Documentos da Igreja

Memória e reconciliação: a igreja e as culpas do passado-3

6. PERSPECTIVAS PASTORAIS E MISSIONÁRIAS

 

À luz das considerações feitas, é possível agora perguntar: quais as finalidades pastorais que levam a Igreja a assumir o peso das culpas, cometidas no passado pelos seus filhos em seu nome, e a reconhecê-las como tais? Quais as implicações desta atitude na vida do povo de Deus? E quais as suas ressonâncias em relação à missão da Igreja e ao seu diálogo com as diversas culturas e religiões?

6.1. Finalidades pastorais

Entre as múltiplas finalidades pastorais do reconhecimento dos erros do passado, podem salientar-se as seguintes:

– em primeiro lugar, estes actos tendem à purificação da memória que, como foi dito, é o processo de renovada avaliação do passado, capaz de uma não desprezível incidência no presente, pois os pecados passados fazem, com frequência, ainda sentir o seu peso e permanecem também hoje como outras tantas tentações. Sobretudo se amadurecida no diálogo e na paciente procura da reciprocidade com quem se possa sentir ofendido por acontecimentos ou palavras do passado, a remoção da memória pessoal e colectiva de todas as causas de possível ressentimento pelo mal sofrido e de toda a influência negativa daquele facto, pode contribuir para fazer crescer a comunidade eclesial em santidade, pela via da reconciliação e da paz na obediência à Verdade.

“Reconhecer as fraquezas de ontem – sublinha o Papa – é acto de lealdade e coragem que ajuda a reforçar a nossa fé, tornando-nos atentos e prontos para enfrentar as tentações e dificuldades de hoje.” (TMA 33) É exactamente com tal fim que a memória da culpa deve abranger todas as possíveis faltas cometidas, mesmo se apenas algumas são hoje mais frequentemente mencionadas. De qualquer modo, nunca se pode esquecer também o preço pago por tantos cristãos pela sua fidelidade ao Evangelho e ao serviço do próximo na caridade.(48)

– Uma segunda finalidade pastoral, estreitamente ligada à anterior, pode ser reconhecida na promoção da perene reforma do povo de Deus: “se, em vista das circunstâncias das coisas e dos tempos houve deficiências, quer na moral, quer na disciplina eclesiástica, quer também no modo de enunciar a doutrina – modo que deve cuidadosamente distinguir-se do próprio depósito da fé – tudo seja recta e devidamente restaurado no momento oportuno” (UR 6).(49) Todos os baptizados são chamados a “examinar a sua fidelidade à vontade de Cristo acerca da Igreja e, na medida da necessidade, empreender com vigor a obra de renovação e reforma” (UR 4: opus renovationis nec non reformationis). O critério da verdadeira reforma e da autêntica renovação só pode ser a fidelidade à vontade de Deus respeitante ao Seu povo,(50) que supõe um esforço sincero por libertar-se de tudo o que afasta dela, quer se trate de culpas presentes quer diga respeito a heranças do passado.

– Uma ulterior finalidade pode ser vista no testemunho que, desse modo, a Igreja dá do Deus da misericórdia e da Sua Verdade que liberta e salva, a partir da experiência que d’Ele fez e faz na história; e no serviço que, desse modo, presta nos confrontos da humanidade para contribuir à superação dos males presentes. João Paulo II afirma que “um sério exame de consciência foi desejado por numerosos cardeais e bispos, principalmente sobre a Igreja de hoje. No limiar do novo milénio, os cristãos devem pôr-se humildemente diante do Senhor, interrogando-se sobre as responsabilidades que lhes cabem também nos males do nosso tempo” (TMA 36), e para contribuir, por consequência, ao seu superamento na obediência ao esplendor da Verdade salvífica.

