Documentos da Igreja

Mediator dei (final)

TERCEIRA PARTE

O OFÍCIO DIVINO E O ANO LITÚRGICO 

I. O ofício divino

124. O ideal da vida cristã consiste em se unir cada um intimamente a Deus. Por isso, o culto que a Igreja rende ao Eterno e que se sintetiza no sacrifício eucarístico e no uso dos sacramentos é ordenado e disposto, de modo que, com o ofício divino, se estenda a todas as horas do dia, às semanas, a todo o curso do ano, a todos os tempos e a todas as condições da vida humana.

125. Tendo o divino Mestre recomendado: “É necessário rezar sempre, sem esmorecer”,(132) a Igreja, obedecendo fielmente a essa recomendação, não cessa de rezar e exortar-nos com o apóstolo das gentes: “Por seu intermédio (de Jesus) ofereçamos sempre a Deus o sacrifício de louvor”.(133)

126. A oração pública e coletiva endereçada a Deus por todos juntos, realizava-se na antiguidade somente em certos dias e outros momentos do dia. Contudo rezava-se não só nas reuniões públicas, mas ainda nas casas particulares e, às vezes, com os vizinhos e amigos. Bem cedo, porém, nas várias partes da cristandade, introduziu-se o uso de reservar à oração tempos particulares, por exemplo, a última hora do dia, quando o sol se esconde e se acende o lampadário; ou à primeira hora, quando termina a noite, isto é, depois do canto do galo e ao surgir do sol. Outros momentos do dia são indicados como mais próprios para a oração pela Sagrada Escritura, pelo costume tradicional hebráico e práticas cotidianas. Segundo os Atos dos Apóstolos, os discípulos de Jesus Cristo reuniam-se para orar na terceira hora, quando “ficaram todos repletos do Espírito Santo” ;(134) o príncipe dos apóstolos, antes de tomar alimento, “subiu à parte superior da casa para rezar por volta da hora sexta”;(135) Pedro e João “subiam ao templo para a oração na hora nona”; (136) e Paulo e Silas “louvavam a Deus à meia noite”.(137)

127. Essas várias orações especialmente por iniciativa e obra dos monges e dos ascetas, aperfeiçoaram-se cada dia mais, e pouco a pouco foram introduzidas no uso da sagrada liturgia por autoridade da Igreja.

128. O Ofício divino é, pois, a oração do corpo místico de Cristo, dedicada a Deus em nome de todos os cristãos e em seu beneficio, feita pelos sacerdotes, por outros ministros da Igreja e pelos religiosos delegados da própria Igreja para isso.

129. Qual deva ser o caráter e eficácia desse louvor divino, deduz-se das palavras que a Igreja sugere dizer antes de iniciar-se a oração do Ofício, prescrevendo que sejam recitadas “digna, atenta e devotamente”.

130. Assumindo a natureza humana, o Verbo de Deus introduziu no exílio terreno o hino que se canta no céu por toda a eternidade. Une a si toda a comunidade humana e a associa no canto deste hino de louvores. Confessemos com humildade que “não sabemos o que devemos convenientemente pedir, mas o próprio Espírito reza por nós com gemidos inenarráveis”. (138) E ainda Cristo, por meio do seu Espírito, invoca em nós o Pai. “Deus não poderia fazer aos homens um dom maior… reza (Jesus) por nós como nosso sacerdote; reza em nós como nossa cabeça; é invocado por nós como nosso Deus… reconheçamos, pois, as nossas vozes nele e a sua voz em nós… Rezamos a ele como a Deus, ele reza como servo: lá o Criador, aqui um ser criado, enquanto, sem sofrer mudança, tomou uma natureza mutável, fazendo de nós um só homem com ele: cabeça e corpo”.(139)

131. A excelsa dignidade dessa oração da Igreja deve corresponder a intensa devoção da nossa alma e, visto que a voz do orante repete os poemas escritos por inspiração do Espírito Santo, que proclamam e exaltam a perfeitíssima grandeza de Deus, é ainda necessário que a essa voz se junte o movimento interior do nosso espírito para fazer nossos aqueles mesmos sentimentos com os quais nos elevamos ao céu, adoramos a santíssima Trindade e lhe rendemos os devidos louvores e ações de graças: “Devemos salmodiar de modo que a nossa mente concorde com a nossa voz”. (140) Não se trata, pois, de uma recitação somente, ou de um canto que, embora perfeitíssimo segundo as leis da arte musical e as normas dos sagrados ritos, chegue apenas ao ouvido; mas sobretudo de uma elevação da nossa mente e da nossa alma a Deus para que nos consagremos, nós e todas as nossas ações, a ele, unidos com Jesus Cristo.

132. Disso depende certamente, em não pequena parte, a eficácia das orações, as quais, se não se dirigem ao próprio Verbo feito homem, concluem com estas palavras: “Por nosso Senhor Jesus Cristo” que, mediador entre nós e Deus, mostra ao Pai celeste os seus estigmas gloriosos, “sempre viva para interceder por nós”.(141)

133. Os salmos, como todos sabem, constituem parte principal do Oficio divino. Eles abrangem todo o curso do dia e lhe dão um contato e um ornamento de santidade. Cassiodoro disse belamente a propósito dos salmos distribuídos no Oficio divino do seu tempo: “Eles… com júbilo matutino nos tornam favorável o dia que está para começar, santificam a primeira hora do dia, consagram a terceira hora, alegram a sexta na fração do pão, assinalam, à nona, o fim do jejum, concluem o término do dia e impedem o nosso espírito de obscurecer-se ao avizinhar-se a noite”.(142)

134. Eles lembram as verdades reveladas por Deus ao povo eleito, às vezes terríveis, às vezes impregnadas de suavíssima doçura; repetem e acendem a esperança no Libertador prometido que outrora era animada com o canto em torno da lareira doméstica e na própria majestade do templo; põem em maravilhosa luz a profetizada glória de Jesus Cristo e o seu sumo e eterno poder, a sua vinda e o seu aniquilamento neste exílio terreno, a sua dignidade real e o seu poder sacerdotal, as suas benéficas fadigas e o seu sangue derramado pela nossa redenção. Exprimem igualmente a alegria das nossas almas, a tristeza, a esperança, o temor, a correspondência do amor e o abandono a Deus qual mística ascensão para os divinos tabernáculos.

