Nome do leitor: João Paulo Santana

Cidade/UF: São Paulo/SP

Religião: Católico

Mensagem
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Boa tarde Irmãos! A Paz de Cristo!
Um amigo protestante estava debatendo comigo e, na tentativa de refutar minhas acusações quanto a falta de unidade no meio protestante, me enviou um link do site CACP tentando mostrar que a união doutrinal da Igreja Católica não ocorria nos primeiros séculos. Eles mostram uma lista de Pais da Igreja que eram divergentes em alguns aspectos doutrinários.
Gostaria de saber, por favor, se essas acusações são verdadeiras.

A materia está em: http://www.cacp.org.br/catolicismo/artigo.aspx?lng=PT-BR&article=114&cont=1&menu=2&submenu=5

Batismo Infantil

Tertuliano (contra)

Orígenes (a favor)

Imaculada Conceição de Maria

Anselmo, São Bernardo, papa leão I, papa Gregório, Inocêncio III (contra)

Ireneu, Santo Efrém (a favor)

Virgindade Perpétua de Maria

Tertuliano, Hegesipo, Ireneu, Eusébio (contra)

Jerônimo, Orígenes, Epifânio (a favor)

Pedro é a pedra da Igreja – Mt. 16.18

Dos 77 pais que comentaram este verso apenas 17 opinaram que se refere a Pedro.

Agostinho um dos grandes vultos católicos era contra a interpretação sustentada hoje pelo catolicismo.

Junta-se a isto as questões sobre os livros Apócrifos, o dia da comemoração da páscoa, o celibato, eucaristia e outras doutrinas que eram arduamente defendidas por uns e com o mesmo zelo repudiadas por outros vultos da igreja. O que é sustentado hoje pelo catolicismo como sinal de sua unidade doutrinária eram idéias praticamente esfaceladas nos primeiros séculos da era cristã.

Desde já muito obrigado! E que Deus os conserve sempre nesse apostolado tão importante para edificação dos Católicos.

Paz e Bem!

 

Prezado João, a Santa Paz!

Tenho muita pena de seu amigo protestante que tem o sítio do CACP como referência. Coitado! Em diversas oportunidades mostramos (1) como é o “método científico” deste pseudo-centro de pesquisas beira o caos: eles não citam as fontes, copiam fontes de outros autores, escondem material presente na mesma fonte que contradiz o que eles dizem, além de extraírem conceitos que não se encontram nos textos que consultam. Qualquer estudioso sério, mesmo que seja protestante, rejeitará os artigos daquela entidade.

Para variar, esta turma gosta muito de escrever sobre temas que desconhecem totalmente. Um deles é a doutrina, vida e obra dos Santos Padres da Igreja.

Primeira coisa que se deve distinguir é entre unidade doutrinária e consenso entre todos os fiéis. Jamais houve ou haverá na Igreja consenso entre todos os fiéis. Porém, a Verdade não precisa deste consenso para ser o que é: Verdade. O homem é falho, é desobediente, e a malícia faz sempre que ele adapte o mundo às suas vontades.

Unidade doutrinária diz respeito ao fato de que a Igreja fundada por Cristo, edificada sobre a autoridade de Pedro (cf. Mt 16,16-18) e que é Coluna e Fundamento da Verdade (cf. 1Tm 3,15) possui uma doutrina única e perene (cf. Ef 4,5). Por exemplo, nos tempos apostólicos, nem todos aceitaram as determinações do Concílio de Jerusalém (cf. At 15). Porém não se pode dizer que após o Concílio os apóstolos não entraram em acordo, sobre o que deveria ser crido e ensinado. Sabemos que S. Tiago antes do Concílio, cria que era necessário judaizar. Entretanto, depois do Concílio se submeteu às suas decisões.

E assim aconteceu ao longo da História. Antes que a Igreja determine o que é certo e errado (o poder de “ligar e desligar”), o debate teológico, os tratados são úteis e válidos. Porém, depois que a Igreja se pronuncia, visto que Ele recebeu de Cristo o múnus de ensinar e confirmar os Cristãos, tal especulação é inválida.

Tudo isto é muito diferente da divergência doutrinária no Protestantismo. Como eles não tem o Magistério da Igreja para “ligar e desligar”, cada crente se intitula infalível, pois crê que pelo intermédio do Espírito Santo é capaz de entender a Bíblia. E o que acontece? Milhares de doutrinas protestantes divergentes. Protestantes de todos os “naipes” me escrevem dizendo que “um dia o Espírito Santo vai me mostrar a Verdade”, porém todos eles crêem em coisas bem divergentes. Que Espírito Santo é esse? Poderia o Espírito Santo ensinar coisas divergentes? Mas para o protestante se agarrar a esta mentira é mais que necessário, pois, caso contrário ele terá que crer na Autoridade da Igreja Católica. Vivem no mesmo impasse dos Fariseus, que não creram no Cristo, apesar das Escrituras, dos milagres, enfim de todas as evidências, pois para eles, Jesus não poderia de jeito algum ser o Filho de Deus. Para os protestantes a Igreja Católica de jeito algum pode ser a Igreja Única e Verdadeira, apesar de todas as evidências sejam elas históricas, patrísticas, escriturísticas e atuais darem testemunho da Fé Católica.

