“Menti nostrae” (Pio XII: 23.09.1950)

Exortação Apostólica
MENTI NOSTRAE
sobre a santidade da vida sacerdotal.

A todo o clero da orbe católica, em paz e comunhão com a Sé Apostólica

INTRODUÇÃO

Vozes que não se perdem

1. Em nosso espírito repercute sempre a palavra do divino Redentor, dirigida a Pedro: “Simão, filho de João, amas-me mais do que estes?… Apascenta os meus cordeiros, apascenta as minhas ovelhas” (Jo 21,15.17), e a do mesmo príncipe dos apóstolos, que exorta os bispos e sacerdotes do seu tempo: “Guiai o rebanho de Deus, que está entre vós, tende cuidado dele, tornando-vos sinceramente exemplares do rebanho” (1Pd 5,2.3).

A principal necessidade do nosso tempo

2. Meditando atentamente essas palavras, consideramos como ofício precípuo do nosso supremo ministério o esforçarmo-nos por que se torne cada vez mais eficaz o trabalho dos sagrados pastores e dos sacerdotes, que devem guiar o povo cristão para que evite o mal, vença os perigos e alcance a santidade. É essa, realmente, a principal necessidade do nosso tempo, em que os povos, em conseqüência da recente e tremenda guerra, não somente se vêem assoberbados por graves dificuldades materiais, mas estão também espiritualmente perturbados, enquanto os inimigos do nome cristão, que as condições em que se encontra a sociedade tornaram mais insolentes, com ódio satânico e insídias sutis se esforçam por afastar os homens de Deus e do seu Cristo.

Paternal solicitude pelos sacerdotes

3. A necessidade de uma restauração cristã, que todos os bons reclamam, impele-nos a voltar o nosso pensamento e o nosso afeto de modo especial para os sacerdotes de todo o mundo, porque sabemos que é sobretudo a humilde, vigilante e fervorosa ação destes, que vivem no meio do povo e conhecem suas dificuldades, aflições e angústias espirituais e materiais, que pode renovar, com os preceitos evangélicos, os costumes de todos e estabelecer na terra o reino de Jesus Cristo, “reino de justiça, de amor e de paz”.(1)

4. De modo algum, porém, será possível que o ministério sacerdotal consiga plenamente seu fim, de forma a corresponder adequadamente às necessidades do nosso tempo, se os sacerdotes não brilham no meio do povo por insigne santidade, como dignos “ministros de Cristo”, e fiéis “dispenseiros dos mistérios de Deus” (1Cor 4,1), eficazes “auxiliares de Deus” (1Cor 3,9), preparados para toda boa obra (2Tm 3,17).

Manifestação de reconhecimento

5. Julgamos, por isso, que de nenhum modo podemos melhor manifestar o nosso reconhecimento aos sacerdotes do mundo inteiro, os quais nos deram testemunho do seu amor elevando preces a Deus por motivo do qüinquagésimo aniversário do nosso sacerdócio, do que endereçando a todo o clero uma paternal exortação à santidade, sem a qual o ministério a ele confiado não poderá ser fecundo. O ano santo, que anunciamos com a esperança de um geral saneamento dos costumes segundo os ensinamentos do evangelho, desejamos que traga, como primeiro fruto, que aqueles que são os guias do povo cristão cuidem com o maior empenho da própria santificação, porque assim estará assegurada a renovação dos povos no espírito de Jesus Cristo.

6. Deve-se, no entanto, recordar que, se as crescentes necessidades da sociedade cristã exigem hoje com mais premência a perfeição interna dos sacerdotes, estes, pela mesma natureza íntima do altíssimo ministério que Deus lhes confiou, já estão obrigados a procurar, sempre e em toda parte, indefessamente, a própria santificação.

O grande dom do sacerdócio

7. Como têm ensinado os nossos predecessores, e particularmente Pio X (2) e Pio XI, (3) e como nós mesmos advertimos na Carta Encíclica Mystici Corporis (4) e na Mediator Dei, (5) o sacerdócio é verdadeiramente o grande dom do divino Redentor, o qual, para tornar perene a obra da redenção do gênero humano por ele consumada sobre a cruz, transmitiu os seus poderes à Igreja, que tornou partícipe do seu único e eterno sacerdócio. O sacerdote é um “alter Christus”, porque é assinalado com o caráter indelével que o torna semelhante ao Salvador; o sacerdote representa Cristo, o qual disse: “Como o Pai me enviou, assim eu também vos envio a vós” (Jo 20,21); “quem vos ouve, ouve a mim” (Lc 10,16). Iniciado, por vocação divina, neste divino ministério, “é constituído a favor dos homens nas coisas que tocam a Deus, para que ofereça dons e sacrifícios pelos pecados” (Hb 5,1). A ele, portanto, é mister recorra quem queira viver a vida de Cristo e deseje receber força, conforto e alimento para a alma; a ele pedirá o remédio necessário quem deseje ressurgir do pecado e enveredar pelo caminho certo. Por este motivo todos os sacerdotes podem a si mesmos aplicar as palavras do Apóstolo: “Somos auxiliares de Deus” (1Cor 3,9).

Necessidade da correspondência

8. Mas tão excelsa dignidade exige dos sacerdotes que correspondam com a máxima fidelidade ao seu altíssimo ofício. Destinados a promover a glória de Deus na terra, a alimentar e engrandecer o corpo místico de Cristo, é absolutamente necessário que se elevem tanto pela santidade dos costumes, que por meio deles por toda parte se difunda o “bom odor de Cristo” (2Cor 2,15).

