Espaço do Leitor

Leitor católico pede ajuda para responder a um amigo protestante

Não sei se o que escrevo pode servir para um novo artigo e também não se refere a uma critica. Sobre o caso da menina de 9 anos que engravidou de gêmeos. É que conversando com um protestante sobre o assunto, aliás ele não foi contra a excomunhão do Bispo, ele levantou esta questão em relação ao padrasto, dizendo que se o Bispo tivesse conhecimento da Bíblia teria excomungado o mesmo também, citando os dez mandamentos onde diz – não adulterarás -. Tentei explicar que o mesmo se pronunciou em relação ao aborto e que obviamente ele sabia do grave erro do padrasto. Este homem cometeu um grande pecado, mas a questão do aborto era pior, pois se tratava de vidas humanas. Este meu irmão em Cristo aproveitando o assunto, mencionou também um acontecido com o padre Marcelo Rossi, quando indagado sobre homossexualismo, o mesmo respondeu que se tratava de uma doença sendo com isso processado. Ele disse que o Padre não tinha conhecimento da Bíblia e que bastava ele citar uma passagem bíblica a este respeito, sendo assim não teriam como acusá-lo de preconceito. Bem o que ele disse diante disto tudo e que não utilizamos a palavra de Deus como ferramenta para todas as nossas respostas e que eles vivem segundo a palavra de Deus e nós não. Da mesma forma mostrei a ele que estava errado. Mesmo assim gostaria da opinião de vocês e pediria uma ajuda quando formos indagados a respeito desses assuntos. Nossos irmãos separados infelizmente tentam de todas as formas nos atacar, quando não é uma coisa é outra, e penso que devemos estar bem para isto tudo e fico feliz que existam sites como este que nos dá informações importantes para vivermos melhor a nossa fé. A Paz de Cristo e o amor de Maria (Luiz Carlos).

Prezado Luis Carlos,

A paz de Nosso Senhor Jesus Cristo!

Agradecemos pela confiança depositada em nosso apostolado.

Responderei à sua mensagem nos tópicos abaixo:

1) A primeira afirmação do seu amigo protestante, dizendo que se D. José Cardoso Sobrinho tivesse “conhecimento da Bíblia” teria excomungado também o padrasto da menina cujos filhos foram abortados, é mais uma triste demonstração de ignorância. É impressionante como há pessoas que se apressam em emitir juízos sobre assuntos que não conhecem. No caso em questão, o Bispo não excomungou ninguém, ele apenas tornou pública uma pena que é aplicada automaticamente a quem se envolve na realização de um aborto. Como já dissemos em outro artigo:

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Ora, o Arcebispo de Olinda e Recife não excomungou ninguém! Ele apenas tornou pública a pena prevista pelo Código de Direito Canônico vigente para aqueles envolvidos na prática do aborto:

“Cân. 1398 – Quem provoca o aborto, seguindo-se o efeito, incorre em excomunhão latae sententiae.”

Em outras palavras, quem colabora na realização de um aborto está automaticamente excomungado, não sendo necessário nenhum processo prévio e nem que alguma autoridade eclesiástica profira a sentença. Essa é a lei da Igreja, e Dom José Sobrinho não fez nada além de torná-la pública. [1]

Como se vê, não se trata de conhecimento ou desconhecimento da Bíblia, mas sim do que dispõe o Código de Direito Canônico. Ademais, o padrasto da menina, acusado de estuprá-la, não foi excomungado porque o Código de Direito Canônico não prescreve a pena de excomunhão para quem pratica o estupro, embora se trate, obviamente, de um pecado gravíssimo e mortal.

2) Com relação à declaração do Pe. Marcelo Rossi de que o homossexualismo é “uma doença”, prefiro não entrar no mérito da questão (isto é, no aspecto psicopatológico). Pode-se concordar com o Pe. Marcelo ou não, mas o fato é que o Catecismo da Igreja Católica, no n. 2357, se refere aos atos homossexuais com as seguintes palavras: “intrinsecamente desordenados”, “contrários à lei natural”, “fecham o ato sexual ao dom da vida”, “não procedem de uma complementaridade afetiva e sexual e verdadeira”, e “em caso algum podem ser aprovados”. Nesse sentido, é importante observar que mesmo que o Pe. Marcelo não tivesse se referido ao homossexualismo como uma “doença”, todos os cristãos que, em consonância com a Escritura Sagrada, o consenso da cristandade e a bimilenar teologia cristã, reprovam o comportamento homossexual, correm o risco de ser processados, visto que, para os militantes e simpatizantes do ativismo homossexual, toda e qualquer crítica à homossexualidade deve ser reprimida, inclusive mediante legislações coercitivas e punitivas, se necessário [2]. Portanto, aqui também não se trata de uma questão de (des)conhecimento bíblico. Aliás, o simples ato de citar passagens bíblicas que reprovam o homossexualismo pode ser visto, pelos ativistas homossexuais, como uma forma de “preconceito” [3].

