Venho tratar da questão dos pedidos de intercessão que fazemos aos seres celestiais, tecendo, ainda, algum comentário a respeito da Assunção de Nossa Senhora.

a) Seguramente, Deus atende os pedidos que Lhe são dirigidos indiretamente, e não somente os encaminhados diretamente. E não dá para negar que os próprios protestantes creem igualmente dessa maneira! Pois se não fosse assim, que sentido teria as petições que os “evangélicos” fazem a Deus por meio dos seus pastores (ou de algum parente)?… A diferença é que, muitos deles, só aceitam os pedidos feitos, indiretamente, por meio de homens que estejam na carne. De todo jeito, eles aceitam que criaturas humanas sejam intermediárias: e isso não dá, até para os mais recalcitrantes dos sectários, negarem.

Confirma-se, assim, que o Todo-poderoso admite intercessores criaturiais. É verdade, também, que eu poderia suscitar, “ironicamente”, uma série de questionamentos (semelhantes àqueles que os desafetos do Catolicismo fazem com relação aos santos celestiais): Se Deus já sabe o pedido, para que recorrer ao pastor? Por que não pedir diretamente ao Altíssimo? Será que o pastor vai lembrar alguma coisa a Deus? Por que Deus não atenderia o pedido do protestante feito diretamente a Ele, ao invés de o referido protestante suplicar a um pastor (que poderá ser tão ou até mais pecador do que ele próprio)?… Aliás, iria até mais longe dizendo: Para que pedir a Deus, mesmo que diretamente, já que Este sabe dos nossos pedidos antes mesmo de nós os pedirmos? Ora, Ele sabe tudo, é onisciente!

O fato, porém, é que nada, em linhas gerais, impede que o Altíssimo atenda aos pedidos que fazemos por meio de nossos irmãos; compreendendo-se, aqui, nesse termo “irmãos”, a totalidade dos que foram renascidos em Cristo Jesus, e que constituem o seu Corpo Místico. Ou seja, Deus é capaz de responder tanto aos rogos intermediados pelos que estão ainda no presente mundo quanto aos que são feitos pelos que já partiram deste orbe. Não por menos, nós católicos temos a consciência de que dispomos de intercessores em um número superior ao que podemos vislumbrar aqui na Terra.

b) A intercessão pelos outros sempre foi tida como um lugar próprio para a expressão do amor fraternal. E nisto se inclui a intercessão daqueles que, já estando na Mansão Celestial, não cessam de pedir pelos que estão no mundo.

Já no século III, Orígenes, no seu Tratado Sobre a Oração, dizia:

– “As virtudes cultivadas nesta vida são definitivamente aperfeiçoadas no além. Ora, a mais valiosa de todas é a caridade; esta, portanto, na outra vida é ainda mais ardente do que na vida presente. Por conseguinte, os santos falecidos exercem seu amor sobre os irmãos na terra, mediante a intercessão dirigida a Deus em favor das necessidades destes peregrinos”[1].

Santo Inácio de Antioquia, pelo ano 110 d.C., ao escrever aos tralianos (n. 13,3), deixa claro que, mesmo depois de adentrar na benção eterna, não deixará de compadecer-se dos seus [irmãos] que permanecem na labuta da temporalidade:

– “Meu espírito se sacrifica por vós, não somente agora, mas também quando eu chegar a Deus”[2].

As catacumbas, que foram um dos berços do Cristianismo incipiente, fragorosamente, testemunham essa realidade intercessorial crida e professada pelos primeiros cristãos; como no Cemitério de Godiano, em que pode ser visto o seguinte pedido de intercessão:

– “Sabácio, doce alma, pede e roga pelos irmãos e companheiros teus”[3].

c) Entretanto, quando eu peço à minha genitora (que está neste mundo): ‘Mãe, roga por mim!’, por ventura, eu estou pedindo a Deus em nome dela? Claro que não!… Se fosse, então, também quando algum protestante pede ao pastor para orar por si, igualmente estaria ele pedindo em nome do pastor; e, de fato, não está, pois solicitar que alguém peça por outrem não é, necessariamente, a mesma coisa que pedir em nome desse alguém.

