Espaço do Leitor Respostas a Leitores (por Marcos Monteiro Grillo)

Leitor pergunta sobre o axioma “Fora da Igreja não há salvação”

Como a Igreja Católica pensa sobre a salvação dos que não são católicos ou não-cristãos (ateus, por exemplo)?
Um protestante me disse que o próprio Papa escreveu que só haverá salvação para os Católicos. É verdade? (Flávio)

Prezado Flávio,

A paz de Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo.

Agradecemos pelo contato.

Quanto ao seu questionamento, nós não poderíamos dar resposta melhor do que aquela fornecida pelo Catecismo da Igreja Católica (grifos nossos):

“‘FORA DA IGREJA NÃO HÁ SALVAÇÃO’

846. Como entender esta afirmação, com freqüência repetida pelos Padres da Igreja? Formulada de maneira positiva, ela significa que toda salvação vem de Cristo-Cabeça através da Igreja que é o seu Corpo:

Apoiado na Sagrada Escritura e na Tradição, [o Concílio] ensina que esta Igreja peregrina é necessária para a salvação. O único mediador e caminho da salvação é Cristo, que se nos torna presente no seu Corpo, que é a Igreja. Ele, porém, inculcando com palavras expressas a necessidade da fé e do batismo, ao mesmo tempo confirmou a necessidade da Igreja, na qual os homens entram pelo batismo, como que por uma porta. Por isso não podem salvar-se aqueles que, sabendo que a Igreja católica foi fundada por Deus através de Jesus Cristo, como instituição necessária, apesar disso não quiserem nela entrar, ou então perseverar.

847. Esta afirmação não visa àqueles que, sem culpa, desconhecem Cristo e a sua Igreja:

Aqueles, portanto, que sem culpa ignoram o Evangelho de Cristo e sua Igreja, mas buscam a Deus com coração sincero e tentam, sob o influxo da graça, cumprir por obras a sua vontade conhecida através do ditame da consciência, podem conseguir a salvação eterna.

848. ‘Deus pode por caminhos dele conhecidos levar à fé todos os homens que sem culpa própria ignoram o Evangelho. Pois ‘sem a fé é impossível agradar-lhe’ (Hb 11,6). Mesmo assim, cabe à Igreja o dever e também o direito sagrado de evangelizar’ todos os homens.”

Quando o Catecismo nos ensina que “toda a salvação vem de Cristo-Cabeça através da Igreja que é o seu Corpo”, devemos compreender que todos aqueles que vierem a ser salvos o serão por Cristo, mesmo que não o saibam, já que não há salvação se não por Cristo e por sua Igreja. O Catecismo ensina ainda que, mesmo aqueles que “sem culpa ignoram o Evangelho de Cristo e sua Igreja, mas buscam a Deus com coração sincero e tentam, sob o influxo da graça, cumprir por obras a sua vontade conhecida através do ditame de consciência, podem conseguir a salvação eterna”. Em outras palavras, não existe salvação fora da Igreja, sendo que estão dentro da Igreja não somente aqueles que professam integralmente a fé católica. Para compreendermos melhor esse ponto, leiamos o que ensina o Catecismo em seu parágrafo 838:

“838. ‘Por muitos títulos a Igreja sabe-se ligada aos batizados que são ornados com o nome cristão, mas não professam na íntegra a fé ou não guardam a unidade da comunhão sob o Sucessor de Pedro’. ‘Aqueles que crêem em Cristo e foram devidamente batizados estão constituídos numa certa comunhão, embora não perfeita, com a Igreja católica’.”

Considerando que os cristãos não-católicos estão em uma certa comunhão, ainda que imperfeita, com a Igreja, concluímos que cristãos não-católicos podem ser salvos, visto que não estão fora da Igreja, mas dentro dela, isto é, em comunhão com ela, ainda que de forma imperfeita.

Ademais, se, como vimos, podem conseguir a salvação eterna aqueles que “sem culpa ignoram o Evangelho de Cristo e sua Igreja, mas buscam a Deus com coração sincero e tentam, sob o influxo da graça, cumprir por obras a sua vontade conhecida através do ditame de consciência”, ou seja, se não-cristãos podem ser salvos (desde que procurem agir de acordo com a vontade de Deus inscrita na consciência de todo ser humano), então devemos concluir que não-cristãos também podem fazer parte da Igreja, já que não há salvação fora da Igreja e que não-cristãos podem ser salvos. Trocando em miúdos: sejam cristãos católicos, cristãos não-católicos ou não-cristãos, ninguém pode ser salvo se não for por Cristo e por sua Igreja, sendo que a comunhão com a Igreja pode ser mais ou menos perfeita, na medida em que a pessoa esteja mais ou menos integrada à Igreja.