O dever fundamental

9. No mesmo dia em que vós, filhos diletos, fostes exaltados à dignidade sacerdotal, o bispo, em nome de Deus, vos indicou solenemente qual seria o vosso dever fundamental: “Compenetrai-vos do que fazeis, imitai o que tratais, de modo que, ao celebrardes o mistério da morte do Senhor, cuideis de mortificar a vossa carne com todos os seus vícios e concupiscências. Seja a vossa doutrina uma medicina espiritual para o povo de Deus, seja o exemplo da vossa vida como um odor de consolação para a Igreja de Cristo, para que pela vossa pregação e conduta edifiqueis a casa, isto é, a Igreja de Deus”.(6) Totalmente imune do pecado, a vossa vida, mais que a dos simples fiéis, seja “escondida com Cristo em Deus” (Cl 3,3). Adornados asssim da exímia virtude que a vossa dignidade exige, podereis cuidar do oficio a que vos destinou a sagrada ordenação, que é o de continuar e completar a obra da redenção.

10. É este o programa que vós livre e espontaneamente assumistes; sede santos, porque é santo o vosso ministério.

I. A SANTIDADE DA VIDA

A perfeição consiste no fervor da caridade

11. Consoante o ensino do divino Mestre, a perfeição da vida cristã consiste no amor de Deus e do próximo (cf. Mt 22,37.38.39), amor, porém, que seja verdadeiramente fervoroso, zeloso e ativo. Se ele tem essas qualidades, de certo modo abrange todas as virtudes (cf.1Cor 13,4ss.), e com razão pode ser chamado “vínculo da perfeição” (Cl 3,14). Seja qual for o estado em que se encontre o homem, para esse fim deve dirigir as suas intenções e as suas ações.

O sacerdote é chamado à perfeição

12. A esse dever está de modo particular obrigado o sacerdote. Toda a sua ação sacerdotal, por sua própria natureza – pois exatamente para esse fim foi o sacerdote chamado por divina vocação, destinado a um ofício divino e assinalado por um carisma divino – tende realmente para isso; ele deve, de fato, emprestar a sua cooperação a Cristo, único e eterno sacerdote; é, portanto, necessário que siga e imite aquele que, durante sua vida terrena, não teve outro escopo senão demonstrar o seu ardentíssimo amor ao Pai e anunciar aos homens os infinitos tesouros do seu Coração.

1. Imitação de Cristo

União íntima com Jesus

13. O primeiro impulso que deve mover o espírito sacerdotal há de ser o de unir-se estreitamente ao divino Redentor, para aceitar docilmente e em toda a sua integridade os divinos ensinamentos, e de aplicá-los diligentemente em todos os momentos de sua existência, de forma que a fé seja constantemente a luz de sua conduta e sua conduta seja o reflexo de sua fé.

Conservar os olhos fixos nele

14. Seguindo a luz dessa virtude, ele terá seu olhar fixado em Cristo e seguirá seus ensinamentos e exemplos, intimamente persuadido de que para si não é suficiente limitar-se a cumprir os deveres a que estão obrigados os simples féis, mas de que deve tender com força cada vez maior àquela santidade que a dignidade sacerdotal exige, segundo a advertência da Igreja: “Os clérigos devem levar vida mais santa que os leigos e servir para estes de exemplo na virtude e no modo reto de agir”.(7)

Vida cristocêntrica

15. Porque deriva de Cristo, deve por isso a vida sacerdotal dirigir-se toda e sempre para ele. Cristo é o Verbo de Deus, que não desdenhou assumir a natureza humana; que viveu a sua vida terrena para cumprir a vontade do Pai Eterno; que em torno de si difundiu o perfume do lírio; que viveu na pobreza e “passou fazendo o bem e curando a todos” (At 10,38); que, enfim, se imolou como hóstia pela salvação de seus irmãos. Eis, diletos filhos, a síntese daquela admirável vida; esforçai-vos por reproduzi-la em vós, recordando a exortação: “Dei-vos o exemplo, para que, como eu vos fiz, assim façais também vós” (Jo 13,15).

Prática da humildade

16. O início da perfeição cristã está na humildade: “Aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração” (Mt 11,29). Observando a altura a que fomos elevados pelo batismo e a ordenação sacerdotal, a consciência da nossa miséria espiritual nos deve induzir a meditar na divina sentença de Jesus Cristo: “Sem mim nada podeis fazer” (Jo 15,5).

Descon fiança em si mesmo

17. Não confie o sacerdote em suas próprias forças, nem se deslumbre com seus próprios dotes, não procure a estima e os louvores dos homens, não aspire a cargos elevados, mas imite a Cristo, o qual não veio “para ser servido, mas para servir” (Mt 20,28); e renuncie a si mesmo, consoante o ensinamento do evangelho (Mt 16,24), apartando o espírito das coisas terrenas para seguir mais livremente o Mestre divino. Tudo aquilo que tem e tudo quanto é procede da bondade e do poder de Deus: se pretende, portanto, gloriar-se, recorde-se das palavras doApóstolo: “Quanto a mim, em nada me gloriarei, senão nas minhas fraquezas” (2Cor 12,5).

Imolação da vontade

18. O espírito de humildade, iluminado pela fé, dispõe a alma à imolação da vontade por meio da obediência. O próprio Cristo, na sociedade por ele fundada, estabeleceu uma autoridade legítima, que é uma continuação da sua. Quem, portanto, obedece aos superiores, obedece ao próprio Redentor.

