Prezados membros do VS. Sou católico apostólico romano e estou tendo um problema sério, causado por um curso de teologia ministrado aos professores do Instituto Abel, em Niterói. O Instituto Abel é uma instituição católica tradicional, porém, algumas opiniões emitidas por autoridades da Igreja, convidadas a dar as palestras, não são, obrigatoriamente, a visão teológica da instituição. Ocorre que neste curso, um padre católico argumentando de maneira muito convincente, declarou, e minha esposa registrou e concordou (este é meu problema), que, pelo sacrifício salvífico de Jesus Cristo, o inferno se encontra vazio. Todos foram salvos. O que dizer diante disto? Pax Dominus (sic!) (Leandro).

Prezado Leandro,

Pax Domini!

De fato, existem alguns teólogos que, embora creiam na existência do inferno, julgam que ali não há qualquer réprobo. Assim entendido, o inferno seria uma simples hipótese, de modo que todos os homens se salvariam, inclusive aqueles homens que parecem morrer em irredutível obstinação. O inferno, portanto, estaria reservado para “o diabo e seus anjos” (Mateus 25,41).

Nas atas do Concílio Vaticano II encontra-se registrado que um dos padres conciliares pediu para que a Constituição Lumen Gentium, em seu § 49, contivesse a afirmação explícita de que há (=verbo no presente) réprobos no Inferno, para que a condenação ao inferno não parecesse ser uma mera hipótese…

Em resposta, a Comissão Teológica entendeu que tal afirmativa explícita não deveria constar no documento, já que que Jesus, em Mateus 25,46, aponta que os ímpios irão (verbo no futuro) para o inferno (v. Acta Synodalia Sacrosancti Concilii Oecumenici Vaticani II, vol. III, parte VIII, págs. 144/145).

Pois bem. Embora eu, pessoalmente, creia que haja não poucas almas no inferno, o fato é que só Deus pode responder com precisão a essa pergunta…

Isto porque não se pode negar que a Misericórdia infinita de Deus, Pai todo-poderoso, pode oferecer meios ocultos de salvação a todos os homens, de forma que estes podem receber, cedo ou tarde, inclusive em seus últimos instantes de vida, a graça que os solicita à conversão.

Portanto, entendo que a hipótese aventada é possível sim, muito embora seja extremamente otimista em relação ao ser humano; daí que toda idéia radical (não há nenhuma alma no inferno OU não há nenhuma alma no céu) deve ser evitada porque foge ao equilíbrio ou tende ao dualismo, fazendo com que o homem adote uma posição muito otimista ou muito pessimista que, na esmagadora maioria das vezes, não corresponde à mais razoável realidade.

Seja como for, o que importa mesmo é a EXISTÊNCIA do Inferno e a clara afirmação de Jesus em Mat. 25,46, de modo que, na prática, é possível sim ser condenado às penas eternas do Inferno. Tanto isso é verdade que o próprio São Paulo, campeão da fé, era cauteloso o suficiente para temer a sua reprovação eterna:

“Trato duramente o meu corpo e reduzo-o à servidão, a fim de que não aconteça que, tendo proclamado a mensagem aos outros, venha eu mesmo a ser reprovado” (1Coríntios 9,27).

Portanto, “orai e vigiai” (Marcos 14,38), porque “não sabeis nem o dia nem a hora” (Mateus 25,13) e nem se haverá – DE FATO – uma oportunidade última para se arrepender e, assim, alcançar a salvação. Como alerta o Catecismo da Igreja Católica:

“O ensinamento da Igreja afirma a EXISTÊNCIA e a ETERNIDADE do inferno. As almas dos que morrem em estado de PECADO MORTAL descem imediatamente depois da morte aos infernos, onde sofre as penas do inferno, ‘o fogo eterno'” (CIC, § 1034 – grifos meus).

Em resumo: ainda que seja admissível – embora bem pouco provável – que não haja nenhum réprobo hoje no inferno, sempre poderá haver um primeiro, já que o inferno existe!

Assim, “quem tem ouvidos para ouvir, ouça” (Mateus 11,15).

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