Espaço do Leitor

Leitor pede informações acerca da igreja positivista

– Vi um link na página principal do site Veritatis Splendor, da Igreja Positivista do Brasil. Gostaria de saber o que é essa Igreja e o que tem a ver com o catolicismo? Marcelo

Caríssimo Marcelo, salve Maria SS!!!

Antes de responder diretamente à sua pergunta, devo dar um esclarecimento mais geral ao tema como introdução.

O Positivismo é uma ideologia elaborada por Auguste Comte (1798-1857), com uma profunda inspiração em Clotilde de Vaux (sua “musa”). 1845, o “ano incomparável”, foi o ano em que o inicia sua relação com Clotilde de Vaux o fez referir-se a um primeiro e segundo períodos da sua existência.

O primeiro período ficou assinalado pelo Cours de Philosophie Positive, 6 vols., 1830-1842, obra do teórico do positivismo e fundador da sociologia. O segundo período trouxe a “religião da humanidade” noSystème de Politique Positive ou Traité de Sociologie instituant la Religion de l?Humanité, 3 vols., 1851-54, obra do fundador e sumo sacerdote da nova religião.

Comte, “filósofo”, “sociólogo”, “cientista”, “reformador social” e doublé de messias é o idealizador dessa doutrina e fundador dessa escola.

O Positivismo nasceu como uma reação à filosofia romântica especulativa do século XIX, mas foi o seu par-binado, seu duplo. Inclui o movimento positivista correntes das mais diversas; utilitarismo, biologismo, pragmatismo, sensualismo, materialismo etc, que lhe são afins, o que torna difícil precisar o seu sentido.

Se atentarmos aos seus elementos mais importantes, constitui ele uma teoria do saber, que se nega a admitir outra realidade que não seja a dos fatos e a investigar outra coisa que não sejam as relações entre os fatos. Manifesta o positivismo uma aversão sem limites à Metafísica. Repele o saber metafísico, o conhecimento a priori, a intuição direta do inteligível e a crítica gnosiológica. Hostiliza o positivismo todo o sistema, toda a construção e dedução, e reduz a filosofia à ciência. Embora distinto deste positivismo, mas vinculado a ele nas teses essenciais, temos o chamado neo-positivismo, que se manifestou, sobretudo, entre os cientistas do século passado destacando-se entre eles o tal “Círculo de Viena” e, em particular, Hans Reichenbach, Moritz Schlick etc. Outras manifestações neopositivistas se apresentam no pensamento ocidental, que negam também a metafísica e ampliam o empirismo, e tendem para a construção de uma ciência cega e surda à metafísica.

Como falei, o movimento radical de oposição ao romantismo, que se arrogava “científico, racional; imanente e empírico”, foi outra radicalização oposta e de sinal contrário ao romantismo; veja a Proclamação de Comte em 1851 da sua “Religião da Humanidade”: “Em nome do passado e do futuro, os servos teóricos e os servos práticos da humanidade assumem adequadamente a orientação geral dos assuntos terrenos em ordem a construir, enfim, a verdadeira providência moral, intelectual e material; excluem irrevogavelmente da supremacia política todos os diversos escravos de deus, católicos, protestantes ou teístas, dado que são retrógrados e perturbadores”. (Cf. Système, vol.4).