Necessidade da obediência

19. Numa época como a nossa, em que o princípio de autoridade está gravemente abalado, é absolutamente necessário que o sacerdote, firme nos princípios da fé, considere e aceite a autoridade não só como baluarte da ordem social e religiosa, mas também como fundamento de sua própria santificação pessoal. Enquanto, com criminosa astúcia, os inimigos de Deus se esforçam por provocar e excitar a imoderada cobiça de alguns, para induzi-los a erguer-se contra a santa madre Igreja, Nós desejamos render os devidos louvores e confirmar com paternal carinho a enorme multidão de ministros de Deus, que, para mostrar abertamente sua obediência cristã e conservar intacta a própria fidelidade a Jesus e à legitima autoridade por ele estabelecida, “foram achados dignos de sofrer afrontas pelo nome de Jesus” (At 5,41) e não somente afrontas, mas perseguições, prisão e morte.

A renúncia do celibato

20. O sacerdote tem como campo de sua própria atividade tudo o que se refere à vida sobrenatural, e é o órgão de comunicação e de incremento da mesma vida no corpo místico de Cristo. É necessário, por isso, que ele renuncie a “tudo quanto é do mundo”, para cuidar somente daquilo “que é de Deus” (lCor 7, 32.33). E é exatamente porque deve estar livre das preocupações do mundo, para se dedicar todo ao serviço divino, que a Igreja estabeleceu a lei do celibato, a fim de que ficasse sempre manifesto a todos que o sacerdote é ministro de Deus e pai das almas. Com a lei do celibato, o sacerdote, ao invés de perder o dom e o encargo da paternidade, aumenta-o ao infinito, pois se não gera filhos para esta vida terrena e caduca, gera-os para a celeste e eterna.

21. Quanto mais refulge a castidade sacerdotal, tanto mais unido se torna o sacerdote com Cristo, “hóstia pura, hóstia santa, hóstia imaculada”.(8)

22. Para guardar integérrima, como inestimável tesouro, a pureza sacerdotal, é necessário ater-se fielmente àquela exortação do príncipe dos apóstolos, que diariamente repetimos no ofício divino: “Sede sóbrios e vigiai” (1Pd 5,8).

Vigilância e oração, sentinelas da castidade

23. Sim, diletos filhos, vigiai, porque a castidade sacerdotal está exposta a muitos perigos, seja pela dissolução dos costumes públicos, seja pelas atrações do vício, tão freqüentes e insidiosas, seja, afinal, pela excessiva liberdade que cada vez mais se introduz nas relações entre os dois sexos e também tenta penetrar no exercício do sagrado ministério. “Vigiai e orai” (Mc 14,38), sempre lembrados de que vossas mãos tocam as coisas mais santas e estais consagrados a Deus e a ele só deveis servir. O próprio hábito que vestis vos adverte de que não deveis viver para o mundo, mas para Deus. Esforçai-vos, pois, com ardor e alegria, confiando na proteção da Virgem Mãe de Deus, para conservar-vos sempre “alvos, limpos, puros, castos, como convém a ministros de Cristo e dispenseiros dos mistérios de Deus”.(9)

Evitar familiaridades

24. A esse propósito vos endereçamos uma particular exortação, a fim de que, dirigindo associações e sodalícios femininos, vos mostreis como convém a sacerdotes; evitai toda familiaridade; quando se fizer mister prestar a vossa assistência, prestai-a como ministros sagrados. Na direção, portanto, dessas associações, vossa tarefa se limite ao estritamente prescrito ao vosso sagrado ministério.

Desprendimento dos bens terrenos

25. Ao desprendimento da vossa vontade e de vós mesmos com a generosa obediência aos superiores e a renúncia aos prazeres carnais pela castidade, deveis unir o desprendimento cotidiano do espírito, das riquezas e das coisas terrenas. Exortamo-vos ardentemente, filhos diletos, a não vos prenderdes com afeto às coisas desta terra, transitórias e perecíveis. Tomai como exemplo os grandes santos dos passados e dos nossos tempos, os quais, unindo o necessário desprendimento dos bens materiais a uma grandíssima confiança na Providência e a um ardentíssimo zelo sacerdotal, realizaram maravilhosas obras, confiando unicamente em Deus, o qual nunca deixa faltar o necessário. Também o sacerdote, que não faz com voto particular a profissão da pobreza, deve ser sempre guiado pelo espírito e pelo amor desta virtude, amor que deve demonstrar pela simplicidade e modéstia do teor de vida, da habitação e pela generosidade para com os pobres; de modo particularíssimo, portanto, repudie o imiscuir-se em empresas econômicas, que lhe impedirão de cumprir os seus deveres pastorais e diminuirão a confiança que nele depositam os fiéis. O sacerdote, porque deve com o máximo de empenho procurar a salvação das almas, deve poder aplicar sempre a si mesmo o dito de s. Paulo: “Não busco os vossos bens, mas, sim, a vós” (2Cor 12,14).