135. “O salmo… é a bênção do povo, o louvor de Deus, o elogio do povo, o aplauso de todos, a linguagem geral, a voz da Igreja, a harmoniosa confissão de fé, o pleno devotamento à autoridade, a alegria da liberdade, o grito de entusiasmo, o eco da alegria.”(143)

136. Na antiguidade, a assistência dos fiéis a essas orações do Ofício era maior; mas gradativamente diminuiu como dissemos; e como acabamos de dizer, a sua recitação atualmente é reservada ao clero e aos religiosos. Em rigor de lei, nada é prescrito aos leigos nesta matéria, mas é muito de desejar que eles tomem parte ativa no canto ou na recitação do Oficio de Vésperas nos dias festivos, na própria paróquia. Recomendamos vivamente, veneráveis irmãos, a vós e aos vossos féis que não cesse este piedoso hábito e que, se possível, se ponha em vigor onde tiver desaparecido. Isso acontecerá certamente com frutos salutares se as Vésperas forem cantadas não só digna e decorosamente mas de maneira que nutra suavemente de vários modos a piedade dos fiéis. Seja sagrada a observância dos dias festivos que devem ser dedicados e consagrados a Deus de modo particular; e; sobretudo, do domingo, que os apóstolos, instruídos pelo Espírito Santo, substituíram ao sábado. Se foi ordenado aos judeus: “Trabalhareis durante seis dias; no sétimo dia que é sábado, repouso santo do Senhor, quem trabalhar neste dia será condenado à morte”;(144) como não terão a morte espiritual aqueles cristãos que fazem obra servil nos dias festivos e durante o repouso festivo não se dedicam à piedade nem à religião, mas se abandonam demasiadamente aos atrativos deste século? O domingo e os dias festivos devem ser consagrados ao culto divino com o qual se adora a Deus e a alma se nutre do alimento celeste; e se bem que a Igreja prescreva somente que os fiéis devam abster-se do trabalho servil e devam assistir ao sacrifício eucarístico, e não dê nenhum preceito para o culto vespertino, note-se que, além dos preceitos existem também suas insistentes recomendações e desejos, o que ainda mais é exigido pela necessidade que todos têm de tornar propício o Senhor para impetrar benefícios. Contrista-se profundamente nossa alma ao ver como em nossos tempos o povo cristão passa a tarde do dia festivo: enchem-se os lugares de espetáculos públicos e de jogos, enquanto as igrejas são menos freqüentadas do que conviria. Mas é necessário, sem dúvida, que todos vão aos nossos templos para ser instruídos na verdade da fé “católica, para cantar os louvores de Deus, para serem enriquecidos pelo sacerdote com a bênção eucarística e munidos do auxílio celeste contra a adversidade da vida presente. Procurem todos aprender as fórmulas que se cantam nas Vésperas e penetrar-lhes o íntimo sentido; sob o influxo dessas orações experimentarão aquilo que santo Agostinho afirmava de si mesmo: “Quanto chorei entre hinos e cânticos, vivamente comovido pelo canto suave da tua Igreja! Aquelas vozes ressoavam nos meus ouvidos, instilavam a verdade no meu coração, em mim ardiam sentimentos de devoção, e as lágrimas corriam, fazendo-me bem”.(145)

II. Ciclo dos mistérios do ano litúrgico

137. Durante todo o correr do ano a celebração do sacrifício eucarístico e o Oficio divino se desenvolvem sobretudo em torno da pessoa de Jesus Cristo e se organizam de modo tão harmonioso e adequado que faz dominar o nosso Salvador nos seus mistérios de humilhação, de redenção e de triunfo.

138. Evocando esses mistérios de Jesus Cristo, a sagrada liturgia visa a fazer deles participar todos os crentes de modo que a divina Cabeça do corpo místico viva na plenitude da sua santidade nos membros. Sejam as almas dos cristãos como altares nos quais se repetem e se reavivam as várias fases do sacrifício que o sumo Sacerdote imola; isto é, as dores e as lágrimas que lavam e expiam os pecados; a oração dirigida a Deus que se eleva até o céu; a própria imolação feita com ânimo pronto, generoso e solícito e, enfim, a íntima união com a qual nos abandonamos, nós e nossas coisas a Deus e nele repousamos “sendo o essencial da religião imitar aquele que adoras”. (146)

139. Conforme esses modos e motivos com os quais a liturgia propõe à nossa meditação em tempos fixos a vida de Jesus Cristo, a Igreja nos mostra os exemplos que devemos imitar e os tesouros de santidade que fazemos nossos, porque é necessário crer com a mente aquilo que se canta com a boca, e traduzir na prática dos costumes particulares e públicos o que se crê com a mente.

140. Com efeito, no tempo do advento, excita em nós a consciência dos pecados miseramente cometidos; e nos exorta a fim de que, refreando os desejos com a mortificação voluntária do corpo, nos recolhamos em pia meditação e sejamos impelidos pelo desejo de voltar a Deus que, só ele, pode com a sua graça libertar-nos da mancha dos pecados e dos males que nos afligem.

141. Na ocorrência do Natal do Redentor parece quase reconduzir-nos à gruta de Belém para que aí aprendamos que é absolutamente necessário nascer de novo e reformar-nos radicalmente, o que só é possível quando nos unimos íntima e vitalmente ao Verbo de Deus feito homem e nos tornamos participantes da sua divina natureza à qual fomos elevados.

142. Com a solenidade da Epifania, recordando a vocação das gentes à fé cristã, quer que agradeçamos cada dia ao Senhor por tão grande benefício, desejemos com grande fé o Deus vivo, compreendamos com devoção e profundamente as coisas sobrenaturais e amemos o silêncio e a meditação para poder facilmente compreender e conseguir os dons celestes.

143. Nos dias da Septuagésima e da Quaresma, a Igreja, nossa mãe, multiplica os seus cuidados para que diligencie cada qual por se compenetrar da sua miséria, ativamente se incite à emenda dos costumes, e deteste de modo particular os pecados, suprimindo-os com a oração e a penitência, já que a assídua oração e a penitência dos pecados cometidos nos obtêm o auxílio divino sem o qual é inútil e estéril toda obra nossa. No tempo sagrado em que a liturgia nos propõe as atrozes dores de Jesus Cristo, a Igreja nos convida ao Calvário, a seguir as pegadas sanguinolentas do divino Redentor a fim de que de bom grado carreguemos a cruz com ele, tenhamos em nós os mesmos sentimentos de expiação e de propiciação e juntos morramos todos com ele.

144. Na solenidade pascal, que comemora o triunfo de Cristo, sente-se a nossa alma penetrada de íntima alegria, e devemos oportunamente pensar que também nós, junto com o Redentor, surgiremos, de uma vida fria e inerte para uma vida mais santa e fervorosa, a Deus oferecendo-nos todos, com generosidade e esquecendo-nos desta mísera terra para só aspirar ao céu: “Se ressuscitastes com Cristo, procurai as coisas supernas, aspirai às coisas do alto”.(147)

145. No tempo de Pentecostes, finalmente, exorta nossa Igreja, com os seus preceitos e a sua obra, a oferecer-nos docilmente à ação do Espírito Santo, o qual quer acender em nossos corações a divina caridade para progredirmos na virtude com maior empenho, e assim nos santificar, como são santos Cristo Senhor e o seu Pai Celeste.

