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Maçonaria: seita religiosa ou grupo secreto?

Gostaria de saber se a Maçonaria é uma seita religiosa ou um grupo secreto? (C.)

Prezado C.,

Pax Domini!

Suas perguntas, embora simples e diretas, encerram grande complexidade e, por isso mesmo, muito se poderia escrever em resposta.

Porém, tentaremos ser breves ao máximo, citando algumas informações apontadas por d. Boaventura Kloppenburg[1], grande estudioso da Maçonaria, que teve acesso a documentos e rituais oficiais autênticos.

A Maçonaria é, simultaneamente, seita filosófico-religiosa e sociedade secreta.

É seita filosófico-religiosa pois:

“‘De modo algum pode um ateu iniciar-se nos mistérios maçônicos ou permanecer na atividade das Lojas’, informa peremptoriamente a ‘Pequena Enciclopédia Maçônica’. E outro autor, Cavaleiro Kadosh, revela que a Maçonaria ‘exige que seus componentes tenham crenças, que acreditem num Ser Supremo’; a Maçonaria – continua o graduado Filho da Viúva – é uma ‘instituição que não admite ateus, que exige que todos os seus componentes sejam crentes, que acreditem em Deus’ (Bronwill-Albuquerque, ‘O que é a Maçonaria’, Rio, 1955, pp. 19 e 23)” (p. 127).

“Todavia, não são apenas os ateus e materialistas que se sentem frontalmente atingidos pelo intransigente princípio maçônico de que é preciso admitir a existência do Grande Arquiteto do Universo. Pois nos rituais não são raras as ocasiões em que o Venerável deve proferir preces ao Grande Arquiteto. Ora, isto já é um modo concreto e bem determinado de render culto a Deus” (p. 129).

“Conclui-se daí que os rituais maçônicos ultrapassam enormemente os limites oficialmente proclamados pela Maçonaria. Os maçons são muito mais religiosos do que deveriam ser! O fato de usarem em suas lojas os livros sagrados da Bíblia, para fazer sobre ela seus sacrílegos juramentos, é outra inconsequência que deveria afastar das lojas maçônicas todos os judeus e não-cristãos” (pp. 130-131; grifos nossos).

Porém, as lojas ligadas ao Grande Oriente da França, por admitirem ateus e materialistas, resolveu suprimir toda e qualquer alusão a Deus. Isto porque “o grande princípio maçônico, que manda abstrair de qualquer crença ou ato confessional, não permite que, sem inconsequência, se prescreva como obrigatória uma fórmula que afirme a existência de Deus” (p. 131). Desta forma, “o Grande Oriente da França resolveu, afinal, suprimir de todo a velha declaração de fé na existência do Grande Arquiteto do Universo. Foi modificado então o Rito Moderno ou Francês, que eliminou de seus rituais todas as orações e alusões a Deus ou ao Grande Arquiteto do Universo. Esse rito é hoje reconhecido pelo Grande Oriente do Brasil e não poucas lojas do Brasil o adotaram” (p. 131).

“Mas a Grande Loja da Inglaterra, considerada Loja-Mãe da Maçonaria, não se conformou com tão radical supressão de um dos ‘imutáveis princípios da Maçonaria’ e tomou medidas severas, proibindo o acesso às lojas a todo maçon que não professasse a crença no Grande Arquiteto do Universo e declarou ‘irregular’ o Grande Oriente da França. Lançara, portanto, a Loja-Mãe, o interdito e a excomunhão sobre a filha rebelde. Mais recentemente, em 1952, a mesma Loja-Mãe condenou e interditou a Grande Loja do Uruguai por não querer reconhecer a fé em Deus. As Grandes Lojas de outros muitos países declararam-se solidárias com a Loja-Mãe e romperam suas ‘relações de amizade’ com o Grande Oriente da França e outros Orientes que haviam cometido o mesmo pecado grave. Entrou assim profunda cisão na Maçonaria universal” (p. 132).

