Ao tratar do relacionamento dos seus discípulos com o mundo, Jesus assim se expressa: ”Não sois do mundo e minha escolha vos separou do mundo. O mundo, por isso, vos odeia” (Jo 15,19). E adiante: ”No mundo tereis tribulações, mas tende coragem: eu venci o mundo” (Idem, 16,33).

Essas e tantas outras passagens bíblicas indicam claramente haver uma linha divisória entre os que seguem os ditames de Cristo e os que obedecem aos preceitos de um mundo paganizado. Entretanto, os integrantes da sociedade civil, tão diversificada, precisam saber conviver entre si e os fiéis a Jesus devem preservar sua identidade, mesmo às custas de grandes sacrifícios.

No século III a posição dos cristãos é admiravelmente exposta na Epístola a Diogneto (no. 5,5): ”Os cristãos não se diferenciam dos outros homens, nem pela pátria, nem pela língua, nem por um gênero de vida específico (…) casam-se como toda gente e criam seus filhos, mas não rejeitam os recém-nascidos. Têm em comum a mesa, não o leito (…). Numa palavra, os cristãos são, no mundo, o que a alma é no corpo (…). O mundo, sem ter razão para isso, odeia os cristãos, precisamente porque se opõem a seus prazeres.” E ainda é dele esta passagem: ”Não matarás o embrião, por aborto”.

Essas citações bíblicas e patrísticas devem merecer, de nossa parte, uma particular reflexão. Cresce a propaganda de um modo de viver frontalmente contrário aos ensinamentos de Cristo. Surgem ardorosos defensores de falsos valores ou inversão dos mesmos. São numerosas as vozes que advogam posições claramente anticristãs. Em conseqüência, faz-se mister alertar, para não incorrer na admoestação de Isaías (56,10): ”Todas as sentinelas são cegas, nada percebem; todas elas são como cães mudos”.

A preservação da identidade católica é uma exigência fundamental, principalmente em nossa época e requer firme decisão e renúncia. Uma tentação especialmente perigosa é fazer concessões ilegítimas para tentar conservar a harmonia e a paz. Esta, na verdade, é falsa e danosa quando é obtida por condescendência em matéria que pertence ao corpo doutrinário. Caso contrário, desfiguramos a sagrada face do Salvador, pois não se trata de assunto secundário e de livre opção.

Recentemente, repetidas vezes, tem sido apresentada a questão da gravidez de adolescentes, a multiplicação das ”mães-crianças”, e os graves problemas daí decorrentes. Evidentemente, o bom senso indica que há necessidade de formação moral desde a infância, do fortalecimento do caráter, da educação que impede o domínio do instinto na conduta pessoal. No entanto, o que é apresentado como solução, é exatamente o oposto. Anunciam meios que despertam e excitam a sexualidade, favorecem a satisfação do erotismo emergente, excluindo as conseqüências indesejáveis, principalmente nessa idade. É a destruição de um comportamento que deve ser o alicerce da futura maternidade. Campanhas são promovidas, inclusive por organismos oficiais, com o ensino minucioso de como se pode usufruir do prazer, de maneira irresponsável, sem dissabores. Essas campanhas bem orquestradas – e para elas não faltam recursos financeiros – talvez possam reduzir o número de nascimentos, mas será às custas da deformação da vida juvenil, da afronta à Lei de Deus, com conseqüências negativas para a própria sociedade.

Esse raciocínio se aplica à preservação da saúde. Uma nobre causa é utilizada na difusão de métodos rotulados de ”sexo seguro”, quando, na verdade, não o é. O individuo não está totalmente ao abrigo da enfermidade e, o que é grave, tal procedimento promove o desregramento sexual, com toda as suas seqüelas na propagação das doenças que se pretende evitar.

O recente ”Lexicon sobre Termos Ambíguos e sobre a Família, a Vida e Questões Éticas”, publicado pelo Pontifício Conselho para a Família, inclui um alentado estudo sobre ”sexo seguro”. Ora, ele não é integralmente confiável, pois depende de vários fatores, como a resistência e a impermeabilidade do material utilizado, o que põe em dúvida a segurança prometida. O estudo in vitro da resistência e permeabilidade; a degradação do látex: a possibilidade de ruptura e esgarçamento ”in vivo” comprometem seu desempenho como contraceptivo e profilático. E conclui que se servir de tal proteção é usar uma ”roleta russa”, pois há sempre a possibilidade de contágio. Confiados na certeza anunciada e na facilidade oferecida, adolescentes e jovens multiplicam as relações sexuais com suas conseqüências.

Um outro exemplo, entre tantos, que merece uma reflexão à luz da coerência com a nossa crença católica, sem duvida, é a exaltação do homossexualismo. Evidentemente, nós, cristãos, devemos acolher quem nasce com um distúrbio ou outra qualquer deficiência, especialmente se acarreta dificuldades no convívio social. Nascer com tendência homossexual ou ter sofrido um desvio homossexual não significa algo ofensivo a Deus e aos homens. A lei natural e divina proíbe pessoas do mesmo sexo terem relações sexuais. O pecado está em não resistir a essa tendência, pois não falta a graça de Deus para praticar a ordem moral que Ele estabeleceu. Por outro lado, ser homossexual não é motivo de orgulho.

Esses são apenas alguns exemplos. Muitos outros induzem o discípulo de Cristo a que se cale ou ceda às pressões e abandone a trilha que a fé nos ensina.

O cristão vive num mundo hostil, contrário ao Evangelho de Jesus Cristo, mas não está sozinho. Em conseqüência, mesmo incompreendido ou hostilizado, guarda a tranqüilidade, que nasce da segurança, fruto da infinita bondade de Deus. Compreendido ou não, caminha segundo os passos do Redentor. Está certo da vitória, tranqüilo pela garantia que lhe foi assegurada: ”Tende coragem: eu venci o mundo”. E assim preserva sua identidade católica.

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