Não obstante, posso eu pedir a Cristo e, ainda, pedir em nome de Cristo; também posso pedir a uma criatura, no nome do Senhor, para que a mesma seja minha intercessora. Daí, nada obstaculizaria eu pedir a um padre: ‘Padre, em nome de Cristo Jesus, roga por mim a Deus!’. Ao ser colocado a expressão ‘em nome de Jesus’, o sacerdote, mais ainda, ver-se-ia obrigado a interceder por mim… Semelhantemente, poderei pedir a Santa Isabel: ‘Santa Isabel, em nome de Jesus Cristo, ora por mim ao Altíssimo!’. O nome do Senhor, em ambos os casos, serve como uma forma de mais pungentemente incitar aos que solicitamos a intercessão para que eles intercedam.

Contudo, diga-se de passagem: o comum entre os católicos é orarem da seguinte maneira: ‘São Judas Tadeu, rogai por nós; em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo’. Ou seja, o mais comum é pedir a intercessão em nome da Trindade Santa, e não em nome de qualquer outro.

d) No entanto, para efeito especulativo (hipotético), eu questiono: e se estivesse pedindo em nome de um santo?

E daí? Mostre-me, de modo insofismável, que não se pode pedir em nome de outrem, seja Santa Maria, São Paulo ou um Santo Anjo (como Gabriel), etc. Sim! Se alguém dirigisse assim a sua oração: ‘Em nome de Maria Santíssima (ou São Miguel Arcanjo), peço-te isso, meu Senhor e meu Deus!’; ou seja, claramente, mencionando que é em nome de um santo que se faz o pedido, estaria errado? Ou mesmo, permitam-me o exagero, em nome do Papa, ou em nome da minha irmã, dentre tantos outros que estão neste mundo mundo, ainda que estes últimos não possam ser comparados aos Santos do céu.

Pois bem: citem-me em qual parte da Bíblia é dito que NÃO se pode pedir em nome de outra pessoa (pelo menos as que são santas, isto é, as que estão no céu ou paraíso), mas tão somente em nome de Jesus. Quero ver as passagens: capítulos e versículos! E não adianta cobrar o contrário, porque senão comprova-se que a Escritura nem diz sim nem diz não. E aquilo que ela não nega nem afirma, se tem (ao menos em possibilidade) a liberdade de opção!

É obvio que se na Sagrada Escritura estivesse escrito: ‘Não se pode pedir em nome de ninguém, exceto no nome do Senhor’; aí, sim, indiscutivelmente, não se poderia pedir em nome de qualquer outro que fosse. Todavia, a Bíblia diz: ‘Peçam em meu nome’. E nós católicos, com certeza (absoluta), pedimos em nome do Senhor Jesus.

Agora, mostrem-me, onde está escrito: ‘Peçam em meu nome’? Ora, quando um pai diz para o seu filho: ‘Filho, leia a Bíblia’; não tem o exato sentido de dizer: ‘Filho leia SOMENTE a Bíblia’ (porquanto, obviamente, na última sentença é mostrada a exclusão da leitura de qualquer outro livro). Ou ainda: ‘Hoje, à tarde, faça a lição escolar’, o que é diferente de dizer: ‘Hoje, à tarde, faça a lição escolar’ (ora, na primeira, o pai não proibiu o filho de fazer compras e coisas similares, ou mesmo de realizar qualquer outra tarefa doméstica que comumente ele tivesse a obrigação de fazer, como colocar o lixo para fora, ou aparar a grama, etc; já na segunda, sim).

e) Os santos do céu são pessoas mortas?!… Com certeza, nesse grupo de pessoas “mortas”, não podem estar incluídas as pessoas angelicais, isto é, os santos anjos (aos quais também solicitamos que roguem por nós). Logo, já no que concerne a acusação de que recorrer a Intercessão dos Santos seria pedir a mortos, no caso dos anjos, de cara, não teria qualquer cabimento.

E Santo Elias ou Santo Henoc? Podem ser tidos como mortos?… Leiamos a Escritura:

– “Henoc andou com Deus… Deus o arrebatou” (Gênesis 5,24).,

– “Henoc foi levado, a fim de escapar da morte” (Hebreus 11,5).

– “Elias subiu ao céu no turbilhão” (2 Reis 11).

Também o deuterocanônico livro do Eclesiástico declara:

– “Henoc agradou a Deus e foi arrebatado” (Eclesiático 44,16).