146. Todo o ano litúrgico, assim, pode dizer-se um magnífico hino de louvor que a família cristã dirige ao Pai celeste por meio de Jesus, seu eterno mediador; mas requer de nós ainda um cuidado diligente e bem ordenado para conhecer e louvar sempre mais o nosso Redentor; um esforço intenso e eficaz, um adestramento incansável para imitar os seus mistérios, entrar voluntariamente no caminho de suas dores, e participar, finalmente, de sua glória e eterna beatitude.

147. De quanto foi exposto aparece claramente, veneráveis irmãos, quanto estejam longe do verdadeiro e genuíno conceito da liturgia escritores modernos, que, enganados por uma pretensa disciplina mística mais alta, ousam afirmar que não nos devemos concentrar no Cristo histórico mas no Cristo “pneumático e glorificado”; e não duvidam asseverar que na piedade dos fiéis se tenha verificado certa mudança, pela qual Cristo foi como que destronado com o apegamento de Cristo glorificado que vive e reina nos séculos dos séculos, assentado à direita do Pai, enquanto em seu lugar foi colocado o Cristo da vida terrena. Alguns, por isso, chegam ao ponto de querer tirar das Igrejas as imagens do divino Redentor que sofre na cruz.

148. Mas essas falsas opiniões são de todo contrárias à sagrada doutrina tradicional. “Crê em Cristo nascido na carne – diz santo Agostinho – e chegarás a Cristo nascido de Deus, Deus de Deus”.(148) A sagrada liturgia, ademais, nos propõe todo o Cristo, nos vários aspectos de sua vida; isto é, Cristo que é Verbo do Eterno Pai, que nasce da virgem Mãe de Deus, que nos ensina a verdade, que cura os enfermos, que consola os aflitos, que sofre, que morre; que, enfim, ressurge triunfante da morte; que, reinando na glória do céu, nos envia o Espírito Paráclito e vive sempre na sua Igreja: “Jesus Cristo ontem e hoje: ele por todos os séculos”. (149) E, além disso, não no-lo apresenta somente como um exemplo a imitar mas ainda como um mestre a ouvir, um pastor a seguir, como mediador da nossa salvação, princípio da nossa santidade e Cabeça mística de que somos membros, vivendo da sua própria vida.

149. E assim como as suas acerbas dores constituem o mistério principal de que provém a nossa salvação, é conforme às exigências da fé católica, colocar isto na sua máxima luz, porque é como o centro do culto divino, por ser o sacrifício eucarístico a sua cotidiana representação e renovação, e estarem todos os sacramentos unidos com estreitíssimo vínculo à cruz.(150)

150. Assim o ano litúrgico, que a piedade da Igreja alimenta e acompanha, não é uma fria e inerte representação de fatos que pertencem ao passado, ou uma simples e nua evocação da realidade de outros tempos. É, antes, o próprio Cristo, que vive sempre na sua Igreja e que prossegue o caminho de imensa misericórdia por ele iniciado, piedosamente, nesta vida mortal, quando passou fazendo o bem!(151) com o fim de colocar as almas humanas em contato com os seus mistérios e fazê-las viver por eles, mistérios que estão perenemente presentes e operantes, não de modo incerto e nebuloso, de que falam alguns escritores recentes, mas porque, como nos ensina a doutrina católica e segundo a sentença dos doutores da Igreja, são exemplos ilustres de perfeição cristã e fonte de graça divina pelos méritos e intercessão do Redentor; e porque perduram em nós no seu efeito, sendo cada um deles, de modo consentâneo à própria índole, a causa da nossa salvação. Acresce que a pia Madre Igreja, enquanto propôs à nossa contemplação os mistérios de Cristo, invoca com as suas preces os dons sobrenaturais pelos quais os seus filhos se compenetram do espírito desses mistério por virtute de Cristo. Por influxo e virtude dele podemos, com a colaboração da nossa vontade, assimilar a força vital como ramos da árvore, como membros da cabeça, e progressiva e laboriosamente transformar-nos “segundo a medida da idade plena de Cristo”.(152)

III. As festas dos santos

151. No decurso do ano litúrgico relembram-se não só os mistérios de Jesus Cristo, mas ainda as festas dos santos, nas quais, se bem que se trate de uma ordem inferior e subordinada, a Igreja tem sempre a preocupação de propôr aos fiéis exemplos de santidade que os levem a adornar-se das mesmas virtudes do Divino Redentor. (152). É necessário, com efeito, que imitemos as virtudes dos santos, nas quais brilha, de modo vário, a própria virtude de Cristo, porque dele foram imitadores, visto que, em alguns fulgiu o zelo do apostolado; em outros se demonstrou a fortaleza dos nossos heróis até a efusão do sangue; em outros brilhou a constante vigilância na espera do Redentor; em outros resplandeceu o candor virginal da alma e a modesta doçura da humildade cristã; em todos arde uma fervidíssima caridade para com Deus e para com o próximo. A liturgia põe diante de nossos olhos todos esses belos ornamentos de santidade, para que salutarmente os olhemos e para que “nós que gozamos dos seus méritos sejamos inflamados pelos seus exemplos”. (153) É necessário, pois, conservar “a inocência na simplicidade”, a concórdia na caridade, a modéstia na humildade, a diligência no governo, a atenção em ajudar o que sofre, a misericórdia em cuidar dos pobres, a constância em defender a verdade, a justiça na severidade da disciplina, para que não falte em nós nenhuma de todas as virtudes que nos foram propostas para exemplo. Essas são as pegadas que os santos, na sua volta à pátria nos deixaram, para, palmilhando os seus caminhos, podermos segui-los na bem-aventurança… (154) E para salutarmente impressionar também os nossos sentidos, quer a Igreja que em nossos templos estejam expostas as imagens dos santos, sempre, porém, com o mesmo fim, isto é, que “imitemos as virtudes daqueles cujas imagens veneramos”.(155)

153. Mas há ainda outro motivo no culto do povo cristão aos santos: o de implorar a sua ajuda, e o de “ser amparados pelo patrocínio daqueles em cujo louvor nos deleitamos”. (156) Disso facilmente se deduz o porquê das numerosas fórmulas de oração que a Igreja nas propõe para invocar a proteção dos santos.

