• Autor: Anônimo
  • Fonte: A Catholic Response Inc. (http://users.binary.net/polycarp)
  • Tradução: Carlos Martins Nabeto

– “E o Senhor disse a Moisés: ‘Faze uma serpente ardente e a coloca num poste; e todo aquele que for picado, quando a vir, viverá’. Então Moisés fez uma serpente de bronze” (Números 21,8-9).

* * *

Recentemente recebemos um livreto de 80 páginas intitulado “What’s Behind The New World Order?” [=”O que está por trás da Nova Ordem Mundial?”]. Baseia-se nos escritos de Ellen G. White, fundadora da Igreja Adventista do Sétimo Dia. Segundo este livreto, a Igreja Católica está por trás da “Nova Ordem Mundial”. O livreto afirma isso dizendo que a Igreja é a besta do Apocalipse (cf. Apocalipse 17). Tenta provar tal afirmação expondo as “marcas da besta”. Devido ao espaço limitado, consideraremos aqui apenas uma parte. Essa é uma acusação comum usada contra a Igreja Católica.

Segundo esse livreto, uma das “marcas da besta” é a alteração dos Mandamentos de Deus. O livreto afirma que a Igreja Católica abandonou o “2º Mandamento”, o qual proíbe “imagens de escultura”, ou seja, estátuas. Alega assim que a Igreja Católica tolera o culto [de adoração] às estátuas.

Pois bem: uma versão dos Dez Mandamentos pode ser encontrada no capítulo 5 do livro do Deuteronômio (v.tb.: Êxodo 20). A comparação de Deuteronômio 5,6-21 numa Bíblia Católica com a [mesma passagem] numa Bíblia Protestante não revela diferenças essenciais. Algumas palavras podem ser diferentes, mas isso ocorre pelo fato de serem traduções distintas. A principal diferença não está no conteúdo, mas em como os católicos e os protestantes tradicionalmente dividem e numeram os Mandamentos. Infelizmente, a Bíblia reúne os Dez Mandamentos sem indicar sua divisão ou numeração.[*]

Tradicionalmente, os católicos consideram Deuteronômio 5,6-10 como o 1º Mandamento; o versículo 11 como o 2º Mandamento; os versículos 12-15 como o 3º Mandamento e assim por diante. O versículo 21 é dividido como 9º e 10º Mandamentos, diferenciando o desejo (luxúria) de cometer adultério do desejo (ganância) de roubar. Esse esquema de divisão foi defendido por Santo Agostinho nos seus escritos sobre o Êxodo.

Tradicionalmente, os protestantes consideram Deuteronômio 5,6-7 como o 1º Mandamento; os versículos 8-10 como o 2º Mandamento; o versículo 11 como o 3º Mandamento e assim por diante. O versículo 21 não é dividido e forma [por inteiro] o 10º Mandamento.

De acordo com a Bíblia e a Tradição católica, o 1º Mandamento é:

  • “6) Eu sou o SENHOR, teu Deus, (…) 7) Não terás outros deuses diante de mim. 8) Não farás para ti uma imagem de escultura, ou qualquer semelhança de qualquer coisa que esteja acima, no céu; ou que esteja abaixo, na terra; ou que esteja na água, debaixo da terra; 9) não te curvarás ou servirás a eles; pois Eu, o Senhor teu Deus, sou Deus zeloso, que visito a iniquidade dos pais nos filhos até a terceira e quarta geração daqueles que me odeiam, 10) mas demonstro amor constante a milhares daqueles que Me amam e guardam os meus Mandamentos” (Deuteronômio 5,6-10).

O versículo 7 proíbe a adoração de outros deuses, enquanto que os versículos 8-9 proíbem a criação de imagens de escultura que poderiam ser adoradas como deuses, ou seja, ídolos. Pois bem: adorar estátuas com honra divina é uma maneira de adorar outros deuses. O versículo 7 é uma declaração geral do 1º Mandamento, enquanto que os versículos 8-9 apresentam um caso específico deste Mandamento. Os versículos 9-10 apresentam os castigos e recompensas associados a esse Mandamento.

Por combinar Deuteronômio 5,6-10 em um [único] Mandamento, a Igreja Católica é acusada de alterar os Mandamentos e encobrir o mandamento de Deus que proíbe imagens de escultura. As suspeitas se tornam ainda maiores quando obras católicas apresentam apenas a forma geral do Mandamento – Deuteronômio 5,7 – a fim de facilitar a memorização.

Com efeito, é necessário fazermos esta pergunta: “Deus proíbe a confecção de estátuas ou condena a adoração de estátuas?” Se Deus condena a adoração divina de estátuas, o esquema de divisão católico está justificado, pois essas imagens seriam “outros deuses diante” Dele. E um Mandamento separado, baseado em Deuteronômio 5,8-10 seria redundante.

Pois bem: se Deus simplesmente proíbe a confecção de imagens de escultura, então encontramos [sérios] problemas em outras partes da Bíblia. Primeiro, em Êxodo 25,18-21: Deus ordena que Moisés faça duas estátuas de anjos (querubins) para [serem colocadas] no topo da Arca da Aliança.

