Espaço do Leitor

Leitor pergunta sobre Vaticano II e o novus ordo missae

GOSTARIA DE SABER,POIS ODEIO FICAR COM DÚVIDAS,SOBRE AS SEGUINTES AFIRMAÇÕES DO CVII:”AIGREJA É EM CRISTO COMO QUE SACRAMENTO”,NO ENTANTO O CONCÍLIO DE TRENTO DIZ QUE HÁ SOMENTE SETE SACRAMENTOS,O QUE PARA MIN SE TORNA MUITO CONFUSO;O QUE SIGNIFICA ENTÃO ESTA AFIRMAÇÃO DO CVII?


Caríssimo sr. Valter, estimado em Cristo,

Agradeço muito o seu contato. Ele nos dá a oportunidade de esclarecermos vários pontos acerca do Concílio Ecumênico Vaticano II de uma só vez. Sua confiança em nosso site, a ponto de para nós enviar suas perguntas, só nos faz ser mais gratos a Deus, que nos chamou a esse apostolado de defesa de Sua Santa Igreja.

Veja: o Vaticano II não está instaurando um oitavo sacramento! Sacramento é sinal, e a Igreja é um sinal. Nesse sentido que a Igreja é um sacramento, i.e., um meio pelo qual a graça de Deus nos é dada. Aliás, não é pela Igreja que os sete sacramentos são ministrados?

Não há contradição alguma entre Trento e o Vaticano II. O termo “sacramento”, em Trento, é tomado como uma das sete celebrações pelas quais a graça nos é dada, canais da graça, sinais visíveis da graça invisível, que realizam aquilo que significam. Já no texto citado pelo senhor, do Vaticano II, a palavra está tomada em outro sentido, mais amplo, de sinal. A própria natureza das coisas nos mostra que não se está criando um oitavo sacramento: a Igreja não é uma celebração, não é um rito, não uma cerimônia que realiza o que significa, logo não é sacramento conforme o significado do tridentino.

Longe de se tornar confusa, essa riqueza de significados nas mesmas expressões é algo muito próprio do católico, avesso à mentalidade protestante puritana.

Além do mais, note o senhor que o Concílio fez uma comparação: a Igreja é “como que sacramento”. Ou seja, assim como os sacramentos comunicam a vida divina, a Igreja também o faz. Mais: é por fluírem da Igreja, que os sacramentos comunicam a vida divina. O que o Vaticano II fez, então, longe de ensinar idéias novas, foi reafirmar a absoluta necessidade da Igreja para a salvação de todos!

Outrossim, para afastar qualquer entendimento errado acerca do tema, o Catecismo da Igreja Católica interpreta esse ponto do Concílio e dá seu correto sentido:

“A palavra grega ‘mysterion’ foi traduzida para o latim por dois termos: ‘mysterium’ e ‘sacramentum’. Na interpretação ulterior, o termo ‘sacramentum’ exprime mais o sinal visível da realidade escondida da salvação, indicada pelo termo ‘mysterium’. Neste sentido, Cristo mesmo é o mistério da salvação: ‘Non est enim aliud Dei mysterium, Christus – Pois não existe outro mistério de Deus a não ser Cristo’. A obra salvífica de sua humanidade santa e santificante é o sacramento da salvação que se manifesta e age nos sacramentos da Igreja (que as Igrejas do Oriente denominam também ‘os santos mistérios’). Os sete sacramentos são os sinais e os instrumentos pelos quais o Espírito Santo difunde a graça de Cristo, que é a Cabeça, na Igreja, que é seu Corpo. A Igreja contém, portanto, e comunica a graça invisível que ela significa. É neste sentido analógico que ela é chamada de ‘sacramento.’” (Cat., 774)

TAMBÉM DIZ O CONCÍLIO:”EIS A RAZÃO PORQUE O SAGRADO CONCÍLIO,PROCLAMANDO A SUBLIME VOCAÇÃO DO HOMEM,E AFIRMANDO QUE NELE ESTÁ DEPOSITADO UM GERME DIVINO…” O QUE TAL AFIRMAÇÃO SIGNIFICA?QUE O HOMEN POSSUI UMA PARTE DIVINA?E SE O HOMEN POSSUIR UMA PARTE DIVINA COMO PODE QUE ALGUNS VÃO PARA O INFERNO?

