Nome do leitor: Fábio Vinícius Fortes Franco
Cidade/UF: Aracaju/SE
Religião: Cristã
Confissão: Católica

Mensagem
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Saudações!

Sou Católico e muito me alegro de existir um site destinado a fortalecer nossa fé, levando-nos a conhecer a fundo a verdadeira doutrina que pode salvar as nossas almas.

Lendo o texto intitulado “CRUZ E EUCARISTIA – AMOR AO EXTREMO”, deparei-me com uma afirmação que passou a inquietar-me, e que gostaria de instar maiores esclarecimentos a nós fiéis. Consta no referido texto que:

“Jesus foi servo na dor, porque sem morrer nem sofrer, podia muito bem nos salvar. Mas não! Escolheu uma vida de aflições e desprezos e uma morte cruel e vergonhosa.”(grifo nosso).

Ora, aprendi que a o sacrifício de nosso redentor e salvador Jesus Cristo era absolutamente necessário para a nossa salvação. Na Cruz a justiça foi satisfeita, uma vez que os pecados da humanidade foram expiados. Cristo, evidentemente, não precisava morrer porquanto além de ser verdadeiro Deus, e justamente por isso, não tinha pecado. MAS SE QUERIA SALVAR A HUMANIDADE, PRECISAVA MORRER, OFERECENDO-SE EM SACRIFÍCIO POR ÀQUELA.

Assim não fosse, os pecados teriam que ser expiados por nós, os seus autores, o que implicaria na necessária condenação eterna de nossas almas. Afinal, não se pode conceber que Deus fosse indiferente ao pecado. Assim, Cristo foi condenado no nosso lugar, recebendo o castigo que nós mereceríamos, de forma que sem este sacrifício nenhum ser humano poderia ter esperança alguma de ir para o céu. (excetuando, talvez, só Santíssima mãe do Salvador, que por graça divina foi concebida sem pecado).

Este sempre foi o meu entendimento. Estou errado? Apoio-me no estudo da doutrina católica, que sempre me pareceu pregar tal compreensão. Reportando-me às escrituras, o capítulo 53 de Isaias parece ser enfático neste sentido:

“…Em verdade, ele tomou sobre si nossas enfermidades, e carregou com nossos sofrimentos:
e nós o reputávamos com um castigado, ferido por Deus e humilhado.
Mas foi castigado por nossos crimes, e esmagado por nossas iniqüidades;
O castigo que nos salva pesou sobre ele, fomos curados graças as suas chagas…
O Senhor fez recair sobre ele o castigo das faltas de todos nós…
Mas aprouve ao Senhor esmaga-lo pelo sofrimento; se ele oferecer sua vida em sacrifício expiatório, terá uma posteridade duradoura, prolongará seus dias e a vontade do Senhor ser por ele realizada….
O Justo, meu servo, justificará a muitos homens, e tomará sobre si suas iniqüidades…”

Não menos esclarecedor, o novo testamento faz diversas afirmações que enfatizam a necessidade do sacrifício expiatório para nossa salvação. Na epístola aos hebreus, capítulo 9, versículo 15, temos as seguintes afirmações:

“Por isso Ele é mediador do novo testamento. Pela sua morte expiou os pecados cometidos no decorrer do primeiro testamento, para que os eleitos recebam a herança eterna que lhes foi prometida. Porque onde há testamento, é necessário que intervenha a morte do testador…”

No livro do Apocalipse, capítulo 5, versículo 9:

“…Tu és digno de receber o livro e de abrir-lhe os selos porque foste imolado, e resgataste para Deus ao preço de seu sangue, homens de toda a tribo, língua, povo e raça…”(grifo nosso)

No seu maravilhoso livro “Vida de Cristo” o bispo americano Fulton Shenn, na página 281/282 expõe magistralmente:

“Jesus sofreu porque amou. Mas temos de acrescentar mais ainda. Não bastava que um homem sofresse por outro homem; para que este amor tivesse algum valor era preciso que Cristo tivesse alguma coisa para oferecer a Deus por nós, oferta que tinha de possuir esta qualidade indispensável para ser eficaz: ser perfeita e eternamente válida. Tinha de ser pois Deus e Homem ao mesmo tempo, sem o quê, a reparação e a Redenção do homem pecador não teria valor diante da vista de Deus. A compaixão, só por si, não seria bastante para formar uma unidade entre Deus e o pecador. Um tal ofício exigia uma nomeação divina. Em virtude do divino “dever”, Cristo era não só sacerdote, mas também vítima. Tirou o pecado pelo sacrifício de si mesmo. Como sacerdote era representante da humanidade; como vítima era o substituto da Humanidade. Ofereceu-se em sacrifício agradável a Deus. É o exemplar perfeito de resignação e devoção à vontade Divina; e Deus aceitou este sacrifício não de um homem, mas do “Filho do Homem…”