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3) Sobre a acusação de que “[nós, católicos,] não utilizamos a palavra de Deus como ferramenta para todas as nossas respostas e que eles [protestantes] vivem segundo a palavra de Deus e nós [católicos] não”, trata-se apenas de uma velha e surrada balela protestante. A fé católica está profundamente enraizada na Escritura Sagrada. Tanto é assim que, por exemplo, a Igreja Católica preservou o primado petrino (cf. Mt 16,15-19 e Jo 21,15-17), ao contrário dos protestantes, os quais, embora digam que vivem “segundo a Palavra de Deus”, desprezam a autoridade do legítimo sucessor do Apóstolo S. Pedro, autoridade essa que está claramente fundamentada na Bíblia. O que os protestantes não conseguem (ou não querem) entender é que a Bíblia não apareceu “pronta”, como que “caída do céu”. A Escritura Sagrada não “se auto-instituiu”, ou seja, não foi a Bíblia, sozinha, que definiu o seu próprio cânon (lista dos livros sagrados). Ao contrário, foi a Igreja, com a autoridade que lhe foi outorgada por Seu Fundador, Nosso Senhor Jesus Cristo, quem definiu os livros que iriam compor a Escritura Sagrada. A Bíblia é filha da Igreja, e não o contrário, e isso tanto histórica quanto logicamente falando [4]. Assim sendo, cabe à Igreja Católica, e tão-somente a ela, e legítima interpretação da Sagrada Escritura, assim como a preservação e o ensino da Revelação cristã, contida não somente na Bíblia, mas também na Sagrada Tradição.

4) É verdade que “nossos irmãos separados infelizmente tentam de todas as formas nos atacar”, o que é mesmo uma lástima. Muitos protestantes agem dessa forma com a sincera preocupação de “corrigir” o que consideram “erros” da doutrina católica. Acham que estamos correndo sério risco de irmos para o inferno por não seguirmos somente a Escritura. Outros, porém, atacam-nos como uma tentativa de auto-afirmação, como se quisessem convencer-se a si próprios de que estão com a razão. A verdade é que a grande maioria dos protestantes não dispõe de conhecimentos básicos para uma correta compreensão da fé católica (vale dizer, da fé cristã). E entre os protestantes mais cultos e bem-informados, infelizmente impera a obstinação, ou seja, a teimosia em se aferrar a pressupostos teológicos que não têm consistência lógica, nem histórica, nem bíblica. Seja como for, cabe a nós seguir o ensinamento de São Pedro:

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“Estai sempre prontos a responder para vossa defesa a todo aquele que vos pedir a razão de vossa esperança, mas fazei-o com suavidade e respeito.” (1Pd 3,15)

Na esperança de lhe ter ajudado, despeço-me desejando-lhe graça e paz da parte de Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo.

Fraternalmente,
Marcos M. Grillo

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NOTAS:
[1] GRILLO, Marcos Monteiro. Apostolado Veritatis Splendor: POR QUE A IGREJA CATÓLICA TEM SIDO TÃO DURAMENTE ATACADA?. Disponível em http://www.veritatis.com.br/article/5666. Desde 27/03/2009. * [2] A esse respeito, ver GRILLO, Marcos Monteiro. Apostolado Veritatis Splendor: ARTICULISTA DA VEJA VOLTA A MANIFESTAR DESCONHECIMENTO, ALÉM DO SEU JÁ NOTÓRIO ANTICRISTIANISMO. Disponível em http://www.veritatis.com.br/article/5340. Desde 30/06/2008. * [3] Ver “Entidade evangélica espalha outdoors contrários a homossexuais na Paraíba” (Folha Online, 20/06/2007) e “Entidade evangélica volta a fazer campanha contra gays na Paraíba” (Folha Online, 22/11/2007). * [4] Sobre esse assunto vale a pena ler o livro “O Cânon Bíblico – A Origem da Lista dos Livros Sagrados”, do prof. Alessandro Lima, diretor do Apostolado Veritatis Splendor.


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