154. Entre os santos há um culto proeminente a Maria virgem Mãe de Deus. A sua vida, pela missão comada por Deus, está estreitamente inserida nos mistérios de Jesus Cristo e ninguém, certamente, mais do que ela, seguiu tão de perto e com maior eficácia, as pegadas do Verbo encarnado, ninguém goza de maior graça e poder junto do coração sacratíssimo do Filho de Deus e, através do Filho, junto do Pai celeste ela é mais santa do que os querubins e os serafins e, sem nenhuma comparação, mais gloriosa do que todos os outros santos, porque é “cheia de graça”, (157 ) Mãe de Deus, e por nos haver dado, com o seu parto feliz, o Redentor. A ela, que é “mãe de misericórdia, vida, doçura e esperança nossa” recorramos todos nós “gemendo e chorando neste vale de lágrimas”.(158) À sua proteção, entreguemo-nos confiantes, nós e todas as nossas coisas. Ela se tornou nossa mãe quando o divino Redentor cumpria o sacrifício de si mesmo, e por isso, ainda por esse título, somos seus filhos. Ela nos ensina todas as virtudes, dá-nos seu Filho e, com ele, todos os auxílios que nos são necessários, porque Deus “quis que tudo nos viesse por meio de Maria”.(159)

155. Por esse caminho litúrgico que nos é, cada ano, aberto de novo, sob a ação santificadora da Igreja, confortados com os auxílios e os exemplos dos santos, sobretudo da imaculada virgem Maria, “aproximemo-nos com sincero coração, com plenitude de fé, purificado o coração da consciência de culpa e lavado o corpo com água pura”, (160) do “grande Sacerdote”,(161) para viver e sentir com ele e penetrar por seu intermédio “até além do véu” (162) e aí honrar o Pai celeste por toda a eternidade.

156. Tal é a essência e a razão de ser da sagrada liturgia. Ela cuida do sacrifício, dos sacramentos e do louvor a Deus; da união das nossas almas com Cristo e da santificação por meio do divino Redentor, afim de ser honrado Cristo e, por ele e nele, a Santíssima Trindade. Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo.

 

QUARTA PARTE 
DIRETRIZES PASTORAIS

I.. Não se descuidem as outras formas de piedade 

157. Para afastar da Igreja os erros e os exageros de que acima falamos e para que possam os fiéis, guiados por mais seguras normas, praticar o apostolado litúrgico com abundantes frutos, achamos oportuno, veneráveis irmãos, acrescentar alguma coisa para a prática da doutrina exposta.

158. Tratando da genuína piedade, afirmamos que entre a liturgia e os outros atos de religião – desde que sejam retamente ordenados e tendam ao justo fim – não pode haver verdadeiro contraste; há, até, alguns exercícios de piedade que a Igreja recomenda grandemente ao clero e aos religiosos.

159. Ora, desejamos que também o povo cristão não fique alheio destes exercícios. Estes são – para falar apenas dos principais – a meditação de assuntos espirituais, o exame de consciência, os retiros espirituais, instituídos para a reflexão mais intensa das verdades eternas, a visita ao santíssimo sacramento e as orações particulares em honra da bem-aventurada virgem Maria, entre as quais excele, como todos sabem, o rosário.(163)

160. A essas múltiplas formas de piedade não pode ser estranha a inspiração e a ação do Espírito Santo; elas, com efeito – se bem que de várias maneiras – visam todas a voltar e dirigir para Deus as nossas almas, porque as purificam dos pecados, as dispõem à conquista da virtude e as estimulam à verdadeira piedade, habituando-as à meditação das verdades eternas, e tornando-as mais capazes da contemplação dos mistérios da natureza humana e divina de Cristo. Além disso, nutrindo intensamente nos fiéis a vida espiritual, preparam-nos para participar das sagradas funções com fruto maior, e evitam o perigo de se reduzirem as orações litúrgicas a um ritualismo vão.

161. Não vos canseis, pois, veneráveis irmãos, no vosso zelo pastoral, recomendando e encorajando esses exercícios de piedade, dos quais brotam sem dúvida para o povo que vos foi confiado frutos salutares. Sobretudo, não permitais – como alguns pretendem, ou com a desculpa de renovação da liturgia, ou falando com leviandade de uma eficácia e dignidade exclusivas dos ritos litúrgicos – que as Igrejas sejam fechadas durante as horas não destinadas às funções públicas, como já acontece em algumas regiões; que a adoração e a visita ao santíssimo sacramento sejam menosprezadas; que se desaconselhe a confissão dos pecados feita com o fim único de devoção; que se desleixe, especialmente entre a juventude, o culto da virgem Mãe de Deus, que, no dizer dos santos, é sinal de predestinação. São esses frutos envenenados, sumamente nocivos à piedade cristã, que repontam de ramos infectos de uma árvore sã; é necessário, por isso, extirpá-los, para que a seiva da árvore possa nutrir somente frutos agradáveis e ótimos.

162. Visto que as opiniões manifestadas por alguns a propósito da confissão freqüente são de todo alheias ao Espírito de Cristo e de sua esposa imaculada, e verdadeiramente funestas para a vida espiritual, recordamos o que a propósito escrevemos, com pesar, na encíclica “Mystici Corporis“; e insistimos de novo para que proponhais à séria meditação e à docil atuação dos vossos rebanhos e especialmente dos candidatos ao sacerdócio e do jovem clero, quanto ali vos dissemos em graves palavras.

163. Zelai, pois, de modo particular, para que muitíssimos, não só do clero mas ainda do laicato, e especialmente os pertencentes aos sodalícios religiosos e às fileiras da Ação católica, tomem parte nos retiros mensais e nos exercícios espirituais realizados em determinados dias para incrementar a piedade. Como dissemos acima, esses exercícios espirituais são utilíssimos e até necessários, para instilar nas almas a genuína piedade, e para formá-las à santidade, de modo que possam haurir da sagrada liturgia benefícios mais eficazes e abundantes. 

164. Quanto aos vários modos sob os quais se costuma praticar esses exercícios, fique bem conhecido e claro a todos, que na Igreja terrena, como na celeste, há “muitas moradas”; (164) e que a ascética não pode ser monopólio de ninguém. Um é o Espírito, o qual, porém, “sopra onde quer”;(165) e com diversos dons e por diversas vias dirige as almas por ele iluminadas à consecução da santidade. A sua liberdade e a ação sobrenatural do Espírito Santo nelas seja coisa sacrossanta, que a ninguém é lícito, a nenhum título, perturbar e conculcar.

165. É sabido, entretanto, que os exercícios espirituais de santo Inácio foram plenamente aprovados e insistentemente recomendados pelos nossos predecessores por causa de sua admirável eficácia; e nós, também, pela mesma razão, os aprovamos e recomendamos, como presentemente com prazer o tornamos a fazer.