– “Profeta Elias (…) foste arrebatado” (Eclesiástio 48,1.9)].

É interessante colocar ainda que já na Igreja “primitiva”, alguns acreditavam que certos ressuscitados participavam da glória celeste corporificados (inclusive o próprio São João Apóstolo). É o que nos informa São Jerônimo (348-420 d.C.), segundo o que escreveu o sr. Marcos Moreira L. Pimenta:

– “Se alguns dizem que quem ressuscitou na mesma época que Cristo conheceu a Ressurreição perpétua, e se alguns que dizem que João teve sua carne glorificada e desfruta da alegria celeste ao lado de Cristo, por que não acreditar com mais forte razão que o mesmo aconteceu com a mãe do Salvador? Aquele que disse: ‘Honra seu pai e sua mãe’ (Êxodo 20,12) e ‘Não vim destruir a Lei, mas cumpri-la’ (Mateus 5,17), certamente honrou Sua mãe acima de todas as coisas”[4].

No caso de São João, tal entendimento, provavelmente, adviria de uma releitura (ainda que pareça estranha à nossa compreensão) da seguinte passagem bíblica:

– “Jesus lhe disse: ‘Se quero que ele permaneça até que eu venha, o que te importa?’ (…) Divulgou-se, então, entre os irmãos, a noticia de que aquele discípulo não morreria. Jesus, porém, não disse que ele não morreria, mas: ‘Se quero que ele permaneça até que eu venha, o que te importa?’” (João 21,21-23).

Ora, São João bem poderia morrer e, logo a seguir, ser ressuscitado e, uma vez ressuscitado, poderia permanecer imorredouro, séculos afora, até Jesus voltar… Ou não poderia (ao menos no campo das hipóteses)? Será que foi algo assim que aqueles fieis dos primeiros séculos pensaram? Não sei!… O certo é que eles especularam alguma solução possível.

Quanto aos muitos que ressuscitaram pela época de Cristo, tratar-se-iam dos que voltaram à vida corpórea por ocasião da Paixão de Cristo, e que São Mateus relatou no seu evangelho:

– “Abriram-se os túmulos e muitos dos corpos dos santos falecidos ressuscitaram. E, saindo dos túmulos após a ressurreição de Jesus, entraram na Cidade Santa e foram vistos por muitos” (Mateus 26,52).

Ora, o texto diz que “muitos” (o que, certamente, não são apenas 3 ou 4 falecidos) entraram na Cidade Santa. E como é que tantos ressuscitam e adentram em Jerusalém e a população, em peso, não se converte? A não ser que… a Cidade Santa em questão não fosse a Jerusalém terrestre, mas a celeste; porquanto, também a Cidade do Deus vivo, a “Jerusalém celestial” (Hebreus 12,22), é denominada, escrituristicamente, de “Cidade Santa”:

– “Vi também descer do céu, de junto de Deus, a Cidade Santa, uma Jerusalém nova” (Apocalipse 21,2).

– “Mostrou-me a Cidade Santa, a Jerusalém que descia do céu” (Apocalipse 21,10).

Será que é a esta Cidade do Alto que São Mateus estaria se referindo???

Desculpem-me! Sei que pode parecer muito estranho apresentar reflexões como essas, mas, como foi dito, elas já existiam antes de qualquer um de nós ter nascido. Inclusive, prestem atenção à nota, de pé de página, de “A Bíblia de Jerusalém”:

– “Essa ressurreição dos justos do Antigo Testamento é um sinal da era escatológica (Isaías 26,19; Ezequiel 37; Daniel 12,2). Libertados do Hades pela morte de Cristo (cf. Mateus 16,18+), esperam a sua ressurreição para entrar com Ele na Cidade Santa, isto é, na Jerusalém celestial (Apocalipse 21,2.10; 22,19), como já o entenderam os antigos Padres da Igreja. Temos aqui uma das primeiras expressões da fé na libertação dos mortos pela descida de Cristo à mansão dos mortos (cf. 1 Pedro 3,19+)”[5]

Entrementes, a tudo que foi escrito (e que se poderia escrever) a esse respeito, eu creio e confesso aquilo que a Igreja afirma e ensina!…

f) Para o cristão a morte não é um ponto final, mas continuativo. Continuada na companhia de Deus, nosso Senhor, e dos irmãos que O precederam na Morada Celestial, bem como da dos santos Anjos. Desde já estamos misticamente unidos, desfrutando do convívio com todos estes, pela comunhão dos santos:

– “Vós vos aproximastes do monte Sião e da Cidade do Deus vivo, a Jerusalém celestial, e de milhões de Anjos reunidos em festa, e da assembleia dos primogênitos, cujos nomes estão inscritos nos céus, e de Deus, o Juiz de todos, e dos espíritos dos justos que chegaram à perfeição” (Hebreus 12,22-23).

