Neste artigo compararemos a visão das razões e processos da necessidade de haver uma elite para a ordenação própria de uma sociedade nas obras de dois filósofos contemporâneos. Ambos vítimas das perturbações políticas do segundo quarto do século XX na Europa, cada um encontrou à sua maneira a oportunidade de prosseguir o seu labor filosófico quando seus países passaram por convulsões totalitárias.

De certa maneira fruto da reação à ascensão do populismo em todo o orbe durante a primeira metade do século XX, o surgimento de pensamentos filosófico-políticos que procuram justificar e explicar o papel da elite forma interessante contraponto às próprias teses populistas e igualitaristas daquele tempo. Enquanto as massas, cada vez mais, exigiam um suposto de direito à palavra, ao voto, à escolha, surgiam mais e mais pensadores que viam neste fenômeno sinal inequívoco de decadência moral e civilizacional do Ocidente.

Dentre estes escolhemos Ortega y Gasset e Leo Strauss; ambos tornaram-se famosos pelo inequívoco elitismo de vaga inspiração nietzscheana que permeia seus escritos e é por eles vigorosamente defendido. A visão da elite e do seu papel em cada um destes pensadores, contudo, é radicalmente diferente, fazendo do termo “elitismo” motivo de mais confusão que real esclarecimento. É isto que pretendemos demonstrar.

Ortega y Gasset

O filósofo espanhol Ortega y Gasset (1883-1955) dedicou-se não exclusivamente aos estudos filosóficos (acadêmicos e para-acadêmicos), mas também ao jornalismo e edição de livros, sendo o introdutor do pensamento de Husserl – que conhecera em seus estudos de pós-doutorado na Alemanha – em sua Espanha natal. Em 1929, devido às convulsões político-estudantis que levaram o Estado a uma intervenção nas universidades, para ter a liberdade de trabalhar que a ditadura populista de Primo de Rivera lhe negava ele abdicou à cátedra de professor titular de Metafísica que ocupava, chegando a alugar teatros para apresentar seus seminários. Após o fim daquela ditadura e com a ascensão da Segunda República, ele passou a envolver-se realmente na política nacional, chegando a membro do parlamento, abandonando a política com a chegada da extrema-esquerda ao poder e partindo para o exílio no início da Guerra Civil.

Sua visão do papel da elite na sociedade é particularmente marcada pela sua experiência com o populismo totalitarista e esquerdista que devastaram o mundo e sua pátria natal no segundo quarto do século XX. Extremamente atento à visão igualitarista e cientificista que levou ao surgimento no século XX de uma nova maneira de conceber o papel das massas, sua descrição da nova situação, publicada inicialmente em 1930 , tornou-se seu livro mais conhecido, sendo traduzido para todas as línguas modernas.

Ainda que mantendo sempre uma visão de base fenomenológica, que valorizava sobremaneira a descrição do estado atual das coisas em detrimento de uma compreensão mais focada no processo histórico, este filósofo não negligenciou em absoluto uma compreensão filosófica da história, que via como razão narrativa. Em seu livro Historia como sistema, publicado pela primeira vez em 1935, ele expressa sua visão algo pessimista de um processo histórico em que a perda da fé em Deus, substituída pela fé na ciência, por sua vez já em crise, conduziria por fim a uma sociedade onde não haveria mais uma predeterminação do ser do homem, vista por ele como artificial.

Em sua obra A Rebelião das Massas, ele apresenta como um problema sério – cuja solução ainda era incapaz de perceber – o surgimento e domínio de uma nova visão do homem social, em que não mais há nem a consciência do dever das elites tradicionais, expressa proverbialmente na fórmula de que noblesse oblige, nem a aceitação tradicional da superioridade relativa das elites. Em outras palavras, surgiu, diz ele, o “homem-massa”, que se crê tão sábio quanto o maior dos estudiosos, mas não lê um livro nem procura educar-se; que se considera tão digno de ser ouvido sobre qualquer questão quanto um especialista, mas não vê razão alguma para conquistar uma proficiência mínima nas questões que julga capaz de solucionar. Sua “sabedoria” não é aquela que é conquistada pelo esforço e pelo trabalho, mas simplesmente o corolário de uma afirmação de igualitarismo extremo.