Tenho comigo, portanto, e, por favor, corrijam-se se estiver errado, que o sacrifício expiatório em favor da humanidade não poderia ser levado a cabo por homem algum, mesmo o mais santo de todos, mas exigia a natureza divina do salvador para ser eficaz perante Deus, o que a encarnação do Verbo de Deus resolveu. Voltando à epístola dos Hebreus capítulo 10, versículos 5 a 10:
:
“Pois é impossível que o sangue de touros e de carneiros tire pecados. Eis porque ao entrar no mundo, Cristo diz:  Não quiseste sacrifício nem oblação, mas me formaste um corpo. Holocaustos e sacrifícios pelo pecado não te agradam. Então eu disse: Eis que venho (porque é de mim que está escrito no rolo do livro), venho ó Deus, para fazer a tua vontade(salmo 39, 7ss). Tu não quiseste, não recebeste com agrado os sacrifícios nem as ofertas, nem os holocaustos, nem as vítimas pelo pecado (quer dizer as imolações legais). Em seguida ajuntou: Eis que venho para fazer a tua vontade . Assim aboliu o antigo regime e estabeleceu uma nova economia.
Foi em virtude desta vontade de Deus que temos sido santificados uma vez para sempre, pela oblação do corpo de cristo.” (epístola aos hebreus,
Como disse o aludido autor e Bispo em outro trecho de sua obra: “Porque era homem podia morrer; por que era Deus seu sacrifício teria valor infinito”.

Talvez tenha quem ache que tal abordagem não seja essencial, desde que se creia no efeito redentor do sacrifício de Cristo, o que não foi negado no texto que me levou a escrever estas linhas. Parece-me, no entanto que é pertinente refletirmos sobre a necessidade do referido sacrifício para a nossa salvação, pois sem este ato de amor que ultrapassa qualquer compreensão humana, e que somente os que são de Deus podem assimilar, tanto que São Paulo afirma que a linguagem da cruz é loucura para os que se perdem, jamais poderíamos alimentar qualquer esperança de viver eternamente no reino de Deus.

Como fiel à doutrina da verdadeira Igreja de Cristo, sujeito-me a crer no ensinamento papal a respeito, de forma que, como já disse, se tal compreensão estiver errada, por favor, exponham a verdadeira para que eu creia.

Muito obrigado e aguardo ansiosamente a resposta.

Querido Fábio, que a paz de Nosso Senhor esteja contigo!

Primeiramente quero agradecer pela alegria que sentes pela existência do Veritatis. Deus Pai o sabe quanto o amamos e quanto queremos dar glórias a Ele através deste site. Fico feliz que tenha lido meu texto e ter se manifestado demonstrando sua dúvida.  Nem eu, nem você erramos, somente focamos a redenção de forma diferente, eu de forma absoluta e você de forma concreta.

Quando escrevi que Jesus foi servo na dor e que sem sofrer ou morrer poderia ter nos salvado, me referia na liberdade e autonomia de Deus, para fazer o que quer e quando quer. Em termos absolutos, Deus podia ter nos salvado de outra maneira, porque para Ele nada é impossível.

Só que o Santo Sacrifício é uma realidade (e foi nesta realidade que focaste) e Deus o escolheu por ser a forma mais contundente e amorosa para demontrar todo seu amor para com os homens. Portanto, nossa salvação concretamente, devia dar-se como ocorreu, porque estava prevista no Antigo Testamento, e a presciência de Deus não pode falhar (cf. S.Th. III, q.46, a.2).

O sacrifício sempre esteve presente na vida dos homens e  como nos diz o Pe. Emanuel – um espiritual francês do século XIX. – “ele constitui um ato de religião que consiste em destruir, ao menos de certa maneira, uma coisa para a honra de Deus, pois não existe um sinal mais conveniente para exprimir o soberano domínio Dele sobre as criaturas. O sacrifício é o ato mais excelente no culto divino. O sacrifício, que atinge a coisa oferecida no íntimo do seu ser, não se pode dedicar a não ser ao Criador e Soberano de todas as coisas.”

O sacrifício exterior é o sinal do sacrifício interior, da imolação de si própria que toda criatura inteligente e livre deve ao Criador, como sinal de Sua soberania e perfeição infinita.

Diz ainda o Pe. Emanuel:

“O sacrifício é a linguagem misteriosa com a qual o homem “fala” com Deus. Mesmo sem o pecado, o sacrifício seria uma exigência da majestade divina, só que esse sacrifício seria apenas de louvor, como o do altar dos perfumes, colocado diante da cortina do Santo dos Santos no Templo de Jerusalém, onde os sacerdotes queimavam incensos. Ele exprimia louvor e adoração, era incruento”.

Mas a partir do pecado, foi necessário uma hóstia (vítima) de expiação. Deus promulgou a grande lei enunciada por São Paulo: “Sem efusão de sangue não há absolutamente remissão” (Heb. IX, 22). Ao mesmo tempo que Deus estabeleceu a Lei do Sacrifício, também estabeleceu as condições para que tal ato lhe fosse agradável.

Santo Agostinho enumera essas condições:

1)É preciso um sacerdote que ofereça a vítima, um sacerdote que seja santo e justo; pois o sacerdote é um mediador entre Deus e os homens, e, se não fosse santo e justo, não poderia reconciliar os homens com Deus. Esse sacerdote não podia ter defeito corporal, era submetido a abluções para ser separado dos homens comuns e tinha de casar com uma virgem e de guardar a castidade na semana em que exercia suas funções no Templo.

