Autor: Alessandro Lima*

“Nenhuma profecia da Escritura é de particular interpretação.” (2Pd 1,21)

A Bíblia ainda é o livro mais vendido do mundo. Muitos se dedicam ao estudo da Bíblia. Mas será que todos podem entender a Bíblia?

Os cristãos protestantes são famosos pela seu eslogan “Leia a Bíblia”. Chegam até mesmo recomedar a sua leitura, como algo necessário para a salvação. Mas será que a Bíblia pode ser lida por todos?

Se a Bíblia é um livro, por que não pode ser lida?

A Bíblia deve ser lida e ensinada por pessoas autorizadas, pois a própria Bíblia nos ensina que: “A Glória de Deus está em encobrir a palavra e a glória dos Reis é investigar o discurso” (Prov 25,2).

Por que Deus deseja encobrir a palavra? Por que o Senhor a envolveu em mistério? Porque a palavra de Deus embora deve ser comunicada a todos, não deve ser comunicada a qualquer hora, para que alguns por seus pecados e dureza de coração, não venham a profanarem. Estes não devem receber a revelação senão veladamente, para que a palavra do Senhor, não lhes sejam motivo para agravar ainda mais sua culpa.

Sobre isto os apóstolos perguntaram a Nosso Senhor Jesus Cristo: “Por que razão lhes falas por meio de parábolas? Ele, respondendo, disse-lhes: ‘Porque a vós é concedido conhecer os mistérios do Reino dos céus, mas a eles não lhes é concedido. […] Por isto lhes falo em parábolas, porque, vendo, não vêem, e ouvindo, não ouvem, nem entendem” (Mt 13,10-13).

Por esta razão o Senhor instituiu um Magistério que deve ensinar a Verdade ao povo. Desde os tempos antigos, a Sagrada Escritura era lida e ensinada por este Magistério; ao povo cabia apenas ouvir e aprender.

Móisés, os sacerdotes e anciãos, que iniciaram este Magistério legítimo instituído por Deus, liam e ensinavam as Escrituras ao povo, que os ouvia: “Escreveu, pois, Moisés, esta lei, e a entregou aos sacerdotes filhos de Levi, que levavam a arca da Aliança do Senhor, e a todos os anciãos de Israel. E ordenou-lhes, dizendo: ‘todos os sete, no ano da remissão, na solenidade dos tabernáculos, quando todos os filhos de Israel se juntarem para aparecer diante do Senhor, teu Deus, no lugar que o Senhor tiver escolhido, LERÁS as palavras desta lei diante do povo, o qual OUVIRÁ, estando congregado todo o povo num mesmo lugar, tanto homens como mulheres, meninos e estrangeiros, que estão dentro de tuas portas, para que OUVINDO, aprendam e temam o Senhor vosso Deus, e guardem e cumpram todas as palavras desta lei; e para que também seus filhos, que agora ignoram, as possam OUVIR, e temam o Senhor seu Deus durante todos os dias que viverem na terra, da qual, passando o Jordão, ides tomar posse” (Deut 31,9-13).

Josué que sucedeu Moisés neste Magistério, também lia e ensinava as Escrituras ao povo, que o ouvia: “E primeiramente Josué abençoou o povo de Israel. Depois disso, LEU todas as palavras da benção e da maldição e tudo o que estava escrito no livro da lei” (Jos 8,34).

Os Reis de Israel e os profetas que herdaram este Magistério, também liam e ensinavam as Escrituras ao povo, que somente ouvia: “e estando eles [o povo] a OUVIR na casa do Senhor, o Rei LEU todas as palavras do livro” (2 Cr 34,30), e ainda: “O Sacerdote Esdras levou pois, a lei para diante da multidão dos homens e das mulheres, e de todos os que podiam entender, no primeiro dia do sétimo mês. LEU naquele livro claramente, no meio da praça que fica diante da porta das águas, desde manhã até o meio dia, na presença dos homens, das mulheres e dos sábios. Todo o povo tinha os OUVIDOS atentos” (Ne 8,2-3).

Note que no Sermão da Montanha, Nosso Senhor Jesus Cristo declara muitas vezes: “Ouviste o que foi dito aos antigos” (Mt 5,21), o que mais uma vez confirma o costume judaico de aprender a doutrina através de um Magistério.

No tempo de Cristo, este Magistério se cumpria nas pessoas dos Escribas, Fariseus e Doutores da Lei, que ensivam ao povo aos sábados nas sinagogas. Isto pode ser confirmado nas próprias palavras de Nosso Senhor: “Na cadeira de Moisés estão assentados os escribas e fariseus. Observai, pois, tudo o que vos disserem;” (Mt 23,2-3).

Com a morte e ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo, este Magistério passou a ser cumprido nas pessoas dos apóstolos, isto é na Igreja que Ele fundou.

É impossível compreender a Bíblia, sem que o Magistério instituído por Deus a ensine. Além dos testenhumos bíblicos já relatados aqui, temos ainda muitos outros exemplos como o encontro do Apóstolo Filipe com o mordomo da rainha de Candance: “Correndo Filipe, ouviu que [o mordomo] lia o Profeta Isaías e disse: ‘Compreendes o que lê? Ele disse: ‘Como poderei entender, se não houver alguém que me explique?” (At 8,30-31).

O Magistério verdadeiro tem por princípio o Verbo, isto é, a Palavra de Deus (Jo 1,1). Cabe aos que crêem, que formam o povo de Deus, ouvir esta palavra, pois “a fé vem pelo ouvido“, pelo olho vem a letra que mata (2 Cor 3,6).

Deste modo, fica claro que não cabia ao povo ler as Escrituras, mas ouvir a doutrina ensinada pelo Magistério; pois “Assim como o espinheiro está na mão do bêbado, assim está a parábola na boca dos ignorantes” (Prov 26,9).

São Pedro ensinando isto escreveu “em todas as suas epístolas [de Paulo], entre as quais há pontos difíceis de entender, que os indoutos e inconstantes torcem, e igualmente as outras Escrituras, para sua própria perdição” (2 Pd 3,16).

Autor: Alessandro Lima *.
* O autor é arquiteto de software, professor, escritor, articulista e fundador do Apostolado Veritatis Splendor.

 

* O autor é arquiteto de software, professor, escritor, articulista e fundador do Apostolado Veritatis Splendor.

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