Espaço do Leitor

Luterano pergunta sobre a possibilidade de salvação fora da Igreja Católica

Boa tarde
Procurei no site e não encontrei uma questão específica: para a Igreja Católica, os protestantes históricos encontram salvação? Ou são hereges que não entrarão no Reino de Deus a não ser que voltem a Igreja Católica? Pergunto isso pois já li algumas coisas sobre a mútua aceitação do batismo efetuado pela Igreja de Confissão Luterana e a Igreja Católica. E percebo que algumas doutrinas são semelhantes, mas outras são diferentes, excludentes. Desde já agradeço pela atenção.
Deus abençoe
André

Prezado André,

A paz de Nosso Senhor Jesus Cristo!

Agradecemos pela confiança em nos enviar a sua dúvida.

Em nota redigida pelo Pe. Jesús Hortal, SJ, um dos maiores especialistas em Direito Canônico no Brasil, ao cânon 869 do atual Código de Direito Canônico (Ed. Loyola, 12ª ed.), lemos o seguinte:

“Diversas Igrejas batizam, sem dúvida, validamente; por esta razão, um cristão batizado numa delas não pode ser normalmente rebatizado, sem sequer sob condição.”

Dentre essas igrejas a mesma nota inclui a Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB), da qual deduzo que você seja membro (obs.: o batismo da Igreja Evangélica Luterana do Brasil – IELB também é reconhecido como válido). De acordo com o cân. 96, “pelo batismo o homem é incorporado à Igreja de Cristo”. Já no Catecismo da Igreja Católica (co-edição Vozes e Loyola) temos que “o batismo faz-nos membros do Corpo de Cristo” e “incorpora à Igreja” (n. 1267). Ainda no mesmo Catecismo lemos:

“Os que hoje em dia nascem em comunidades que surgiram de tais rupturas ‘e estão imbuídos da fé em Cristo não podem ser argüidos de pecado de separação, e a Igreja Católica os abraça com fraterna reverência e amor… Justificados pela fé recebida no batismo, estão incorporados em Cristo, e por isso com razão são honrados com o nome de cristãos, e merecidamente reconhecidos pelos filhos da Igreja Católica como irmãos no Senhor.

Além disso, ‘muitos elementos de santificação e de verdade existem fora dos limites visíveis da Igreja Católica’: ‘A Palavra escrita de Deus, a vida da graça, a fé, a esperança e a caridade e outros dons interiores do Espírito Santo e elementos visíveis.’ O Espírito Santo serve-se dessas igrejas e comunidades eclesiais como meios de salvação cuja força vem da plenitude de graça e de verdade que Cristo confiou à Igreja católica. Todos esses bens provêm de Cristo e levam a ele e impelem à ‘unidade católica’.” (nn. 818-819)

Dessa forma, aqueles que foram validamente batizados em comunidades eclesiais cristãs não-católicas estão incorporados ao Corpo de Cristo, isto é, à Sua única Igreja, que subsiste na Igreja Católica. A esse respeito vale a pena lermos atentamente o que ensina a Declaração Dominus Iesus, redigida pelo então Cardeal Joseph Ratzinger, hoje Papa Bento XVI (grifos meus):

Os fiéis são obrigados a professar que existe uma continuidade histórica — radicada na sucessão apostólica53 — entre a Igreja fundada por Cristo e a Igreja Católica: « Esta é a única Igreja de Cristo […] que o nosso Salvador, depois da sua ressurreição, confiou a Pedro para apascentar (cf. Jo 21,17), encarregando-o a Ele e aos demais Apóstolos de a difundirem e de a governarem (cf. Mt 28,18ss.); levantando-a para sempre como coluna e esteio da verdade (cf. 1 Tim 3,15). Esta Igreja, como sociedade constituída e organizada neste mundo, subsiste [subsistit in] na Igreja Católica, governada pelo Sucessor de Pedro e pelos Bispos em comunhão com ele ».54 Com a expressão « subsistit in », o Concílio Vaticano II quis harmonizar duas afirmações doutrinais: por um lado, a de que a Igreja de Cristo, não obstante as divisões dos cristãos, continua a existir plenamente só na Igreja Católica e, por outro, a de que « existem numerosos elementos de santificação e de verdade fora da sua composição »,55 isto é, nas Igrejas e Comunidades eclesiais que ainda não vivem em plena comunhão com a Igreja Católica.56 Acerca destas, porém, deve afirmar-se que « o seu valor deriva da mesma plenitude da graça e da verdade que foi confiada à Igreja Católica ».57

17. Existe portanto uma única Igreja de Cristo, que subsiste na Igreja Católica, governada pelo Sucessor de Pedro e pelos Bispos em comunhão com ele.58 As Igrejas que, embora não estando em perfeita comunhão com a Igreja Católica, se mantêm unidas a esta por vínculos estreitíssimos, como são a sucessão apostólica e uma válida Eucaristia, são verdadeiras Igrejas particulares.59 Por isso, também nestas Igrejas está presente e actua a Igreja de Cristo, embora lhes falte a plena comunhão com a Igreja católica, enquanto não aceitam a doutrina católica do Primado que, por vontade de Deus, o Bispo de Roma objectivamente tem e exerce sobre toda a Igreja.60