Esta massa, que afasta pela violência as elites e as impede de exercer o seu papel civilizatório necessário, age movida por uma “opinião pública” que na verdade não chega nunca a ser examinada; trata-se simplesmente de um vago “consenso” que ele compara, em seu livro El Hombre y la gente, ao “consenso” de que as pessoas devem cumprimentar-se umas às outras: percebe-se apenas a ausência da ação consensual, sem que haja jamais um exame das razões por trás desta. As elites, assim, são para Ortega y Gasset aqueles que examinam, ainda que por dever de estado, a sua própria vida e dão-se objetivos altos e nobres, procurando pautar-se por um código de conduta e passando assim a exercer benéfica ação civilizatória sobre as massas tradicionais, levando a avanços técnicos e filosóficos, etc. Deste modo, é às elites que se deve a manutenção do status quo civilizacional; sem elas ocorreria uma progressiva degradação da sociedade rumo à barbárie.

Seu papel é sempre o de liderança visível: um cientista deve ser conhecido por todos, e seu conhecimento deve ser respeitado por todos. Os que procuram crescer no conhecimento científico devem procurá-lo e aprender aos seus pés, os que desejam simplesmente uma opinião douta sobre assunto de sua competência devem ouvi-lo, assim como as autoridades que devam tomar decisões relativas à sua área. A elite, assim, deve ser necessariamente uma elite que o é por mérito próprio; diz ele que o nobre deve ser aquele que seria capaz de reconquistar todos os seus privilégios caso isto fosse necessário.

Compete à elite não só aprender com os erros do passado, como também conduzir, em uma dinâmica benéfica e necessária à sociedade, as massas tradicionais a evitar cometê-los novamente. O nobre, assim, é alguém que se eleva a uma condição de superioridade por mérito próprio e, por ter alcançado esta condição, arrasta consigo por seu exemplo visível e sua liderança a sociedade como um todo a condições melhores. A posição pública e notória de sua superioridade não lhe dá o direito de descansar sobre os louros; ao contrário, é desta mesma superioridade que lhe advém o dever de tornar-se ainda melhor. Não se trata de uma visão excessivamente otimista de uma superioridade natural sem esforço; ao contrário, esta superioridade deve necessariamente ser algo conquistado e mantido com esforço supremo a cada momento.

Sua própria posição, assim, leva o nobre a elevar-se e, consigo, a elevar toda a sociedade que ele guia. A aterrorizante alternativa – vislumbrada por Ortega ainda em seu princípios na década de 1920 – é a sociedade conduzida por massas sumamente auto-referentes e desprovidas de qualquer desejo de amelhoramento de si mesmas, sendo assim incapazes de prover algo mais que violência insensata e progressiva degradação das condições sociais.

Resumindo, para Ortega y Gasset a elite é a locomotiva da sociedade, sendo composta por aqueles que examinam sua própria vida e procuram conformar-se a um código de conduta ótima, levando assim consigo o conjunto da sociedade a um aprimoramento. Os que emularem os membros da elite tornar-se-ão membros dela, enquanto os outros – a massa tradicional – irão apenas manter-se em sua condição, desfrutando contudo dos progressos sociais devidos à elite e respeitando-a como tal.

Leo Strauss

O judeu alemão Leo Strauss (1899-1973) também foi aluno de Husserl, tendo ainda tido algum contato com Heidegger quando ainda em sua terra natal. Fugindo da ascensão do anti-semitismo genocida de Hitler na década de 1930, encontrou nos Estados Unidos uma nova pátria. Após o fim da Segunda Guerra, ao contrário de Ortega, ele não voltou à pátria natal, chegando a lecionar por cerca de quinze anos na prestigiosa Universidade de Chicago. Lá formou uma geração de alunos que, anos mais tarde, chegaria a conquistar o poder nos Estados Unidos e colocar em prática, com a “Doutrina Bush”, sua visão do papel da elite.

Para este pensador, a elite também tem uma importância fundamental na sociedade; o igualitarismo é-lhe igualmente avesso. Há contudo uma diferença fundamental em relação ao pensamento de Ortega y Gasset no tocante a qual seja a ação correta desta elite. Para Strauss, a elite política é também fundamentalmente composta por aqueles que se colocam ideais mais altos e procuram pautar a vida por eles. Ao contrário de Ortega, porém, ele vê este processo de ascensão intelectual como uma descoberta sumamente individual de algo que é contudo comum a todos os homens.

