São Basílio não é teórico que pesquisa e discorre sobre a pobreza. Sua atividade ascética, sua inclinação para a vida monástica, não o impediu de se dedicar a socorrer concretamente os pobres. Para ele, a pobreza não é desígnio da Providência como ocasião para o rico ganhar méritos celestes dando esmolas e socorrendo os necessitados. Compreendeu que a pobreza é fruto da injustiça, da ganância, da avareza dos ambiciosos. Conhecia os mecanismos que tornavam ricas as pessoas de sua época: falsificação de documentos de propriedade, que possibilitava aos gananciosos expandir seus latifúndios, invadindo uma propriedade após outra; a avareza, que impedia os afortunados de repartir, de ser magnânimos: a produção agrícola ia parar sempre nas mãos de aproveitadores, que a retinham para vendê-la depois no mercado negro por preço muito mais elevado ou trocá-la pelos filhos dos pobres para fazê-los escravos (cf. n. 4). Sua conclusão é tão lúcida quanto sua análise a respeito dos ricos: “Assim são os ricos. Pois, apoderando-se primeiro do que é de todos, tudo tomam para si”. “Qual é o espoliador? Quem tira aquilo que é de cada um’,? (cf. n.5.7).

Nascido e educado como aristocrata, tinha todas as possibilidades de enriquecer, como o faziam os de sua classe social, à custa dos pobres. No entanto, movido pela fé cristã, tocado profundamente pelo Evangelho, fez concreta e realmente aquilo que no jargão eclesiástico atual se chama “opção pelos pobres”. Não só se pôs a serviço dos pobres, mas distribuiu suas posses e se identificou com eles.

Basílio profere esta Homilia ainda como sacerdote, auxiliar do bispo Eusébio de Cesaréia, a quem sucederá em 370. A ocasião que a provoca é a exasperação de uma situação que vinha se prolongando e que atingiu seu ápice depois de longa estiagem abrangendo toda a Capadócia nos anos 368-369 (cf. Epist. 27; 31). A situação é, de fato, desesperadora: “Gemidos dos povos, lágrimas sem trégua, nas casas e nas praças públicas, de todos aqueles que deploram mutuamente seus sofrimentos. (…) As lamentações reboam nas cidades, nos campos, nos caminhos, no deserto. Não há uma voz capaz de dizer os males lamentáveis que nos esmagam a todos. (…) Nossas festas são mudadas em luto; as casas de oração estão fechadas; desertos os altares onde se celebrava o culto espiritual. Mais nenhuma reunião dos cristãos; nada de escolas para ensinar a doutrina; nenhuma lição salutar, nenhum panegírico, nada de hinos cantados durante a noite; mais nada desta feliz exaltação das almas que as reuniões e a partilha dos carismas espirituais fazem nascer nos que são fiéis ao Senhor” (Epist. 234).

Como se vê, a miséria não atingia somente os camponeses. Obrigados a vender ou a abandonar suas ter- ras, os camponeses se amontoavam nas periferias das cidades. “A população urbana ampliava-se com a multidão de Lázaros -mendigos e leprozos -que, sem empregos e desabrigados, encontravam nas esmolas dos outros a única possibilidade de prolongar o número de seus dias” (P. D. Siepierski, p. 28).

O Estado nada fazia para amenizar a vida destes miseráveis. Ao contrário, numa economia baseada essencialmente na concentração de terras e numa atividade rural que se tripartia no plantio de trigo, na vinicultura
e na criação de rebanhos, só podiam sobreviver os latifundiários. Assim a aristocracia controlava o uso das terras levando os camponeses à servidão. A nova estrutura da taxação das terras, elevando enormemente os impostos, tornava inviável a pequena propriedade. Não corres-se bem o tempo impedindo uma boa colheita ou qualquer outro infortúnio, mesmo assim os camponeses, os colonos, eram obrigados a pagar os impostos. Os ricos usa- vam de sua influência para evitar o pagamento dos impostos e ainda obtinham favores do governo e da exploração das classes inferiores. Ironicamente “num período em que os camponeses foram reduzidos a comer ervas, o trigo era disponível nas cidades, quer nos celeiros do governo, quer nas mãos de particulares. Se a colheita malograsse, o cobrador de impostos e o dono da terra extraíam seus impostos e o camponês via-se obrigado a entregar sua colheita em espécie ou vendê-Ia para obter o dinheiro necessário, mesmo se lhe não restasse nada para alimentar-se e a sua família”.(1)

População espoliada, explorada pelos detentores do poder econômico e político, expropriação da terra, jugo pesadíssimo dos impostos, escassez de alimento retido nos celeiros dos ricos são os grandes temas que Basílio desenvolve nesta homilia. Escreveu mais duas homilias contra os ricos que ficaram famosas: Homilia Sobre os tempos de fome (Amós 3,8) e Sobre os ricos (Mt 19,16-26). Esta que aqui apresentamos, Sobre Lucas ou Sobre a Avareza, Lc 12,16-21, é a mais conhecida.

Notas

(1) A. H. M. Jones. The Later Roman Empire, 284-602. A Social and Administrative Survey. 2 Valso Norman: Univ. or Oklahoma Press, 1964, cito por P. D. Siepierski, p. 24.

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