Liturgia

Leitor pergunta sobre alguns aspectos da missa de s. pio v dentro da missa de paulo vi

Mui prezado Vitor,

Salve Maria! (que não é uma saudação exclusiva de certos grupos, mas tem origem nas Congregações Marianas)

Em preto e negrito seguem as vossas colocações, e em azul as nossas respostas.

 Li recentemente um artigo postado num site tradicionalista, que expunha a posição dos fiéis (joelhos, pé, sentados) durante a celebração da Missa segundo o Missal dito de S. Pio V. Segundo tal artigo, e pelo que constatei ao assistir à Missa tradicional, é que nas orações ao pé do altar até final do Kyrie, do final do Sanctus até ao «Amen» no fim do Cânone Romano, do Agnus Dei, durante a comunhão, até que o padre reze a antífona da comunhão e na benção final, os fiéis estão de joelhos. Ora, no Missal Paulo VI já não há as «orações ao pé d altar» e a antifona de comunhão não é recitada (segundo o que vejo, tal como a antífona da entrada).

Sim, está correto. Porém um detalhe em vossa suposição está errado: tais antífonas existem no Missal de Paulo VI, mas normalmente são rezadas somente quando não há cantos nestes momentos (em missas sine cantu feriais).

Gostaria de saber:
– se, numa celebração da Santa Missa, segundo o Missal Paulo VI, em que momentos é que os fiéis devem estar de joelhos, de pé e sentados?;

Na “missa nova” a posição padrão é de pé. Senta-se durante as leituras, a homilia, o ofertório e a comunhão do padre. Ajoelha-se desde o Quam oblationem, na epíclese (quando o sacerdote impõe as mãos sobre as oblatas pedindo o Espírito Santo), até a anamnese, que é o final do responsório do Mysterium Fidei (resposta do povo inclusive). Opcionalmente, pode se escolher entre sentar-se ou ajoelhar-se durante a ação de graças após a comunhão.

– de saber se os fiéis devem ser incentivados pelo sacerdote/pároco a estarem de joelhos durante a Oração eucarística, do fim do Agnus Dei até ao final da comunhão e na benção final?; – se devem, os fiéis, comungar de joelhos e na boca, ajoelhando-se na «mesa eucarística» (aquelas varandas que antigamente estavam no fim do presbitério ou noutros locais para os fiéis comungarem)?;

Dever é uma palavra muito forte, indica obrigação. Poder seria mais apropriado nesta construção.

Podem sim. Não só à bênção final, mas em qualquer bênção.A genuflexão da anamnese até o final da doxologia (Per Ipsum, etc)/começo do Pater Noster é opcional.

Alguns países (como os Estados Unidos) obtiveram dispensa da Santa Sé para manter a tradição da genuflexão até a doxologia como sendo a forma obrigatória.

Quanto à comungar de joelhos, mesmo na missa nova isso é opção exclusiva do fiel [Institutio Generalis Missalis Romani 2002, n. 160], que escolhe a forma de comungar (no missal de S. Pio V a comunhão é somente de joelhos e na boca). Como hoje em dia andaram por aí destruindo as mesas “da comunhão”, pode-se comungar de joelhos normalmente na fila da comunhão, indicando ao sacerdote que prefere comungar desta forma – se ele resistir, tente conversar com ele ou reclamar com o bispo se não der certo, explicando suas razões com caridade, prudência e paciência e nunca tentando se impôr de forma grosseira, chata e incômoda.

Aqui alguns leitores podem dizer que o Veritatis enlouqueceu e está recomendando coisas que caíram em desuso ou foram supostamente “revogadas” pelo missal de Paulo VI: Absolutamente não! Nossa tradição diz que para uma prática virar um costume, ela tem de estar em uso há no mínimo 200 (duzentos) anos [Codex Iuris Canonici, can. 5 e 28]. O que é o caso da missa “de S. Pio V”, que apesar de promulgada em 1570 como compilação oficial e obrigatória do rito latino, é bem mais velha do que isso, remontando ao século IV e tendo suas variações introduzidas por algumas ordens religiosas (rito dominicano, rito franciscano) ou regiões geográficas específicas (rito ambrosiano, rito moçárabe, rito galicano).

Logo, tendo virado parte do depósito da Tradição, estas práticas só podem ser revogadas mediante proibição explícita da Santa Sé, coisa que ainda não foi feita em relação às posições na missa de Paulo VI. O missal de Paulo VI NÃO MENCIONA em hora nenhuma revogação de todas as disposições em contrário do missal anterior (conforme afirma o recente Motu Proprio Summorum Pontificum e o dossier compilado pela agência Fides sobre o mesmo tema), pelo contrário, ele sempre abre um leque de variadas opções para que os sacerdotes executem o formulário da missa – e foi essa abertura que deu origem aos mais variados abusos litúrgicos que vemos hoje em dia, onde as interpretações individuais acabaram por passar o limite do bom-senso que deveria ser aplicado aos limites que definem estas opcionalidades da missa nova.

– como, numa paróquia é possível rezar a liturgia eucarística em língua latina (gostaria de saber os meios – missais, folhetos dominicais – para que a assembleia participe e se una à oração do sacerdote)?;
– gostaria de saber se o sacerdote ainda pode usar o manípulo?;

O uso do manípulo para o missal de Paulo VI foi tornado opcional (e não proibido) pela Sagrada Congregação para os Ritos, na instrução Tres abhinc annos de 4 de maio de 1967.

Os missais romanos de altar podem ser encontrados aqui.