Assim, a elite seria na verdade a única detentora do verdadeiro direito natural, que – ao contrário da visão clássica – não seria algo percebido por cada homem, sim algo a ser discernido ao longo de penoso processo de elucubração – ou elitização.

É parte fundamental do pensamento straussiano a noção de que este conhecimento do direito natural é algo perigoso, algo que deve ser mantido secreto e fora do alcance das massas; competiria assim à elite não apenas conduzir a sociedade, mas conduzi-la, por assim dizer, nas sombras, em segredo, de forma a não colocar em risco a sua própria sobrevivência. Para ele, a descoberta deste direito natural pelas massas conduziria a uma revolta contra seus príncipes, o que deveria ser evitado. Com esta visão, ele identifica no pensamento platônico dois ensinamentos contrastantes: um exotérico, voltado às massas, expresso em Platão pelas palavras atribuídas a Sócrates, e outro esotérico, a ser desvelado apenas por esta elite de “iniciados” que tenham vindo a descobrir o direito natural e assim tenham chegado à posição de elite capaz de gerenciar a sociedade. Este último seria expresso por outros personagens (na República competiria a Trasímaco expressá-lo).

O ensinamento verdadeiro de Platão não seria assim para ele o da busca da Justiça, sim o da busca do poder; esta verdade, contudo, não poderia ser apresentada às massas, o que – segundo ele – teria levado Sócrates a não refutar Trasímaco, sim secretamente levá-lo a um canto, onde teria concordado com ele com a ressalva de que este pensamento seria demasiadamente perigoso para apresentar às massas, porém adequado para quem fosse liderá-las, como em um Nietzsche avant la lettre em versão hoplítica.

Em sua filosofia política, assim, Strauss apresenta uma noção bastante nova daquilo que sempre foi crido, chegando a traçar uma diferença entre a filosofia política, que se ocuparia destas verdades além do alcance das massas, e a ciência política, que se ocuparia basicamente da ação política necessária a manter a “cortina de fumaça” a isolar os verdadeiros intentos dos governantes das massas que lhes são sujeitas.

A razão e a filosofia, assim, seriam necessariamente algo esotérico, a ser cuidadosamente mantido fora do alcance da multidão por seus governantes; seu efeito “corrosivo” sobre a pólis não permite que elas sejam tornadas algo de conhecimento exotérico.

Às massas caberia apenas – em reflexo nítido do pensamento kantiano – a religião, vista como forma vulgar da moral. Para a elite, ao contrário, esta religião seria apenas uma fachada, um discurso exotérico destinado a manter o poder e o conhecimento esotéricos que lhes facultaria a ação em benefício próprio (do qual em última instância as massas participariam materialmente, em sua ignorância dos meios e fins verdadeiros de seus governantes). Ele via assim como prova do declínio da idéia americana a ascensão do progressismo democrata, que deveria ser barrado o quanto antes por consistir em perigosíssima aplicação prática ao governo de um discurso que deveria na melhor das hipóteses ser sua pregação exotérica, desconectada dos objetivos reais do governo. Com a ascensão da Administração de George W. Bush seus ex-alunos conseguiram, finalmente, pôr em prática o que pregara seu mestre.

Conclusão

Ambos os pensadores partilham uma crença na importância de uma elite composta por pessoas que se colocam ideais mais altos e têm um nível de exigência consigo mesmo maior que o comum. Em Ortega y Gasset, contudo, esta elite é plenamente visível e é justamente pela clareza e transparência de seus ideais que ela exerce seu papel civilizacional. Compete a ela manter o progresso técnico e social, além do meramente político, e é elite quem exige de si mais que a média.

Para Strauss, contudo, a elite o é não apenas por colocar-se ideais mais altos, mas pelo próprio secretismo destes ideais e pela falta de escrúpulos ao manipular as massas em benefício próprio – o que teria contudo efeitos benfazejos sobre a média da população, conforme o ideário clássico do liberalismo econômico inglês e americano, de Adam Smith em diante – e pregar exotericamente algo tremendamente diferente do crido na prática. Longe de ser o soldado de linha de frente a levantar alto a bandeira para suscitar a emulação das massas, tal como na visão de Ortega y Gasset, a elite age por meias-verdades e mentiras bem-intencionadas, sempre se mantendo nas sombras, sempre afirmando algo diferente do que pensa, sempre pregando em público uma moral “de rebanho”, em termos nietzscheanos, sem que sequer cogite em aplicá-la a si e aos seus pares.

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