Não à toa, a morte não assombra o homem ‘regenerado’ (cf. 1Pedro 1,23), o qual vislumbra a realidade paradisíaca para além do tétrico véu tanatóide, pois é uma nova criatura, transfigurada segundo à imagem do Cristo de Deus. Daí, São Paulo ter escrito, ousando confiantemente:

– “Morrer é lucro… o meu desejo é partir e ir estar com Cristo” (Filipenses 1,21.23).

– “Sim, estamos cheios de confiança e preferimos deixar a mansão desse corpo para ir morar junto do Senhor” (2Coríntios 5,8).

Jesus mesmo garantiu:

– “As minhas ovelhas escutam a minha voz… elas jamais perecerão” (João 10,27-28);

e ainda:

– “Em verdade, em verdade, vos digo: se alguém guardar a minha palavra, jamais verá a morte” (João 8,51).

São João também testificou:

– “Aquele que faz a vontade de Deus permanece eternamente” (1João 2,19).

g) Obviamente, ante tais passagens, pensa-se logo no sentido espiritual; isto é, que o fiel permanece vivo espiritualmente, ainda que seu corpo feneça. Mas será que, em alguns casos (ou pelo menos em um caso, o de Maria), o significado não seria também literal? Que ela, além de não ter morrido espiritualmente, também não teria falecido fisicamente(?!).

1) O certo é que, ainda que muitos Santos estejam mortos fisicamente, todos eles, entretanto, estão vivos espiritualmente; conforme ensina-nos a Palavra do Senhor. Aliás, para Deus – e, consequentemente, também para os seus fiéis seguidores – vale muito mais um Santo morto (fisicamente) do que um zilhão de hereges que só estão vivos corporalmente (pois, espiritualmente, estes jazem no mais tenebroso sepulcro de suas heresias).

Tanto Deus ama aqueles que são os seus eleitos que, mesmo depois deles terem falecido (na dimensão corporal), o Altíssimo continua a agir em consideração, não somente a Si mesmo, mas também em atenção a eles. Com efeito, está escrito:

– “Protegerei esta cidade e a salvarei em atenção a Mim mesmo e a meu servo Davi” (2Reis 20,34).

E observe que Davi já estava morto (corporalmente) há décadas!

Igualmente, ele promete abençoar a Isaac em vista do ‘falecido’ Abraão:

– “Eu sou o Deus de Abraão… Eu te abençoarei, multiplicarei tua posteridade em consideração a meu servo Abraão” (Gênesis 26,24).

Note que Deus não diz em ‘consideração a aquele que foi um dia meu servo’. De fato, neste passo, a impressão é que Deus trata o referido patriarca como um servo atual, e não do passado.

Logo, assim como uma nuvem acompanhava o povo de Deus na peregrinação pelo deserto, de modo similar, há também uma “nuvem de testemunhas ao nosso redor” (cf. Hebreus 12,1), as quais não cessam de vibrar e exultar de alegria com a nossa vitória sobre mal. Com efeito:

– “Haverá mais alegria no céu por um só pecador que se arrependa, do que por noventa e nove justos que não precisam de arrependimento” (Lucas 15,7).

h) Podemos até declarar que ‘muito provavelmente’ Maria morreu; ou que, em uma primeira análise, essa é a mais pertinente proposição. Entretanto, provar (e biblicamente) que ela jazeu, aí já é outra coisa…

Julgo propício apresentar algo que me questionaram em palestras, bem como a resposta que eu dei. Inquiriram-me: “Minha amiga é protestante e a mesma disse-me que Maria é uma mulher qualquer, e que ela morreu como qualquer outra. Como responder a ela?”; ao que eu respondi:

