[Leitor autorizou a publicação de seu nome no site] Nome do leitor: Orlando Jr.
Cidade/UF: Amaraji/PE
Religião: Católica

Mensagem
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Caríssimos irmãos do VS,
A Paz de Jesus e o amor de Maria.

Tenho acompanhado em páginas católicas, principalmente aqui no Veritatis, o dano causado tanto por modernistas quanto por tradicionalistas, pelas suas interpretações equivocadas do Concílio Vaticano II e por negarem os esclarecimentos que a Igreja dá sobre o que ela mesma ensinou. Penso se não seria conveniente o Santo Padre Bento XVI se pronunciar dogmaticamente a esse respeito; algo que terminasse com um “…esta é a correta, a única interpretação do CVII e qualquer outra seja anátema.”

Não tenho de forma alguma a pretensão de ensinar “a Missa ao Padre”, mas me parece que se isso ocorresse, os modernistas não poderiam mais ensinar suas heresias como sendo católicos, desviando a muitos; por outro lado, os tradicionalistas que se acham os arautos da ortodoxia, não teriam como negar uma proclamação ex-cathedra. Assim, para ambos, restaria a “volta do filho pródigo” ou a excomunhão. Escolha deles.

Há alguma possibilidade de algo assim acontecer? Será que estou sendo muito radical?

Deus que é Pai, Filho e Espírito Santo os abençoe.

Caríssimo, PAX DOMINI,
A Igreja jamais poderia definir a interpretação de um Concílio Ecumênico como dogma por vários motivos, vamos apresentá-los. Primeiramente, é sempre bom frisar, a Mater Ecclesia parte da premissa básica de que todos os católicos, pastoreados pelos Bispos, os Sucessores dos Apóstolos, seguem piedosamente os ensinamentos do Magistério. Ou seja, esse pressuposto básico é essencial para a correta hermenêutica conciliar. Não obstante, o que vemos é justamente o oposto, ou seja, um rompimento formal com a Igreja pré-Vaticano II, como se o Concílio tivesse não só defendido de forma concreta o modernismo como rompido institucionalmente com a Igreja que veio antes dele. Claro que tal realidade não existe, até brinco dizendo que nem se Cristo aparecesse em pleno Vaticano II os Padres Conciliares mudariam com tanta radicalidade a doutrina da Igreja como pretendem os modernistas. O que isso quer dizer? A Igreja pré e pós-Concílio é exatamente a mesma, pretender o contrário não é uma possibilidade, mas justamente um atestado de anti-catolicismo. Aqueles que argumentam que o “aggiornamento” foi a exclusão da Tradição e de toda a caminhada histórica da Igreja lançam mão de um arcabouço teológico para interpretar e compreender os textos conciliares, não são sinceros e honestos o suficiente para usar as únicas ferramentas asseguradas pelo Magistério, ou seja, a Escritura, a Tradição e, logicamente, o desenvolvimento doutrinário com os pronunciamentos papais e, principalmente, os outros Concílios Ecumênicos. Assim disse S.S Paulo VI na 8ª Sessão Solene do Concílio Vaticano II:

“A Igreja conforma-se às novas normas dadas pelo Concílio: são normas fiéis, são normas insignes pela novidade duma consciência mais perfeita da comunhão na Igreja, da sua admirável estrutura, da caridade mais ardente que deve unir, ativar e santificar a comunhão hierárquica da Igreja.

É este o período daquele verdadeiro «aggiornamento» preconizado pelo nosso predecessor, de venerada memória, João XXIII. A julgar pelas suas intenções, ele não queria certamente dar a esta palavra o significado que alguns tentaram dar-lhe, como se fosse lícito considerar tudo na Igreja segundo os princípios do relativismo e o espírito do mundo: dogmas, leis, instituições, tradições; ele, com efeito, de temperamento austero e firme, tinha diante dos olhos a estabilidade doutrinal e estrutural da Igreja, a ponto de nela basear o seu pensamento e a sua atividade. De futuro, portanto, usaremos a palavra «aggiornamento» para significar a sábia penetração do espírito do Concílio celebrado e a aplicação fiel das normas, feliz e santamente por ele emanadas.”