2)É preciso que a vítima seja tomada das mãos daqueles pelos quais é oferecida, numa palavra, que ela lhes pertença, que os represente; que eles tenham direito sobre ela, que possa ocupar o lugar deles.

3)É preciso que a vítima seja tomada sem mancha e sem defeito; de outro modo não poderia servir para purificar, para reparar tudo o que há de manchado e defeituoso naqueles por quem é oferecida.

Antes de Cristo havia os sacrif’ícios expiatórios onde  a vítima era imolada, o sangue era derramado em honra de Deus. Contudo, tudo isso era uma mera simbologia.

Somos todos pecadores e não se pode encontrar entre os homens um sacerdote conveniente, todas as vítimas são indignas. Diz São Paulo: “É impossível que o sangue dos cabritos e dos touros apague os pecados” (Heb. X, 4). Foi então, na plenitude dos tempos que o próprio Filho de Deus, feito homem, apresentou-se como vítima, uma só vez, para a remissão dos pecados. Ele era puro, sem a mácula do pecado, portanto digno. Assim, todas as condições do sacrifício estão reunidas e a vítima é, ao mesmo tempo, o sacerdote. Esse é o Sacrifício perfeito, onde Cristo era vítima e sacerdote. Isso, contudo, não significa que a paixão não foi aceita livremente por Cristo.

Veja o que diz o Catecismo Romano em seu quarto Artigo  – Sobre a liberdade de Deus na escolha de Sua morte:

IV 1 a: Escolha dos suplícios – Designo de Deus: Atribuimos a um designo de Deus, que Cristo para morrer, escolhesse o madeiro da Cruz. Foi “para que dali mesmo [nos] renascesse a vida, por onde [nos] tinha vindo a morte.

1b: Nosso Senhor “escolheu” tal gênero de morte, porque Lhe parecia o mais próprio e conveniente para a redenção do gênero humano. Certamente não havia outro que fosse mais vergonhoso e humilhante. Não era os pagãos os únicos a verem no suplício da Cruz a maior repulsão, infâmia e vergonha; tambëm a Lei de Moisés chama de” maldito o homem que pende no madeiro”

V 1c: Convinha que o Filho de Deus morresse. a “fim de aniquilar aquele que tinha o poder da morte, isto é o demônio e libertar aqueles que, por temor da morte, passavam toda a vida em escravidão”(Hb 2,14)

2 a: O que houve de extraordinário em Cristo Nosso Senhor é ter morrido, quando Ele mesmo decretou morrer, é ter sofrido a morte por um ato de vontade e não por violência estranha. Foi Ele mesmo que determinou não só a Sua morte, mas até o lugar e o tempo em que devia morrer.

A Bíblia de Navarra em sua pag 468 comentando Hb 12,2: “Com os olhos fixos em Jesus, autor e aperfeiçoador da fé, o qual pelo gozo que Lhe era proposto, sofreu a cruz, desprezando a ignomínia e está sentado à direita do trono de Deus”, diz: –  Qualquer sofrimento de Cristo teria bastado para a nossa redenção. Mas o Senhor aceitou por amor, a morte ignominiosa de Cruz.

E cita a via sacra, XI,n.1: “Não era necessário tanto tormento. Ele podia ter evitado aquelas amarguras, aquelas humilhações, aqueles maus tratos, aquele juízo iníquo e a vergonha do patíbulo, e os cravos e a lança..Mas quis sofrer tudo isso por ti e por mim. E nós, não vamos saber corresponder? Tudo isso já estava nos planos do Pai desde sempre e é fato consumado, mas Deus poderia faze-lo de outra forma. Convinha que Ele sofresse e morresse na Cruz? sim.  Mas se O fez, foi porque quis.

Portanto Fábio, o que quis passar é que Deus poderia fazer o que bem quisesse, mas escolheu morrer na dor e na humilhação, para que nós, vendo todo este amor, pudessemos ama-Lo e aceitar esta graça santíssima.

Santo Agostinho demonstra melhor o que quero dizer: “ Era preciso mostrar ao homem quanto Deus nos amou e o que éramos quando nos amou: “quanto”, para que não desesperássemos; “o que éramos”, para que não nos ensoberbecêssemos. Gostaria de dizer ao ouvido de cada um: “A Vida eterna assumiu a morte, a Vida eterna quis morrer. Não morreu segundo o que era em Si mesma antes de morrer; morreu segundo O que tinha de comum contigo, depois de encarnada. De ti recebeu a natureza segundo a qual devia morrer por ti; e assumiu a morte para matar a tua morte. Escuta-me: és cristão, és membro de Cristo; considera bem o que és, pensa a que preço foste resgatado. Cristo quis padecer por ti. Ensinou-te a padecer, e ensinou-te padecendo Ele primeiro. Ter-lhe-iam parecido muito pouco as suas palavras, se não as tivesse acompanhado com o seu exemplo”

Espero te-lo respondido, Fabio.

Fique com Deus e que Nossa mãe santíssima te guarde.

Ana Maria Bueno.

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