166. É absolutamente necessário, porém, que a inspiração a seguir e praticar determinados exercícios de piedade, venha do Pai das luzes, do qual provém todo bem, e todo dom perfeito;(166) e disso será índice a eficácia com a qual servirão para que o culto divino seja sempre mais amado e amplamente promovido, e os fiéis sejam solicitados por um mais intenso desejo à participação dos sacramentos e à devida honra e respeito de todas as coisas sagradas. Se eles, ao contrário, se transformassem em obstáculo ou se revelassem em contraste com os princípios e normas do culto divino, então sem dúvida se deveria tê-los como não ordenados por pensamento reto, nem guiados por zelo iluminado.

167. Além disso, há outros exercícios de piedade que, se bem não pertençam a rigor e de direito à sagrada liturgia, se revestem de particular dignidade e importância, de modo que são tidos por insertos no quadro litúrgico, e gozam de repetidas aprovações e louvores desta Sé Apostólica e dos bispos. Entre esses se devem enumerar as orações que se costuma fazer durante o mês de maio em honra da virgem Mãe de Deus, ou durante o mês de junho em honra do sacratíssimo coração de Jesus, os tríduos e novenas, a “Via sacra” e outros semelhantes.

168. Essas piedosas práticas, que exercitam o povo cristão a uma assídua freqüência do sacramento da penitência e a uma devota participação no sacrifício eucarístico e na mesa divina, como também à meditação dos mistérios da nossa Redenção e à imitação dos grandes exemplos dos santos, por isso mesmo contribuem com fruto salutar para a nossa participação no culto litúrgico.

169. Por isso faria obra perniciosa e de todo errônea quem ousasse temerariamente assumir a reforma desses exercícios de piedade, para enquadrá-los apenas nos esquemas litúrgicos. É necessário, todavia, que o espírito da sagrada liturgia e os seus preceitos influam beneficamente neles, para evitar que aí se introduza algo de inepto ou de indigno ao decoro da casa de Deus, ou seja em detrimento das sagradas funções e contrário à sã piedade. 

170. Cuidai, pois, veneráveis irmãos, para que essa pura e genuína piedade prospere sob os vossos olhos, e floresça sempre mais. Não vos canseis, sobretudo, de inculcar a cada um que a vida cristã não consiste na multiplicidade e variedade das orações e dos exercícios de piedade, mas acima de tudo em que eles contribuam realmente para o progresso espiritual dos fiéis e ao incremento de toda a Igreja, porquanto o Pai Eterno “nos elegeu nele (Cristo) antes da fundação do mundo, para sermos santos e imaculados na sua presença”. (167) Devem, pois, tender todas as nossas orações e todas as nossas práticas devotas a dirigir todos os nossos recursos espirituais à realização desse supremo e nobilíssimo fim.

II. Espírito litúrgico e apostolado litúrgico 

171. Nós vos exortamos instantemente, veneráveis irmãos, a que, desfeitos os erros e a falsidade, e proibido tudo o que está fora da verdade e da ordem, promovais as iniciativas que dão ao povo um mais profundo conhecimento da sagrada liturgia, de modo que ele possa mais adequada e mais facilmente participar dos ritos divinos, com disposição verdadeiramente cristã.

172. É necessário, antes de tudo, empenhar-vos por que todos obedeçam com a devida reverência e fé aos decretos publicados pelo concílio de Trento, pelos pontífices romanos, pela Congregação dos ritos, e a todas as disposições dos livros litúrgicos naquilo que respeita à ação externa do culto público.

173. Em todas as coisas da liturgia devem brilhar sobretudo estes três ornamentos de que fala o nosso predecessor Pio X: a santidade, que rejeita toda influência profana; a nobreza das imagens e das formas, às quais serve toda arte genuína e superior; a universalidade, enfim, a qual – conservando os legítimos usos e costumes regionais – exprime a unidade católica da Igreja.(168)

174. Desejamos e recomendamos calorosamente, ainda uma vez, o decoro dos sagrados edifícios e altares. Sinta-se cada um animado pela palavra divina: “O zelo de tua casa me devora”(169) e se empenhe segundo as suas forças para que tudo, quer nos sagrados edifícios, quer nas vestes e nas alfaias litúrgicas, ainda que não brilhe por excessiva riqueza e esplendor, seja, todavia, apropriado e limpo, estando tudo consagrado à divina Majestade. Se já reprovamos, acima, o modo não reto de proceder daqueles que, a pretexto de restaurar o antigo, querem excluir dos templos as imagens sagradas temos que é nossa obrigação repreender a piedade não bem formada daqueles que, nas Igrejas e em seus próprios altares, propõem à veneração, sem justo motivo, múltiplos simulacros e efígies; daqueles que expõem relíquias não reconhecidas pela legítima autoridade; daqueles, enfim, que insistem em coisas particulares e de pouca importância, enquanto descuram as principais e necessárias, e, assim, tornam ridícula a religião, e envilecem a gravidade do culto.

175. Lembramos ainda o decreto “sobre novas formas de culto e de devoção a não introduzir”,(170) cuja religiosa observância recomendamos à vossa vigilância.

176. Quanto à música, observem-se escrupulosamente as determinadas e claras normas emanadas desta Sé Apostólica. O canto gregoriano que a Igreja romana considera coisa sua, porque recebido da antiga tradição e guardado no correr dos séculos sob a sua cuidadosa tutela e que propõe aos fiéis como coisa também deles, prescrito como é de modo absoluto em algumas partes da liturgia,(171) não só acrescenta decoro e solenidade à celebração dos divinos mistérios, antes contribui extremamente até para aumentar a fé e a piedade dos assistentes. A esse propósito nossos predecessores de imortal memória, Pio X e Pio XI, estabeleceram – e nós de bom grado confirmamos com a nossa autoridade as disposições por eles dadas – que nos seminários e nos Institutos religiosos seja cultivado com estudo e diligência o canto gregoriano, e que, ao menos nas Igrejas mais importantes, sejam restauradas as antigas “Scholae cantorum“; como já foi feito com feliz resultado em não poucos lugares.(172)

177. Além disso, “para que os féis participem mais ativamente do culto divino, seja restaurado o canto gregoriano até no uso popular na parte que respeita ao povo. E urge verdadeiramente que os fiéis assistam às sagradas cerimônias não como espectadores mudos e estranhos, mas penetrados, intimamente, da beleza da liturgia… que alternem, segundo as normas prescritas, sua voz com a voz do sacerdote e dos cantores; se isso graças a Deus se verificar, então não acontecerá mais que o povo responda apenas com um leve e submisso murmúrio às orações comuns ditas em latim e em língua vulgar”.(173) A multidão que assiste atentamente ao sacrifício do altar, no qual nosso Salvador, junto com os seus filhos remidos pelo seu sangue, canta o epitalâmio da sua imensa caridade, certamente não poderá calar, pois “cantar é proprio de quem ama”,(174) e como já dizia o provérbio antigo: “Quem canta bem, reza duas vezes”. Assim, a Igreja militante, clero e povo juntos, une a sua voz aos cantos da Igreja triunfante e aos coros angélicos, e todos juntos cantam um magnífico e eterno hino de louvor à Santíssima Trindade, como está escrito: “Com os quais te imploramos que sejam ouvidas ainda as nossas vozes”.(175)

178. Não se pode, todavia, asseverar que a música e o canto moderno devam ser de todo excluídos do culto católico. Aliás, se nada têm de profano e de inconveniente à santidade do lugar e da ação sagrada, nem derivam de uma procura vã de efeitos extraordinários, certamente devemos abrir-lhes as portas de nossas Igrejas, podendo ambos contribuir não pouco para o esplendor dos ritos sagrados, para a elevação das mentes e, ao mesmo tempo, para a verdadeira devoção.