Essa dúvida é muito comum, e o Joathas, um dos autores do Veritatis Splendor, tratou da mesma em um artigo excelente: A ortodoxa eclesiologia do Concílio Vaticano II e outras questões. Se outras dúvidas surgirem, após sua leitura, por favor vá ao artigo que lhe é uma seqüência: Ainda a “semente divina”

NA ENCÍCLICA MYSTICI CORPORIS O PAPA PIOXII ESCREVEU QUE”A IGREJA DE CRISTO É A IGREJA CATÓLICA APOSTÓLICA ROMANA.”,MAS NO CVII SE DIZ QUE “A IGREJA DE CRISTO SUBSISTE NA IGREJA CATÓLICA.”ATUALMENTE TAMBÉM O PAPA BENTO XVI AFIRMOU CATEGORICAMENTE SER A IGREJA CATÓLICA A ÚNICA IGREJA DE CRISTO,POR QUE NO CONCÍLIO TAMBÉM NÃO SE OPTOU PELA MESMA AFIRMAÇÃO DE MANEIRA CLARA?

A razão da opção pelo termo “subsiste” está explicada no próprio recente documento a que o senhor se refere. Leia-o na íntegra e verá: Respostas sobre Certos Aspectos da Doutrina sobre a Igreja.

Além do mais, a explicação do “subsiste” já tinha sido feita na Declaração Dominus Iesus. E o Catecismo, por sua vez, o explica. O senhor já leu o Catecismo? Sites tradicionalistas, que atacam o Vaticano II, tenho certeza que já…

Por sua vez, não esqueça que o Vaticano II foi convocado, primariamente, não para proclamar dogmas nem explicitar pontos de doutrina (embora o tenha feita quanto à sacramentalidade do episcopado, por exemplo), e sim para ensinar a mesma doutrina, a doutrina de sempre (e por isso é Magistério Ordinário infalível), com outros termos, que pudessem ser mais compreensíveis ao homem contemporâneo. É tarefa da Igreja usar da linguagem mais adequada para se fazer chegar a todas as almas. Concessões em doutrina, nunca! Mas concessões na linguagem, por ser elemento acidental, podem ser feitas, sem problema.

Agora, se a opção da Igreja foi eficaz ou não, isso é outro assunto. O caso é que se trata de uma opção legítima, lícita, pela qual a Igreja e o Concílio não podem ser criticados.

O senhor poderá entender melhor o fim do Concílio, se ler o documento convocatório do Beato João XXIII: Discurso na abertura solene do Concílio, em 11 de outubro de 1962. Também o discurso do Papa Paulo VI no fim do Vaticano II: Homilia na conclusão solene do Concílio, em 7 de dezembro de 1965. Enfim, a Homilia no 40º Aniversário do Encerramento do Concílio Vaticano II do Santo Padre gloriosamente reinante, Bento XVI, é elucidativo a essa respeito.

A RESPEITO DA MISSA, NA BULA QUO PRIMUM TEMPORE,DO PAPA S.PIO V SE DIZ “QUE A MISSA ,NO FUTURO E PARA SEMPRE,NÃO SEJA CANTADA NEM REZADA DE MODO DIFERENTE DO QUE ESTA,CONFORME O MISSAL PUBLICADO POR NÓS” E “QUANTO AO NOSSO PRESENTE MISSAL RECENTEMENTE PUBLICADO,NADA JAMAIS LHE DEVERÁ SER ACRESCENTADO,NEM SUPRESSO,NEM MODIFICADO” E AINDA “A PRESENTE BULA NÃO PODERÁ JAMAIS , EM TEMPO ALGUM,SER REVOGADA NEM MODIFICADA,MAS PERMANECERÁ SEMPRE FIRME E VÁLIDA,EM TODA A SUA FORÇA.”  PERGUNTO ENTÃO  COMO FOI POSSÍVEL MUDAR A FORMA DA MISSA SE A BULA DE S. PIO V NÃO O PERMITE?