– “Se Maria é uma mulher qualquer, então mostre-me qualquer outra mulher que tenha sido engravidada pelo Espírito Santo! E mais: que tenha dado à luz ao Filho de Deus! Maria é tão singular que é a única pessoa humana, em toda Escritura Sagrada, que é saudada por um anjo: ‘Ave, cheia de graça’. Não por menos, o Apóstolo São João a ‘pintou’, isto é, a descreveu de modo tão glorioso: ‘Uma Mulher vestida de sol, tendo a lua sob os pés e, sobre a cabeça, uma coroa de doze estrelas” (Apocalipse 12,10). Qual mulher foi descrita com tal galarim, senão a Mãe do Nosso Senhor e Salvador, a ‘bendita entre as mulheres’ (cf. Lucas 1,42), à qual já era assegurada – enquanto vivia nete mundo – que todas as gerações a proclamariam ‘bem-aventurada’ (cf. Lucas 1,48). Como duvidar que alguém tão singular como Maria não poderia ter deixado este mundo de modo também cercado de singularidade?… Ora, se Henoc e Elias foram arrebatados sem terem que experimentar a morte (cf. Hebreus 11,5; 2Reiss 2,11), quem achará impossível que a Mãe do Divino Redentor tenha, pela graça divina – ela que é a ‘cheia de graça’ -, podido partir da temporalidade por um meio igualmente singular? Questione ainda a sua amiga – já que ela é ‘evangélica’ – e que, portanto, diz acreditar só no que estiver na Bíblia: onde está, na Escritura, descrita a morte de Nossa Senhora? Onde está o capítulo e os versículos que narram tal acontecimento? De fato, o texto sagrado não explicita nem que sim nem que não; logo, ao menos em possibilidade (ainda que fosse a menor), é passível de ter ocorrido o ‘arrebatamento’ da Virgem de Nazaré (sem que, por conseguinte, ela tenha passado pela morte)… E não só é possível como, conforme as razões que já apresentei, é razoável que isso tenha ocorrido. E se Maria tivesse morrido? E daí? Em nada obsta o dogma da sua gloriosa assunção: Jesus poderia tê-la, primeiramente, ressuscitado e, a seguir, levado ela para o céu. Qual filho, sendo todo-poderoso (como é Jesus), caso sua querida mãezinha tivesse falecido, não arrombaria as portas do Xeol (e/ou sepultura) e a tomaria para viver, em corpo e alma, consigo? Ainda mais se tratando de uma mãe tão santa, tão pura e cheia da graça, e com o favor divino, como Maria. Diz a Escritura: ‘Henoc andou com Deus, depois desapareceu, porque Deus o arrebatou’ (Gênesis 5,24). E Maria, que não só andou com Deus no coração, mas, literalmente, meses seguidos em seu ventre; que o amamentou; que o educou… Não lhe caberia um destino parecido? Que dificuldade há em se crer nisso?”

i) Muitos santos (não todos) foram terrivelmente pecadores. Porém, na hora da morte, arrependeram-se dos seus pecados. FORAM pecadores, mas, com certeza, NÃO SÃO mais! Data venia, se continuassem sendo, não estariam vivendo no Paraíso com o Senhor…

Importa-nos mais no quê os Santos se tornaram, pela graça divina, do que os pecadores que haviam sido; e que eles estão numa condição superior de santidade a qualquer um aqui na terra (Ah, nisso sim, eles estão! Ainda mais se comparados a uma dessas pessoas que vomita heresias protestantes para tudo quanto é lado!). E se não tivéssemos nada – nenhum exemplo positivo sequer da parte deles, por menor que fosse – para reverenciá-los, ainda assim não deixaríamos de venerar-lhes aquilo que são: isto é, seres santificados de Deus, filhos do Altíssimo, a quem o Senhor não se envergonha de chamá-los de “irmãos:

– “Pois tanto o Santificador quanto os santificados, todos, descendem de Um só, razão por que não se envergonha de os chamar irmãos” (Hebreus 2,11)!

