Por Alessandro Lima

Este artigo pressupõe que os leitores saibam o que é o sedevacantismo. Escrevi alguns artigos confrontando as teses sedevacantistas com a realidade [1], realidade esta baseada nos princípios da eclesiologia católica e com o que ensinou São Roberto Belarmino tão aclamado pelos sedevacantistas [2].

Neste trabalho recorreremos à história da Igreja, mais precisamente à primeira metade do século XIV, nos tempos do Papa João XXII e de Guilherme de Ockham.

A Enciclopédia Católica nos relata que 

“Nos últimos anos do pontificado de João [XXII] surgiu um conflito dogmático sobre a Visão Beatífica, que foi provocado por ele mesmo… Antes de sua elevação à Santa Sé, ele havia escrito uma obra sobre esta questão, na qual afirmava que as almas dos bem-aventurados que partiram não verão a Deus até depois do Juízo Final. Depois de se tornar papa, ele promoveu o mesmo ensinamento em seus sermões. Nisso ele encontrou forte oposição, [com] muitos teólogos, que aderiram à opinião usual de que os bem-aventurados falecidos viram Deus antes da ressurreição do Corpo e do Juízo Final, até mesmo chamando seu ponto de vista de herético. Uma grande comoção foi despertada na Universidade de Paris quando o General dos Minoritas e um Dominicano tentaram divulgar ali a visão do Papa (…) Em dezembro de 1333, os teólogos de Paris, após consulta sobre a questão, decidiram a favor de a doutrina de que as almas dos bem-aventurados falecidos viram Deus imediatamente após a morte ou após sua purificação completa; ao mesmo tempo, salientaram que o papa não tinha tomado nenhuma decisão sobre esta questão, mas apenas apresentou a sua opinião pessoal, e agora pedia ao papa que confirmasse a sua decisão. […] Antes da sua morte, ele [João XXII] retirou a sua opinião anterior e declarou a sua crença de que as almas separadas dos seus corpos desfrutavam no céu da Visão Beatífica.”[3]

O Papa João XXII ensinou que depois de purificadas no Purgatório, as almas seriam colocadas “debaixo do altar” (Ap 6,9) enquanto aguardavam a Ressurreição Geral do Corpo. Afirmou que durante este tempo as almas seriam consoladas e protegidas pela humanidade de Cristo, mas não possuiriam a Visão Beatífica. Ele ensinou este erro num tratado publicado antes da sua eleição (quando ainda era Cardeal), e também o ensinou publicamente numa série de sermões que proferiu em Avinhão, França, durante o seu reinado como Papa. Como Papa, ele até tentou forçá-lo à Faculdade de Teologia de Paris, antes de finalmente retratar-se do erro em seu leito de morte.

Eis o ensinamento do Papa João XII:

“As almas dos fiéis defuntos não gozam daquela visão perfeita ou face a face de Deus, na qual, segundo Santo Agostinho ( no Salmo XC, Sermão, nº 13), consiste a plena recompensa da justiça; nem terão essa felicidade até depois do julgamento geral. Quando, e somente quando, a alma for reunida ao corpo, esta felicidade perfeita chegará ao homem – chegando ao homem inteiro composto de corpo e alma, e aperfeiçoando todo o seu ser.” [4]

Embora tivesse havido forte oposição ao ensinamento do Papa João XXII por parte de vários católicos (seriam chamados hoje de católicos “Reconhecer e Resistir” ou tradicionalistas?), o chefe dos franciscanos, Gerard Ordon, apoiou avidamente o novo ensinamento do Papa. Ordon e outros (incluindo um pregador dominicano em Paris) promoveram os erros do Papa, o que causou alvoroço na Universidade de Paris (seriam chamados hoje de “Continuístas”?). Isto resultou na oposição pública dos seus teólogos ao Papa e na solicitação de que ele (o Papa) corrigisse o seu erro.

O artigo da Enciclopédia Católica sobre João XXII, citado acima, falava da “grande comoção” que se seguiu quando certos indivíduos começaram a divulgar o erro do Papa. Como seria de esperar, naquela época havia algumas almas instáveis que foram longe demais na sua reação à crise papal. Um desses indivíduos foi o rebelde Guilherme de Ockham, que foi chamado de “o primeiro protestante” [5].

Guilherme de Ockham é comumente considerado o principal impulsionador do erro do nominalismo e defendeu um “absolutismo secular”, que negava o direito dos papas de exercer o poder temporal ou de interferir de qualquer forma nos assuntos do Império. Durante a crise doutrinária causada pelo Papa João XXII, o indisciplinado Guilherme de Ockham foi longe demais ao declarar que o Papa era um “falso Papa” que perdeu o seu cargo devido à heresia. Ele escreveu:

“Por causa dos erros e das heresias mencionadas acima e de inúmeros outros, afasto-me da obediência do falso Papa… por causa dos seus erros e heresias o mesmo pseudo-Papa é herético, privado do seu papado, e excomungado pelo próprio Direito Canónico , sem necessidade de mais sentença. […] 

Se alguém quiser chamar-me [à sua obediência] […] que tente defender as suas constituições e sermões, e mostre que concordam com as Sagradas Escrituras, ou que um Papa não pode cair na maldade da heresia, ou que demonstre por meio de santos autoridades ou razões manifestas de que quem sabe que o Papa é um herege notório é obrigado a obedecê-lo” (Tractatus de Successivis).” [6]

Isso infelizmente não soa bem familiar em nossos dias? As palavras do precursor do protestantismo, Guilherme de Ockham, não são as mesmas que tantas vezes vemos repetidas pelos sedevacantistas em relação aos papas conciliares (de João XXIII até Francisco)? Embora todo o transtorno causado pelo Papa João XXII por conta de seu ensinamento contrário à Fé Católica, ele por acaso perdeu o seu pontificado ipso facto? Sabemos muito bem que não!