6.2. Implicações eclesiais

Que implicações tem um acto eclesial de pedido de perdão na vida da própria Igreja? Emergem vários aspectos:

– Impõe-se, antes de mais, ter em conta os processos diversificados de recepção dos actos de arrependimento eclesial, pois esses variam consoante os contextos religiosos, culturais, políticos, sociais, pessoais, etc.. A esta luz tome-se em consideração que acontecimentos ou palavras ligados a uma história contextualizada não têm necessariamente alcance universal e, vice-versa, que actos condicionados por determinada perspectiva teológica e pastoral trouxeram consequências de grande peso na difusão do Evangelho (pense-se, p. ex., nos vários modelos históricos da teologia da missão). Além disso, tenha-se em conta a relação entre benefícios espirituais e possíveis custos de semelhantes actos, considerando-se também as acentuações indevidas que os media podem dar a alguns aspectos das declarações eclesiais; tenha-se sempre presente o conselho do apóstolo Paulo de acolher, considerar e apoiar com prudência e amor os “fracos na fé” (cf. Rm 14,1). Em particular, impõe-se prestar atenção à história, à identidade e aos contextos das Igrejas orientais e das Igrejas que actuam em continentes ou países em que a presença cristã é largamente minoritária.

– É necessário precisar o sujeito adequado chamado a pronunciar-se em relação a culpas passadas, quer se trate de pastores locais, pessoal ou colegialmente considerados, quer se trate do Pastor universal, o Bispo de Roma. Nesta perspectiva é oportuno ter em conta – no reconhecimento das culpas passadas e dos agentes actuais que melhor poderão tomar isso a seu cargo – a distinção entre Magistério e autoridade na Igreja. Nem todo o acto de autoridade tem valor de Magistério, pelo que um comportamento contrário ao Evangelho da parte de uma ou mais pessoas revestidas de autoridade não implica de per si um envolvimento do carisma magisterial, confirmado pelo Senhor aos pastores da Igreja, e não requer por consequência nenhum acto magisterial de reparação.

– Sublinhe-se que o destinatário de todo o possível pedido de perdão é Deus e que eventuais destinatários humanos, sobretudo se colectivos, dentro ou fora da comunidade eclesial, devem ser determinados com oportuno discernimento histórico e teológico, quer para se realizarem convenientes actos de reparação quer para se lhes testemunhar a boa vontade e o amor à verdade dos filhos da Igreja. Isto será feito tanto melhor quanto mais diálogo houver e reciprocidade entre as partes em causa num eventual caminho de reconciliação, ligado ao reconhecimento das culpas e arrependimento por elas, sem ignorar que a reciprocidade – por vezes impossível por causa das convicções religiosas do interlocutor – não pode ser, todavia, considerada condição indispensável e que a gratuidade do amor se exprime frequentemente numa iniciativa unilateral.

– Os eventuais gestos de reparação estão associados ao reconhecimento de uma responsabilidade que perdura no tempo, e poderão tanto ter um carácter simbólico-profético como um valor de efectiva reconciliação (p. ex., entre os cristãos divididos). Também na definição destes actos é desejável uma procura comum com os eventuais destinatários, ouvindo os legítimos pedidos que eles possam apresentar.

– No plano pedagógico é oportuno evitar a perpetuação de imagens negativas do outro, assim como activar processos de autoculpabilização indevida; enfatizando que o carregar o fardo das culpas passadas é, para quem crê, um modo de participação no mistério de Cristo crucificado e ressuscitado que carregou as culpas de todos. Esta perspectiva pascal revela-se particularmente apta a produzir frutos de libertação, reconciliação e alegria para todos aqueles que, com fé viva, estão implicados no pedido de perdão, seja como sujeitos seja como destinatários.

6.3. Implicações no plano do diálogo e da missão

São diversas as implicações previsíveis no plano do diálogo e da missão, em consequência de um reconhecimento eclesial de culpas passadas:

– No plano missionário deve-se, antes de mais, evitar que actos semelhantes contribuam para inibir o impulso da evangelização mediante o exacerbar dos aspectos negativos. Do mesmo modo, deve-se tomar em consideração o facto de que estes mesmos actos poderão fazer crescer a credibilidade da mensagem, se nascerem da obediência à verdade e tenderem a dar efectivos frutos de reconciliação. Em particular, os missionários ad gentes terão o cuidado de contextualizar a proposta destes temas em relação à efectiva capacidade da sua recepção nos ambientes em que trabalham (assim, p. ex., aspectos da história da Igreja na Europa poderão ser pouco significativos para muitos povos não europeus).