Os missais pessoais: Novus Ordo, o livretinho do Ordo Missae (Ordinário da Missa), em latim, para os fiéis.

Infelizmente que eu saiba, não existe ainda missal “portátil” pessoal em latim-português com o Novus Ordo. O motivo é que a Editio Typica Tertia do missal ainda é muito recente, publicada em 2002. Sequer foi traduzida ainda para o português.

Já o missal pessoal do rito de S. Pio V (1962) pode ser encontrado no site rad-trad cismático Permanência (cuidado com o que lê por lá).

– numa celebração, em que estão presentes vários sacerdotes, mas não concelebram, podem alguns destes «oficiar» como diáconos e subdiáconos (tal como acontecia nas missas solenes segundo o Missal de São Pio V)?;

Na missa nova, todo sacerdote que não está oficiando nada, deve estar vestido ou com veste coral ou hábito talar com sobrepeliz [IGMR, n. 114]. É proibido, na missa nova, um clérigo assumir as vestimentas próprias de um ranking menor que o seu [Caeremoniale Episcoporum 1984, n. 22]. Logo, os padres podem ler o Evangelho ou preparar o ofertório e fazer a purificação, mas devem estar revestidos de estola na posição sacerdotal, pendendo igualmente dos dois lados do pescoço (e nunca atravessado na diagonal pendendo à direita, como na diaconal), e a menos que não haja paramentos suficientes para todos, de casula (nunca de dalmática). Se um padre que não for o celebrante for ler o Evangelho, ele não pede a bênção se for outro padre a celebrar; já se for o bispo, ele deve pedir a bênção normalmente. [IGMR, n. 199-251]

– quais as orações/momentos, no Missal de Paulo VI, que o sacerdote tem ou pode rezar em silêncio?;
– se, um sacerdote, ao rezar a Santa Missa, utilizando o Missal Paulo VI, rezar o Cânone Romano em silêncio, incorre em alguma sanção canónica? é erro grave? é possível tal?;

Mesmo no missal de S. Pio V o sacerdote nunca reza em silêncio: ele reza em voz baixa.

O Ordo Missae de Paulo VI EXIGE (obrigando juridicamente) no começo da Liturgia Eucarística que o prefácio e cânon sejam rezados em voz audível pelo povo (é uma rubrica em vermelho). Isso deixou uma porta aberta para uma interpretação ambígüa, que muitos utilizam para poder manter o “silêncio” como era no rito de S. Pio V: eles celebram sussurrando ao microfone ou em voz normal sem microfone, de modo que a assembléia inteira ouça, mas em voz bem baixinha. Se os modernistas podem usar das ambigüidades como excusas para seus abusos litúrgicos, porquê os tradicionalistas não podem usar das mesmas ambigüidades para manter a sacralidade?

– a meu ver a oração eucarística que transmite mais o espírito de que a Santa Missa é verdadeiramente um sacrifício é o Cânone Romano (oração eucarística I). É lícito usar sempre esta oração eucarística? Gostaria de saber se concordam com a minha opinião neste ponto.

Esta questão se desdobra em duas: a validade das outras orações eucarísticas e a liceidade de se usar somente uma delas. Vamos tratar das duas questões:

  1. O missal de Paulo VI expressa que a escolha das Orações Eucarísticas é livre, podendo o sacerdote escolher qualquer uma delas ao celebrar cada missa, não obrigando a “rotacionar” por entre as Orações Eucarísticas. Se ele quer utilizar somente a primeira, sempre ao celebrar, por devoção, não há problema nenhum, desde que isso não seja levado por uma tendência cismática à achar que as outras são inválidas, rejeitando-as.
  2. Por exemplo: aqui no Brasil, os padres que são obrigados a celebrar a missa nova (por não terem dispensa especial para celebrar somente o rito antigo) e que procuram, com dúvidas, os padres da Administração Apostólica São João Maria Vianney para sanar estes escrúpulos em relação à quais orações eucarísticas utilizar, são indicados a alternarem entre o Cânon Romano e a O.E. III, que exprimem melhor e mais completamente o que deve ser expresso. Ou seja, nem os tradicionalistas rejeitam por completo as outras Orações Eucarísticas.
  3. A O.E. II não pode jamais ser considerada inválida, pois é a mais antiga de todas as orações eucarísticas encontradas no missal, tendo sido utilizada muito antes do Cânon Romano; porém ela não expressa tão claramente a noção de sacrifício, preferindo ser evitada pelos tradicionalistas em geral (e, coincidentemente, é a preferida e quase que unicamente e exclusivamente utilizada pelo Cardeal Scheid em suas missa públicas).
  4. A O.E. IV é um exercício de erudição teológica que não deveria ter sido transformado em prece eucarística, relevando o caráter sacrifical ao segundo plano. No Brasil, ainda existem as Orações Eucarísticas de V a XI – que não existem nas outras partes do mundo, o Missal Romano vai só até a IV – todas elas dispensáveis (orações para reconciliação, para crianças, e outras com fundo extremamente ligado à ideologia da Libertação) quando não completamente execráveis (a O.E. V, por exemplo).
  5. A não-expressão do sacrifício não é um caráter excludente da validade da oração eucarística. A anáfora de Addai e Mari, utilizada há séculos por algumas igrejas orientais, recentemente foi confirmada como válida pela Santa Sé, sendo que ela sequer contém a narração da instituição (“Isto é o meu corpo”…”Isto é o meu sangue”).
Facebook Comments

Livros recomendados

As Grandes Heresias9 Ateus Mudam de ÔnibusSócrates Encontra Marx

About the author

Veritatis Splendor

Leave a Comment

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.