Ser modelos de todas as virtudes

26. Teríamos ainda muito por dizer sobre todas as virtudes com as quais o sacerdote deve reproduzir em si mesmo, do melhor modo possível, o exemplar divino que é Jesus Cristo. Preferimos, contudo, despertar a vossa atenção sobre o que nos parece mais necessário aos nossos tempos. Recordamo-vos, entre outras, as palavras do áureo livro da “Imitação de Cristo”: “O sacerdote deve ser adornado de todas as virtudes, e dar aos outros exemplo de vida reta; a sua conversação não seja segundo os vulgares e comuns meios dos homens, mas com os anjos no céu ou os homens perfeitos na terra”.(10)

2. Necessidade da graça para a santificação

Verdades consoladoras

27. Ninguém ignora, diletos filhos, que não é possível a qualquer cristão, e em especial aos sacerdotes, imitar os admiráveis exemplos do divino Mestre, sem o auxílio da graça e sem o uso daqueles instrumentos da graça que ele mesmo pôs à nossa disposição: uso tanto mais necessário quanto mais elevado o grau de perfeição que devemos alcançar e quanto mais graves as dificuldades que procedem da nossa natureza inclinada ao mal. Por esse motivo, julgamos oportuno passar à consideração de outras verdades tanto mais sublimes e consoladoras, das quais ainda mais claramente ressalta quão sublime deve ser a santidade sacerdotal e quão eficazes são os auxílios que nos dá o Senhor, para que possamos realizar em nossos desígnios da divina misericórdia.

Vida de sacrifício

28. Assim como toda a vida do Salvador foi ordenada para o sacrifício de si mesmo, também a vida do sacerdote, que deve reproduzir em si a imagem de Cristo, deve ser com ele, por ele, e nele um sacrifício aceitável.

A exemplo de Jesus sobre o Calvário

29. Em verdade, a oferta que o Senhor fez de si mesmo sobre o Calvário não foi somente a imolação do seu Corpo; ele ofereceu-se a si mesmo, hóstia de expiação, como cabeça da humanidade, e por isso “enquanto encomenda nas mãos do Pai o seu espírito, encomenda a si mesmo a Deus como homem, para encomendar a Deus todos os homens”.(11)

Na santa missa

30. A mesma coisa sucede no sacrifício eucarístico, que é a renovação incruenta do sacrifício da cruz: Cristo oferece-se ao Pai pela sua glória e pela nossa salvação. E enquanto ele, sacerdote e vítima, procede como cabeça da Igreja, oferece e imola não somente a si mesmo, mas a todos os fiéis, e de certo modo todos os homens.(12)

Os tesouros do sacrifício eucarístico

31. Ora, se isso vale para todos os féis, por maior título vale para os sacerdotes, que são ministros de Cristo, principalmente para a celebração do sacrifício eucarístico. E precisamente no sacrifício eucarístico, quando “na pessoa de Cristo” consagra o pão e o vinho que se tornam corpo e sangue de Cristo, o sacerdote pode tirar da mesma fonte da vida sobrenatural os inexauríveis tesouros da salvação e todos os auxílios que lhe são necessários pessoalmente e à realização da sua missão.

Viver a santa missa

32. Enquanto está tão estreitamente em contato com os divinos mistérios, o sacerdote não pode deixar de sentir fome e sede de justiça (cf. Mt 5,6), ou deixar de sentir estímulo para adaptar a sua vida à sua excelsa dignidade e orientá-la para o sacrifício, devendo imolar-se a si mesmo com Cristo. Ele, portanto, não somente celebrará a santa missa, mas a viverá intimamente; somente assim poderá alcançar aquela força sobrenatural que o transformará e o tornará partícipe da vida de sacrifício do Redentor.

Transformação em vítimas com Jesus

33. S. Paulo estabelece o seguinte preceito como princípio fundamental da perfeição cristã: “Revesti-vos do Senhor Jesus Cristo” (Rm 13,14). Esse preceito, se vale para todos os cristãos, vale de modo particular para os sacerdotes. Mas revestir-se de Cristo não é somente inspirar os próprios pensamentos na sua doutrina, mas também entrar em uma nova vida, a qual, para brilhar com os esplendores do Tabor, deve conformar-se com os sofrimentos de nosso Salvador no Calvário. Isso comporta em longo e árduo trabalho, que transforme a alma no estado de vítima, para que participe intimamente do sacrifício de Cristo. Esse árduo e assíduo trabalho não se realiza com vãs veleidades, nem se consuma com desejos e promessas, mas deve ser um exercício indefesso e contínuo que leve ao renovamento do espírito; deve ser exercício de piedade, que tudo refira à glória de Deus; deve ser exercício de penitência, que refreie e governe os movimentos do espírito; deve ser ato de caridade, que inflame o ânimo de amor a Deus e ao próximo e estimule a praticar obras de misericórdia; deve, enfim, ser vontade operosa de luta e de fadiga para fazer todo o bem.

Admoestação de s. Pedro Crisólogo

34. O sacerdote deve, portanto, esforçar-se por reproduzir na sua alma tudo quanto se produz sobre o altar. Como Jesus se imola a si mesmo, assim o seu ministro deve imolar-se com ele; como Jesus expia os pecados dos homens, assim ele, seguindo o árduo caminho da ascética cristã, deve alcançar a própria e a alheia purificação. Assim admoesta s. Pedro Crisólogo: “Sê sacrifício e sacerdote de Deus; não percas aquilo que te deu a divina autoridade. Reveste-te da estola da santidade; cinge-te com o cinto da castidade; seja Cristo o véu que te cubra a cabeça; a cruz esteja como baluarte sobre a tua fronte; coloca em teu peito o sacramento da divina ciência; queima sempre o incenso da oração; cinge a espada do Espírito; faz do teu coração como que um altar e assim seguro oferece teu corpo como vítima a Deus. Oferece a fé, de modo que seja punida a perfídia; imola o jejum, a fim de que cesse a voracidade; oferece em sacrifício a castidade, para que morra a sensualidade; coloca sobre o altar a piedade, para que seja deposta a impiedade; atrai a misericórdia, para que seja destruída a avareza; e para que desapareça a insensatez, convém imolar sempre a santidade: assim teu corpo será a tua hóstia, se não for ferido por alguma seta do pecado”.(13)

