– Nunca na história da humanidade o machismo chegou tão longe: quando os homens não só desprezam as mulheres, mas pretendem mesmo substitui-las.

Estudos acadêmicos e reportagens jornalísticas não cansam de divulgar os benefícios físicos que a amamentação traz para os recém-nascidos: resistência a doenças, alimentação balanceada, nutrição suficiente, estímulo maxilo-bucal, elementos essenciais para o desenvolvimento cerebral e a lista não para. E ainda nem se tocaram em conhecidíssimos benefícios psicológicos, oriundos do contato tátil da mamãe com seu pequeno rebento:

O odor do leite materno, o aconchego do colo que lhe gerou, o compasso grave do bater do coração nos ouvidos da criança, o contato do lábio com o seio trazem para o bebê sentimentos de segurança, confiança, carinho, sensação de cuidado que são insubstituíveis e que marcarão a memória afetiva dos bebês indelevelmente. Com efeito, é sabido que a cultura atual valoriza os genéricos e as simplificações. Mas quem poderia dizer seriamente que esse encontro espetacular entre a mãe e seu filho pode ser suprimido ou mesmo substituído por um outro contato humano semelhante?

Na última semana um bebê, gerado in vitro, foi tomado para adoção por dois homens em Pernambuco. Não se pretende discutir a prerrogativa legal da dupla. Afinal, os magistrados daquele estado entenderam que desejos pessoais estão acima da Carta Magna, que consigna adoção apenas para famílias, e a dupla só pode configurar família caso se torça a letra da Constituição Federal. O mais importante e sobre o quê se deseja meditar é o direito da criança de ter uma mãe. Sim, pois nesse caso não se ouviu a opinião do bebê, que não terá objetivamente nenhum dos benefícios psicológicos e biológicos que a amamentação e o contato cotidiano com sua genitora propicia. Esse bebê não será protegido com anticorpos, não ouvirá a pulsação da mamãe ao amamentar, não sentirá a respiração ofegante por causa do momento tão importante, não experimentará a segurança que o colo materno pode emprestar. Enfim, os bebês assim expostos são alienados do direito de escolher se querem ou não querem a experiência de ter uma mãe a educá-los. Por mais que as duplas que se apresentam para cuidar dessas e de outras crianças recém-nascidas desejem dar-lhes o melhor de si, boa-vontade não é suficiente. Falta-lhes algo fundamental: a genética apropriada.

E aqui fica claro um aspecto curioso deste episódio, que é o aspecto machista da contemporaneidade. A despeito da propalada “tolerância” da sociedade atual, velhos problemas continuam incomodando e teimando em revelar-se em seus aspectos mais cruéis e desalmados. Mandando às favas o “politicamente correto”, como não perceber o machismo mau disfarçado nesse caso. O episódio põe às claras o quanto a sociedade contemporânea é machista. Um machismo travestido, é verdade; um machismo maquiado, por certo; um machismo com luvas de pelica, mas ainda um machismo. E por ser assim tão dissimulado, este tipo de machismo é ainda mais cruel e injusto. Afinal, o evento machista ensina que não se pretende apenas suprimir benefícios das mulheres, mas pretende-se fazer desaparecer sua necessidade, na medida em que elas deixam de ser indispensáveis à sociedade. Nunca na história da humanidade o machismo chegou tão longe: quando os homens não só desprezam as mulheres e seus direitos, mas pretendem mesmo substitui-las. É preciso que se diga em alto e bom tom: as mulheres são indispensáveis! Nenhum homem, por mais bem preparado que esteja ou por mais que a boa vontade lhe abunde, poderá fazer as vezes de qualquer mulher, nas funções que lhes são próprias. Afinal, homem e mulher são diferentes no seu gênero, o que é uma riqueza incomensurável. Imaginar que um homem, com maior ou menor esforço, possa passar-se por mulher e realizar suas atividades próprias de modo absoluto, em alguns casos até melhor que as mulheres, é ou não é machismo em sua pureza química? O suprassumo do machismo não ocorre quando as mulheres são alijadas de seus direitos políticos, culturais ou civis, mas quando se lhes negam o direito à especificidade de sua existência. Ora, negar o que é próprio da existência de um indivíduo é negar seu elemento mais fundamental, como aconteceu quando negaram aos índios sua humanidade, ou aos presos de guerra sua dignidade humana.

Por debaixo deste evento, comemorado pela comunidade homoafetiva como uma vitória, esconde-se ainda um brucutu, com tacape às costas, massacrando as mulheres. Afinal, se se imagina que não há nada que uma mulher faça que um homem não possa fazer melhor, que nome dar a isso senão machismo, puro e simples? Como são machistas esses homossexuais…

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