“Enquanto ele assim falava, uma mulher levantou a voz do meio do povo e lhe disse:

Bem-aventurado o ventre que te trouxe, e os peitos que te amamentaram!

Mas Jesus replicou: Antes bem-aventurados aqueles que ouvem a palavra de Deus e a observam!”

(Lc 11,27-28).

A passagem bíblica usada como epígrafe do presente texto, assim como várias outras passagens da Escritura Sagrada, dá ensejo a mais de uma interpretação. Na ótica protestante, poder-se-ia tratar-se de trecho bíblico onde fica “clara” a reprovação ou no mínimo a indiferença de Nosso Senhor Jesus Cristo com relação ao louvor de Sua Mãe, a Santíssima Virgem Maria. Diante da exclamação da mulher (“Bem-aventurado o ventre que te trouxe, e os peitos que te amamentaram!”), Nosso Senhor Jesus Cristo, de acordo com uma interpretação protestante, teria “desprezado” uma excelente oportunidade para endossar a veneração à Virgem Maria. Ao contrário disso, Cristo teria dado a entender que qualquer pessoa que ouve a palavra de Deus e a observa seria mais bem-aventurada que a própria Virgem Maria.

Todavia, à luz da bimilenar doutrina da Igreja Católica, cuja fonte não é somente o texto bíblico mas também a Tradição Apostólica e o ensino do Sagrado Magistério, a interpretação dessa passagem é bem diferente. Em primeiro lugar, nota-se que a estima pela Santíssima Virgem Maria brota espontaneamente do coração do povo. Com efeito, quem, ao acompanhar de perto a íntima e profunda relação de amor que se estabelece entre uma mãe e seu filho desde o momento da concepção, poderia quedar-se indiferente à relação entre a Virgem Maria e Seu único Filho, Nosso Senhor Jesus Cristo? Quem, sabendo das dores e das delícias inerentes à relação entre mãe e filho, pode ser capaz de não ter nenhuma afeição por aquela que amamentou, embalou, cuidou, consolou, enfim, que criou — na mais ampla acepção da palavra — Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo? Quem, ao contemplar a majestade, a grandeza, enfim, a divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo, pode não pensar em Sua Mãe com um carinho e uma devoção singulares? A Santíssima Virgem Maria teve o inefável e exclusivo privilégio de amamentar o Verbo de Deus encarnado, o Salvador do mundo; o privilégio de acariciá-lo desde a mais tenra infância; de cuidar dEle nos mínimos detalhes; de acalentá-lO até fazê-lO adormecer em seus braços; de vê-lO balbuciar as primeiras santas palavras e dar os primeiros passos; de vê-lO crescer em graça, estatura e formosura aos olhos de todos. E depois de tudo isso, Nossa Senhora sofreu a inimaginável dor de acompanhar todo o sofrimento de Seu Filho até a terrível morte na cruz do Calvário, para, três dias depois, vê-lO novamente, ressuscitado e glorificado. Não temos, pois, razões sobejas para dar razão à mulher anônima referida por São Lucas em seu evangelho?

Em segundo lugar, se se pode dizer que Nosso Senhor Jesus Cristo não “aproveitou” a oportunidade para endossar a veneração à Sua Mãe, a Santíssima Virgem Maria, pode-se igualmente dizer que Nosso Senhor, na mesma ocasião, não proibiu tal veneração. Assim sendo, podemos dizer que, de certa forma, uma interpretação anula a outra, no sentido de que, na passagem em questão, Nosso Senhor Jesus Cristo não disse nada — nem a favor e nem contra —com relação à veneração à Virgem Maria.

Não obstante, uma coisa fica clara na passagem em tela: a ênfase de Nosso Senhor Jesus Cristo na obediência (“bem-aventurados aqueles que ouvem a palavra de Deus e a observam”). Ora, para obedecermos, de fato, é fundamental que saibamos, objetivamente (e não apenas), o que e a quem obedecer. Com efeito, como podemos saber se estamos obedecendo, efetivamente, à Palavra de Deus, ou se estamos “obedecendo” tão-somente ao nosso próprio entendimento? O fato é que não existe outro modo de sabermos qual a vontade de Deus a não ser conhecendo o ensino da Igreja que Ele fundou com a finalidade precípua de nos ensinar a verdadeira fé, a saber, a Igreja Católica Apostólica Romana. E a Igreja Católica não só permite como também incentiva a veneração aos santos e especialmente à Santíssima Virgem Maria. Nesse sentido, se obedecermos à Igreja Católica, proclamaremos bem-aventurado o ventre que trouxe Nosso Senhor Jesus Cristo, e bem-aventurados os peitos que O amamentaram. E fazendo assim, poderemos ter a bendita certeza de estar ouvindo a palavra de Deus e a observando.

Assim seja!

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