câmara dos Lordes. Isso aconteceu com maior destaque em Maryland, onde através de um documento de Carlos I foi concedida a liberdade religiosa na colônia, dessa forma muitos crentes cruzaram o oceano buscando viver livremente a fé católica apostólica romana, não obstante, esse tratado durou pouco tempo, prevaleceu até a ascensão de Guilherme de Orange, depois da Revolução Gloriosa, que além de resgatar o anticatolicismo enviou um governador com o objetivo de punir os que professavam essa fé. Os católicos americanos apoiaram as reivindicações e as lutas dos Pais Fundadores porque reconheciam que o alvorecer dos ideais de liberdade iriam fomentar o crescimento e fortalecimento da Religião, assim como a construção de uma sociedade realmente livre. Foi esse espírito que norteou os católicos das Treze Colônias a se aliarem ao movimento revolucionário. Aqui destaco Charles de Carroll, o maior latifundiário da América, incondicional defensor da liberdade colonial mesmo a preço de perder seus bens e suas terras. Charles de Carroll foi o único católico que assinou a Declaração de Independência e um dos três Pais Fundadores católicos, juntamente com Daniel Carroll e Fitzsimons. Seu primo, John Carroll, o primeiro Bispo americano, foi, ao lado de Benjamim Franklin e Samuel Chase, a pedido de Washington, ao católico Canadá, Quebec, onde acabou selando tratados com a França.

A liberdade de consciência, liberdade religiosa, dos Pais Fundadores, não serviu como a brecha na qual entrou o relativismo moral e religioso. O fato da grande maioria deles ser crente; presbiterianos, luteranos, metodistas, católicos, episcopais, uma pequena minoria deísta, e uma menor parcela anti-clerical, impedia o estabelecimento do indiferentismo. Seja a fidelidade e sinceridade na vivência do cristianismo, ou a rigorosidade na educação cristã, ambas incapacitaram a ascensão de princípios laicistas-ateus na nova nação. Bento XVI, de forma muito sagaz, lembrou que “A democracia só pode florescer, como compreenderam os pais fundadores dos Estados Unidos, quando os líderes políticos e aqueles a quem eles representam são orientados pela verdade e trazem a sabedoria nascida de firmes princípios morais às decisões que afetam a vida e o destino da nação.” As vozes mais radicais, aquelas que endossavam uma separação com o legado cristão, como Thomas Paine, foram rechaçadas. George Washignton teve muita relevância nesse processo. Enquanto Pai dos Estados Unidos da América sua atuação foi de extrema importância na defesa dos valores cristãos na construção da federação, na formação do espírito americano. Chego a dizer que se não fosse ele o grande líder da Revolução, possivelmente, não haveria um claro fermento cristão no nascimento dos EUA. Inclusive teve o cuidado de enviar uma carta aos fiéis assegurando que a Igreja Católica gozaria da total liberdade em terras americanas, ainda impediu que não se queimasse imagem do Papa na comemoração da Guy Fawkes Night. Reconhecia os tristes momentos passados pela religião romana no Novo Mundo. Ainda existe o “boato” histórico de que Washington teria se convertido ao catolicismo antes de morrer. Na noite do seu falecimento Pe. Leonard Neale, SJ, foi ao Monte Vernon, na Virgínia, batizar o General, o inserindo no seio da Igreja Católica. O que podemos afirmar é que, de fato, o Pai dos EUA era devoto de Nossa Senhora e de São João, como se comprovou ao encontrar imagens entre os seus pertences (Isso também pode ser reflexo da sua fé episcopal, anglicana, que manteve por muito tempo alguns ricos ensinamentos da Tradição.)

A liberdade religiosa nunca foi sinônimo do tanto faz doutrinário. Isso é justamente a essência do liberalismo condenado por Gregório XVI, Pio IX e Leão XIII. O cerne da liberdade religiosa não é, em hipótese alguma, o caráter salvífico e teológico das religiões, ela apenas afirma que o Estado não pode impor uma fé. É importante recordar que a liberdade religiosa não julga, a não existência da religião do Estado não atesta a relativização da Verdade, como se todas as crenças fossem igualmente verdadeiras. O que fundamenta esse princípio é a dignidade ontológica da pessoa humana, o oposto de um possível indiferentismo religioso e cultural. Ora, é justamente a certeza sobre a própria fé que fomenta a liberdade religiosa. Respeitamos a intimidade do outro porque estamos convencidos de que a nossa consciência não pode ser invadida pelos erros professados. A liberdade religiosa não tem em vista o conteúdo da religião, mas sim o direito verdadeiro que cada indivíduo tem de cultuar e adorar a Deus da forma que bem entende, sem intromissão do Estado, afinal “a fé deve ser livre homenagem da inteligência e da vontade” (Pio XII – Mystici Corporis Christi).