Só o que eles são já é suficiente para venerá-los; mesmo que nada (absolutamente nada) tivéssemos que lhes honrar pelo que eles fizeram anteriormente.

j) Fico a pensar se não seria possível a existência de intercessão “ad infinitum”! Explico: um tipo de oração que fazemos agora, enquanto estamos vivos neste mundo (e cheios de confiança), a qual surtiria efeito pelas gerações afora… Por exemplo, imagine que eu antes de morrer faça o seguinte pedido: “Senhor, peço-te: caso venha estar Contigo após a minha morte, por todos aqueles que, no futuro, solicitarem o auxílio dos meus rogos junto a Vossa Santa Majestade. Atendei-os, ó Altíssimo, em tal ocasião, como se fosse eu mesmo qume estivesse pedindo-te”

Com efeito, mil anos depois de eu estar morto, se um devoto meu rogasse a minha intercessão, Deus se lembraria da oração que eu fiz mil anos antes, com fé, e quando ainda vivia nesta terra… Sinceramente, não vejo – ou não consigo ver – nenhum obstáculo maior que impedisse que tal prece minha tivesse eficiência, haja vista, segundo as palavras de Nosso Senhor:

– “Tudo é possível para aquele que crê” (Marcos 9,3).

Ademais, o próprio Cristo fez uma intercessão que visava, igualmente, aos que viriam nos tempos sucessórios:

– “Não rogo somente por eles, mas pelos que, por meio da palavra deles, crerão em Mim” (João 17,20).

Eis, portanto, que até os que se tornaram cristãos, dois mil anos depois do nascimento de Cristo, são beneficiados pela prece que o Senhor fez milênios atrás…

Obviamente, nesse caso (que anteriormente exemplifiquei), no céu, eu nem precisaria ouvir os pedidos feitos pelos meus devotos. Assim é, que, também nesse item, acabei apresentando mais uma hipótese a respeito da qual, especulativamente, os santos sequer precisariam ter ciência dos nossos pedidos de intercessão (ou mesmo estarem conscientes no além). Mesmo sem ter tal ciência (ou consciência), os pedidos que lhes dirigimos seriam atendidos por Deus! Continuariam eficientes (embora, é verdade, de modo mui inusitado, mas no entanto eficaz).

Semelhante forma de pedido encontra-se relatada na “Legenda Dourada” (um famoso escrito da Idade Média). E, aqui, justamente citarei a narrativa concernente à Santa Catarina de Alexandria que, por causa de Cristo, recusou até mesmo o trono imperial. Ela que, no instante final do seu suplício, teria feito a seguinte oração:

– “Esperança e salvação dos crentes; honra e glória das virgens; Jesus, meu bom mestre: ouve minha prece! Faze com que todo aquele que me invocar na hora da morte ou do perigo, seja convertido, em lembrança da minha paixão!”[6].

Em memória do seu martírio, ela pediu ao Senhor que, depois que tivesse deixado a terra, pelas gerações que se seguiriam, os que a invocassem fossem abençoados. Quantos – pergunto eu – não foram os cristãos que, se não sofreram a paixão no corpo, sentiram-na ao menos n’alma (como a própria Mãe de Deus, cuja espada de dor atravessou seu coração, cf. Lucas 2,35), e que fizeram uma prece similar a que fez Santa Catarina?

Aliás, é curioso notar que, na literatura apócrifa, existe algo parecido com relação à Virgem Santíssima. São João teria escrito um Tratado (publicado no livro “Apócrifos – Os proscritos da Bíblia”, ed. Mercuryo) em que relata:

– “Uma multidão de homens e mulheres e virgens reuniram-se gritando: ‘Virgem, Mãe de Cristo, nosso Deus: não te esqueças da raça humana’. E assim como num domingo teve lugar a anunciação do Arcanjo Gabriel, também num domingo, Cristo, pleno de majestade, viria buscar Maria. Momentos antes da sua passagem, os Apóstolos chegaram junto a seus pés, venerando-a, e disseram-lhe: ‘Deixa, ó Mãe do Senhor, uma bênção ao mundo, posto que vais abandoná-lo’. E a Virgem num pedido final, rogou que o Senhor tivesse compaixão do mundo e de todas almas que invocasse o seu nome. ‘Alegra-te e regozija-te, pois toda alma que invocar o teu nome, ver-se-á livre da confusão e encontrará misericórdia, consolo, ajuda e amparo neste século e no futuro, diante de meu Pai celestial’, prometeu-lhe o Filho”[7].