A morte mística em Cristo

35. Desejamos repetir aqui de modo particular aos sacerdotes quanto já propusemos à meditação de todos os fiéis na Encíclica Mediator Dei: “É bem verdade que Jesus é sacerdote; não o é, porém, para si, mas para nós, apresentando ao eterno Pai os votos e sentimentos religiosos de toda a humanidade; assim mesmo, é vítima, mas para nós, substituindo-se ao homem pecador; ora, o dito do Apóstolo: ‘Tende em vós mesmos os sentimentos de Jesus Cristo’ (Fl 2,5) exige de todo cristão que reproduza em si, quanto está nas possibilidades humanas, o mesmo estado de alma que tinha o divino Redentor quando realizava o sacrifício de si mesmo: a humilde submissão do espírito e a adoração, honra, louvor e ação de graças à suprema Majestade de Deus; mais: que reproduza em si mesmo a condição de vítima, a abnegação segundo os preceitos do evangelho, o voluntário e espontâneo exercício da penitência, a dor e expiação dos próprios pecados; numa palavra, que todos espiritualmente morramos com Cristo na cruz, de modo a poder dizer com s. Paulo: ‘Estou pregado na cruz com Cristo'” (Gl 2,19). (14)

Aproveitar as riquezas do sangue de Jesus

36. Sacerdotes e filhos diletos, temos em nossas mãos um grande tesouro, uma preciosíssima pérola: as inexauríveis riquezas do sangue de Jesus Cristo; utilizemo-nos copiosamente delas, para sermos, com o total sacrifício de nós mesmos oferecidos ao Pai com Jesus Cristo, os verdadeiros mediadores de justiça “nas coisas que tocam a Deus” (Hb 5,1), e para merecermos que as nossas orações sejam aceitas e alcancem superabundantes graças para toda a Igreja e todas as almas. Só depois que nos tornarmos uma só coisa com Cristo, mediante a sua e a nossa oblação, e houvermos elevado a nossa voz com os coros dos habitantes da celeste Jerusalém, “illi canentes iungimur almae Sionis aemuli”,(15) e só então, fortalecidos pela virtude do Salvador, poderemos com segurança descer da montanha da santidade que houvermos galgado, para levar a todos os homens a vida e a luz de Deus pelo ministério sacerdotal.

3. Necessidade da oração e da piedade

A obrigação do Ofício divino

37. A perfeita santidade exige ainda uma contínua comunicação com Deus; e a fim de que este íntimo contacto que a alma sacerdotal deve estabelecer com Deus não seja interrompido na sucessão dos dias e das horas, a Igreja impôs aos sacerdotes a obrigação de recitar o Ofício divino. Desse modo acolheu ela fielmente o preceito do Senhor: “É mister orar sempre e nunca deixar de fazê-lo” (Lc 18,1). Assim como a Igreja jamais cessa de orar, deseja ardentemente que o mesmo façam seus filhos, repetindo a palavra do Apóstolo: “Por ele (Jesus), pois, ofereçamos a Deus sem cessar sacrifícios de louvor, isto é, o fruto dos lábios que confessam o seu nome” (Hb 13,15). Aos sacerdotes incumbiu a Igreja do dever particular de consagrar a Deus, orando também em nome do povo, todo o tempo e todas as circunstâncias.

A voz de Cristo e da Igreja

38. Conformando-se a essa disposição, o sacerdote continua através dos séculos a praticar o mesmo que fez Cristo, o qual “nos dias da sua carne, oferecendo, com grande brado e lágrimas, preces e rogos… foi atendido pela sua reverência” (Hb 5,7). Essa oração tem uma eficácia singular, porque é feita em nome de Cristo, isto é, “por nosso Senhor Jesus Cristo”, que é, o nosso mediador junto do Pai, a quem incessantemente apresenta a sua satisfação, os seus méritos e o supremo preço do seu sangue. Essa é verdadeiramente a “voz de Cristo”, o qual “ora por nós como nosso sacerdote, ora em nós como nossa cabeça”.(16) É igualmente sempre a “voz da Igreja”, que abrange os votos e desejos de todos os fiéis, os quais, associados à voz e à fé do sacerdote, louvam Jesus Cristo e por meio dele rendem graças ao Eterno Pai e lhe impetram os auxílios necessários nas vicissitudes de cada dia e cada hora. Por meio do sacerdote repete-se desse modo aquilo que fez Moisés sobre o monte Sinai, quando, de braços elevados ao céu, falava com Deus e obtinha misericórdia a favor do seu povo, que lutava no vale subjacente.

Eficiente meio de santificação

39. O Ofício divino é também o meio mais eficaz de santificação. Por isso não é somente uma recitação de fórmulas, nem de cânticos entoados com arte; não se trata somente do respeito a certas normas, determinadas rubricas ou de cerimônias externas de culto; mas trata-se, sobretudo, da elevação do nosso espírito e da nossa alma a Deus, para que se unam à harmonia dos espíritos bem-aventurados; (17) elevação que supõe aquelas disposições interiores lembradas no princípio do Ofício divino: “digna, atenta e devotamente”.