Depois, em Números 21,8-9, Deus ordena a Moisés que faça uma serpente de bronze, para que as pessoas que foram picadas por cobras possam olhar para ela e sejam curadas. Pois bem: é verdade que séculos depois o rei Ezequias a destruiu; no entanto, essa ação foi realizada porque o povo passou a adorá-la como um deus (cf. 2Reis 18,4). No Evangelho, Jesus se compara à serpente de bronze (cf. João 3:14).

Ainda no Antigo Testamento, o Santuário interno do Templo continha duas grandes estátuas de anjos, segundo 1Reis 6,23-28. Nos versículos seguintes, Salomão também tinha decorado as paredes do templo com imagens esculpidas de anjos, palmeiras e flores (cf. 1Reis 6,29-31).

Durante o cativeiro na Babilônia, Ezequiel teve uma visão de Deus sobre o projeto do novo Templo. De acordo com Ezequiel 41,17-25, este novo Templo continha imagens esculpidas de anjos e palmeiras.

Essas passagens na Bíblia indicam que Deus não proíbe a confecção de estátuas. Se Deus realmente condenou a criação de imagens de escultura no “2º Mandamento”, então Ele deve ter posteriormente mudado de ideia, [ainda] durante o Antigo Testamento.

A Igreja Católica durante o Concílio de Trento (1545-1563) emitiu uma declaração clara sobre imagens e estátuas. Segundo a Sessão XXV deste Concílio Geral:

  • “As imagens devem existir, principalmente nos templos, principalmente as imagens de Cristo, da Virgem Mãe de Deus, e de todos os outros santos, e que a essas imagens deve ser dada a correspondente honra e veneração, não por que se creia que nelas existe divindade ou virtude alguma pela qual mereçam o culto, ou que se lhes deva pedir alguma coisa, ou que se tenha de colocar a confiança nas imagens, como faziam antigamente os gentios, que colocavam suas esperanças nos ídolos, mas sim porque a honra que se dá às imagens, se refere aos originais representados nelas, de modo que adoremos unicamente a Cristo por meio das imagens que beijamos e em cuja presença nos descobrimos, ajoelhamos e veneramos aos santos, cuja semelhança é espelhada nessas imagens” (Cânones e Decretos do Concílio de Trento; TAN Books, 1978, p. 215-216).

A Igreja NÃO obriga que seus membros se ajoelhem ou orem diante das imagens. A Igreja não permite que as pessoas orem para as imagens porque ela não têm ouvidos para ouvir nem poder para nos ajudar. Mas a Igreja permite a veneração das imagens porque a honra é [diretamente] dirigida a Cristo e aos Seus Santos.

Sobre uma questão afim, alguns cristãos podem se opor à veneração das imagens dos Santos por acreditarem que a honra deve ser dirigida somente a Deus e não a Maria ou aos santos (v. 1Timóteo 1,17). Essa objeção surge da confusão entre “honra divina” (adoração: honra suprema apropriada somente a Deus) e “honra respeitosa” (apropriada aos homens).

Segundo a Bíblia, o povo de Deus se curvou diante do rei Davi para lhe demonstrar honra (cf. 2Samuel 24,20; 1Crônicas 29,20; 21,21). Obadias, em 1Reis 18,7, se prostrou diante de Elias, mostrando-lhe reverência, por ser um profeta de Deus. Nos Dez Mandamentos, somos instruídos a honrar os nossos pais e as nossas mães (cf. Deuteronômio 5,16). Até mesmo Jesus defendeu e obedeceu esse Mandamento (cf. Marcos 7,9-13; Lucas 2,51). Pelo menos no tocante a Maria, nossa honra a ela é uma imitação de Jesus, seu Filho (cf. 1Coríntios 11,1). A Igreja permite a veneração dos Santos e das suas imagens enquanto permanece a honra própria para os homens. É bom honrar os Santos por seu amor e confiança em Deus (cf. Mateus 22,31-32; Hebreus 11,1-12,1).

[Em suma:] A Igreja Católica não alterou os Dez Mandamentos de Deus. A Igreja não abandonou o “2º Mandamento”, como o referido livreto afirma. A numeração católica pode divegir da numeração protestante, mas isso se deve a uma diferença de tradição e não a uma alteração nos Mandamentos de Deus. Infelizmente, a Bíblia não é clara sobre como dividir ou enumerar os Dez Mandamentos. Se essa diferença causa escândalo, seria interessante saber o que o autor do livreto achou de Jesus Cristo ter reduzidos os [Dez] Mandamentos de Deus aos dois grandes Mandamentos, em Mateus 22,36-40. Por fim, a Igreja condena estritamente a adoração DIVINA de estátuas, imagens ou até Santos, uma vez que isso constitui idolatria e viola diretamente o 1º Mandamento. Para os cristãos, um crucifixo não deve ser considerado apenas uma estátua de Jesus pendurado numa cruz, mas um lembrete do alto custo da nossa salvação, bem como das Suas palavras para conosco:

  • “Se alguém vier após Mim, que negue a si mesmo, tome a sua cruz e Me siga” (Marcos 8,34).

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Nota:
[*] A numeração dos versículos também não ajuda, pois foram acrescentados na Bíblia pelos estudiosos muitos séculos depois de Cristo.

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