Um grupo que se intitula “Frente pela Libertação dos Animais” invadiu e vandalizou um laboratório da Universidade Federal de Santa Catarina na semana passada, espalhando gasolina – que felizmente não causou um incêndio – e pichando paredes para avisar que estão “em todos os lugares lutando pela liberdade dos ratos, pombos, cabras e cães”.

Os tais libertadores de animais são contra as experiências científicas que testam tratamentos novos em animais antes de fazê-lo em seres humanos. Não sei se levam suas ideias às últimas consequências e se oferecem como cobaias humanas de remédios; afinal, sem a medicina moderna eles já teriam morrido de varíola ou peste bubônica.

A confusão que eles fazem, contudo, é provavelmente algo mais comum. Cada vez mais gente, trancada em um apartamentinho e protegida pela ciência, opera mentalmente uma antropomorfização dos animais, confundindo os ratinhos de laboratório com os sobrinhos do Mickey. Por falta de ocasiões de lidar com animais, as pessoas os confundem com seres humanos e acabam vendo genocídio na produção de picanhas e aborto em escala chinesa nas granjas de ovos.

Alguns “libertadores” como os de Florianópolis já soltaram animais de laboratório contaminados com doenças infecciosas, que, por nunca terem vivido em liberdade, na melhor das hipóteses morrem de fome e de medo em algum lugar escuro.

Essa confusão entre bicho e gente, paradoxalmente, é fruto das conquistas científicas que vieram e vêm das experiências com bichos. A luta científica contra as doenças, que depende dessas experiências, tornou possível a existência de aglomerações humanas gigantescas, que em outros tempos seriam rapidamente varridas do mapa por pragas e doenças infecciosas. A mesma ciência que testa em bichos as suas hipóteses levou à construção de sistemas sanitários, de esgoto e água encanada limpa, de prédios dedetizados e de uma civilização urbana em que é possível, pela primeira vez na história da humanidade, beber leite sem ver vacas e sem ser picado por amorosos carrapatos.

Faria algum sentido para os “libertadores” tornar-se eremita no meio da selva, vivendo nu na agradável companhia dos mosquitos de malária e dos caramujos da esquistossomose, sem remédios, sem esgoto e sem tecnologia. Ao menos seria coerente. Quando, no entanto, se vive na sociedade urbana que a ciência construiu, atacar laboratórios é atacar o meio em que se vive. A confusão é compreensível, mas quem deve a vida às vacinas não tem o direito moral de atacar quem as produz.

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