“E tu, Cafarnaum, serás elevada até o céu? Não, até ao inferno serás precipitada! Porque, se em Sodoma tivessem sido feitos os milagres que no meio de ti foram feitos, até hoje ela existiria.” (Mt 11,23)

Já é lugar-comum afirmar que “o pior cego é aquele que não quer ver”. A citação evangélica acima confirma este ditado popular, mostrando que muitos do conterrâneos de Jesus Cristo, mesmo presenciando os milagres, preferiam fechar os olhos a tal realidade. Trata-se, pois, do cúmulo da hipocrisia: alguém negar um fato simplesmente porque não o aprecia, não lhe agrada.

Não são poucos os homens que ainda hoje adotam a cínica posição de negar os fatos, ainda que com belíssimas desculpas. E se o fato em análise é um milagre, então a situação piora. De início, do alto de sua sapiência, o homem moderno nega, a priori, qualquer possibilidade de milagre, ou seja, de intervenção extraordinária de Deus na História humana. Negando esta possibilidade, por que haveria de estudar algum fato que a “plebe rude e ignorante” afirma ser milagre ?

Ora, o mínimo que tais estudiosos poderiam fazer era sair de sua gaiola universitária e investigar porque o povão se admira perante realidades como Guadalupe, Lanciano, Lourdes e tantas outras. Se a ciência possui alguma função ou utilidade, não seria justamente a de esclarecer os fatos, derrubar os mitos, procurar a verdade, instruir as massas ?

Pois bem, prossigamos. Hoje é 16 de abril, dia de Santa Bernadete Soubirous no Calendário Católico. Quem seria esta bem-aventurada ? Isto mesmo: aquela mocinha de 14 anos de idade, humilde e analfabeta, para quem Nossa Senhora teria aparecido em Lourdes (França), em 1858.

Façamos aqui uma pausa: é impossível se comprovar cientificamente se Nossa Senhora, de fato, apareceu ou não a Santa Bernadete ou a quem quer que seja. Se fulano ou beltrano diz que teve uma visão de Maria, de Cristo, de algum santo, ou de outro ser, não há como vasculhar a mente desta pessoa para saber se é realmente verdade. Não é à toa, pois, que a Igreja deixa o fiel livre para acreditar ou não em aparições. Aliás, a Igreja recomenda até cautela, principalmente tendo em vista a “epidemia de aparições” que infesta o mundo de hoje.

Quando a Igreja dar o seu aval para Lourdes ou Guadalupe, por exemplo, não está dizendo que houve realmente uma aparição ali, mas simplesmente que não há nada ali contra a fé católica. Vê-se, pois, que em termos de visão, não há muito o que se discutir, ficando a questão a cargo do bom senso de cada fiel.

No entanto, o enfoque não á o mesmo quando se trata de um cura, por exemplo. Ora, se me apresentam um farrapo de gente, em praticamente pele e osso, com a tuberculose em estado extremamente avançado, e esta criatura, depois de mergulhar em uma piscina de temperatura glacial, sai perfeitamente curada, é dever da ciência investigar o que ocorreu aí.

A ciência trabalha com fatos, e não se pode negar a investigar este seu objeto, sob pena de cair no vazio. No entanto, há casos em que o preconceito humano fala mais alto, por mais ridículo que isto seja.

Se o leitor conseguiu chegar até aqui, então está mais do que na hora de ser recompensado. Passemos aos fatos!

Os trechos que seguem, destacados, foram obtidos do livro “Os milagres e a ciência” (Pe. Quevedo -. p. 95ss):

Esta é a história real de Marie Lebranchu: tuberculose pulmonar, 30 kg de peso, aspecto esquelético, e que sai curada depois de mergulhar nas frias águas de Lourdes.

O Diretor do Posto Médico de Lourdes, Dr. Boissairie, resiste a conceder a licença, temeroso de que a água fria, a menos de 10 graus centígrafos, precipite a morte da pré-agonizante Marie Lebranchu.
Mas as súplicas da doente mostram tal fé que (…) o Dr. Baissairie assina o documento de autorização.

A paciente está tão fraca, que são dos padioleiros a levam e submergem na piscina.

Contorce-se de dor, mas, para o espanto das testemunhas, sai sozinha da piscina cantando a “Ave Maria” e se dirige à gruta para rezar a Maria.

Estes fatos foram observados tanto pelo Dr. Boissairie quanto pelo famoso escritor Émile Zola, mas vejam que reações tão diferentes estes dois homens possuem!

