Não mostrava Jesus desrespeito para com sua mãe, quando disse: “Que tenho eu que ver contigo, mulher? Minha hora não chegou ainda”?

Jesus disse isso numa festa de casamento em Caná, no início do seu ministério. A narrativa reza: “Quando o vinho estava escasseando, a mãe de Jesus disse-lhe: ‘Eles não têm vinho.’ Mas Jesus disse-lhe: ‘Que tenho eu que ver contigo, mulher? Minha hora não chegou ainda.’ Sua mãe disse aos que ministravam: ‘O que ele vos disser, fazei.”’ — João 2,3-5.

Em primeiro lugar, consideremos o uso do termo “mulher” por Jesus. Na linguagem moderna, dirigir-se alguém à mãe chamando-a de “mulher” talvez parecesse desrespeitoso. Mas, conforme observa o tradutor E. J. Goodspeed, a palavra grega usada em João 2,4 “não é nem tão distante como [a moderna palavra mulher], nem tão afetuosa como” mãe. Sua força de expressão tem um alcance amplo, e, conforme é usada neste caso, dá a entender certo grau de respeito e afeto. — Greek-English Lexicon, de Liddell e Scott.

Tanto os anjos como o Jesus ressuscitado usaram esta palavra para se dirigir a Maria Madalena, quando ela chorava de tristeza junto ao túmulo de Cristo; eles certamente não teriam sido ríspidos ou desrespeitosos. (João 20,13,15) Na cruz, Cristo usou a mesma maneira de se dirigir à sua mãe ao mostrar preocupação com ela, encomendando-a aos cuidados de seu amado apóstolo João. (João 19,26; veja também João 4,21; Mateus 15,28.) Por conseguinte, Jesus não era desrespeitoso quando usou esta palavra em Caná. Antes, podemos ter a certeza de que, ao falar, ele se dava conta de sua obrigação bíblica de honrá-la, assim como mais tarde salientou aos escribas e fariseus. — Mat. 15,4.

A expressão: “O que tenho eu que ver contigo”, é uma antiga forma de pergunta encontrada muitas vezes na Bíblia. (2Sam. 16,10; 1Reis 17,18; 2Reis 3,13; Mar. 1,24; 5,7) Pode ser traduzida literalmente: “O que temos nós [ou eu] e tu em comum?” e é uma forma de rejeição. A severidade dela dependeria, naturalmente, do tom do orador. Indica objeção à coisa sugerida. — Compare isso com Esdras 4,3 e Mateus 27,19.

Quando Jesus usou esta expressão, ele já era o Cristo e Rei designado de Deus. Não era filho jovem que vivesse na casa de sua mãe e sob a supervisão direta dela. Aceitava então a sua orientação de Deus, quem o enviara. (1Cor. 11,3) Portanto, quando a mãe dele, pela sua declaração, de fato lhe dizia o que devia fazer, Jesus resistiu ou objetou. No que se referia ao seu ministério e seus milagres, não se deixaria orientar pelos amigos ou pela família. (João 11,6-16) A resposta de Jesus mostra que, quando chegasse o tempo para ele agir em certa situação, ele o faria. Sabia quando era o tempo de ação nesta questão e não precisava ser incitado.

Maria, evidentemente, não tomou as palavras de Jesus como séria repreensão, mas compreendia o tom dele. Deixou o assunto sabiamente entregue às mãos de seu filho. Pode-se acrescentar que, “no grego, qualquer brusquidão na pergunta era abrandada, não aumentada, pelo uso da palavra [mulher] junto com ela, como termo de afeto ou respeito”. — Problems of New Testament Translation, p.?100.

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