Apesar de todos os elementos religiosos existentes nos documentos e rituais maçônicos, percebe-se que “o Grande Arquiteto do Universo, o deus dos maçons, é um deus ‘deísta’, vago, indefinido, impessoal, ou, como dizem os maçons, uma ‘força construtora, ordenadora e evolutiva’. Não é, porém, o Deus-Iahweh revelado a Moisés (cf. Ex 3,1-16), que com este nome queria indicar não apenas sua essência eterna e imutável, mas também sua presença atuante entre os homens, disposto a intervir, a ajudar, a libertar, a salvar. O Deus dos cristãos é o Emanuel, que quer dizer “Deus conosco” (cf. Mt 1,23). E em Jesus Cristo Ele se tornou ‘o Verbo que se fez carne e habitou entre nós’ (Jo 1,14) e se tornou nosso Mestre, nosso Mediador e nosso Pastor” (p. 138).

Eis duas orações citadas por d. Kloppenburg, retiradas de rituais oficiais da Maçonaria, bem demonstrando o caráter religioso da seita:

“Humilhemo-nos, meus IIr.:, ante o Soberano Árbitro dos Mundos e reconheçamos o seu infinito poder e nossa infinita fraqueza. Contendo os nossos corações nos limites da retidão e dirigindo os nossos passos pela estrada da virtude, elevemo-nos até o Grande Arquiteto do Universo; ele é um só e subsiste por si mesmo e todos os seres devem-lhe a existência. Tudo faz e tudo domina; invisível aos nossos olhos, vê e lê no fundo de nossas almas…” (Ritual do Aprendiz [Rito Escocês]; p. 130).

“Gr.: Arq.: do Univ.:, potência infinita, fogo sagrado, que fecundas tudo quanto existe, ser misericordioso que se concebe, mas que se não pode definir, imutável autor das incessantes transformações, tudo vive e transpira em ti e por ti! A luz e as trevas são para ti iguais! Tu nos vês na morte, bem como nos hás visto ao nascer! Para ti são visíveis os segredos do túmulo. Possa o nosso sempre chorado Ir.: … viver para todo o sempre contigo, como ele viveu entre nós! Possa a sua morte ensinar-nos e preparar-nos para gozar com ele, no teu seio paternar, da verdadeira imortalidade” (Ritual Fúnebre [Rito Escocês]; p. 130).

Outro ritual de índole religiosa encontra-se narrado à p. 98:

“Para a cerimônia de [batismo maçônico] deve ser preparado um ‘altar consagrado’, sobre o qual estarão a naveta com incenso, o turíbulo, diversos vasos com água, sal, mel, vinho, um pão ou bolo triangular ou três pães e bolos, um esquadro, um compasso, aventais, luvas brancas e uma taça com vinho. (…) Começa o Venerável com breve alocução, pedindo a todos que prestem ‘a mais religiosa atenção ao grave e solene ato a que vamos proceder’. Dirige-se depois para o altar e, voltando-se para o Oriente, começa uma prece dirigida ao Grande Arquiteto dos Mundos: ‘(…) Nós vimos humildemente render-te uma nova homenagem, unindo ao culto da verdade filhos que amamos (…) Abençoa também (estendendo a mão direita sobre o altar) estes produtos com que a tua boa vontade nos favorece e que ornam este altar como tantos outros símbolos de nossa fé. Concede-lhes o poder de gravar no coração de nossos filhos adotivos uma perene lembrança, que, na idade da razão os torne para sempre fiéis às condições de sua adoção’. Feita a oração, o Venerável sobe ao trono e os demais sentam-se. Nesse momento batem à porta e o Cobridor anuncia: ‘São filhos dos nossos irmãos que se acham transviados no mundo profano, onde paixões más ameaçam de arrastá-los ao mal’. Segue então uma viva discussão sobre o que farão com estas crianças. Afinal o Venerável pede ao Orador que dê sua opinião. Este não se faz esperar: ‘Julgo que devemos iniciá-las na vida da inteligência; que o véu material que cobre seus olhos desapareça; que sua boca aprenda a proferir somente frases meigas e afáveis; que seu corpo seja purificado; que o amor do trabalho lhes garanta a moralidade de seus costumes; que lhes seja inspirado o espírito de força, de virtude e de união; e que a adoção maçônica lhe abra o caminho da felicidade'” (Ritual de Adoção dos Lowtons; pp. 98-99).