E ainda que a partida da Virgem Santa não tivesse tido resplendor com que o texto [apócrifo] a seguir descreve-a, por que duvidar que essa serva de Deus, e irmã de todos os cristãos, houvesse feito um semelhante e derradeiro pedido (o que demonstraria o seu grandioso zelo e amor pela Igreja que haveria de atravessar os séculos, preocupando-se em pedir não só pelos que estavam ali presentes, na ocasião da sua passagem para o outro mundo, como também pelos que viriam, futuramente, fazer parte da grei do Senhor)?

k) Como alguém que impiamente acusa a Igreja Católica de idólatra, ou de algo desse porte, poderia se assentar ao lado de Jesus no Dia do Juízo? Tais protestantes, caso não se convertam à única e santa Fé Católica, só podem, no Tribunal de Cristo, ter assento é no banco dos réus, junto com os da sua estirpe.

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OBSERVAÇÕES

1. Como é bem sabido, em quase tudo os protestantes se contradizem; também aqui, na questão de os santos celestiais serem nossos intercessores, há divergências entre eles. Por isso, é que, no item “a”, eu disse que “muitos deles” (e não “todos eles”) só aceitam pedidos feitos a seres humanos corporificados. O pensador protestante Leibniz, por exemplo, afirmava:
– “Não vejo por qual motivo se haveria de considerar um crime o invocar uma alma bem-aventurada ou santo anjo” (Leibnitz, Systema Theologicum)[8].

2. Com relação aos dois Santos do Antigo Testamento que a Bíblia, explicitamente, noticia como tendo sido arrebatados, mais importante que perguntar “onde estavam antes de Jesus ter ressuscitado?”, é perguntar: “como eles estavam?”. Aliás, o melhor mesmo é questionar: “como eles estão?”. Potanto, como estão fisicamente Elias e Henoc? Estão vivos ou mortos? Não estavam vivos antes? Nada, então, se opõe que estejam vivos corporalmente também depois que Cristo assentou-se nos céus…

3. Que Maria é a única a ser particularmente saudada por um anjo, isso é fato. Mesmo outros ilustres personagens bíblicos, mesmo que reconhecendo que “estavam com o Senhor”, a nenhum deles, entretanto, se dirige uma saudação do tipo “Kaire” (traduzido por “ave”, “alegra-te”, ou qualquer outra forma semelhante) vindo de um ser angelical.

4. Mesmo que se aceitasse a herética acepção de que Maria foi apenas uma “mãe de aluguel”, de todo jeito, ainda assim, poder-se-ia afirmar que Deus teria estado dentro dela. O Sangue imaculado do Divino Cordeiro circulou por entre as entranhas de Maria, e o de Maria pelas do Senhor Jesus, tal é a comunhão sanguínea e corpórea que há, até mesmo, entre uma mãe de aluguel e o rebento que ela porta.

5. De forma alguma estou afirmando que é certo e líquido que Maria não morreu. Ao contrário, ponderando todos os dados AQUI apresentados, seria mais passível de credibilidade a assertiva de que ela tivesse vindo a falecer. Apenas apresentei especulações (suposições) de que ela poderia ter não morrido e que, se isso houvesse de fato ocorrido, em nada teria contrariado ou comprometido o dogma da sua Assunção. Talvez até realçasse, ainda mais, tal dogmática!… E se morreu, o que – como já disse – é bastante crível, seu corpo não se corrompeu. Porquanto, seria atroz pensar que este (o corpo da Virgem), que foi o molde ou a fôrma da carne do Filho de Deus, tivesse tornado-se repasto para os vermes. Dela que, justamente, adveio a natureza carnal daquele (Jesus) cuja carne “não experimentou a corrupção” (cf. Atos 13,37; v.tb.: Atos 2,31).

6. Por que não está na Bíblia que ela foi assunta aos céus? E quem disse que tudo tem que estar na Bíblia (ou, pelo menos, tem que estar explicitamente narrado nela)? Quem pode garantir que Cristo não tenha, como acreditavam os antigos, vindo buscar a sua Mãe? Ora, a Bíblia afirma que Jesus realizou muito mais do que foi registrado:
– “Há, porém, muitas outras coisas que Jesus fez e que, se fossem escritas uma por uma, creio que o mundo não poderia conter os livros que se escreveriam” (João 21,25).
Ademais, não seria a descrição gloriosa daquela que a Mãe do Messias, em Apocalipse 12,1ss, uma forma metafórica de o autor do Apocalipse revelar-nos (sob inspiração divina) que, pela época da confecção desse derradeiro Livro sacro, a Mãe do Redentor, à semelhança do Filho, havia sido glorificada corporalmente no céu? Justamente ela, que trouxera em seu ventre o Senhor das Alturas, estaria agora nas Alturas, fôra similarmente glorificada com seu ventre (isto é com sua carne: carne da Carne do Salvador, sangue do Sangue do Redentor). A carne que não rejeitou o Deus do Céu na terra, também não foi rejeitada no céu, pelo Senhor dela.