Ter as mesmas disposições de Jesus

40. É por isso necessário que o sacerdote ore com as mesmas intenções do Redentor. É, portanto, quase que a própria voz do Senhor, que, por intermédio do seu sacerdote, continua a implorar da clemência do Pai os benefícios da redenção; é a voz do Senhor, à qual se associam as legiões dos anjos e dos santos no céu e de todos os fiéis sobre a terra, para devidamente glorificar a Deus; é a própria voz de Cristo nosso advogado, por meio da qual nos são alcançados os imensos tesouros dos seus méritos.

A meditação cuidadosa do breviário

41. Meditai atentamente, portanto, aquelas verdades fecundas que o Espírito Santo generosamente nos deu na Sagrada Escritura e que os escritos dos Padres e doutores comentam. Enquanto os vossos lábios repetem as palavras ditadas pelo Espírito Santo, esforçai-vos por nada perder de tanto tesouro, e para que em vossa alma encontre viva ressonância a voz de Deus, afastai cuidadosamente tudo quanto vos possa distrair e concentrai os vossos pensamentos, a fim de vos dedicardes mais facilmente e com maior fruto à contemplação das verdades eternas.

Acompanhar o ciclo litúrgico

42. Em nossa encíclica Mediator Dei, explicamos difusamente com que fim o ciclo litúrgico evoca e representa em ordem progressiva, durante o ano, os mistérios de nosso Senhor Jesus Cristo e celebra as festas da bem-aventurada Virgem e dos santos. Esses ensinamentos, que a todos ministramos, porque são para todos utilíssimos, devem ser meditados especialmente por vós, sacerdotes, que, com o sacrifício eucarístico e com o Ofício divino, tendes uma tão importante parte no desenvolvimento do ciclo litúrgico.

43. A fim de que progridam com crescente celeridade nas vias da santidade, recomenda vivamente a Igreja aos sacerdotes, além da celebração do sacrifício eucarístico e da recitação do Oficio divino, também outros exercícios de piedade. A respeito destes é de utilidade propor à vossa consideração algumas observações.

A contemplação das coisas celestes…

44. Antes de tudo exorta-nos a Igreja à meditação, que eleva a alma à contemplação das coisas celestes, guia-a para Deus e a faz viver numa atmosfera sobrenatural de pensamentos e afetos que constituem a melhor preparação e a mais frutuosa ação de graças à santa missa. A meditação, além disso, dispõe a alma a saborear e compreender as belezas da liturgia e fá-la contemplar as verdades eternas e os admiráveis exemplos e ensinamentos do evangelho.

…e dos mistérios da vida de Jesus

45. Ora, a isso deve estar continuamente atento o sacerdote, para reproduzir em si mesmo as virtudes do Redentor. Como, porém, o alimento material não alimenta a vida, não a sustenta, não a faz crescer, se não é convenientemente assimilado, assim o sacerdote não pode adquirir o domínio sobre si mesmo e os seus sentidos, nem purificar seu espírito, nem tender – como deve – à virtude, nem, afinal, cumprir com alegre fidelidade e frutuosamente os deveres do seu sagrado ministério, se não tiver aprofundado, pela meditação assídua e incessante, os mistérios do divino Redentor, supremo modelo da vida sacerdotal e inexaurível fonte de santidade.

Graves danos para quem dela se descuida

46. Julgamos, portanto, ser grave obrigação nossa exortar-vos à prática da meditação cotidiana, prática também recomendada ao clero pelo Código de direito canônico.(18) Porque como o estímulo à perfeição sacerdotal é alimentado e fortificado pela meditação cotidiana, assim do descuido e negligência desta prática origina-se a indiferença espiritual, pela qual diminui e enlanguesce a piedade, e não somente cessa ou se retarda o impulso para a santificação pessoal, mas todo o ministério sacerdotal sofre não ligeiros danos. Deve-se, com fundamento, assegurar por isso que nenhum outro meio tem a particular eficácia da meditação e, portanto, é insubstituível a sua prática cotidiana.

Orações várias e espírito de oração

47. Não sejam, porém, separadas da oração mental a oração vocal e as outras formas de oração privada que, na condição particular de cada um, auxiliam a promover a união da alma com Deus. Mas deve-se ter isto presente: mais do que múltiplas orações, vale a piedade e o verdadeiro e ardente espírito de oração. Esse ardente espírito de oração, se o era nos tempos passados, mais necessário é especialmente hoje, que o assim chamado “naturalismo” invadiu os espíritos e as inteligências e a virtude se vê exposta a perigos de toda espécie, perigos que às vezes se encontram até no próprio ministério. Que nos poderá melhor premunir contra essas insídias, que poderá melhor elevar a alma às coisas celestiais e mantê-la unida com Deus, do que a oração assídua e a invocação dos divinos auxílios?

Ardente devoção a Nossa Senhora

48. E porque por um título particular podem os sacerdotes ser chamados filhos de Maria, não podem eles deixar de nutrir ardente devoção à Virgem santíssima, de invocá-la com confiança e de implorar freqüentemente sua valiosa proteção. Cada dia, portanto, como a própria Igreja o recomenda, (19) recitem o santo rosário, o qual, propondo à nossa meditação também os mistérios do Redentor, nos conduz “a Jesus por Maria”.

A visita cotidiana ao santíssimo Sacramento

49. O sacerdote, além disso, antes de encerrar o seu dia de trabalho, se aproximará do tabernáculo e aí se demorará por uns momentos para adorar Jesus no seu sacramento de amor, para reparar a ingratidão de muitos para com tão grande sacramento, para incendiar-se cada vez mais de amor de Deus e para manter-se de certo modo na presença do coração de Cristo também durante o tempo do repouso noturno, que nos traz ao espírito o silêncio da morte.