Washington defendia a liberdade religiosa, como, entre seus vários pronunciamentos, disse: “Todos possuem igualmente a liberdade de consciência e a proteção da cidadania. O governo dos Estados Unidos não apóia o sectarismo, nem dá assistência à perseguição, e exige somente que todos aqueles que vivam sob sua proteção, se conduzam como bons cidadãos. As crenças religiosas de um homem não o privarão da proteção das leis, nem do direito de obter e de exercer as mais altas funções públicas existentes nos Estados Unidos.” Ademais, não esquecia a importância da religião e da moral como determinantes na construção de uma sociedade sustentada em alicerces sólidos. No seu discurso de despedida à nação lembrou que “Religião e Moralidade são suportes indispensáveis”, inclusive frisou que “Em vão reivindica o tributo do Patriotismo o homem que trabalha para subverter esses grandes pilares da felicidade humana, os sustentáculos mais firmes das obrigações dos Homens e dos Cidadãos.”

Vale lembrar que John Carroll, o primeiro Bispo dos EUA e amigo íntimo de Washington, inclusive tendo sido ele o autor de uma oração na qual se pedia as bençãos de Deus ao Presidente, ao Congresso e aos Estados Unidos, oração ainda muito usada hoje em dia, foi um fervoroso defensor da liberdade religiosa. Sem dúvida é a ele que muito se deve o Artigo VI, Seção III, que declara que “no religious test shall ever be required as a qualification to any office or public trust under the United States” (“nenhum teste religioso deve jamais ser exigido como parte de seleção para qualquer cargo ou função pública nos Estados Unidos”) e também a primeira emenda que, entre outras coisas, afirma “Congress shall make no law respecting an establishment of religion, or prohibiting the free exercise thereof”. (“O Congresso não legislará no sentido de estabelecer uma religião, ou de proibir o livre exercício dos cultos.”) Essa defesa pela provisão constitucional a proteção e manutenção da liberdade religiosa provavelmente se deveu a triste lembrança dos males causados pela opressão inglesa que impedia e punia a profissão de fé católica.

Leão XII, a respeito dos EUA e de George Washington, disse aos Bispos americanos: “We highly esteem and love exceedingly the young and vigorous American nation, in which we plainly discern latent forces for the advancement alike of civilization and of Christianity… Without morality the State cannot endure – a truth which that illustrious citizen of yours, whom we have just mentioned [‘the great Washington’] with a keenness of insight worthy of his genius and statesmanship perceived and proclaimed… Thanks are due to the equity of the laws which obtain in America and customs of the well-ordered Republic. For the Church amongst you, unopposed by the Constitution and the government of your nation, fettered by no hostile legislation, protected against violence by the common laws and the impartiality of the tribunals, is free to live and act without hindrance.”

[“Nós temos alta estima e amamos excessivamente a jovem e vigorosa nação americana, na qual podemos claramente discernir forças latentes para o avanço tanto da civilização quanto do Cristianismo… Sem moralidade o Estado não se sustenta – uma verdade que aquele ilustre cidadão vosso, a quem acabamos de mencionar [‘o grande Washington’], com uma perspicácia digna de sua genialidade e de sua posição como estadista, percebeu e proclamou… Há que se agradecer à eqüidade das leis que se editam na América e aos costumes da República bem ordenada. Pois a Igreja, entre vós, sem oposição da constituição e do governo de vossa nação, sem cerceamento por parte de uma legislação hostil, protegida contra a violência pelas leis civis e pela imparcialidade dos tribunais, é livre para viver e agir sem entraves.”]

Enfim, atesto aqui minha fidelidade ao ensinado pelo Magistério da Igreja a respeito da liberdade de consciência e liberdade religiosa, o que de forma alguma corrobora o relativismo e o indiferentismo, assim como minha admiração a luta dos Pais Fundadores dos EUA que viveram para fazer triunfar a liberdade e combater a opressão.

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