Espaço do Leitor

Manter relações pré-matrimoniais é pecado? leitor pergunta

[Leitor NÃO autorizou a publicação de seu nome no site] Nome do leitor: A.
Cidade/UF: São Luis-MA
Religião: Católica

Mensagem
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Muita  paz para todos … eu sempre defendi o sexo depois do casamento muito fielmente mas conheci praticamente a primeira namorada aos 22 anos , estamos nos amando muito , estamos mantendo relações sexuais antes do casamento … No momento não consigo mais de deixar de fazer mesmo acreditando que é errado ..por que a amo muito . Eu sou leigo na igreja . E estou comungando normalmente , pedindo sua misericordia e seu perdão … EU PERGUNTO …  meu pecado é mortal ??? como faço para acabar com isso ???? .

Olá caríssimo leitor. Agradecemos o vosso contato enquanto rogamos a Deus toda benção e graça da parte de Nosso Senhor Jesus, verdadeiro Deus e verdadeiro Homem, que entrou na história humana mediante a obediência e a virtude de sua amabilíssima mãe, Nossa Senhora, mãe da Igreja e de toda humanidade. Que ela sempre interceda por nós, pecadores.Vossa docilidade nos surpreende, caríssimo leitor, pois embora tenha tomado uma decisão que envolve vossa intimidade, vem até esse humilde apostolado pedir uma análise sobre a vossa situação. Que Deus sempre o conserve na humildade, que não questiona, mas antes pede instrução.

Escuto em vossas palavras um grito silencioso de ajuda, de uma alma que um dia experimentou e viveu a paz duradoura dos filhos de Deus, mas que agora, pela situação vivida, já não a possui mais. Com efeito, a paz de Nosso Senhor é como água em nossas mãos, basta uma pequena fenda e ela escorre até esgotar. Agora se sentes inquieto, especialmente durante a participação eucarística, e não é a toa: a própria bússola sútil de vossa consciência é quem está a lhe orientar um caminho diferente. Não é possível viver em paz quando existe luta interior entre pecado e graça.

De fato, caríssimo leitor, estás em pecado grave, e não pode/deves participar da comunhão eucarística, podendo no entanto fazer a comunhão espiritual. A moral sexual é claríssima quanto a este tipo de conduta. Veja com atenção os pontos abaixo:

“§2353 A fornicação é a união carnal fora do casamento entre um homem e uma mulher livres. É gravemente contrária à dignidade das pessoas e da sexualidade humana, naturalmente ordenada para o bem dos esposos, bem como para a geração e a educação dos filhos. Além disso, é um escândalo grave quando há corrupção de jovens.”
“§2352 Qualquer que seja o motivo, o uso deliberado da faculdade sexual fora das relações conjugais normais contradiz sua finalidade”
“§1755 O ato moralmente bom supõe a bondade do objeto, da finalidade e das circunstâncias. Uma finalidade má corrompe a ação, mesmo que seu objeto seja bom em si (como, por exemplo, rezar e jejuar “para ser visto pelos homens”). O objeto da escolha por si só pode viciar o conjunto de determinado agir. Existem comportamentos concretos – como a fornicação – cuja escolha é sempre errônea, pois escolhê-los significa uma desordem da vontade, isto é, um mal moral.”
“§1852 A variedade dos pecados é grande. As Escrituras nos fornecem várias listas. A Carta aos gálatas opõe as obras da carne ao fruto do Espírito: “As obras da carne são manifestas: fornicação, impureza, libertinagem, idolatria, feitiçaria, ódio, rixas, ciúmes, ira, discussões, discórdia, divisões, invejas, bebedeiras, orgias e coisas semelhantes a estas, a respeito das quais eu vos previno, como já vos preveni: os que tais coisas praticam não herdarão o Reino de Deus” (Gl 5,19-21)”.

Veja como São Paulo salienta a gravidade da fornicação. Percebes a seriedade?