O exame de consciência

50. Nem omita o cotidiano exame de consciência, que é o meio mais eficaz para avaliar o andamento da vida espiritual durante o dia, assim como para remover os obstáculos que embaraçam ou retardam o progresso na virtude, ou afinal para conhecer os meios mais idôneos a assegurarem ao ministério sacerdotal maiores frutos e para implorar do Pai Celeste perdão das nossas misérias.

A confissão freqüente

51. Essa indulgência e o perdão dos pecados nos são concedidos no sacramento da penitência, obra-prima da bondade de Deus, para nos socorrer em nossa fragilidade. Nunca suceda, diletos filhos, que exatamente o ministro desse sacramento de reconciliação dele se abstenha. Como o sabeis, nesta matéria dispõe a Igreja: “Vigiem os ordinários por que todos os clérigos purifiquem freqüentemente pelo sacramento da penitência as manchas da própria consciência”.(20) Ainda que ministros de Cristo, somos contudo débeis e miseráveis; como poderemos, pois, subir ao altar e tratar os sagrados mistérios, se não nos procuramos purificar o mais freqüentemente possível? A confissão freqüente “aumenta o conhecimento próprio, desenvolve a humildade cristã, desarraiga os maus costumes, combate a negligência e tibieza espiritual, purifica a consciência, fortifica a vontade, presta-se a direção espiritual e por virtude do mesmo sacramento aumenta a graça”.(21)

A direção espiritual

52. Outra recomendação se torna aqui oportuna: que ao arrostar e enveredar pela via espiritual não confieis em vós mesmos, mas com simplicidade e docilidade peçais e aceiteis o auxilio de quem possa guiar vossa alma com esclarecida direção, indicar-vos os perigos, sugerir-vos os remédios idôneos, e em todas as dificuldades internas ou externas vos possa dirigir retamente e levar-vos a uma perfeição cada vez maior, segundo o exemplo dos santos e os ensinamentos da ascética cristã. Sem essa prudente guia da consciência, é assaz difícil, pelas vias ordinárias, secundar convenientemente os impulsos do Espírito Santo e da graça divina.

Os exercícios espirituais

53. Desejamos ardentemente, enfim, a todos recomendar a prática dos exercícios espirituais. Quando por alguns dias nos segregamos das habituais ocupações e do ambiente habitual e nos retiramos à solidão e ao silêncio, então prestamos mais ouvidos a voz de Deus e esta penetra mais profundamente em nossa alma. Os exercícios, enquanto nos compelem a uma mais diligente execução dos deveres do nosso ministério, com a contemplação dos mistérios do Redentor reforçam nossa vontade, a fim de que “O sirvamos sem temor, em santidade e justiça diante dele, por todos os nossos dias” (Lc 1,74.75).

II. A SANTIDADE NO MINISTÉRIO SAGRADO

54. Sobre o monte Calvário o Redentor teve aberto o lado, do qual fluiu seu sangue sagrado, que no decurso dos séculos mana como alagadora torrente, para purificar as consciências dos homens, expiar os seus pecados e distribuir-lhes os tesouros da salvação.

O sacerdote, dispenseiro dos mistérios de Deus

55. Para a execução de tão sublime ministério são destinados os sacerdotes. Esses, de fato, não somente conciliam e comunicam a graça de Cristo aos membros do seu corpo místico, mas são também os órgãos de desenvolvimento do mesmo corpo místico, pois que eles devem dar sempre novos filhos à Igreja, educando-os, cultivando-os e guiando-os. Sendo eles os “dispenseiros dos mistérios de Deus” (1Cor 4,1), devem servir a Jesus Cristo com perfeita caridade e consagrar todas as suas forças à salvação de seus irmãos. São eles os apóstolos da luz: por isso devem iluminar o mundo com a doutrina do evangelho, e ser tão fortes na fé que a possam comunicar aos outros, e seguir os exemplos e ensinamentos do divino Mestre, para poderem conduzir todos a ele. São os apóstolos da graça e do perdão; devem por isso consagrar-se totalmente à salvação dos homens e atraí-los ao altar de Deus, para que se nutram do pão da vida eterna. São os apóstolos da caridade: devem, portanto, promover as obras de caridade, tanto mais urgentes hoje, que cresceram enormemente as necessidades dos indigentes.

As várias formas do apostolado moderno

56. O sacerdote deve esforçar-se ainda a fim de que os fiéis compreendam com justeza a doutrina da “comunhão dos santos”, sintam-na e vivam-na; para este fim deve servir-se de obras tais como o “Apostolado litúrgico” e o “Apostolado da oração”. Deve, do mesmo modo, promover todas as formas de apostolado que hoje, por especial necessidade do povo cristão, são de tanta importância e de tanta urgência. Esforce-se, assim, pela difusão do ensino catequético, pelo desenvolvimento e difusão da “Ação católica” e da “Ação missionária”; e, mediante o trabalho dos leigos, bem preparados e formados, dê incremento às iniciativas de apostolado social que o nosso tempo reclama.