É importante salientar que, embora a salvação seja possível àqueles que não estão em plena comunhão com a Igreja, essa possibilidade constitui uma via extraordinária de salvação, e por isso muito mais arriscada do que a via ordinária de salvação que é a plena comunhão com a Igreja. Com efeito, aqueles que estão plenamente integrados à Igreja Católica têm ao seu dispor todos os meios de graça, isto é, os sacramentos instituídos por Cristo para a nossa salvação. Já os que não estão em plena comunhão com a Igreja não têm acesso a esses sacramentos, e por isso a salvação para tais pessoas torna-se mais difícil, embora não impossível.

Esperamos ter sanado a sua dúvida. Caso você queira aprofundar-se no assunto, recomendamos a leitura dos artigos abaixo, todos publicados no site [do Apostolado Veritatis Splendor]:

  • LEITOR PROTESTANTE EM LUTA INTERIOR PARA CONVERTER-SE AO CATOLICISMO
  • FORA DA IGREJA NÃO HÁ SALVAÇÃO?
  • IGREJA CATÓLICA, IGREJA DE CRISTO
  • LEITOR QUESTIONA SOTERIOLOGIA CATÓLICA
  • A IGREJA DE CRISTO É NECESSÁRIA À SALVAÇÃO?
  • OS FILHOS PRÓDIGOS

Recomendamos ainda vivamente a leitura da declaração Dominus Iesus e do artigo “Salvam-se os não-católicos?” do Dr. Rafael Vitola Brodbeck, membro do apostolado.

Em Cristo,
Marcos M. Grillo

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LEIA TAMBÉM:

Dom Estêvão Tavares Bettencourt
PERGUNTE E RESPONDEREMOS Ano I – Nº 001, Janeiro/1958:

As pessoas que não são católicas vão para o inferno?

É tradicional dizer-se: «Fora da Igreja, não há salvação». O axioma, à primeira vista, causa espanto a muitos, parecendo-lhes expressão de mentalidade estreita, pouco condizente com a Misericórdia de Deus. Devidamente entendida, porém, tal máxima desvenda um pouco da infinita Bondade do Criador.

Em análise sumária, a proposição acima quer dizer que não há salvarão se não por meio de Cristo e da obra redentora de Cristo. Ora Cristo vive através dos séculos e se prolonga na Igreja. Donde se segue que toda salvação se obtém por contato com a Igreja de Cristo. Esta dedução é assaz lógica: se o Filho de Deus se dignou tornar-se o Salvador dos homens, compreende-se que não haja graça que não seja graça de Cristo, outorgada através do «Corpo de Cristo que é a Igreja» (cf. Col 1,29).

Dito isto, note-se que o indispensável contato com a Igreja de Cristo, longe de se estabelecer por uma só via, pode ser alcan­çado de diversas maneiras :

1) o modo mais óbvio é o da incorporação à Igreja mediante a recepção do batismo de água e dos demais sacramen­tos. A Igreja é, sim, uma sociedade visível (porque Cristo quis aparecer entre nós de forma sensível ou num corpo); é, pois, normal que os que a ela pertencem, manifestem por algum sinal exterior a sua pertinência à Igreja.

À categoria dos homens batizados se pode agregar a da­queles que, tendo tido conhecimento de Cristo e da sua Igreja, se preparam para receber o primeiro sacramento; estes (catecúmenos), embora ainda não tenham o batismo de água, já possuem o desejo do mesmo (ou o batismo de desejo), desejo explícito, professado, em virtude do qual se salvam.

Contudo, fora dos que assim demonstram do algum modo pertencer à Igreja, contam-se outros muitos indivíduos, desti­tuídos de qualquer vínculo externo com a Esposa de Cristo. Não obstante, pertencem-lhe sem que o saibam e sem que, por sua vez, Ela o saiba.

2) Com efeito, há uma forma invisível de fazer parte do Corpo Místico de Cristo.

Deus, em seus sábios desígnios, não julgou necessário fazer que todos os homens que vêm a este mundo cheguem ao conhecimento explícito de Cristo (tal é o caso, entre outros, dos milhões de pagãos que viveram e vivem nas selvas sem ver missionário). O Senhor também permite que muitos dos que ouvem falar de Cristo e da sua Igreja (seja em terras in­cultas, seja em nossos países civilizados), o ouçam de maneira incompleta, lacônica ou não adaptada à sua psicologia, de sorte que, mesmo depois de ouvir a pregação da Igreja, não experi­mentam o «problema religioso», não lhes aflora à consciência o dever de receber o sacramento do batismo; repelindo a Igreja, podem até julgar estar repelindo o erro.