Após a morte de João XXII, o seu sucessor, o Papa Bento XII, definiu infalivelmente que as almas dos fiéis defuntos, depois de purificadas no Purgatório se necessário, possuem de fato a Visão Beatífica anterior ao Juízo Final [7].

Depois de constatar a condenação formal do erro na sequência da morte de João XXII, o historiador católico Roberto de Mattei disse:

“Depois destas decisões doutrinais, a tese sustentada por João XXII deve ser considerada formalmente herética, mesmo que naquela altura o Papa sustentasse que ainda não estava definida como um dogma de fé. São Roberto Belarmino, que tratou amplamente desta questão no De Romano Pontifice, escreve que João XXII apoiou uma tese herética, com a intenção de impô-la como verdade aos fiéis, mas morreu antes de poder ter definido o dogma, sem, portanto, minar o princípio da infalibilidade pontifícia pelo seu comportamento. O ensinamento heterodoxo de João XXII foi certamente um ato de magistério ordinário relativamente à fé da Igreja, mas não infalível, pois era desprovido de caráter definidor.”[8]

Embora a definição infalível (de que as almas dos justos que partiram desfrutam da Visão Beatífica) só tenha sido emitida depois da morte de João XXII, esta verdade faz parte do Depósito da Fé, o que explica por que o ensinamento do Papa foi imediata e vigorosamente combatido por teólogos muito além dos limites de Avignon. O Papa Adriano VI chamou João XXII de “herege”[9] e, como de Mattei corretamente observa, a definição do Papa Bento XII torna oficialmente o ensinamento de João XXII “formalmente herético”.

Guilherme de Ockham do século XIV que se separou do Papa João XXII precipitou-se em seu julgamento. O Papa João XXII não deixou de ser papa porque Guilherme de Ockham o considerava um herege que tinha perdido o seu cargo. A Igreja governada pelo Papa João XXII continuou sendo a mesma sociedade visível fundada por Cristo sobre o fundamento dos Apóstolos, apesar de todos os seus problemas… Da mesma forma que é hoje a mesma sociedade visível governada pelo Papa Francisco, apesar de suas declarações e ensinamentos também trazerem transtornos ao mundo católico.

NOTAS

[1] LIMA, Alessandro. Sedevacantismo, uma ideia impossível. Site Veritatis Splendor: https://www.veritatis.com.br/sedevacantismo-uma-ideia-impossivel

LIMA, Alessandro. Sedevacantismo, uma ideia caduca. Site Veritatis Splendor: https://www.veritatis.com.br/sedevacantismo-uma-ideia-caduca/

[2] Lima, Alessandro. São Roberto Belarmino contra o sedevacantismo. Site Veritatis Splendor: https://www.veritatis.com.br/sao-roberto-belarmino-contra-o-sedevacantismo/

[3] Catholic Encyclopedia (1913), vol. VIII, pp. 432-433.

[4] As palavras de João XXII estão registradas pelo Pe. VF O’Daniel, “John XXII And The Beatific Vision”, publicado pelo The Catholic University Bulletin. vol. VIII, (Washington, DC: Universidade Católica da América, 1912), pp. 56-57, apud John Salsa and Robert Siscoe in “True or False Pope”, 2015.

[5] Catholic Encyclopedia (1913), vol. XV (William of Ockham), p. 636. Ver também BELARMINO, São Roberto. Disputas sobre a Fé Cristã: Sobre o Sumo Pontífice. Tradução Rafael Marcos Formolo. – Rio de Janeiro: Ed. CDB, 2021. Pg 739-742.

[6] Citado em The Destruction of the Christian Tradition, de Rama Coomaraswamy (Bloomington, Indiana: World Wisdom, Inc., 2006), p. 117.

[7] Bula Benedictus Deus, 29 de janeiro de 1336.

[8] De Mattei, “A Pope who Fell into Heresy, and a Church that Resisted: John XXII and the Beatific Vision,” January 28, 2015 em http://www.rorate-caeli.blogspot.com/2015/01/a-pope-who-fell-into-heresy-church-that.html.

[9] “Eu digo: se por Igreja Romana você se refere ao seu chefe ou pontífice, é inquestionável que ele pode errar mesmo em questões que dizem respeito à fé. Ele faz isso quando ensina heresia por seu próprio julgamento ou decreto. Na verdade, muitos pontífices romanos eram hereges. O último deles foi o Papa João XXII († 1334)…”. O texto é retirado da IV Sentença, Quaestio de confirm. Citado por De Bossuet (falecido em 1704) em “Oeuvres complètes”, Tomo XVI (Paris: Adrien Le Clère, imprimeur-libraire, rue; Lille: L. Lefort, imprimeur-libraire, 1841), p. 686.; Latim original também citado em “Paus Adriaan VI”, de Andreas Franciscus Chrisstoffels (Stoomdrukkerij Loman, Kirkerger e Van Kersteren, Amsterdã, 1871), p. 96. De acordo com o historiador e teólogo da Igreja Döllinger (escrevendo sob o pseudónimo “Janus”), este comentário foi feito enquanto o Papa Adriano era Professor de Teologia em Louvain, antes da sua eleição para o pontificado.

 







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