A divinização da mulher e a paródia ao Cristianismo: A relação com Clotilde de Vaux poderá não ter influenciado o desenvolvimento das idéias de Comte mas afetou decerto a sua vie sentimentale, como se depreende das orações diárias. Lemos na Prière du Matin: “Apenas a ti, minha santa Clotilde, estou reconhecido por não sair desta vida sem ter experimentado as melhores emoções da natureza humana. Um ano incomparável fez surgir espontaneamente o único amor, puro e profundo, que me era destinado. A excelência do ser adorado permite-me, na maturidade, mais favorecida do que a minha juventude, vislumbrar em toda a sua plenitude a verdadeira felicidade humana. Vivre pour autrui” (Testament, 2º ed., pp.81 e ss.) “Para me tornar um filósofo perfeito, eu precisava de uma paixão, profunda e pura, que me faria apreciar a parte afetiva da natureza humana”, escreveu Comte na Commémoration Générale,. “Esta evolução é ainda mais indispensável para mim hoje, do que oito ou dez anos atrás, foi o surto decisivo dos meus gostos estéticos”. A Prière du Soir prossegue esta reflexão: “Para mim, acabou a idade das paixões privadas. A partir de agora dedicar-me-ei exclusivamente à paixão eminente que, desde a adolescência, me fez consagrar a minha vida ao serviço fundamental da humanidade. A preponderância sistemática do amor universal, emanando gradualmente da minha filosofia, não me seria suficientemente familiar sem ti, apesar da feliz preparação que resultou do surto espontâneo das minhas preferências estéticas”. A transformação da vida afetiva de Comte em 1845 acrescentou o elemento concreto e existencial da fé a uma doutrina intelectual, fazendo desprender-se uma religiosidade que merece ser estudada. Clotilde é incorporada “em todos os modos da sua existência”. O amor, para o qual Comte inventou o nome de altruismo, não é um amor dei que oriente a consciência para a realidade transcendente. O lugar de Deus é ocupado por entidades sociais (família, nação, e humanidade) e pela mulher como princípio integrador. A mulher em geral, e Clotilde em particular, tornou-se o poder unificante da alma humana : donde que o culto de Clotilde seja parte essencial. Entre as Orações, encontramos À genoux devant l?autel recouvert (ou seja, a cadeira vermelha) uma litania em que a nova virgem-mãe recebe o atributo cristão Amem te plus quam me, nec me nisi propter te!: (A mon éternelle compagne) Amem te plus quam me, nec me nisi propter te! (A l?Humanité dans son temple, devant son grand autel) Amem te plus quam me, nec me nisi propter te! (A ma noble patronne, comme personifiant l?Humanité) Vergine-madre, Figlia del tuo Figlio, Amem te plus quam me, nec me nisi propter te! Tre dolci nome ha? in te raccolti Sposa, madre e figliuola! (Petrarca).

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A religião da humanidade, a caricatura da Igreja e a nova contagem do tempo: A intuição comteana e a fundação da religião da humanidade deriva do seu pensamento de Bacon e Descartes e menciona repetidamente Condorcet. Em inúmeras passagens refere que a tomada da Bastilha (Revolução Francesa) fôra o grande acontecimento da nova era, o início da era positiva provisória que antecede o reino positivo final. Aguarda o ano de 1889 em que se irá perfazer o siècle exceptionelle, o equivalente histórico de 1855, l?annèe sans pareille, ao nível pessoal. O século abarca três gerações e a terceira verá a transição para um novo reino. O ano da fundação foi fixado após duas gerações de 33 anos a contar de 1789 e um ano após o acabamento do Système. Acabada a transição do governo, a República Ocidental passará de provisória para definitiva em 1855. Comte nunca teve pejo em se atribuir um lugar na história da humanidade. Como autor do Cours via-se como novo Aristóteles, como autor do Système, era S.Paulo, e as relações com Clotilde faziam-no o novo Dante. A “era provisória” não surpreende muito. É o recomeço do calendário revolucionário, agora iniciado em 1789. O que surpreende é a fixação de 1855. Alguém arroga-se o direito de substituir Cristo com figura epocal a dividir duas épocas e vai mesmo mais longe. O Caléndrier comemora os grandes homens que pertencem à Préparation Humane que conduz à era positiva. Zaratustra, Buda, Confúcio, Moisés, Abraão, S. Paulo, Maomé têm lá o seu lugar: só Jesus é excluído da comemoração. E, contudo, inclui evangelistas, pais da Igreja e santos medievais e, entre os livros positivistas contam-se a Bíblia, Civitas Dei, Divina Commedia, Imitatio Christi. O cristianismo como fase sociológica na história da humanidade não é excluído; a rejeição de Jesus é um assunto pessoal. § 2.2 O Grand-Être e a ficção de Cristo: Este problema é crucial para situar a política de Comte como o cume de um processo que passa pela revolução francesa. A pessoa e a obra de Comte são a primeira criação deliberada de um deus sociológico que tem de rejeitar o Deus que incarnou. A linguagem simbólica de profetas como Maomé, que falam em nome de Deus, pode ser sociologicamente interpretada. Mas o Deus que se fez carne tem uma realidade histórica incontornável. Assim, o conflito entre o Grand-Être e Cristo é uma luta entre dois deuses históricos. A realidade de um deus transcendental tem de permanecer na sua transcendência ,a fim de que a fé seja interpretada como ilusão humana. Um Deus que caminhou na terra é inadmissível. Comte tratou várias vezes este conflito. No vol. I do Système, compara o Grand-Être, com o que presume ser a noção cristã de Deus, “contraditória e consequentemente apenas temporária”. A ideia de um deus omnipotente é declarada incompatível com os atributos da infinita inteligência porque as “nossas verdadeiras meditações mais não são do que o prolongamento das nossas observações”. Só pensamos quando a observação é insuficiente. Se estivéssemos num lugar ótimo para conhecer, bastaria a inspeção, não precisaríamos da inteligência. Donde que a omnipotência exclua a omnisciência. A incompatibilidade com a infinita bondade é ainda mais evidente. Todos os nossos planos se referem a obstáculos, a que nos adaptamos ou que removemos. Os planos de um ser omnipotente apenas poderiam ser um capricho, porque a sabedoria é sempre uma submissão à necessidade externa e a descoberta de meios. A argumentação de Comte é tão insolentemente superficial e tão inaceitavelmente estúpida, que o leitor fará bem em ver pelos seus olhos.