– No plano ecuménico, a finalidade de eventuais actos de eclesiais de arrependimento só pode ser a unidade querida pelo Senhor. Nesta perspectiva é tanto mais desejável que eles se efectuem na reciprocidade, mesmo que por vezes gestos proféticos possam reclamar uma iniciativa unilateral e absolutamente gratuita.

– No plano inter-religioso é oportuno salientar como, para os crentes em Cristo, o reconhecimento das culpas passadas por parte da Igreja está conforme às exigências da fidelidade ao Evangelho e, portanto, constitui um luminoso testemunho da sua fé na verdade e na misericórdia do Deus revelado por Jesus. Deve evitar-se que actos semelhantes sejam tomados equivocamente como confirmação de eventuais preconceitos nos confrontos do cristianismo. Seria, além disso, desejável que estes actos de arrependimento estimulassem também os fiéis de outras religiões a reconhecerem as culpas do seu próprio passado. Tal como a história da humanidade está cheia de violências, genocídios, violações dos direitos humanos e dos povos, exploração dos mais fracos e divinização dos poderosos, assim também a das várias religiões está coberta de intolerância, superstição, conivência com poderes injustos e negação da dignidade e liberdade das consciências. Os cristãos não foram excepção, e estão conscientes de como todos são pecadores perante Deus!

– No diálogo com as culturas deve-se, antes de mais, ter presente a complexidade e pluralidade das mentalidades com que se dialoga a respeito da ideia de arrependimento e perdão. Em todo o caso, o facto de a Igreja assumir as culpas do passado é esclarecido à luz da mensagem evangélica e, em particular, da apresentação do Senhor crucificado, revelação da misericórdia e fonte de perdão, para além da peculiar natureza da comunhão eclesial, una no tempo e no espaço. Onde haja uma cultura de todo alheia à ideia de um pedido de perdão, devem ser oportunamente apresentadas as razões teológicas e espirituais que motivam este acto a partir da mensagem cristã, tendo em conta o seu carácter crítico-profético. Sempre que se tenha de fazer face a uma preconceituosa indiferença para com a palavra da fé, tome-se em consideração o duplo efeito possível destes actos de arrependimento eclesial que se, por um lado, podem confirmar preconceitos negativos ou atitudes de desprezo e hostilidade, por outro, participam da misteriosa atracção característica do “Deus crucificado”.(51) Além disso, considere-se o facto de que no actual contexto cultural, sobretudo no Ocidente, o convite à purificação da memória envolve num comum empenhamento crentes e não crentes. Este empreendimento comum constitui já testemunho positivo de docilidade à verdade.

– Em relação à sociedade civil, por fim, tenha-se em conta a diferença que existe entre a Igreja, mistério de graça, e uma qualquer sociedade temporal; mas não deve ser menos sublinhado o carácter de exemplaridade que o pedido eclesial de perdão pode apresentar e o consequente estímulo que pode oferecer a se efectuarem análogos passos de purificação da memória e reconciliação nas mais diversas situações em que poderá ser reconhecida a sua urgência. Afirma João Paulo II: “O pedido de perdão [?] diz respeito, em primeiro lugar, à vida da Igreja, à sua missão de anúncio da salvação, ao seu testemunho de Cristo, ao seu empenhamento pela unidade, numa palavra, à coerência que deve marcar a existência cristã. Mas, a luz e a força do Evangelho de que a Igreja vive, têm a capacidade de iluminar e sustentar, como por superabundância, as escolhas e acções da sociedade civil, no pleno respeito da sua autonomia [?] No limiar do terceiro milénio, é legítimo esperar que os responsáveis políticos e os povos, sobretudo aqueles envolvidos em conflitos dramáticos, alimentados pelo ódio e pela lembrança de feridas frequentemente antigas, se deixem guiar pelo espírito de perdão e reconciliação de que a Igreja dá testemunho, e se esforcem por resolver as oposições mediante um diálogo leal e aberto.”(52)

 

CONCLUSÃO

 