179. Nós vos exortamos ainda, veneráveis irmãos, a que tomeis cuidado em promover o canto religioso popular e a sua acurada execução feita com a dignidade conveniente, podendo isso estimular e aumentar a fé e a piedade das populações cristãs. Suba ao céu o canto uníssono e possante de nosso povo como o fragor das ondas do mar,(176) expressão canora e vibrante de um só coração e uma só alma, (177) como convém a irmãos e filhos de um mesmo Pai.(180). O que dissemos da música, se aplica às outras artes e especialmente à arquitetura, à escultura e à pintura. Não se devem desprezar e repudiar genericamente e por preconceitos as formas e imagens recentes, mais adaptadas aos novos materiais com os quais são hoje confeccionados; mas, evitando com sábio equilíbrio o excessivo realismo de uma parte e o exagerado simbolismo de outra, e tendo em conta as exigências da comunidade cristã, mais do que o juízo e o gosto pessoal dos artistas, é absolutamente necessário dar livre campo também à arte moderna, se esta serve com a devida reverência e a devida honra aos sagrados edifícios e ritos; de modo que ela possa unir a sua voz ao admirável cântico de glória que os gênios cantaram nos séculos passados a fé católica.

Não podemos deixar, porém, por dever de consciência, de deplorar e reprovar aquelas imagens e formas por alguns recentemente introduzidas, que parecem ser depravação e deformação da verdadeira arte e que, muitas vezes, repugnam abertamente ao decoro, à modéstia e à piedade cristã e ofendem, lamentavelmente, o genuíno sentimento religioso; elas devem ser mantidas absolutamente afastadas e postas fora das nossas igrejas como “em geral tudo que não está em harmonia com a santidade do lugar”.(178)

181. Fiéis às normas e decretos dos pontífices, cuidai diligentemente, veneráveis irmãos, de iluminar e dirigir a mente e a alma dos artistas, aos quais será confiado hoje o encargo de restaurar e reconstruir tantas Igrejas destruídas ou arruinadas pela violência da guerra; possam e queiram eles, inspirando-se na religião, encontrar os motivos mais dignos e adaptados às exigências do culto; assim, com efeito, felizmente acontecerá que as artes humanas, como vindas do céu, brilhem com luz serena, promovam sumamente a humana civilização e contribuam para a glória de Deus e a santificação das almas, pois que as artes são, em verdade, como armas para a religião, quando servem “como nobilíssimas servas do culto divino”.(179)

182. Mas há ainda uma coisa mais importante, veneráveis irmãos, que recomendamos de modo especial à vossa solicitude e ao vosso zelo apostólico. Tudo o que diz respeito ao culto religioso externo tem sua importância, mas urge sobretudo que os cristãos vivam a vida litúrgica e alimentem e fortaleçam seu espírito sobrenatural.

183. Providenciai, pois, alacremente, porque o jovem clero seja formado na inteligência das cerimônias sagradas, na compreensão de sua beleza e majestade, e aprenda diligentemente as rubricas, em harmonia com a sua formação ascética, teológica, jurídica e pastoral. E isso não somente por razões de cultura, não apenas para que o seminarista possa um dia cumprir os ritos da religião com a ordem, o decoro e a dignidade necessárias, mas sobretudo para que seja educado em íntima união com Cristo sacerdote e se torne um santo ministro de santidade. 

184. Velai ainda de todo o modo para que, com os meios e subsídios que a vossa prudência julgar mais aptos, sejam o clero e o povo uma só mente e uma só alma; e, assim, o povo cristão participe ativamente da liturgia que se tornará em verdade a ação sagrada, pela qual o sacerdote que atende ao cuidado das almas em sua paróquia, unido com a assembléia do povo, renda ao Senhor o culto devido. 

185. Para obter isso, será certamente útil que, piedosos meninos, bem instruídos sejam escolhidos entre todas as classes de fiéis, para que, com desinteresse e boa vontade, sirvam devota e assiduamente ao altar – encargo que deveria ser tido em grande consideração pelos pais, ainda que de alta condição social e cultura. Se esses jovens forem instruídos com o necessário cuidado e sob a vigilância de um sacerdote para que cumpram este seu ofício com reverência e constância, e em horas determinadas, tornar-se-á fácil o brotar entre eles de novas vocações sacerdotais; e não se queixará o clero de não encontrar – como infelizmente acontece por vezes até em regiões catolicíssimas – alguém que na celebração do augusto sacrifício lhe responda e o sirva.

186. Procurai, sobretudo, obter, com o vosso diligentíssimo zelo, que todos os fiéis assistam ao sacrifício eucarístico e dele recebam os mais abundantes frutos de salvação; exortai-os portanto assiduamente a dele participarem com devoção por todos aqueles modos legítimos dos quais falamos acima. O augusto sacrifício do altar é o ato fundamental do culto divino; é necessário, por isso, que ele seja a fonte, o centro da piedade cristã. Considerai que não tereis jamais suficientemente satisfeito ao vosso zelo apostólico senão quando virdes os vossos filhos aproximarem-se em grande número do celestial banquete que é “sacramento de piedade, sinal de unidade, vínculo de caridade”. (180)

187. Para que, pois, o povo cristão possa conseguir esses dons sobrenaturais, sempre com maior abundância, instrui-o com zelo por meio de pregações oportunas e, especialmente, com discursos e ciclos de conferências, com semanas de estudo e com outras manifestações semelhantes, a respeito dos tesouros de piedade contidos na sagrada liturgia. Para esse fim estarão certamente à vossa disposição os membros da Ação católica, sempre prontos a colaborar com a hierarquia em promover o reino de Jesus Cristo.