Dr. Boissairie:

Escreve o Dr. Boissairie (Dr. Bonamy – Bom Amigo -, no romance Lourdes) “Cheguei junto com Émile Zola (no dia 20, poucos minutos após a cura). Diante do escritor, que estava aturdido emocionalmente, fiz entrar a miraculada. Nada de som de respiração, nada de nada. Tudo é novo nos seus pulmões, pouco antes devastados. Então disse a Zola: ?Senhor, eis aí a curada aquela que o senhor considerava moribunda; faça-a auscultar por quem quiser. Dirá o mesmo que eu”.

Émile Zola

Lendo o que dela inventa e deturpa Émile Zola (1840-1902) no romance Lourdes, a protagonista na vida real, Marie Lebranchu.
Afirma que “La Grivotte” não foi curada. E inclusive a faz morrer: trinta anos antes que a verdadeira protagonista, Marie Lebranchu.
Zola foi mais desonesto inclusive consigo mesmo, porque instantes antes de viajar de Paris para Lourdes havia dito, após debruçar-se sobre a padiola de Marie Lebranchu.: “Se essa aí sarar, então eu acreditarei nos milagres de Deus”.

Pode parecer incrível, mas Zola a matou em seu romance ! No entanto…

“Essa aí” , de trinta e cinco anos, não só não morreu na volta a Paris, mas sobreviveria com excelente saúde até seus 65 anos de idade.
Quando o Dr. Boissairie protestou indignado, Zola cinicamente acreditou-se isento de responsabilidade simplesmente dizendo: “Doutor, eu fiz um romance. Minhas personagens me pertencem. Se não está contente, deixe de lado meu livro!”.

O próprio Zola, no auge de sua hipocresia, ainda assim, sabia que sua desculpa era mais esfarrapada do que a mulher que antes ele conhecera, de modo que mais tarde tenta alegar que a água fria poderia ter provocado a cura da tuberculose!

Paciência: se água gelada cura, então lancem todos os tuberculosos em água glacial… E mais: os enfermos não serão apenas curados da tuberculose, mas também recuperarão sua integridade física, sem longos e cansativos períodos de repouso, tal qual aconteceu com Marie Lebranchu !

Não, não foi a água gelada que curou Marie Lebranchu. Zola não soube (ou não quis!) responder, mas Cristo sabe: “Filha, a tua fé te curou. Vai em paz e fica curada desse sofrimento”. (Mc 5,34).

Mas se o leitor ainda se lembra do título deste texto, verá que ele alude a uma outra pessoa: Alexis Carrel. Quem é este ? Com a palavra, Dom Estevão Bettencourt, em sua excelente revista “Pergunte & Responderemos” (Jun/99, in O testemunho de ateus):

Alexis Carrel (1973-1944)

Alexis Carrel foi Prêmio Nobel em Medicina. Perdeu a fé de sua infância e entregou-se ao materialismo positivista. Aos poucos, porém, foi tomando consciência de que este não respondia a perguntas fundamentais de seu coração. Viajou para Lourdes, acompanhando uma enferma de câncer terminal; lá verificou, com todo o rigor científico, a cura da moléstia. Isto o impressionou profundamente, levando-o a uma busca sincera e sequiosa da verdade.

Imagine quão duro deve ter sido para este homem ver sua fortaleza atéia-positivista abalada. Zola provavelmente sentiu o mesmo impacto, mas aqui, porém, eis que o Dr. Alexis Carrel, Nobel em Medicina, passa anos se dedicando aos estudos, “uma busca sincera e sequiosa da verdade”, procurando na literatura médica explicações para a cura daquela sua paciente, que o terrível câncer tanto maltratara. Mas a verdade ultrapassa os compêndios médicos, e o próprio Alexis Carrel vai se aproximando de Deus, chegando mesmo a escrever contra o materialismo.

No fim da vida, caiu gravemente enfermo; então aguçou-se-lhe o drama do sentido da vida; resolveu entregar-se a Deus como um menino e pediu os sacramentos da Igreja. O empurrão decisivo lhe foi dado ao presenciar a têmpera forte e heróica de uma orfãzinha. Exclamou então: “Minha salvação está em que uma pobre ignorante me segure a mão e me guie… Sim; quando se trata de não morrer como um cão, mas de terminar a vida nobremente, é somente junto aos humildes adoradores de Deus que os filósofos hão de buscar lições de Lógica”.

O convite está feito: cabe a cada um, em seu livre arbítrio, decidir.

“Eis que estou à porta e bato. Se alguém ouvir minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa e cearemos juntos.” (Ap 3,20).

“Porque, se em Sodoma tivessem sido feitos os milagres que no meio de ti foram feitos, até hoje ela existiria.” (Mt 11,23)

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