O parágrafo 1755 ainda é particularmente pertinente em vosso caso, pois afirmas a dificuldade em parar com a prática sexual fora do casamento por amar vossa namorada. Sabemos que mesmo uma boa finalidade não justifica o uso de meios e circunstâncias moralmente más. E é evidente que o prazer sexual é um bem que o Criador nos deu, mas deve estar orientado dentro das condições apropriadas, que ainda não estão alicerçadas em vosso caso. Além do mais, existe sempre a grande possibilidade, pelo prazer que o ato sexual envolve, de estarmos no fundo usando deste prazer egoistícamente. Nossa boca pode até dizer “eu te amo”, enquanto nossos sentidos dizem a nós mesmos “eu me amo”.

Veja, caríssimo leitor, o ato sexual está em sí mesmo orientado para duas finalidades: a procriação e a união do casal. É também por essa razão que é uma ofensa a dignidade humana e a dignidade sublime da faculdade sexual reduzi-la em apenas um dos seus aspectos. Digo isso porque imagino que devem estar usando de anti conceptivos para evitar filhos. Mas que triste e vazio é este sexo sem abertura a vida, sem um compromisso e uma entrega mútua total, não é mesmo? É por reduzir esse dom sexual a mera esféra do prazer que muitos jovens sentem esvaziarem suas almas após usarem do sexo.

A presença de afeto entre o casal não é pressuposto lícito para o uso da faculdade sexual pois bem sabemos que o afeto é apenas o primeiro estágio do amor, que só se prova verdadeiramente mediante uma decisão e uma entrega eterna pública diante de Deus e dos homens, no casamento. Só depois de dizerem o “sim” um ao outro é que terão certeza absoluta de que se casaram não pelo o que um poderia oferecer ao outro (em termos de prazer) mas pela convicção e pelo compromisso de doação voluntária ao outro. Esta é a correta orientação da sexualidade humana: ser consequência do amor e jamais causa.

Veja, quando Deus criou o homem e a mulher e os dotou de faculdades sexuais, o fez para os tornar cooperadores de sua criação, através da união e da procriação. O uso do sexo fora de um ambiente responsável, com presença de contraceptivos, faz do homem um cooperador de sí mesmo e de seu prazer egoísta, alterando gravemente a ordem natural presente no ser humano, desrespeitando os processos originais biológicos da geração. É por isso que é pecado, e é por isso que é grave.

Vale a pena esperar. Vale a pena se segurar. Vale a pena cortar ocasiões. Vale a pena se decidir pela castidade. Não há para a juventude virtude mais bela e heróica do que o exercício da continência sexual, que depois será usada pelo resto da vida matrimonial com os efeitos da moderação e do auto-controle tão necessários para a vida a dois. Que triste é ver tantos homens que buscam a prostituição ou a masturbação quando suas esposas estão grávidas e possuem dificuldades para se relacionarem sexualmente por vários meses. Isso é assim quando não houve uma educação da vontade na fase do namoro.

Agora é tempo de mudar caro leitor.

Santo Agostinho dizia que a paz é a tranquilidade da ordem, portanto para restaurá-la é preciso ordenar vossa vida interior. Refletir, ponderar, se arrepender, se abrir mediante a confissão (contando tudo, inclusive as comunhões em pecado grave), traçar metas e se colocar a caminho é o que vos devolverá a paz e a graça. Urge conversar com vossa namorada para que ambos estejam de acordo em esperar até o casamento para usarem da faculdade sexual e terem certeza de que estão se casando não pelo prazer que oferecem um ao outro, mas por uma decisão de entrega total e mútua anterior, que só se concretiza no “sim”. Precisam estar vigilantes, como pede o Senhor: “Vigiai e orai para que não entreis em tentação. O espírito está pronto, mas a carne é fraca“ (Mt. 26, 41). Se ela não aceitar é porque não te ama mesmo.