Quem no Protestantismo tem autoridade para dirimir divergências? Ninguém! Obvio que Unidade Doutrinária depende de uma Autoridade Visível. Cristo não deixou seu Evangelho ao arbítreo dos homens, nem nos entregou uma Bíblia. Deixou a Igreja e incubiu Pedro de confirmá-la (cf. Lc 22,31-32).

Quanto aos Santos Padres, nem todas as questões foram resolvidas por Cristo ou pelos Apóstolos. Muitas delas dependeram do amadurecimento teológico, do perigo dos novos erros que iam surgindo. O Magistério Divino é Vivo e não estático. No AT, não se encerrou com Moisés, mas foi se aprofundando e ganhando novos horizontes com os juízes, reis e profetas. Também não se estagnou neles, Cristo nos deu novos ensinamentos e uma nova hermenêutica. Também não se encerrou em Cristo, mas continuou com Sua Igreja.

Diante do exposto acima e sabendo que o período Patrístico compreende entre os séculos I e VIII, é normal que S. Ireneu de Lião acreditasse no milenarismo, pois no seu tempo a Igreja não havia encerrado esta questão. Porém não encontraremos após o séc. III Pais da Igreja aderindo a tal confissão, já que neste tempo já havia a Igreja encerrado a questão. Um outro exemplo é a Trindade. Sua doutrina ainda não estava muito bem clara até o Concílio de Nicéia (325 d.C). Eusébio um grande Pai da Igreja, cria no monarquismo, isto é, que as pessoas divinas embora fossem distintas não possuíam igual importância e glória. No monarquismo, o Pai era maior que o Filho e o Filho maior que o Espírito Santo. Porém, depois de Nicéia, não encontraremos mais Pais da Igreja confessando algo diferente da igualdade de glória e importância entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo.

O próprio Protestantismo tomou empréstimo de muitas decisões que a Igreja Católica tomou ao longo de sua história. Graças à Igreja, eles tem uma Bíblia, crêem na dupla natureza de Cristo, na Trindade Santa, que a encarnação de Cristo foi verdadeira e não aparente e etc.

Vamos agora falar sobre as informações que o CACP publicou. Em que texto Tertuliano alega ser contra o batismo infantil? Em quais textos os Pais da Igreja foram contra a Imaculada Conceição?

Quais Pais da Igreja negaram a Autoridade de Pedro em toda a Igreja?

Esse CACP vai jogando informações e não prova o que diz. O mínimo que se espera de uma argumentação é a prova. Aliás, sem a prova, a argumentação perde toda sua força. Mas, há pessoas que infelizmente não possuem o mínimo senso crítico e só porque tal proposição vai de encontro às suas convicções, elas as aceitam.

Espero tê-lo ajudado.

Em Cristo Jesus,

Prof. Alessandro Lima.

Notas

(1) RIBEIRO, Rondinelly. Apostolado Veritatis Splendor: A (verdadeira) história de Alberto Rivera.. Disponível em https://www.veritatis.com.br/article/3508. Desde 30/1/2006.

LIMA, Alessandro. Apostolado Veritatis Splendor: Leitor pergunta se Santo Agostinha era contra a Transubstanciação. Disponível em https://www.veritatis.com.br/article/4302. Desde 1/6/2007.

LIMA, Alessandro. Apostolado Veritatis Splendor: Refutação ao artigo "A Igreja Católica Definiu o Cânon?". Disponível em https://www.veritatis.com.br/article/4307. Desde 11/6/2007.

LIMA Alessandro Lima; SEMEDO Alexandre. Apostolado Veritatis Splendor: Raciocine: Maria, Mãe de do Filho de Deus? Disponível em https://www.veritatis.com.br/article/2448. Desde 1/12/2003.

SEMEDO, Alexandre. Apostolado Veritatis Splendor: Um Tolo Ataque ao Papado. Disponível em https://www.veritatis.com.br/article/3814. Desde 30/5/2005.

Leitura Complementar

RAY, Steve. Apostolado Veritatis Splendor: O consenso unânime dos pais da igreja . Disponível em https://www.veritatis.com.br/article/2804. Desde 14/6/2004.

LIMA, Alessandro Ricardo. Apostolado Veritatis Splendor: Merecem Crédito os Escritos Patrísticos? Disponível em https://www.veritatis.com.br/article/2216. Desde 27/10/2003.

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