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(Système, 1, pp.408 e ss.) “O Grand-Être não tem estes defeitos: é a humanidade na sua evolução. A supremacia do Grand-Être depende totalmente do conhecimento e da vontade humanas. A divindade coincide com a extensão do conhecimento sociológico. Não precisamos de fantasias sobre outro mundo e podemos ficar satisfeitos com o que é nosso conhecimento. Esta “restriction de pouvoir” é fonte da superioridade humana perante Deus. O Grand-Être coexiste em harmonia com os homens que governa. A sua preponderância revela-se na relação harmoniosa, mesmo com os mais orgulhosos; todos “Dele” dependem física e moralmente. Tal superioridade intelectual e moral é ainda maior porque a humanidade consiste em elementos que se associam. O Grand-Être assimila os seres humanos e exclui os que seriam um fardo para a espécie. É composto pelos mortos, os únicos que podemos julgar. Os vivos são admitidos à experiência e só a vida provará se são dignos de permanência subjectiva. O dogma positivista fornece a “indispensável combinação de homogeneidade e preponderância” que o dogma católico tentava em vão alcançar “mediante a insuficiente ficção de Cristo”. (Système, 1, pp. 409-411).

A fantasia da “ficção de Cristo” prossegue no vol. 2 do Système: “Ce divin médiateur” correspondeu a uma fase ultrapassada da tendência humana de chamar a si a suprema providência. No feiticismo, a constituição humana era projetada para o mundo exterior. No politeismo, as forças da natureza foram idealizadas à medida humana. O catolicismo foi mais longe: concentrou os atributos numa unidade suprema em que se combinam as duas naturezas. A fase final desta evolução está próxima e deverá trazer a completa eliminação do ser fictício. Então “o ser real terá adquirido grandeza e consistência suficientes para substituir inteiramente o seu necessário antecessor”.