A concluir a reflexão feita, é oportuno salientar, uma vez mais, como em todas as formas de arrependimento pelas culpas do passado e em cada um dos gestos a ele ligados, a Igreja se dirige antes de tudo a Deus, querendo glorificá-l’O e à Sua misericórdia. Justamente desse modo ela sabe celebrar também a dignidade da pessoa humana, chamada à plenitude da vida na aliança fiel com o Deus vivo: “A glória de Deus é o homem vivo; a vida do homem é a visão de Deus.”(53) Agindo assim, a Igreja dá testemunho também da sua confiança no poder da Verdade que nos torna livres (cf. Jo 8,32). O seu “pedido de perdão não deve ser entendido como ostentação de dissimulada humildade, nem como negação da sua história bimilenária, claramente rica de méritos nas áreas da caridade, cultura e santidade. Ela responde, ao contrário, à irrenunciável exigência de verdade a qual, a par dos aspectos positivos, reconhece os limites e as fraquezas humanas das várias gerações de discípulos de Cristo”.(54) E a Verdade reconhecida é fonte de reconciliação e de paz, pois, como afirma o mesmo Papa, “o amor da verdade, procurada com humildade, é um dos grandes valores capazes de reunir os homens de hoje através das várias culturas”.(55) Também pela sua responsabilidade para com a Verdade, a Igreja “não pode transpor o limiar do novo milénio sem incitar os seus filhos à purificação, pelo arrependimento, dos erros, infidelidades, incoerências, atrasos. Reconhecer as quedas de ontem é acto de lealdade e coragem” (TMA 33). O que abre para todos um novo amanhã.


Siglas

AAS Acta Apostolicae Sedis

CIC Catecismo da Igreja Católica

CTI Comissão Teológica Internacional

DH Dignitatis humanae

GS Gaudium et spes

LG Lumen gentium

NA Nostra aetate

RP Reconciliatio et paenitentia

TMA Tertio millennio adveniente

UR Unitatis redintegratio


Notas

1. Incarnationis mysterium 11.

2. Ibid. Já em várias intervenções e, em particular, no n. 33 da carta apostólica Tertio millennio adveniente (TMA), o Papa havia indicado à Igreja o caminho a seguir para purificar a própria memória relativamente às culpas do passado e para dar o exemplo de arrependimento aos indivíduos e às sociedades civis.

3. Cf. Extravagantes communes, lib. V, tit. IX, c. 1 (A. Friedberg, Corpus iuris canonici, t. II, c. 1304).

4. Cf. CLEMENTE XIV, Carta Salutis nostrae (30 de Abril de 1774), § 2.

5. Neste sentido vai a definição de indulgência que Clemente VI dá ao instituir, em 1343, a periodicidade do jubileu de 50 em 50 anos. Clemente VI vê no jubileu eclesial “o cumprimento espiritual” do “jubileu de remissão e júbilo” do Antigo Testamento (Lv 25).

6. “Cada um de vós deve examinar em que é que caiu e examinar-se a si mesmo mais rigorosamente de quanto o será por Deus no dia da Sua cólera”, in: Deutsche Reichstagsakten, n. série, III 390-399, Gotha 1893.

7. Cf. UR 6: “A Igreja peregrinante é chamada por Cristo a esta contínua reforma de que ela própria, enquanto instituição humana e terrena, tem permanente necessidade.”

8. Cf. PAULO VI, carta apostólica Apostolorum limina (23 de Maio de 1974), in: Enchiridion Vaticanum 5, 305.

9. PAULO VI, exortação Paterna cum benevolentia (8 de Dezembro de 1974), in: Enchiridion Vaticanum 5, 526-553.

10. Cf. encíclica Ut unum sint (25 de Maio de 1995) n. 88: “Por aquilo de que somos responsáveis, imploro perdão.”

11. P. ex., o Papa “pede perdão, em nome de todos os católicos, pelos males causados aos não-católicos ao longo da história” junto dos morávios (cf. canonização de Jan Sarkander, na República Checa, em 21 de Maio de 1995). Desejou cumprir um “acto de expiação” e pedir perdão aos índios da América Latina e aos africanos deportados como escravos (Mensagem aos índios da América, S. Domingo, 13 de Outubro 1992; Discurso na audiência geral de 21 de Outubro de 1992). Dez anos antes havia já pedido perdão aos africanos pelo tráfico de negros (Discurso em Yaoundé, 13 de Agosto de 1985).

12. Este último aspecto é aflorado na TMA apenas no n. 33, quando se diz que a Igreja reconhece como seus os próprios filhos pecadores “perante Deus e perante os homens”.