Contudo nenhum desses homens é abandonado pela Pro­vidência. O verdadeiro e único Deus se lhes dá a conhecer de outro modo.

E como ?

No fundo de todo e qualquer indivíduo, faz-se ouvir um imperativo espontâneo: «Pratica o bem, evita o mal». Este ditame supõe um Autor da Natureza humana capaz de lhe impor preceitos e sanção, pois tal imperativo antecede a deli­beração do homem e o acompanha sempre, por muito que o indivíduo faça para o sufocar (excetuam-se apenas casos de extraordinário empedernimento voluntário). Assim quem, che­gando à idade da razão, toma consciência desse imperativo fun­damental e generalíssimo (e não há quem não o faça), toma ao mesmo tempo consciência, mais ou menos confusa, mais ou menos clara, de que Deus existe e é Remunerador dos que O temem. Ora a afirmação destas duas proposições é suficiente para a salvação eterna, pois nelas se acha compendiada toda a doutrina revelada (cf. Hebr 11,6). Se, pois, alguém com toda a boa fé segue a sua consciência, praticando tudo que esta lhe indica como «bem» e evitando tudo que ela aponta como «mal», tal pessoa está seguindo a Deus; por conseguinte, vai-se aproximando do único Deus e da bem-aventurança sobrenatural. Para uns, o ditame básico «Faze o bem, evita o mal» significará talvez seguir tudo que, em doutrina e moral, é ensinado pelo budismo para outros significará seguir o islamismo; para terceiros, o protestantismo ou o espiritismo, etc. Se, porém, cada um dos adeptos desses credos, aderir com fidelidade e consciência absolutamente tranquila à sua religião, êle se en­caminhará para o verdadeiro Deus. É Êste mesmo que se lhes dá a conhecer e os chama por via daquela ideologia que em plena boa fé eles julgam ser verídica.

Diz-se então que tais pessoas possuem o batismo de desejo não explicito, mas implícito, pois, dotados como se acham de sinceridade na procura de Deus, se viessem a saber que o Senhor fêz do batismo sacramental e da pertinência à Igreja visível a via normal para chegar ao Criador, não hesitariam em pedir o sacramento. Repitamos, pois: se alguém, aderindo a uma ideologia não-católica, reconhece que Deus existe e é Providente, pode salvar-se, caso não tenha dúvida nenhuma sobre a veracidade de sua religião e pratique fielmente tudo que esta manda. Não seria demasiado, porém, frisar que, para con­seguir em tais casos a vida eterna, é absolutamente necessário esteja a pessoa de boa fé, pois, desde que conceba alguma sus­peita sobre a sua religião, não somente Deus, mas também, a dignidade humana, exige que tal indivíduo procure sair da hesi­tação, investigando a verdade; o homem, dotado de inteligência, é por sua natureza mesma movido a procurar em tudo a cla­reza; não lhe será lícito, portanto, em matéria religiosa deixar-se ficar voluntariamente na penumbra ou nas trevas.

É assim que se entende que muitos e muitos indivíduos, embora não professem adesão à Igreja, a esta pertençam e por esta se salvem. Diz-se comumente que fazem parte não do corpo, mas da alma da Igreja – distinção pouco feliz, pois corpo e alma de um vivente são inseparáveis um do outro; fale-se, antes, de pertinência visível e invisível à Igreja.

De quanto foi dito, seria totalmente falso deduzir que todas as religiões são boas. O homem foi feito para viver não somente de boa fé, mas da verdadeira fé, pois a apreensão da verdade é a primeira das exigências de sua natureza intelectiva (a luz necessária para se praticar o bem é a verdade). Ora a verdadeira fé só pode ser uma; será a que Deus mesmo se dignou revelar pelo monoteísmo judaico-cristão, que continua o monoteísmo primitivo da humanidade e se encontra na Igreja Católica, ininterruptamente apregoado desde Cristo e os Após­tolos. É normal, portanto, que o homem procure viver de boa fé dentro da verdadeira fé. A boa fé só supre a verdadeira fé, caso as pesquisas em demanda desta não sejam possíveis ao homem, por bem intencionado que esteja. Consciente disto, a Santa Igreja, tendo recebido de Cristo a ordem formal de ensinar a todos os povos (cf. Mt 28,19s), nutre continuamente o zelo de seus missionários.

Tais concepções foram ainda recentemente (8 de agosto de 1949) afirmadas pela S. Congregação do Santo Oficio. O en­sejo disto foi o movimento excitado por duas entidades norte-americanas — o «St. Benedict Center» e o «Boston College» — em favor de uma Interpretação mais estreita e rigorista do axioma «Fora da Igreja, não há salvação». Cf. «P. R.» 47/1961. qu. 3.

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