Como um Papa poderia obrigar outro a lhe obedecer? Um Papa não tem poder sobre seus predecessores nem sobre seus sucessores. O Papa é sempre o Papa, suprema autoridade de governo da Igreja. Evidentemente que aquilo que é definido pelo Magistério é irreformável: mas não é um Papa que estará obrigando a outro Papa, e sim a própria Igreja que obriga a todos os fiéis, inclusive ao Sumo Pontífice.

Não nos esqueçamos, todavia, que a normatização litúrgica não é matéria doutrinária, e sim legislativa. É ato de governo, não de Magistério. O próprio fato de um Papa (Paulo VI) revogar a Quo Primum pela promulgação de um novo Ordo, através da Constituição Missale Romanum, é demonstação inequívoca de que o rito da Missa pode ser mudado. Se um Papa posterior não pudesse modificar os atos de um Papa anterior em questões NÃO DOUTRINÁRIAS (i.e., em atos de governo), Paulo VI não modificaria a Missa.

Não somos nós a julgar o Papa Pio V, mas um Papa, Paulo VI, revogando atos de outro Papa. Veja: não revogou Paulo VI o Ordo da Missa segundo o rito tradicional, mas a Bula Quo Primum, i.e., revogou a obrigatoriedade do uso do Missal tradicional. E poderia ter revogado até mesmo o Ordo antigo, dado que o Romano Pontífice é supremo em atos de governo.

Não há como entender que a Quo Primum proíba o próprio Papa de modificar o texto da Missa. Assim como Pio V fez uma reforma litúrgica, e como ao longo de toda a história eclesiástica se fez (com importantes alterações no rito da Missa), também Paulo VI, com sua autoridade suprema de Pastor da Igreja Universal, agiu. Desenvolvi mais sobre o tema aqui: https://www.veritatis.com.br/article/3975/

Por sua vez, a Sagrada Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, em resposta oficial dada em 11 de junho de 1999, dissipou todas as dúvidas, rechaçando o argumento dos que pretendem ser a Quo Primum uma bula perpétua:

“Pode um Papa fixar um rito para sempre? Resp.: Não. Sobre ‘Ecclesiae potestas circa dispensationem sacramenti Eucharistiae’, o Concílio de Trento declara expressamente: ‘Existe perpetuamente na Igreja este poder para, na dispensação (ministério) dos sacramentos, salva a substância deles, estatuir e mudar aquelas coisas que julgar melhor para a utilidade dos que os recebem ou veneração dos próprios sacramentos, segundo a variedade das coisas, tempos e lugares” (DS 1728). Do ponto de vista canônico, deve-se dizer que quando um Papa escreve ‘perpetuo concedimus’, deve-se sempre subentender ‘até que seja ordenado de outro modo’. É próprio da autoridade soberana do Romano Pontífice não ser limitado nas leis meramente eclesiásticas, muito menos pelas disposições dos seus Predecessores. Ele é ligado somente à imutabilidade das leis divina e natural, além da própria constituição da Igreja”

Dom Fernando Rifan, Bispo da Administração Apostólica São João Maria Vianney, que reúne os fiéis ligados à forma tradicional do rito romano, ou seja, que usam o Missal de São Pio V, proclamado pela Quo Primum, assim explica, após citar esse mesmo documento da Santa Sé: “As expressões de perpetuidade e proibição de modificação usadas por São Pio V na Bula Quo primum tempore, pela qual publicou o Missal, são idênticas às que ele mesmo usou na bula Quod a nobis, pela qual publicou o Breviário Romano. No entanto, São Pio X modificou esse breviário pela Bula Divino afflatu, usando por sua vez as mesmas expressões solenes consagradas de perpetuidade e de proibição de modificação, proibição que não atingiu evidentemente o Papa Pio XII que o modificou pela Carta Apostólica In cotidianis precibus, bem como o Papa Beato João XXIII, cujas rubricas ele alterou, ao mesmo tempo que as do Missal, pela Carta Apostólica Rubricarum instructum, modificações essas adotadas por todo o mundo tradicionalista.” (Orientação Pastoral – O Magistério Vivo da Igreja)

POR  FAVOR , GOSTARIA QUE VOCES ME EXPLICASSEM SOBRE ESSES ASSUNTOS ,POIS ELES MUITO ME CONFUNDEM.DESDE JÁ AGRADEÇO.

Espero ter ajudado a responder suas dúvidas.

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