Espaço do Leitor

Leitora solicita explicação sobre o sentido das Promessas

Estou precisando de orientação. Faço parte da fundação de um grupo de estudos bíblicos no meu curso na universidade. A questão é que o grupo é formado mais por protestantes (presbiterianos em sua maioria) e somente eu e uma amiga de católicas. O objetivo do grupo é unir os cristãos, mas sempre existem aquelas situações onde eles se acham superiores por isso estou tentando me aprofundar no conhecimento da Igreja para não deixar que eles falem e façam o que queiram. Por isso venho aqui pedir a orientação de vocês, pois já li vários textos do site e aprendi várias coisas e sei que podem me ajudar.
Na reunião de hoje enquanto discutíamos assuntos relativos ao meio acadêmico e a atitudes do cristão no mundo, uma participante falou que tinha uma amiga católica que havia feito uma promessa de não comer chocolate por 1 ano se alcançasse a graça pedida. Ela finalizou dizendo que achava isso uma besteira.
Escutei o que eles tinham a falar e defendi o ato da promessa com o que sabia e pensava, mas não sei se disse tudo certo e não sei se eles se convenceram muito, já que eles são pessoas muito difíceis de mudar de opinião. Já ouvi de outros evangélicos que promessas são bobagens pois Deus não quer este tipo de sacrifício de nós.
Gostaria de saber então qual o sentido real de se fazer promessas, estamos certos em subir de joelhos os degraus da igreja, ou fazer procissões que perduram a noite? E o jejum, que os protestantes também praticam, não seria um tipo de penitencia seguida de alguma graça alcançada?
Tenho muito o que aprender ainda, mas sei que cada vez mais irei me aprofundar na fé Católica.
Agradeço desde já a atenção (Cybele)

Prezada Cybele,

A paz de Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo!

Agradecemos pela confiança em nosso apostolado. Pedimos desculpas pela longa demora na resposta, devida não ao descaso ou desatenção, mas sim ao grande volume de mensagens que recebemos diariamente, o que nos dá um considerável trabalho não só para responder às perguntas que nos chegam, mas também para fazer a triagem e o distribuição das dúvidas entre os membros da equipe.

Com relação à sua carta, em primeiro lugar gostaria de lhe parabenizar pelo seu trabalho na faculdade e pela sua coragem e firmeza em participar de um grupo de estudos bíblicos majoritariamente protestante. Peço a Deus que continue sustentando você e sua amiga, dando-lhes graça para que o testemunho de vocês duas contribua para levar seus colegas a vislumbrar o esplendor da verdade cristã revelada, cuja plenitude só pode ser encontrada na Igreja Católica.

Com relação ao seu questionamento propriamente dito, a respeito do sentido das promessas, penso que você pode começar mostrando aos seus colegas protestantes passagens bíblicas que fazem referência a promessas e votos, tais como as seguintes:

“10. Ana, profundamente amargurada, orou ao Senhor e chorou copiosamente. 11. E fez um voto, dizendo: Senhor dos exércitos, se vos dignardes olhar para a aflição de vossa serva, e vos lembrardes de mim; se não vos esquecerdes de vossa escrava e lhe derdes um filho varão, eu o consagrarei ao Senhor durante todos os dias de sua vida, e a navalha não passará pela sua cabeça. 20. Elcana conheceu Ana, sua mulher, e o Senhor lembrou-se dela. Ana concebeu, e, passado o seu tempo, deu à luz um filho que chamou Samuel; porque, dizia, eu o pedi ao Senhor. 21. Elcana, seu marido, foi com toda a sua casa para oferecer ao Senhor o sacrifício anual. 22. Ana, porém, não foi, e disse ao seu marido: Quando o menino for desmamado, eu o levarei para apresentá-lo ao Senhor, e lá ficará para sempre. 23. Faze como achares melhor, respondeu-lhe Elcana; fica até que o tenhas desmamado e que o Senhor se digne confirmar a sua promessa. Ela ficou e aleitou o seu filho até que o desmamou. 24. Após tê-lo desmamado, tomou-o consigo, e levando também três touros, um efá de farinha e um odre de vinho, conduziu-o à casa do Senhor em Silo. O menino era ainda muito criança. 25. Imolaram o touro e conduziram o menino a Heli. 26. Ana disse-lhe: Ouve, meu Senhor, por tua vida, eu sou aquela mulher que esteve aqui em tua presença orando ao Senhor. 27. Eis aqui o menino por quem orei; o Senhor ouviu o meu pedido. 28. Portanto, eu também o dou ao Senhor: ele será consagrado ao Senhor para todos os dias de sua vida. E prostraram-se naquele lugar diante do Senhor.” (I Samuel 1,10-11; 20-28)

“13. É, pois, com holocaustos que entrarei em vossa casa, pagarei os votos que fiz para convosco,14. votos proferidos pelos meus lábios, quando me encontrava na tribulação.” (Salmo 65 [66], 13-14)

“Oferece, antes, a Deus um sacrifício de louvor e cumpre teus votos para com o Altíssimo.” (Salmo 49 [50], 14)