Não há dúvidas, portanto, da orientação filosófico-religiosa da maçonaria, sendo a mesma incompatível com a fé cristã, inclusive para os não-católicos.

Ao mesmo tempo, a Maçonaria é uma sociedade secreta. Aponta d. Kloppenburg:

“São numerosos os Ritos nos quais trabalha a Maçonaria nos diversos países do mundo. Enumeram-se nada menos de setenta e dois ritos diversos (…) como se poderá ver no ‘Diccionario Enciclopédico de la Masoneria’, sob o verbete ‘Rito’, que dá também a história e o essencial de cada um. (…) Entre os ritos praticados pelas potências maçônicas, três são os mais adotados em mais de 90% delas, razão por que são tidos como universais: o Rito Escocês Antigo e Aceito [com 33 graus], o Rito de York [americano, com 9 graus; inglês, com 4 graus] e o Rito de Schroeder [ou Rosacruz Retificado, com 7 graus]. Os maçons de origem inglesa e norte-americana, que representam dois-terços da população maçônica universal, adotam geralmente o de York e o Escocês; os alemães o de Schroeder; os franceses costumam trabalhar no chamado Rito Moderno ou Francês [com 7 graus], mas que por muitas potências não é reconhecido como regular, por omitir propositadamente qualquer alusão ao Grande Arquiteto do Universo e à imortalidade da alma” (pp. 37-38)

“No Brasil, o Rito mais difundido é o chamado Escocês Antigo e Aceito. A ‘Pequena Enciclopédia da Maçonaria’, de 1953, informa até, na p. 581, ‘No Brasil, as Potências regulares só têm, até hoje, admitido o Escocês Antigo e Aceito… e os rituais iniciáticos são os mesmos em todas as Grandes Lojas'” (p. 39).

“Não querem os maçons [que] se diga que sua associação é uma sociedade secreta; propalam que isso é calúnia inventada pelos adversários. Repetem então a famosa distinção: a Maçonaria é discreta, não secreta” (p. 47). Porém:

– A Constituição Maçônica:

1) Aponta como dever do maçon, “nada imprimir nem publicar sobre o assunto maçônico ou que envolva o nome da instituição, sem expressa autorização do grão-mestre”.

2) Determina que é dever da Loja “nada expor, imprimir ou publicar sobre assunto maçônico, sem expressa autorização superior”.

3) Decreta que “as oficinas, sob pretexto algum, poderão permitir maçons irregulares ou inativos nos seus trabalhos”.

– O Regulamento Geral:

1) Determina que “os assuntos de natureza maçônica não poderão ser impressos ou publicados pelos maçons ou pelas Lojas, sem que haja autorização do Grão-Mestre Geral”.

2) Decreta que “não serão permitidas as polêmicas pela imprensa sobre fatos ocorridos nas Assembléias Gerais e Estaduais, Grandes Oficinas Chefes do Rito, Oficinas ou perante as autoridades judiciárias”.

3) Que o profano iniciado deve proferir compromisso nos seguintes termos: “Prometo servir com honra e desinteresse a Maçonaria, guardar os seus segredos e cumprir as suas leis, e praticar com dedicação e sacrifício os seus ideais”.

4) Que o compromisso acima citado “depois de pronunciado pelo iniciado, será por ele escrito e assinado, conferido e registrado pelo Chanceler e pelo Secretário, referendado pelo Venerável e visado pelo Orador, e será incluído no expediente de admissão do candidato para aí ficar arquivado”.