13. St. AGOSTINHO, De civitate Dei I 35: CCL 47,33; XI 1: CCL 48,321; XIX 26: CCL 48,696.

14. Sobre diversos métodos de leitura da Sagrada Escritura, cf. o documento da PONTIFÍCIA COMISSÃO BÍBLICA, A interpretação da Bíblia na Igreja, trad. port. do Secretariado Geral do Episcopado, Lisboa: Rei dos Livros 1994.

15. Podem reconduzir-se a esta série, p. ex.: Dt 1,41 (a geração do deserto reconhece ter pecado, recusando avançar para entrar na terra prometida); Jz 10,10.12 (no tempo dos juízes, o povo por duas vezes disse “pecámos” contra o Senhor, referindo-se a terem servido os ídolos); 1Sm 7,6 (o povo do tempo de Samuel afirma: “Pecámos contra o Senhor!”); Nm 21,7 (este texto distingue-se porque aqui o povo da geração moisaica admite que, ao lamentar-se da alimentação, se tornou culpado de “pecado” porque falou contra o Senhor e também contra o seu guia humano, Moisés); 1Sm 12,19 (os israelitas do tempo de Samuel reconhecem que – pedindo para terem um rei – juntaram este a “todos os seus pecados”); Esd 10,13 (o povo reconhece perante Esdras ter grandemente “pecado nesta matéria” [casando com mulheres estrangeiras]); Sl 65,2-2; 90,8; 103,10 (107, 10-11.17; Is 59, 9-15; 64, 5-9; Jer 8, 14; 14,7; Lam 1,14,18a.22 (“Eu” = personificação de Jerusalém); 3, 42 (4, 13); Bar 4, 12-13 (Sião evoca as culpas dos seus filhos que levaram à sua ruína); Ez 33,10; Miq 7,9 (“Eu”).18-19.

16. P. ex.: Ex 9,27 (o faraó diz a Moisés e a Aarão: “Desta vez pequei; o Senhor é o justo, e eu e o meu povo somos os culpados”); 34,9 (Moisés diz: “Perdoa a nossa iniquidade e os nossos pecados”); Lv 16,21 (o Sumo Sacerdote confessa os pecados sobre a cabeça do “bode expiatório” no dia da expiação); Ex 32,11-13 (cf. Dt 9,26-29: Moisés); 32,31 (Moisés); 1Rs 8,33ss (cf. 2Cro 6,22ss: Salomão reza para que Deus perdoe eventuais futuros pecados do povo); 2Cro 28,13 (os chefes dos israelitas afirmam: “A nossa culpa é já grande”); Esd 10,2 (Checarias diz a Esdras: ” Pecámos contra o nosso Deus, tomando por esposas mulheres estrangeiras”); Ne 1,5-11 (Neemias confessa os pecados cometidos pelo povo de Israel, por si mesmo e pela casa de seu pai); Est 4,17 (Ester confessa: “E agora porque pecámos na Tua presença, entregaste-nos nas mãos dos nossos inimigos, por termos adorado os seus deuses”); 2Mac 7,18.32 (os mártires judeus afirmam que sofrem por causa dos “nossos pecados” contra Deus).

17. Entre os exemplos deste tipo de confissões nacionais, remete-se para 2Rs 22,13 (cf. 2Cro 34,21: Josias teme a cólera do Senhor “porque os nossos pais não observaram a palavra do Senhor nem cumpriram tudo o que está escrito neste livro”); 2Cro 29,6-7 (Ezequias afirma: “Os nossos pais foram infiéis”); Sl 78, 8ss (um “Eu” assume os pecados das gerações passadas, a partir do Êxodo). Cf. o ditado popular citado em Jer 31,29 e Ez 18,2: “Os pais comeram uvas verdes, e os dentes dos filhos é que ficaram embotados.”).

