Em Nova Iorque, um grupo de jovens resolveu “ocupar” o centro financeiro, acampando numa praça. Na Europa, vários outros grupos, apresentando-se como “os indignados”, estão fazendo protestos e acampamentos coletivos.

A novidade neste fenômeno não é que se esteja indignado com a situação atual – financeira, moral, política etc. –, sim que esta indignação não venha, como sempre veio, acompanhada de alguma solução pronta, de alguma simplificação grosseira da realidade. As soluções prontas fizeram muitos milhões de vítimas no século passado, quando o nazismo e o comunismo tentaram “dar um jeito nas coisas”. Os indignados de hoje, ao contrário dos seus avós, sabem que está tudo errado, mas não têm propostas afirmativas.

Por um lado, isso é muito bom: as respostas do século passado não foram exatamente bem-sucedidas. Por outro lado, essa situação mostra a sinuca de bico em que se enfiou a sociedade moderna: criam-se expectativas às quais a própria sociedade não é capaz de corresponder, prega-se um modo de vida que não responde aos anseios naturais do ser humano. A sociedade moderna do Primeiro Mundo, em que as necessidades físicas já são garantidas, esqueceu que o homem não é feito apenas delas. Além de comida, é preciso, dizia o poeta, “diversão e arte”. E, mesmo com diversão e arte, precisa-se de “saída para qualquer parte”.

Esse anseio pelo infinito expressou-se de diversas formas ao longo da história, mas sempre esteve presente. Nas construções feitas para durar, nas complexas e longuíssimas genealogias, na ligação com os antepassados e descendentes expressa nos ritos religiosos, o homem sempre procurou ir além do meramente passageiro e contingente, mirar além da necessidade física imediata.

O deus-mercado dos EUA, assim como o deus-Estado europeu, não tem como saciar essa sede de infinito, essa necessidade tão humana de se perceber membro de algo maior, de algo que perdura. O velho sábio sobre a montanha foi trocado pelo Google, que nos diz o que queremos ouvir. Nada é permanente, e nada presta.

É compreensível a indignação daqueles jovens, assim como é compreensível que os indignados não tenham propostas. Afinal, quaisquer propostas seriam referentes às mesmas necessidades físicas que, para eles, sempre já se apresentaram supridas. O que eles buscam é mais que comida, diversão e arte, que já têm.

Resta saber se daí nascerá uma visão mais humana de sociedade, ou se em seus estertores a modernidade conseguirá fazer da indignação outro objeto de consumo.

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