A interpretação modernista e a hermenêutica rad-trad são próximas. Vamos pensar num grande círculo, na direta se encontra a ótica relativista e liberal, na esquerda a ótica tradicional e conservadora. O modernismo e o radical-tradicionalismo são os últimos na cadeia, se chocando na união final da roda. De forma prática o que isso representa? Os rad-trads necessitam do modernismo para manter e difundir a visão apocalíptica sobre a Igreja e a crise pós-conciliar – que, de fato, existe, mas não pode ser colocada sobre a responsabilidade do Vaticano II -, e por quê? A interpretação da realidade eclesial dos falsos tradicionalistas parte do entendimento de que Roma, a Cúria e o Alto Clero são os responsáveis diretos pela perda de fé e a decadência moral e espiritual do Ocidente. Ou seja, é como se o modernismo brotasse do seio do catolicismo. Ora, desde Beato João XXIII até Bento XVI todos os Papas se esforçaram para não só exterminar o erro e impossibilitar o triunfo da heresia – afinal, como muitos rad-trads esquecem ao idealizar um idade pré-conciliar, antes do Vaticano II já havia constantes choques dentro da Igreja – mas também impedir a ascensão da heterodoxia dentro da própria estrutura da Mater Ecclesia. Obviamente S.S João Paulo II e S.S Bento XVI foram os que mais diretamente combateram o relativismo e o modernismo por serem os Papas que vivenciaram a crise de vocações e a desintegração do espírito cristão na Civilização. O que eu quero dizer? O esforço para combater o erro veio, e vinha, de Roma. A Cidade Eterna continuou, como sempre continuará, sendo o farol da ortodoxia e da fidelidade para todo o mundo. Ou seja, o modernismo estava presente no clero, muito enraizado em regiões que foram maciçamente influenciadas por Pastores relativistas em suas mais variadas matizes, como a Teologia da Libertação (TL). O Vigário de Cristo, de forma sapiente, iniciou um combate ao erro de maneira estratégica e brilhante, uma desestruturação do modernismo por meio de lutas internas e silenciosas, não só com o afastamento de teólogos – medidas que mais ganham alarde – mas dando força para novos movimentos que faziam frente a heresia da TL. O resultado e o sucesso são visíveis hoje: o “teelismo” se encontra muito enfraquecido e os bons seminários estão com grande número de seminaristas, enquanto aqueles que adotam o discurso empobrecido da “Heresia da Condenação” vivem severas crises vocacionais. Aqui entra uma curiosidade, a postura da Igreja em relação à difusão do modernismo pode ser compreendida como reflexo do aprendizado com a Reforma Protestante; uma condenação formal e direta aos Bispos heréticos seria a concretização de um grande cisma que levaria milhares de almas que se erram é unicamente por seguir os seus Pastores com confiança.

A hermenêutica modernista não se fez presente no Concílio e, muito menos, recebeu o apoio dos Papas. Não podemos negar que muitos foram os Bispos, e até Cardeais, que se submeteram ao erro, mas a postura do Romano Pontífice continuou firme como uma pedra. Os radicais-tradicionalistas, por sua vez, precisam do modernismo para endossar e justificar seu comportamento desobediente e desleal para com a Igreja. Sem essa hermenêutica heterodoxa, ou melhor, sem criar esse cenário onde o erro se encontra entronado na Cátedra de São Pedro, não há justificativa para posturas tão sectárias e pouco caridosas e humildes.

O abuso não tolhe o uso, já dizia o ditado romano. A existência de uma hermenêutica modernista não desabona a correta interpretação Conciliar. Ela existe e é radicalmente defendida pelo Papa e pelos Cardeais e Bispos que vivem com fidelidade os ensinamentos da Igreja. Não é necessário um pronunciamento dogmático para que se confirme aquilo que já é confirmado para todos os bons católicos que entendem a Igreja e a sua continuidade pautada na Escritura e Tradição. Os que rompem, ou pretendem romper, são os que não se entregam totalmente ao catolicismo, não vivem com honestidade a catolicidade, mas preferem se sustentar no relativismo, no subjetivismo hermenêutico, para remodelar a fé e, ironicamente, impô-la aos homens e mulheres do mundo.

Em Jesus e Maria

Pedro Ravazzano

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