– A Lei Penal da Maçonaria:

1) Incrimina levemente “a revelação de cerimônias, rituais ou outros mistérios, não se tratando dos grandes mistérios da Ordem”.

2) Incrimina gravemente “a revelação, a quem quer que, impedido de o saber, dos grandes segredos da Ordem”.

3) Incrimina gravemente “a publicação, distribuição ou reprodução por qualquer forma gráfica, sem legal licença escrita, de qualquer prancha, documento ou ato maçônico, exceto os que tenham sido publicados anteriormente no Boletim Oficial”.

4) Incrimina gravemente “a discussão pública no mundo profano dos atos passados no interior dos Templos e das deliberações das Oficinas”.

5) Incrimina gravemente “o fornecimento, direto ou indireto, a profano ou maçon irregular, de documentos ou quaisquer efeitos maçônicos, sem formal autorização”.

6) Incrimina gravemente o delito coletivo de “iniciar ou sustentar, sem permissão dos Poderes Superiores, correspondência com as potência maçônicas estrangeiras ou autoridades profanas, sobre assunto maçônico”.

– O Ritual do Aprendiz (1º grau maçônico) exige o juramento, de modo solene, com a mão sobre a Bíblia, nos seguintes termos: “Nunca revelar qualquer dos mistérios da Maçonaria, que me vão ser confiados, senão a um bom e legítimo Irmão, ou em Loja regularmente constituída; nunca os escrever, gravar, traçar, imprimir ou empregar outros meios pelos quais possa divulgá-los”, sob pena de ser-lhe “arrancada a língua, o pescoço cortado e o meu corpo enterrado nas areias do mar”.

– O Ritual do Companheiro (2º grau maçônico) exige o juramento de “nunca revelar aos Aprendizes os segredos do grau de Companheiro, que me vão ser confiados, assim como prometi nunca revelar os de Aprendiz”, sob pena de “se eu for perjuro, seja-me arrancado o coração, para servir de pasto aos abutres”.

– O Ritual de Mestre (3º grau maçônico) profere juramento semelhante ao do Companheiro, para não revelar os segredos do grau de Mestre, sob pena de ter seu corpo “dividido ao meio””arrancadas e reduzidas a cinzas”.

D. Kloppenburg, legitimamente aponta então que “de todos estes documentos oficiais, genuínos e autenticados, pode-se concluir que, também no Brasil de hoje, a Maçonaria é uma sociedade não apenas discreta, mas verdadeira e mesmo terrivelmente secreta, no sentido próprio e óbvio da palavra. Afirmam estes documentos oficiais que a Maçonaria Brasileira possui os seus ‘mistérios’, ‘grandes mistérios’, ‘segredos’ e ‘grandes segredos’, que, de maneira nenhuma e sob pretexto algum, podem ser revelados. Basta abrir qualquer dicionário e ver o sentido do adjetivo ‘secreto’, para podermos aplicá-lo em sentido próprio e rigoroso, sem faltar à verdade e sem recorrer à calúnia, à Maçonaria Brasileira: sim, a Maçonaria Brasileira é uma Sociedade Secreta. Contestá-lo seria negar sua Constituição, seu Regulamento Geral, sua Lei Penal, seu Rituais. (…) Apresenta-se, assim, a Maçonaria também no Brasil, não apenas como Sociedade Secreta, mas como uma engenhosa superposição de numerosas associações secretas” (pp. 47-50; grifos nossos).

Maiores detalhes, inclusive a descrição completa de ritos e juramentos secretos, é possível encontrar nesse excelente livro de d. Boaventura Kloppenburg, o qual muito recomendamos.

[]s
Que Deus o abençoe!

_________
NOTA:
[1] KLOPPENBURG, Boaventura. “Igreja & Maçonaria: conciliação possível?”. Petrópolis-RJ: ed. Vozes, 5ª ed., 2000.


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