Estes dados essenciais da explicitation de Comte revelam a motivação religiosa, a ansiedade e os medos. Comte tem medo da omnipotência, omnisciência e bondade de Deus. Deseja um Deus restrito, que cresce historicamente e que consiste de indivíduos. Mesmo assim a imponência do Grand-Être é reduzida pela consciência de que o indivíduo participa do seu poder e substância. O resultado destas várias reduções é um Deus que mais não é que um campo aberto de relações sociais. Outra questão é como efetuar esta redução. Comte interroga-se se poderão existir Grand-Êtres noutros planetas. A resposta é simples: não ponham perguntas parvas. No vol. 1 do Cours advertira que “o princípio fundamental da filosofia positiva é considerar todos os fenómenos submetidos a leis naturais”. É preciso descobrir essas leis, sendo “absolutamente insensato procurar o que se chama causas, sejam primárias ou finais”. O homem positivo só considera fatos e relações de sucessão e semelhança. Se as estabelecer, explica os fenômenos. O problema do espírito e da interpretação metafísica do universo desaparece desde que não se pense nele. A filosofia positiva de Comte é um convite e uma exigência para esquecer a vida do espírito. Mas porque esquece as experiências de fé e graça, contrição e penitência, culpa e redenção? Porque esquece as questões de Leibniz sobre o ser, o nada e o algo? Comte receia sondar para além dos fenômenos e suas leis. Teria de enfrentar o porquê da existência e não mais se poderia esconder na prisão da sua operação meditativa. Uma profunda impotência compele-o a enclausurar-se nos muros dos fenômenos. Esta impotência era acompanhada de uma terrível vontade de poder. Comte não queria deixar a sua prisão, mas queria dominar o mundo exterior: desejos decerto incompatíveis. A sua solução foi enclausurar a humanidade inteira numa prisão. Como a maturação normal do homem não o conduz a tal situação, teve de o mutilar. Quem adquirir a impotência de Comte e reforçar a vontade de poder, estará pronto a entrar na era positiva. O alargamento do processo monádico de meditação encerra a humanidade numa prisão imanente. Uma vez encarcerada, Comte determina quem lhe pertence de fato e quem deve ser atirado para o limbo o esquecimento eterno. Cria as instituições que preservarão o clero comteano das ansiedades de metafísicos incréus. Este tipo de fantasia não é nova. Começou em meados do séc. XVIII com os sonhos carcerários de Helvétius e de Bentham e continuou com Marx, Lenine, Hitler, Stalin, Pol-Pot e apaniguados. O ressentimento ilimitado culmina na abolição de Cristo. O horizonte humano está dentro dos muros dos fatos e leis dos fenômenos. O decurso da história é a evolução da mente monádica. Se existissem deuses, não se lhes permitiria participar na história; de qualquer modo, são apenas ilusões. O cristianismo existiu como um sistema de crenças que corresponde a uma etapa do espírito. Jesus, a encarnação do espírito, não existiu. Cristo é uma invenção, motivo pelo qual o Caléndrier só inclui os criadores do “mito cristão”. A mente humana está a evoluir para liquidar ficções até que a realidade exclusiva da mente humana se torne visível – o que veio a acontecer em 1845, em Comte. A operação parece consistente; mas debaixo da superfície mexem-se os abismos da impotência, do ressentimento, e da vontade de poder. Comte sabia que existia uma realidade extramuros, para além das ficções; por isso mesmo proibe a questão do Porquê. A ficção serve para cortar o questionário humano. São declaradas ilícitas e proibidas todas as perguntas a que as ciências não respondem. Mas as questões permanecem do outro lado do muro dos fenômenos. Atingimos aqui o núcleo da “operação” de Comte: o assassinato de Deus, a questão que ocupou Nietzsche na geração seguinte. A fórmula nietzscheana “Deus está morto” não é apenas uma afirmação sobre o fato histórico de que, numa era de crise, a fé cristã sofre uma atrofia social. Implica ainda que Deus viveu, mas que foi assassinado. Na “operação” de Comte vemos o assassino cometer o crime e instalar-se como sucessor.

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Resumindo: é aquela perversa simbiose entre gênio, invectiva, iniciativa, vontade de poder, ressentimento, idealismo romântico, medo e magalômala demiurgia que, ao fim e ao cabo, não passa de soberba e vã-glória, travestido de “belas intenções”.

Sabemos todos como o Inferno está cheio delas…

Espero ter-lhe respondido a questão à contento.

Nos corações de Jesus, Maria e José;

MMLP

Referências: Eric Voegelin


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