18. É o caso de textos como os seguintes: Lv 26,40 (os exilados são chamados a “confessar a sua iniquidade e a iniquidade de seus pais”); Esd 9,5b-15 (oração penitencial de Esdras, v. 7: “Desde o tempo de nossos pais até ao dia de hoje, temos sido gravemente culpados”; cf. Ne 9,6-37); Tb 3,1-5 (na sua oração, Tobite invoca: “Não me castigues por causa dos meus pecados e dos meus erros, nem pelos dos meus pais” [v. 3], e prossegue com a constatação: “não observámos os teus mandamentos” [v. 5]); Sl 79,8-9 (esta lamentação colectiva implora a Deus “não recordes contra nós as faltas dos nossos antepassados [?] salva-nos e perdoa os nossos pecados”); Sl 106,6 (“pecámos como os nossos pais”); Jer 3,25 (“? pecámos contra o Senhor nosso Deus [?] nós e nossos pais”); Jer 14,19-22 (“conhecemos a nossa culpa e a iniquidade de nossos pais”, v. 20); Lam 5 (“Pecaram os nossos pais, mas já morreram”, v. 7; “desgraçados de nós porque pecámos”, v. 16b); Bar 1,15-3,18 (“ofendemos o Senhor” [1,17; cf. 1,19.21; 2,5.24]; “não recordar a iniquidade dos nossos pais” [3,5; cf. 2,33; 3,4.7]; Dn 3,26-45 (a oração de Azarias: “é por efeito dum juízo equitativo que nos infligiste tudo isto, por causa dos nossos pecados”, v. 28); Dn 9,4-19 (“pois é por causa dos nossos crimes e dos pecados de nossos pais que Jerusalém [?] está exposta aos insultos [?]”, v. 16).

19. Incluem falta de confiança em Deus (assim, p. ex., Dt 1,41; Nm 14,10), idolatria (Jz 10,10-15), pedido para se ter um rei humano (1Sm 12,9), casamentos com mulheres estrangeiras, em oposição à lei divina (Esd 9-10). Em Is 59,13b, o povo diz: “Não temos falado senão de opressão e revolta, urdimos dentro de nós palavras mentirosas.”

20. Cf. o caso análogo do repúdio das mulheres estrangeiras por parte dos judeus, narrado em Esd 9-10, com todas as consequências negativas que teve sobre as mulheres implicadas. A questão de um pedido de perdão dirigido a elas (e/ou aos seus descendentes) não se coloca propriamente, dado que o repúdio é apresentado como uma exigência da lei divina (cf. Dt 7,3) em todos estes capítulos.

21. Recorde-se, a este propósito, o caso das relações sempre tensas entre Israel e Edom. Este povo – apesar da sua condição de “irmão” de Israel – participou na queda de Jerusalém levada a cabo pelos babilónios e regozijou-se com ela (cf. p. ex., Abd 10-14). Israel, ultrajado por esta traição, não sentiu qualquer necessidade de pedir perdão pelo morticínio de prisioneiros edomitas indefesos, perpetrado pelo rei Amacias, segundo 2Cro 25,12.

22. JOÃO PAULO II, Discorso del 1 Settembre 1999, in: L’Osservatore Romano (2 Settembre 1999) 4.

23. Pense-se no motivo – presente em autores cristãos de diferentes épocas – de censura à Igreja pelas suas culpas, de que é exemplo entre os mais representativos o Liber asceticus de Máximo Confessor: PL 90, 912-956.

24. PAULO VI, Credo del popolo di Dio (30 Giugno 1968), n. 19, in: Enchiridion Vaticanum 3, 264s.

25. St. AGOSTINHO, Sermo 181,5,7: PL 38, 982.

26. S. TOMÁS DE AQUINO, Summa Theologica III q.8 a.3 ad 2.

27. St. AMBRÓSIO, De virginitate 8,48: PL 16, 278D: “Caveamus igitur, ne lapsus noster vulnus Ecclesiae fiat.” Da “ferida” infligida à Igreja pelo pecado dos seus filhos, fala também LG 11.

28. K. DELAHAYE, La comunità, madre dei credenti, Cassano M. (Bari) 1974, 110. Cf., também, H. RAHNER, Mater Ecclesia. Inni di lode alla Chiesa tratti dal primo millennio della letteratura cristiana, Milano 1972.

29. St. AGOSTINHO, Sermo 25,8: PL 46, 938: “Mater ista sancta, honorata, Mariae similis, et parit et Virgo est. Ex illa nati estis et Christum parit: nam membra Christi estis.”