188. É absolutamente necessário, porém, que em tudo isso vigieis atentamente a fim de que, no campo do Senhor, não se introduza o inimigo para semear a cizânia no meio do trigo,(181) para que, em outras palavras, não se infiltrem no vosso rebanho os perniciosos e sutis erros de um falso “misticismo” e de um nocivo “quietismo” – erros por nós já condenados como sabeis(182) – e para que as almas não sejam seduzidas por um perigoso “humanismo”, nem se introduza uma falsa doutrina que altera a própria noção da fé, nem, enfim, um excessivo “arqueologismo” em matéria litúrgica. Cuidai com igual diligência por que não se difundam as falsas opiniões daqueles que erradamente crêem e ensinam que a natureza humana de Cristo glorificada esteja realmente e com a sua continua presença nos justificados, ou que uma graça única e idêntica junte Cristo com os membros do seu Corpo.

189. Não vos deixeis desanimar pelas dificuldades que nascem; jamais se desencoraje o vosso zelo pastoral. “Fazei soar a trombeta em Sião, convocai a assembléia, reuni o povo, santificai a Igreja, juntai os velhos, recolhei os meninos e os recém-nascidos” (183) e fazei por todos os meios que se encham em todos os lugares as Igrejas e os altares de cristãos, os quais, como membros vivos unidos à sua Cabeça divina, sejam revigorados pelas graças dos sacramentos, celebrem o augusto sacrifício com ele e por ele e dêem ao Eterno Pai os louvores devidos.

 

EPÍLOGO

190. Todas essas coisas, veneráveis irmãos, pretendíamos escrever-vos e o fazemos a fim de que os nossos e os vossos filhos compreendam melhor e mais estimem o preciosíssimo tesouro contido na sagrada liturgia – isto é, o sacrifício eucarístico que representa e renova o sacrifício da cruz, os sacramentos, rios de graça e de vida divina, e o hino de louvor que o céu e a terra elevam cada dia a Deus.

191. Seja-nos lícito esperar que estas nossas exortações excitem os tíbios e os recalcitrantes não somente a um estudo mais intenso e iluminado da liturgia, mas ainda a traduzir na prática da vida o seu espírito sobrenatural, como diz o apóstolo: “Não queirais extinguir o Espírito”.(184)

192. Àqueles que um zelo excessivo leva muitas vezes a dizer e a fazer coisas que nos pesa não poder aprovar,  repetimos a advertência de são Paulo: “Ponde tudo à prova; ficai com o que é bom”;(185) e os admoestamos com ânimo paterno a consentirem haurir o seu modo de pensar e de agir da doutrina cristã, conforme os preceitos da imaculada esposa de Jesus Cristo e mãe dos santos. 

193. A todos, enfim, lembramos a necessidade de uma generosa e fel obediência aos pastores, aos quais compete o direito e incumbe o dever de regular toda a vida da Igreja, sobretudo a espiritual. “Obedecei aos vossos superiores e sede-lhes dóceis. Eles, com efeito, velam sobre as vossas almas, e disso prestarão contas. Assim poderão fazê-lo com alegria e não gemendo”.(186)

194. O Deus que adoramos, e que “não é Deus de discórdia mas de paz”(187), conceda, benigno a todos nós, participar neste exílio terreno, com uma só mente e um só coração, na sagrada liturgia, a qual seja como que preparação e prenúncio daquela celeste liturgia, com a qual, segundo confiamos, em companhia da excelsa Mãe de Deus e dulcíssima mãe nossa, cantaremos: “Àquele que se senta no trono e ao Cordeiro: louvor, honra e gloria por todos os séculos”.(188)

Com essa exultante esperança a vós todos e a cada um, veneráveis irmãos e aos rebanhos confiados à vossa vigilância, como penhor dos dons celestes, e atestado da nossa particular benevolência, concedemos com grandíssimo afeto a bênção apostólica.

Dado em Castel Gandolfo, junto de Roma, no dia 20 de novembro do ano de 1947, IX do nosso pontificado. 

 

PIO PP. XII

 


Notas

1. Tm 2, 5. 

2. Cf. Hb 4,14.

3. Cf. Hb 9,14.

4. Cf. Ml 1,11.

5. Cf. Conc. Trid., sess. XXII, c.l.

6.  Cf. Ibid., c.2.

7. Carta. Encicl, Caritate Christi de 3 de maio do ano 1932.

8. Cf. Carta. Ap., Motu Proprio In cotidianis precibus do dia 24 de março do ano 1945.

9. 1Cor 10,17

10. S. Tomás, Summa Theol., II-II, q. 81, a. 1.

11. Cf.  Levítico.

12. Cf. Hb 10,1.

13. Jo 1,14.

14. Hb 10,5-7.

15. Hb 10,10.

16. Jo 1,9.

17. Hb 10,39.

18. Cf. 1Jo 2, 1.

19. Cf. 1Tm 3,15.

20. Cf. Bonif. IX, Ab origine mundi, do dia 7 de Outubro do ano 1391; Callist. III, Summus Pontifex, de 1 de janeiro do ano 1456; Pius II, Triumphans Pastor, de 22 de abril de 1459; Innoc. XI,  Triumphans Pastor, de 3 de outubro do ano 1678.

21. Ef 2,19-22.

:22. Mt 18,20.

23. At 2,42.

24. Cl 3,16

25. S. Agostinho, Epist.130, ad Probam, 18.

.26. Missal Rom., Prefácio da Nativ.

27. I. Card. Bona, De divina psalmodia, c 19, § 3,1.

28. Missal Rom., Secreta da féria V depois do II Dom. de Quaresma.

29. Cf. Mc 7,6 e Is 29,13.

30. 1Cor 11, 28.

31. Missal Rom., Féria IV de Cinzas: oração depois da imposição das cinzas.

32. De praedestinatione sanctorum, 31.

33. Cf.  s. Tomás, Summa Theol., II-II, q. 82, a, 1.

34. Cf. 1Cor 3,23.

35. Hb 10,19-24.

36. Cf. 2Cor 6,1.

37.Cf. CIC, cân 125,126, 565, 571, 595,1367.

38. Col 3,11.

39. Cf. Gl 4,19.

40. Jo 20,21

41. Lc 10, 16

42. Mc 16,15-16.

43. Pont. Rom., De ordinatione presbyteri, in manuum unctione.

44. Enchiridion, c. 3.

45. De gratia Dei “Indiculus”; Dz 246.

46. S. Agostinho, Epist.130, ad Probam, 18.

47. Cf. Const. Divini cultus, de 20 de dezembro do ano 1928.

48. Const. Immensa, do dia 22 de janeiro de 1588.

49. Cf. CIC, cân. 253.

50. Cf. CIC, cân.1257.

51. Cf. CIC, cân.1261.

52. Cf. Mt 28,20.

53. Cf. Pio VI, Const. Auctorem fidei, do dia 28 de agosto de 1794, nn. XXXI, XXXIV, XXXIX, LXII, LXVI, LXIX-LXXIV

54. Cf. Jo 21,15-17.

55. At 20,28,

56. Sl 109,4.

57. Jo 13,1.

58. Conc. Trid., Sess. XXII. c, 1.

59. Ibidem, c. 2.

60. Cf. s. Tomás, Summa Theol., III, q. 22, a. 4. 

61. João Cris. In Joan. Hom., 86,4.

62. Rm 6,9.

63. Cf . Missal Rom., Prefácio.

64. Cf. Ibidem, Cânon.

65. Mc 14,23.

66. Missal Rom., Prefácio.

67. 1Jo 2,2 .

