Chegou-me às mãos por e-mail um texto (em negrito) com um erro gravíssimo, assustador mesmo: achar que “ser feliz” é algo que se consiga fazendo-se o que dá vontade de fazer. Vejamo-lo:

AMANDO-SE

Já começa com um nome estranho… Hoje em dia está na moda a tal da “auto-estima”, nome novo e chiqe do pecado do orgulho. É a isso que o texto apela.

Uma senhora fazia feira há mais de 20 anos pensando nas coisas fresquinhas que iria levar para o marido, para o filho mais velho, para o filho do meio, para a caçulinha.

Santa mulher!

Um dia ela foi surpreendida pela pergunta do feirante: E para a senhora, o que vai levar?

Aí então ela caiu em tentação. 🙁

Tentaçãozinha besta, mas tentação.

Ela foi até em casa pensando nos jilós que há muitos anos não comprava, apesar de adorar, ela nunca comprava o danado do jiló pois ninguém em sua casa gostava.
Nesse dia ela chegou em casa e voltou correndo para a feira e comprou um monte de jiló fresquinho, e preparou com gosto como se fosse para uma rainha, e comeu com mais gosto ainda, sentindo-se a própria rainha.

E pecou por gula.

Quantos jilós deixamos de comer para agradar essa ou aquela pessoa. Quantas coisas boas deixamos para trás em nome do amor. Quantos sapos engolimos, e as vezes, até humilhações sofremos calados.

É, teve gente que até morreu: na cruz, nas fogueiras de Nero, comidos pelos leões, tendo o coração arrancado pelas costas pelos protestantes… Que horror, não? Deveriam todos estar se fartando de comida, imagino…

Tudo em nome do amor.
Sei lá que raio de amor é esse, amor de peixe podre, quando mexe fede, quando frita faz mal.

“Faz mal”, não: dói. Amor de verdade dói, já dizia Madre Teresa. Esta dor, ao contrário do que a nossa “civilização do prazer” ensina, é boa, faz muito bem.

Tenho andado pelas ruas e continuo vendo as pessoas de olhar baixo, olhos cansados, semblante pesado, parece que as pessoas estão esperando algo acontecer para serem felizes.
Ouço muitos suspiros, as pessoas afirmam que se tivessem mais dinheiro, seriam felizes, se tivessem alguém para amar seriam felizes, se tivessem um emprego seriam felizes.
De outro lado, vejo pessoas com muito dinheiro com muito medo de perder o que conquistou, com medo de sair na rua, com medo de seqüestro, tomando “sono em caixinhas”.
Vejo casais brigando por cada besteira, ciúmes, paranóias, desgaste de relações, filhos abandonados, incompreensão.
Gente empregada reclamando do chefe, do salário, do lugar, da cadeira, dos amigos da mesa ao lado…
E, o tempo passando, escorrendo como areia fina pelos dedos, as oportunidades passam na nossa vida e nem damos bolas, estamos ocupados demais em atender a esse ou aquele pedido dos outros, estamos nervosos demais na reclamação, na angústia, na incompreensão dos outros.
Continuamos colocando sonhos malucos em nossa cabeça sem avisar as partes interessadas.
Por fim, não acreditamos que a felicidade está na nossa porta, que esta dentro de nós agora, que podemos comer jiló quando quisermos, que podemos não querer jiló nessa hora.

Ou seja: sem perceber a incoerência do que escreve, o autor confunde saciar desejos sensuais (que é exatamente o que leva aos problemas que ele vê ao andar pelas ruas) com resolver os problemas. Sinceramente, parece até coisa de burocrata: se uma medida burocrática causa um problema, a “solução” proposta é sempre mais do mesmo.

É exatamente achar que “a felicidade está na porta” e consiste – ou é causada por – saciar desejos sensuais (no caso comendo jiló) que leva a querer dinheiro (raros são aqueles cujo desejo sensual é jiló; em geral é coisa bem mais cara. Do mesmo modo, raros são os santos que passam vinte anos sem cair em uma tentação sensual, como havia passado a senhora da história), a temer sua perda, a não ceder (ao cônjuge, ao patrão, ao colega de trabalho…), causando as infelicidades que ele descreve; finalmente, raríssimos são os que não incluem outras pessoas em seus desejos, “colocando sonhos malucos em nossa cabeça sem avisar as partes interessadas”. Ora, a parte interessada, no mais das vezes, é exatamente o jiló. Qual a solução proposta? Mais desejo sensual, mais satisfação de jiló.

Que somos donos do nosso nariz, que se quebrarmos a cara em uma tentativa qualquer, somos nós que temos que nos levantarmos, tirar o aprendizado da experiência e tocar o barco.

Deus não, né? 🙁

Nosso Senhor, que é Nosso Senhor, foi ajudado quando caiu a caminho do Calvário.

Olha, a sua vida é um barquinho, sua vontade são os remos, os desafios são os rios turbulentos.
Para avançar seu barquinho e alcançar um porto seguro (ser feliz) é preciso gostar de seu barquinho, cuidar dele com carinho.
Imagine se o seu barco estiver com o casco furado?
Você não vai chegar em lugar nenhum.
Por isso, repito sempre aqui, cuide primeiro do seu barquinho (sua vida), quando ele estiver forte, bonito e preparado para vencer os rios, você poderá rebocar todos os que estiverem “perdidos pelo caminho”.

Pois é. O modo cristão de fazer isso – e o único modo, na verdade – é justamente *não* caindo na tentação, simbolizada nesta história pelo jiló. É o jiló da história que fura o casco, e é a falsa busca da felicidade aqui e agora, neste vale de lágrimas, neste exílio, que leva a perder o rumo certo do barco e sossobrá-lo nos recifes.

Ah! e se você tiver vontade de comer jiló, vá a feira, escolha os mais bonitos e coma até se lambuzar.”

E aproveite: no inferno não tem Jiló, e pelo jeito a escolha é esta: satisfação imediata dos desejos sensuais (no caso, fartando-se de jiló) ou abnegação e santidade.

Facebook Comments

Livros recomendados

O capital: Livro 3 – O processo global de produção capitalista (Vol. 5)Anunciar o Evangelho – Mensagens aos CatequistasA morte feliz