30. S. CIPRIANO, De Ecclesiae catholicae unitate 6: CCL 3, 253: “Habere iam non potest Deum patrem qui ecclesiam non habet matrem.” O mesmo S. Cipriano afirmava noutro texto: “Ut habere quis possit Deum patrem, habeat ante ecclesiam matrem” (Epist. 74,7: CCL 3C, 572). E St. Agostinho: “Tenete ergo, carissimi, tenete omnes unanimiter Deum patrem, et matrem Ecclesiam” (In Ps 88, Sermo 2,14: CCL 39, 1244).

31. PAOLINO DI NOLA, Carmen 25, 171-172: CSEL 30, 243: “Inde manet mater aeterni semine verbi / concipiens populos et pariter pariens.”

32. St. INÁCIO DE ANTIOQUIA, Ad Romanos, Proem.: SCh 10,124 (Th. Camelot, Paris 21958).

33. Discurso aos participantes no Simpósio Internacional do estudo sobre a Inquisição, promovido pela Comissão Teológico-Histórica do Comité Central do Jubileu, n. 4, 31 de Outubro de 1998.

34. Para o que segue cf. H.-G. GADAMER, Verdade e Método, Petrópolis 1998.

35. B. LONERGAN, Il metodo in teologia, Brescia 1975, 173.

36. JOÃO PAULO II, Discorso del 1 Settembre 1999, in: L’Osservatore Romano (2 Settembre 1999) 4.

37. A TMA 34 afirma que “mais ainda do que no primeiro milénio, a comunhão eclesial conheceu dolorosas lacerações”.

38. Cf. Discorso di apertura dalla Seconda Sessione del Concilio, del 29 Settembre 1964, in: Enchiridion Vaticanum 1 [106], n. 176.

39. Cf. a documentação do diálogo da caridade entre a Santa Sé e o Patriarcado ecuménico de Constantinopla, in: Tómos Agápes: Vatican – Phanar (1958-1970), Roma-Istambul 1971.

40. JOÃO PAULO II, Discorso del 1 Settembre 1999, in: L’Osservatore Romano (2 Settembre 1999) 4.

41. O argumento é tratado de modo rigoroso na declaração Nostra aetate, do Vaticano II.

42. Cf. JOÃO PAULO II, Discorso alla Sinagoga di Roma, 13 Aprile 1986, 4 in: AAS 78 (1986) 1120.

43. Este é o juízo do recente documento da Comissão para as relações religiosas com o judaísmo, Noi ricordiamo: una riflessione sulla Shoah, Roma (16 Marzo 1998) 3.

44. Ibid. 7.

45. Ibid. 5.

46. Ibid. 6.

47. Ibid. 5.

48 Basta pensar no sinal do martírio: cf. TMA 37.

49. É o mesmo texto que afirma que “a Igreja peregrinante é chamada por Cristo a esta contínua reforma (ad hanc perennem reformationem) de que ela mesma, enquanto instituição humana e terrena, tem sempre necessidade”.

50. Cf. UR 6: “Toda a renovação da Igreja consiste essencialmente numa maior fidelidade à própria vocação.”

51. A fórmula – particularmente forte – é de St. AGOSTINHO, De Trinitate I 13,28: CCL 50,69,13; Epist. 169,2: CSEL 44,617; Sermo 341A, 1: Misc. Agost. 314,22.

52. Discurso aos participantes no Simpósio Internacional do estudo sobre a Inquisição, promovido pela Comissão Teológico-Histórica do Comité Central do Jubileu, n. 5, 31 de Outubro de 1998.

53. “Gloria Dei vivens homo: vita autem hominis visio Dei”, St. IRENEU DE LYON, Adversus haereses IV 20, 7: SCh 100, t. II, 648.

54. JOÃO PAULO II, Discorso del 1 Settembre 1999, in: L’Osservatore Romano (2 Settembre 1999) 4.

55. Discorso al Centro Europeo per la ricerca nucleare, Ginevra (15 Giugno 1982), in: Insegnamenti di Giovanni Paolo II, V 2 Vaticano 1982, 2321.

Facebook Comments

Livros recomendados

O Homem Eterno100 Mensagens para a AlmaA Fé da Igreja – Em que Deve Crer o Cristão de Hoje

About the author

Veritatis Splendor

Leave a Comment

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.