7. Nós, católicos, quando pedimos a intercessão da Santa Mãe de Deus, o fazemos cientes de que ela está viva em corpo e alma. Temos a certeza de que ela não é uma pessoa viva somente espiritualmente. Portanto, não nos cabe qualquer dúvida de que não se estaria pedindo a uma pessoa morta (em qualquer sentido que se tome esta expressão), pois a mesma está viva; muito viva! Porquanto está vivendo a vida divina (que é a vida da graça); inclusive, corporalmente!

8. O que o Antigo Testamento condena é a consulta aos mortos, que está associado à evocação dos mesmos e às práticas de adivinhações. Pois muitos, no passado (ou mesmo hodiernamente), queriam saber dos falecidos que eram “trazidos” a este mundo (ou pelo menos tinha-se essa pretensão), informações concernentes aos acontecimentos futuros; como fizera Saul, consultando a pitonisa de Endor. Daí, as prescrições do Pentateuco:
-“Aquele que recorrer aos necromantes e adivinhos para se prostituir com eles, voltar-me-ei contra esses homens” (Levítico 20,6).
Diferente (e muito!) dos pedidos que fazemos para que os Santos, lá mesmo onde estão, orem por nós a Deus; até porque nem temos a pretensão de trazê-los até nós. Pedir-lhes a intercessão não é a mesma coisa que consultá-los.

9. Tenho certeza que os Santos, por participarem do poder divino, tomam ciência dos nossos pedidos intercessórios. Não por menos, quero deixar bem claro que os argumentos anteriormente aventados (em que sequer eles precisariam estar conscientes), são puramente especulativos… Escreveu Lúcio Navarro sobre a condição de se ser santificado no céu:
– “Não no sentido de que ficamos iguais a Deus, mas no sentido que tomamos uma grande semelhança com Ele. Costuma-se comparar com a barra de ferro que se mete no fogo: não deixa de continuar a ser ferro, mas torna-se como uma brasa viva pela semelhança com o fogo”[9].
Ou seja, a barra adquire características (ou qualidades) que não possuía, que eram próprias do fogo, como: brilho, calor, luminosidade, etc. Assim são o seres santificados nas Alturas, em meio à fornalha ardente do Divino Amor, que é Deus: tornam-se participantes de realidades que a nossa mentalidade limitada e temporal não conseguiria plenamente compreender, excedendo, assim, em muito, nossa capacidade intelectiva.

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NOTAS

[1] CUNHA, Egionor. “Imagens e Santos: Um esclarecimento para o povo”. São Paulo: Ave Maria, 1ª ed., 1993, p.56.
[2] COLEÇÃO PATRÍSTICA. “Padres Apostólicos: Clemente de Roma, Inácio, Policarpo de Esmirna, O pastor de Hermas, Carta de Barnabé, Papias, Didaqué”. São Paulo: Paulus, 2ª ed., 1995, p.101.
[3] NAVARRO, Lúcio. “Legítima Interpretação da Bíblia”, Recife: Campanha de Instrução Religiosa Brasil, 1957, p.542.
[4] Apostolado Veritatis Splendor: https://www.veritatis.com.br/artigo.asp?pubid=3153.
[5] A BÍBLIA DE JERUSALÉM. São Paulo: Paulus, 1996, p.1894, nota “x”.
[6] BERÉNCE, Fred. “Lucrecia Bórgia”. Rio de Janeiro: Vecchi, 3ª ed., 19xx , p.102.
[7] Cf. Revista “Ano Zero”, Ano II, nº. 24, abr/1993. Rio de Janeiro: Ano Zero, p.60.
[8] NAVARRO, Lúcio. “Legítima Interpretação da Bíblia”, Recife: Campanha de Instrução Religiosa Brasil, 1957, p.537.
[9] Idem, p.26.

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