Por Jaime Francisco de Moura

Igrejas protestantes e lavagem cerebral

“Eles te manipulam e fazem lavagem cerebral, sentindo-se que são os eleitos de Deus”.

Este relato é de um ex-membro que participava de uma denominação protestante que tentava viver no estilo dos primeiros Cristãos. Anos depois ele cansou de ser “manipulado”. Lá não há liberdade, os líderes controlam tudo e a todos, diz. Hoje ele não quer falar muito do assunto. Abandonou a casa com sua família, mas sua mulher e sua filha voltaram para lá.

A Bíblia é o único livro que os adeptos podem ler, eles obedecem rigidamente à doutrina de um fanático que se auto proclama Apóstolo, que diz receber ordens diretas de Jesus. Os membros abandonaram seus trabalhos e seus bens para viver em comunidade, afastados da influência “satânica” da sociedade.

Quando os bebês choram, eles os amordaçam e seguram pelos braços para reduzir sua personalidade desde muito pequenos. Batem neles a partir dos 06 meses, eu vi isso. Os meninos do grupo trabalham com seus pais no campo, as meninas costuram e ajudam a fazer comida em casa. Também não vão à escola, seus pais preferem educá-los em casa.

As conversas no grupo entre os adeptos, quando contam suas experiências cotidianas, é “uma terapia muito selvagem”. Tendem a lhe dar todo um sentido muito culpabilizante. Por isso, o conflito entre casais que estão lá dentro surge quando a mulher quer ficar e o homem sair, como ocorre frequentemente. Esse foi o caso de outro ex-membro apesar de ter contado sua vivência em fóruns na Internet. É a história de uma luta para tirar o filho de lá. Entrou para a denominação com sua parceira, um bebê e dois filhos dela, frutos de relações anteriores. Poucos meses depois de entrar, ele quis sair. Ela se opôs.

Nas crianças, essa forma de vida cria mais problemas. Têm unicamente um critério aprendido lá dentro. O controle da informação é total. O líder conhece as experiências de todos, seus medos, suas culpas. Não se tende a respeitar a individualidade da pessoa, afirma o ex-membro. É realmente uma lavagem cerebral. E termina: “Foi um pesadelo que finalmente acabou, agora quero começar do zero, uma vida nova”.

Hipnose em igreja protestante

“Desta vez, ninguém me contou. Eu estava lá no templo, quando um pastor disse que gostaria de fazer um sermão diferente naquela noite, um sermão de surpresas, conforme ele próprio havia anunciado na manhã de sábado”.

“Aliás, nunca estudei profundamente sobre as técnicas da hipnose, mas já vi e li o suficiente para concluir que, desde o sábado pela manhã, vínhamos sendo condicionados a acatar ordens do pregador sem questioná-las”.

Gesto combinado

Isso aconteceu de modo tão simples e aparentemente inocente quanto ao que se vê nos shows de hipnose de palco, que programas de tevê, às vezes, mostram. O hipnotizador associa uma ordem a um gesto e, a partir dali, todos os que forem suscetíveis ao seu comando farão sempre o que estiver combinado.

No caso do pastor, o gesto/ordem combinado foi apontar o microfone para a congregação para que ela dissesse “Amém!” Toda vez que isso acontecesse.

Note que a audição crítica da mensagem que geraria a concordância intelectual ou espiritual com que fosse dita por ele deixou de ter qualquer importância. Dali para frente, ainda que não houvessem avaliado e concordado quase todos diriam “Amém!” A qualquer afirmação que ele fizesse, desde que lhes apontasse o microfone.

O “Amém!” Coletivo, repetido por diversas vezes, inclusive em momentos inadequados, como após a frase “e Deus, como vingança, matou a todos os primogênitos do Egito”, era a evidência de que quase toda a congregação ali presente estava sob seu controle. Não é à toa que este pastor se refere a seu público como “a MINHA igreja”.

Mais controle

No domingo à noite, pouco antes do sermão hipnótico, houve novo exercício de controle mental através de gestos. A submissão ao seu comando já havia se enraizado a ponto de nem ser necessário que ele apontasse o microfone para a congregação. Apenas o indicador era o suficiente. E todos diziam “Amém!” Efusivamente.

Trabalhou então, mais uma vez, a emoção dos presentes. Seu apelo/comando foi direcionado a grupos em situação psicológica extrema.

“Quem estiver muito triste, por problemas pessoais, financeiros e de saúde, mas só quem estiver muito triste, porque as coisas não vão bem em casa, a família está endividada, enfrenta problemas de saúde… Venha aqui para frente… Quem estiver muito alegre, por alguma razão especial, um segredo de família, uma vitória particular, uma bênção especial… Venha aqui para frente, para perto de mim… Para orar e dar seu testemunho…”

Em seguida, olhou para cima como um visionário e, como se tivesse intimidade com os seres celestes, disse: “Veja, Gabriel, vejam, anjos aqui presentes, quantas pessoas vieram…”

Setenta por cento dos presentes devem ter se levantado. Mas o pastor nem orou por eles, nem permitiu que eles e os demais orassem… Apenas ordenava: “Conte a Deus os seus problemas… Peça-lhe sua ajuda… Ore por aqueles que ainda não conhecem a Jesus… Pense naqueles que estão doentes…” Sem permitir que qualquer um, de fato, se concentrasse e pudesse orar com tranqüilidade a Deus.