Se não colocarmos os meios jamais sairemos do lugar. Eis alguns meios humanos e prudentes para mudar:

– evitar uma vida anti-social, isolada;
– ter um bom círculo de amizades;
– fazer uso de exercícios físicos;
– evitar o ócio frequente;
– não dar oportunidades para leituras, filmes, revistas e olhares sensuais;
– fortalecer o auto-controle com pequenos exercícios de sacrifício diário, com a renúncia regular de algum prazer, como por exemplo, os gastronômicos, como doces e refrigerantes etc. Assim, pouco a pouco a personalidade vai se fortalecendo e se torna mais fácil negar o desejo do corpo de um prazer sexual desordenado.

Outros meios espirituais seriam:

– a aproximação dos sacramentos da confissão e da eucaristia;
– a oração frequente de jaculatórias, especialmente em momentos de tentação, que lance o olhar para uma realidade de esperança, como por exemplo: “Doce coração de Maria sede meu amor. Doce coração de Maria sede minha salvação”;
– ter um diretor espiritual douto e idôneo (importantíssimo);
– criar uma devoção especial a Nossa Senhora, mãe da pureza, suplicando sua intercessão diariamente com o oferecimento de três orações da ave-maria, por exemplo;
– ter em mente que só com o auxílio da graça podemos vencer tal inclinação, não desanimar jamais com possíveis retrocessos, mas antes fomentar a virtude da humildade.

Gostaria de encerrar com as belas palavras pastorais de São Josémaria Escrivá, o fundador do Opus Dei, que divinamente inspirado e fundamentado também por uma belíssima sabedoria humana, nos motiva e nos alenta a viver a virtude da castidade, guardiã do nosso amor, com um entusiasmo sem igual:

“Contra a vida limpa, a pureza santa, levanta-se uma grande dificuldade a que todos estamos expostos: o perigo do aburguesamento, na vida espiritual ou na vida profissional; o perigo – também para os chamados por Deus ao matrimônio – de nos sentirmos solteirões, egoístas, pessoas sem amor. – Tens de lutar na raiz contra esse risco, sem concessões de nenhum gênero. (Forja, 89)

Com o espírito de Deus, a castidade não se torna um peso aborrecido e humilhante. É uma afirmação jubilosa: o querer, o domínio de si, o vencimento próprio, não é a carne que o dá nem procede do instinto; procede da vontade, sobretudo se está unida à Vontade do Senhor. Para sermos castos – e não somente continentes ou honestos -, temos de submeter as paixões à razão, mas por um motivo alto, por um impulso de Amor.

Comparo esta virtude a umas asas que nos permitem propagar os preceitos, a doutrina de Deus, por todos os ambientes da terra, sem temor a ficarmos enlameados. As asas – mesmo as dessas aves majestosas que sobem mais alto que as nuvens – pesam, e muito. Mas, se faltassem, não haveria vôo. Gravai-o na vossa cabeça, decididos a não ceder se notais a mordida da tentação, que se insinua apresentando a pureza como um fardo insuportável. Ânimo! Para o alto! Até o sol, à caça do Amor.

(…) Acabo de vos apontar que, para isso, me serve de ajuda recorrer à Humanidade Santíssima de Nosso Senhor, a essa maravilha inefável de um Deus que se humilha até se fazer homem e que não se sente degradado por ter tomado carne como a nossa, com todas as suas limitações e fraquezas, à exceção do pecado. E isso porque nos ama loucamente! Ele não se rebaixa com o seu aniquilamento; pelo contrário, o que faz é elevar-nos, deificar-nos no corpo e na alma. Responder que sim ao seu Amor, com um carinho claro, ardente e ordenado – isso é a virtude da castidade.” (Amigos de Deus, nn. 177-178)

Se quiser se aprofundar mais no tema basta digitar a palavra “castidade” no campo de busca e encontrarás edificantes e apetecíveis textos sobre essa amabilíssima virtude. Encerramos esse contato invocando a presença de Maria, Mãe puríssima e castíssima, sem a qual não vencemos as menores tentações neste terreno.

Pedimos desculpas pela demora excessiva na resposta, mas somos apenas homens simples com obrigações com família e trabalho que muitas vezes nos custam muito tempo. Esperamos ter sido úteis em Cristo Jesus.


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