68. Missal Rom., Cânon.

69. S. Agostinho, De Trinit., 1. XIII, c.19.

70. Hb 5, 7.

71. Cf. Sess. XXII, c.1.

72. Cf. Hb 10,14.

73. S. Agostinho, Enarr. in Ps,147, n.16.

74. Gl 2,19-20.

75. Carta. Encicl. Mystici Corporis, do dia 29 de junho de 1943.

76. Missal Rom., Secreta do Dom. IX depois de Pentec.

77. Cf. Sess. XXII. c. 2 e cân. 4.

78. Cf. Gl 6,14.

79. Ml 1,11.

80. Fl 2,5.

81.Gl 2,19.

82. Cf. Conc. Trid. Sess., XXIII, c. 4.

83. Cf. s. Roberto Bellarm., De Missa, II, c 4.

84. De Sacro Altaris Mysterio, III, 6.

85. De Missa, I. cap. 27.

86. Missal Rom., Ordinário da Missa.

87. Ibidem, Cânon da Missa.

88. Missal Rom., Cânon da Missa.

92. Pontif. Rom., De Ordinatione presbyteri.

93. Ibidem, De altaris consecrat., Praefatio.

 94. Cf. Conc. Trid. Sess. XXII, c. 5.

95. Gl ,19-20.

96. Cf. Serm. 272.

97. Cf. lCor 12,27.

98. Cf. Ef 5,30.

99. Cf. s. Roberto Bellarm., De Missa , II, c. 8

100. De Civ. Dei, 1. X. c. 6.

101. Missal Rom., Cânon da Missa.

102. Cf. 1Tm 2,5.

103. Carta Encicl. Certiores effecti, de 13 de novembro de 1742, § 1.

104. Conc. Trid. Sess. XXII, cân. 8.

105. Missal Rom., Coleta da Festa Corp. Christi.

 106. 1Cor 11,24.

107. Sess. XXII, c. 6.

108. Carta. Encicl. Certiores effecti, de 13 de novembro de 1742, § 3.

109. Cf. Lc 14,23.

110. Cor 10,17.

111. Cf. S. Inácio. Mártir, Ad. Ephes., 20.

112. Missal Rom., Cânon da Missa.

113. Ef 5,20.

114. Missal Rom., Postcommunio do Domingo da Oitava da Ascensão.

115. Ibidem, Postcommunio do Domingo I depois de Pentec.

116. CIC, cân. 810

117. Lib . IV, cap.l2.

118. Dn 3,57.

119. Cf. Jo 16,23.

120. Missal Rom., Secreta da Missa da SS. Trindade.

121. Jo 15,4.

122. Conc. Trid., Sess. XIII, can. 1.

123. Conc. Constant. II, Anath. de trib. Capit., cân. 9 collat. Con. Efes. Anath. Cyrill, cân. 8. Cf. Conc. Trid. Sess. XIII, cân. 6; Pio VI, Const. Auctorem fidei n. LXI.

124. Cf. Enarr. in, Ps. 98, 9.

125. Ap 5,12; 7,10.

126. Cf. Conc. Trid., Sess., XIII, c. 5 e cân. 6.

127. In ad Cor., XXIV, 4.

128. Cf. 1Pd 1,19.

129. Mt 11,28.

130. Cf. Missal Rom., Coll. da Missa da Dedic. de uma Igreja.

131. Missal Rom., Seq. Lauda Sion na festa do Corpus Christi.

132. Lc 18, 1.

133. Hb 13,15.

134. Cf. At 2,1-15.

135.  At 10,9.

136. At 3,1

137. At 16,25

138. Rm 8,26.

139. S. Agostinho, Enarr. in Ps. 85, n. 1.

140. S. Bento, Regula Monachorum, c. XIX.

141. Hb 7,25.

142. Explicatio in Psalterium, Prefácio; PL 70,10.

143. S. Ambrósio, Enarrat. in Ps. l, n. 9.

144. Ex 31,15.

145. Confess. I. IX, c. 6.

146. S. Agostinho, De Civ. Dei, 1. VIII, cap.l7.

147.  Col 3,1-2.

148. S. Agostinho, Enarr. in Ps.123, 2.

149. Hb 13,8.

150. S. To más, Summa Theol. III, q. 49 e q. 62, a. 5.

151. Cf. At 10, 38.

152. Ef 4,13.

153. Missal Rom., Coleta da III Missa pro plur. Martyr. extra T.P

154. S. Beda Vener., Hom. LXX na solenidade de todos os santos.

155. Missal Rom., Coleta da Missa de s. João Damasceno.

156. S. Bernardo, Sereno II in festo omnium Sanct.

157. Luc.1, 28.

158. “Salve Regina”.

159. S. Bernardo, In Nativ. B.M.V., 7.

160. Hb 10,22.

161. Hb10,21.

162. Hb 6, 19

163. Cf. CIC, cân.125.

164. Cf. Jo 14,2.

165. Jo 3,8.

166.  Cf.  Tg 1,17.

167. Ef 1,4.

168. Cf. Carta. Apost. Motu Proprio Tra le sollecitudini; de 22 de nov de 1903.

169. Sl 68,10; Jo 2,17.

170. Congr. S. Oficio: Decretum de 26 de maio de 1937.

171. Cf. Pio X, Carta. Apost. Motu Proprio Tra le sollecitudini.

172. Cf. Pio X, loc. cit.; Pio XI, Const. Divini Cultus, II, V.

173. Pio XI, Const. Divini Cultus, IX.

174. S. Agostinho, Serm. 336, n. 1.

175. Missal Rom., Prefácio.

176. Cf. s. Ambrosio, Hexameron, III, 5, 23.

177.  Cf. At 4,32.

178. CIC, can.1178.

179. Pio XI, Const. Divini Cultus.

180. Cf. s. Agostinho, Tract. XXVI in Joan., 13. 

181. Cf.  Cf. Mt 13,24-25.

182. Carta. Encicl. Mystici Corporis.

183. Jl 2,5-16.

184. 1Ts 5,19.

185. 1Ts 5,21.

186. Hb 13,17.

187. 1Cor 14,33.

188.  Ap 5,13.

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