Não fui à frente, mas do lugar em que estava tentei orar e acabei desistindo. Apenas pedi perdão a Deus por não conseguir orar naquela situação. O pastor não parava de falar! Mas a voz não incomodava tanto porque o tom adotado era suave e adocicado, bem apropriado para induzir ao sono antes da sessão hipnótica, com a ajuda da música.

“Viagens”

Começou o sermão, fazendo referência ao filme “De Volta para o Futuro”, cujos personagens podiam supostamente viajar no tempo, retornando ao passado para corrigir em sua própria vida e na vida de antepassados problemas que lhes prejudicariam no futuro.

Fez então uma aplicação espiritual, dizendo que realmente somos afetados por situações e traumas vividos por nossos avós e pais e mesmo por problemas que nós próprios vivemos na infância, mas que nem todos têm 120 reais para pagar uma consulta com psicólogos ou tempo e disposição para vir a todos os cultos da igreja e tentar corrigir isso com a ajuda de Deus. Faltou pouco para defender mais explicitamente uma terapia de regressão à vida uterina, ou mesmo “vidas passadas”.

Para dar alguma sustentação bíblica ao que diria dali para frente, recorreu a (2 Coríntios 12, 2-4) “Conheço um homem em Cristo que, há catorze anos, foi arrebatado até ao terceiro céu (se no corpo ou fora do corpo, não sei, Deus o sabe) e sei que o tal homem (se no corpo ou fora do corpo, não sei, Deus o sabe) foi arrebatado ao paraíso e ouviu palavras inefáveis, as quais não é lícito ao homem referir.”

Citou também o caso de Enoque: “Enoque viveu sessenta e cinco anos e gerou a Matusalém. Andou Enoque com Deus; e, depois que gerou a Matusalém, viveu trezentos anos; e teve filhos e filhas. Todos os dias de Enoque foram trezentos e sessenta e cinco anos. Andou Enoque com Deus e já não era, porque Deus o tomou para si.”

Foi sobre essas duas passagens que fundamentou a possibilidade de a congregação “viajar” com ele até o lugar da habitação de Deus. “Se Paulo pôde, por que você também não pode? Se Enoque está lá, por que não irmos também até lá? Moisés já foi também. Foi à base de sua argumentação”.

Trindade ao vivo

A grande decepção com este pastor aconteceu no momento em que ele pediu para que a maior parte das luzes do templo fosse apagada, para que ficássemos numa penumbra, fechássemos os olhos e o acompanhássemos numa viagem mental.

Sua ousadia na utilização de métodos de controle da mente para a apresentação de uma suposta mensagem bíblica deixou-me indignado. Não me lembro de cada palavra exatamente, mas foi mais ou menos assim:

“Feche os olhos, agora… Feche e não abra… Obedeça àquilo que vou lhe dizer… Não questione… Eu sou o seu médico, agora… Ninguém questiona o que o médico diz, porque ele só quer o melhor pra você… Feche os olhos para que possa guiar você… Não abra… Não estrague a brincadeira… Nós vamos fazer de conta… Vamos imaginar que este templo se transformou numa nave, numa máquina voadora… Estamos dentro dela… Eu sou o comandante e vou lhe dizer tudo que está acontecendo… Estamos levantando vôo… Vuuuuuuuch… Estamos deixando a Terra… Vuuuuuuuuch… À direita e à esquerda, vemos estrelas e planetas multicoloridos, luas, cometas, sóis… Já deixamos a Via Làctea… Ei, ali está a constelação do Órion, um buraco negro… Vamos passar por ele e… Que coisa incrível! Que lugar brilhante! É tudo tão ma-ra-vi-lho-so…”

Bem, nesse ritmo, este pastor conduziu sua igreja até o Paraíso e à sala do trono de Deus… A pedido do pastor da igreja, obviamente, fez questão de descrever a cada uma das pessoas da trindade, a quem ele alegava estar vendo: Jesus, o Príncipe, de cabelos longos e barba, com uma coroa de ouro sobre a cabeça; o Pai, a quem ninguém jamais viu porque não poderia suportar Sua presença gloriosa, e o Espírito Santo, um homem alto forte, também de barba espessa e com uma capa vermelha!

Curiosamente, o Espírito Santo deste pastor tinha nas mãos umas fichas, com as anotações dos pecados de cada um dos participantes da viagem, as quais apresentavam ao Pai e a Jesus Cristo. E os três lamentavam a situação dos “invasores” da sala do trono de Deus! Nesse momento, eu, minha esposa e minha irmã, deixamos o templo e fomos para casa, participar de um ou outro culto, no qual pedimos misericórdia a Deus, por sua igreja, seus líderes e seus membros.

Fonte: Cultos protestantes lavagem cerebral e hipnose, 3ª edição – 2017 – Editora Com Deus – São José dos Campos – SP

Facebook Comments

Livros recomendados

O Canto do Violino – E Outros Ensaios InéditosLaques – Eutífron – vol. 6Eu