As Comunidades eclesiais, invés, que não conservaram um válido episcopado e a genuína e íntegra substância do mistério eucarístico,61 não são Igrejas em sentido próprio. Os que, porém, foram baptizados nestas Comunidades estão pelo Baptismo incorporados em Cristo e, portanto, vivem numa certa comunhão, se bem que imperfeita, com a Igreja.62 O Baptismo, efectivamente, tende por si ao completo desenvolvimento da vida em Cristo, através da íntegra profissão de fé, da Eucaristia e da plena comunhão na Igreja.63”

Pelo exposto, podemos concluir que, de acordo com a doutrina católica, é possível aos cristãos não-católicos a salvação, embora esta só possa se dar de forma extraordinária, ao passo que somente os que foram plenamente incorporados à Igreja Católica Apostólica Romana, governada pelo Papa e pelos Bispos em comunhão com ele, podem ser ordinariamente salvos. Em outras palavras, a salvação para os não-católicos é possível, porém mais difícil e arriscada do que para aqueles que estão em plena comunhão com a Igreja Católica, onde são ministrados validamente todos os sacramentos instituídos por Nosso Senhor Jesus Cristo para o bem e salvação das almas. Vale salientar que mesmo para os que não estão em plena comunhão com a Igreja Católica a salvação só pode se dar na Igreja Católica e pela Igreja Católica, jamais fora dela. A esse respeito convém lermos o que ensinou o Decreto Unitatis Redintegratio sobre o Ecumenismo (grifos meus):

Por isso, as Igrejas e Comunidades separadas, embora creiamos que tenham defeitos, de forma alguma estão despojadas de sentido e de significação no mistério da salvação. Pois o Espírito de Cristo não recusa servir-se delas como de meios de salvação cuja virtude deriva da própria plenitude de graça e verdade confiada à Igreja católica.

Contudo, os irmãos separados, quer os indivíduos quer as suas Comunidades e Igrejas, não gozam daquela unidade que Jesus quis prodigalizar a todos os que regenerou e convivificou num só corpo e numa vida nova e que a Sagrada Escritura e a venerável Tradição da Igreja professam. Porque só pela Igreja católica de Cristo, que é o meio geral de salvação, pode ser atingida toda a plenitude dos meios salutares. Cremos também que o Senhor confiou todos os bens da nova Aliança ao único colégio apostólico, a cuja testa está Pedro, com o fim de constituir na terra um só corpo de Cristo. É necessário que a ele se incorporem plenamente todos os que de alguma forma pertencem ao Povo de Deus. Este Povo, durante a peregrinação terrena, ainda que sujeito ao pecado nos seus membros, cresce incessantemente em Cristo. É conduzido suavemente por Deus, segundo os Seus misteriosos desígnios, até que chegue, alegre, à total plenitude da glória eterna na celeste Jerusalém.

Assim, a salvação se dá sempre e somente por intermédio da Igreja Católica, pois embora haja elementos de verdade fora dos limites visíveis da Igreja, a veracidade e a virtude de tais elementos derivam da única Igreja e de seu único Senhor, Jesus Cristo. Vale também dizer que, em última análise, somente os membros da Igreja Católica podem ser salvos, ainda que alguns sejam apenas membros “invisíveis” da Igreja, ou seja, não plenamente incorporados a ela, ou ainda, não em plena comunhão com a Igreja, mas ainda assim membros dela, mesmo que não o saibam.

Aproveito o ensejo para observar que a chamada igreja luterana, ao lado da anglicana, talvez seja aquela que tem mais elementos em comum com a Igreja Católica, notadamente no que diz respeito à liturgia e à Eucaristia. Por essa razão, convido-o a se aproximar mais da Igreja Católica e a conhecer melhor a nossa doutrina. Para isso recomendo uma visita ao nosso Índice Temático, onde você encontrará artigos e respostas referentes a dúvidas e objeções enviadas por internautas sobre uma grande variedade de assuntos. E indico, desde já, a leitura do artigo abaixo [no site do Apostolado Veritatis Splendor]:

  • LEITOR PROTESTANTE EM LUTA INTERIOR PARA CONVERTER-SE AO CATOLICISMO
[do Apostolado Veritatis Splendor] Recomendo também a leitura do artigo “Salvam-se os não-católicos?”, de autoria de Rafael Vitola Brodbeck, membro do nosso apostolado. [do Apostolado Veritatis Splendor] Na esperança de ter respondido satisfatoriamente a sua indagação, despeço-me com um abraço fraterno, rogando à Santíssima Trindade que permita a você vislumbrar a plenitude da verdade cristã, e assim abraçar a fé católica. [do Apostolado Veritatis Splendor] Em Cristo,
Marcos M. Grillo


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