“13. Os votos que fiz, ó Deus, devo cumpri-los; oferecer-vos-ei um sacrifício de louvor,14. porque da morte livrastes a minha vida, e da queda preservastes os meus pés, para que eu ande na presença de Deus, na luz dos vivos.” (Salmo 55 [56],13-14)

“12. Fazei votos ao Senhor vosso Deus e cumpri-os. Todos os que o cercam tragam oferendas ao Deus temível, 13. a ele que abate o orgulho dos grandes e que é temido pelos reis da terra.” (Salmo 75 {76],12-13)

“Cumprirei os meus votos para com o Senhor, na presença de todo o seu povo.” (Salmo 115 [116],14)

“3. Quando fizeres um voto a Deus, realiza-o sem delonga, porque aos insensatos Deus não é favorável. Portanto, cumpre teu voto. 4. Mais vale não fazer voto, que prometer a não ser fiel à promessa.” (Eclesiastes 5,3-4)

“Paulo permaneceu ali (em Corinto) ainda algum tempo. Depois se despediu dos irmãos e navegou para a Síria e com ele Priscila e Áquila. Antes, porém, cortara o cabelo em Cêncris, porque terminara um voto.” (Atos 18,18)

Pelas passagens acima, concluímos que a prática de fazer promessas e votos a Deus é bíblica! Quando fazemos promessas e votos a Deus, não é que estamos fazendo barganha com o Senhor, ao contrário, estamos manifestando a nossa fé e nossa confiança no poder, na misericórdia e no amor de Deus para conosco; e ao cumprir o que prometemos, expressamos a nossa gratidão, nossa responsabilidade, nosso compromisso e também o nosso amor a Deus. Se algumas pessoas mais simples ou de pouca instrução fazem promessas que nos parecem exageradas ou estapafúrdias, nem por isso ato de fazer promessas em si torna-se algo condenável. Ademais, se promessas fossem “bobagens”, como alguns dos seus colegas disseram, como poderíamos encontrar tal prática na Escritura Sagrada, em passagens nas quais não vemos nenhuma reprovação da parte de Deus (a não ser com relação a promessas e votos não cumpridos)? E é de se notar que uma das passagens citadas se refere a ninguém menos que o profeta Samuel, homem de Deus, fruto de uma promessa que sua mãe Ana havia feito ao Senhor! Será que podemos dizer que a promessa feita por Ana foi uma “besteira”? Creio que não!

Talvez o maior problema dos protestantes seja esse, prezada Cybele: ainda que sinceramente e com as melhores intenções, cada protestante se considera apto a julgar a Bíblia e toda a religião cristã de acordo com o seu próprio entendimento, isto é, de acordo com aquilo que parece ser razoável. E nesse julgamento, freqüentemente os protestantes são temerários, além de desprezarem a autoridade da Igreja, o que inevitavelmente dá origem à diversidade de opiniões e interpretações que caracteriza o protestantismo.

Com relação ao jejum, geralmente é praticado entre os protestantes não como uma espécie de promessa ou voto, mas sim como meio de enfraquecer (ou mortificar, como nós católicos preferimos dizer) a carne a fim de fortalecer o espírito e favorecer uma maior comunhão com Deus. Nós, católicos, também podemos praticar o jejum com essa finalidade, além dos dias prescritos pela Igreja (Quarta-feira de Cinzas e Sexta-feira Santa), bem como durante o período da Quaresma, como forma de penitência e conversão. Obviamente, nada impede que o fiel católico faça alguma promessa ou voto envolvendo o jejum (por exemplo, jejuar durante sete dias consecutivos, de 0h até o meio-dia) com o intuito de receber ou agradecer uma determinada graça de Deus.

Termino essa resposta passando a palavra ao Catecismo da Igreja Católica, aproveitando para lhe recomendar que sempre consulte o Catecismo quando tiver dúvidas, e também que aconselhe seus colegas a fazer o mesmo.

“2101. Em várias circunstâncias, o cristão é convidado a fazer promessas a Deus. O Batismo e a Confirmação, o Matrimônio e a Ordenação sempre as contêm. Por devoção pessoal o cristão pode também prometer a Deus este ou aquele ato, oração, esmola, peregrinação etc. A fidelidade às promessas feitas a Deus é uma manifestação do respeito devido à majestade divina e do amor para com o Deus fiel.

2102. ‘O voto, isto é, a promessa deliberada e livre de um bem possível e melhor, feita a Deus, deve ser cumprido a título da virtude de religião’. O voto é um ato de devoção no qual o cristão se consagra a si mesmo a deus ou lhe promete uma obra boa. Pelo cumprimento de seus votos, o homem dá a Deus o que lhe prometeu e consagrou. Os Atos dos Apóstolos nos mostram S. Paulo preocupado em cumprir os votos que fizera [cf. At 18,18; 21,23-24].”

Espero ter sanado satisfatoriamente a sua dúvida, e me coloco à sua disposição para outros esclarecimentos que se fizerem necessários.

Fraternalmente,
Marcos M. Grillo


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