Exercê-lo em união com Cristo

57. Recorde-se, entretanto, o sacerdote que o seu ministério será tanto mais fecundo, quanto mais estreitamente estiver ele unido a Cristo e for guiado no seu trabalho pelo espírito de Cristo. A sua atividade não se reduzirá, então, a um movimento e a uma agitação puramente naturais, que afadiguem o corpo e o espírito e exponham o próprio sacerdote a transviações ruinosas para si mesmo e a Igreja. Mas o seu trabalho e as suas fadigas serão fecundados e corroborados pelos carismas de graça que Deus nega aos soberbos, mas largamente concede àqueles que, trabalhando com humildade na “vinha do Senhor”, não buscam a si mesmos e o próprio proveito (1Cor 10,33) mas a glória de Deus e a salvação das almas. Fiel, portanto, ao ensinamento do evangelho, não confie em si mesmo nem nas próprias forças, mas deposite a sua confiança no auxílio do Senhor: “Nem o que planta é alguma coisa, nem o que rega, mas Deus, que dá o crescimento” (1Cor 3,7). Quando for assim inspirado e organizado o apostolado, não poderá deixar de suceder que o sacerdote atraia a si, com força quase divina, o espírito de todos. Reproduzindo nos seus costumes e na sua vida como que uma viva imagem de Cristo, todos aqueles que o buscam como um mestre reconhecerão, movidos por íntima persuasão, que ele não pronuncia palavras suas, mas palavras de Deus, e que não age por virtude própria, mas por virtude de Deus. “Se alguém fala, sejam palavras de Deus; se alguém exerce o ministério, seja conforme a força que Deus der” (1Pd 4,11). No tender à santidade e no desempenhar-se, com suma diligência, do seu ministério, deve o sacerdote esforçar-se por representar Cristo tão perfeitamente, que possa com toda modéstia repetir a palavra do apóstolo das gentes: “Sede meus imitadores, como também eu o sou de Cristo” (1Cor 4,16).

Resguardar-se da heresia da ação

58. Por esse motivo, enquanto rendemos o devido louvor a quantos, na afanosa reparação deste triste pós-guerra, movidos pelo amor de Deus e pela caridade para com o próximo, sob a direção e seguindo o exemplo dos bispos, consagraram todas as suas forças para remediar tantas misérias, não nos podemos abster de exprimir a nossa preocupação e a nossa ansiedade por aqueles que, por especiais circunstâncias do momento, se deixaram levar pelo vórtice da atividade exterior, assim como a negligenciar o principal dever do sacerdote, que é a santiflcação própria. Já dissemos em público documento (22) que devem ser chamados a melhores sentimentos quantos presumam que se possa salvar o mundo por meio daquela que foi justamente designada como a “heresia da ação”: daquela ação que não tem os seus fundamentos nos auxílios da graça, e não se serve constantemente dos meios necessários a obtenção da santidade, que Cristo nos proporciona. Do mesmo modo, porém, estimulamos às obras do ministério aqueles que, trancados em si mesmos e duvidosos da eficácia do auxílio divino, não se esforçam, segundo as próprias possibilidades, por fazer penetrar o espírito cristão na vida cotidiana, em todas as formas que os nossos tempos reclamam.(23)

Dedicar-se inteiramente à salvação das almas

59. Exortamo-vos, portanto, com todo o empenho, a que, estreitamente unidos ao Redentor, “com cujo auxílio tudo podemos” (Fl 4,13), vos esforceis com toda solicitude pela salvação daqueles que a divina Providência contou aos vossos cuidados, como ardentemente desejamos, diletos filhos, que imiteis os santos, que, nos tempos passados, demonstraram com suas obras grandiosas quanto pode o poder da graça divina. Que todos e cada um, com humildade e sinceridade, possais sempre atribuir-vos – testemunhem-no os vossos fiéis – a expressão do apóstolo: “E de boa vontade darei o que é meu, e me darei a mim mesmo pelas vossas almas” (2Cor 12,15). Iluminai os espíritos, dirigi as consciências, confortai e sustentai as almas que se debatem na dúvida e gemem na dor. A essa forma de apostolado ligai também todas as demais que as necessidades do tempo exigem. Mas em tudo fique sempre patente que o sacerdote, em todas as suas atividades, nada mais procura senão o bem das almas, e a nada mais visa senão a Cristo, a quem consagra todas as suas forças e a si mesmo inteiramente.

Imitar os exemplos do Redentor

60. Do mesmo modo que para vos estimular à santificação pessoal vos exortamos a reproduzir em vós mesmos a imagem viva de Cristo, assim agora, para a eficácia santificadora do vosso ministério, vos incitamos com insistência a seguir sempre os exemplos do Redentor. Ele, repleto do Espírito Santo, “andou fazendo o bem e curando todos os oprimidos do demônio, porque Deus estava com ele” (At 10,38). Fortificados pelo mesmo Espírito e impelidos por sua força, podereis exercer um ministério que, nutrido pela caridade cristã, será rico de virtude divina, que poderá comunicar aos outros.

61. Seja o vosso zelo vivificado por aquela caridade que se não deixa vencer pelas adversidades e a todos os homens abraça, pobres e ricos, amigos e inimigos, fiéis e infiéis. Essa diuturna fadiga e cotidiana paciência, eis o que de vós reclamam as almas, para a salvação das quais o nosso Salvador sofreu pacientemente dores e tormentos até a morte, para nos restituir a amizade divina. É essa, bem o sabeis, o maior dos bens. Não vos deixeis prender pelo imoderado desejo de sucesso, nem vos deixeis desarmar se, após assíduo trabalho, não recolherdes os frutos desejados, porque “um é que semeia, outro que ceifa” (Jo 4,37).

Com benigna caridade

62. Resplandeça, além disso, o vosso zelo de caridade benigna, pois se é necessário – e é dever de todos – combater o erro e rechaçar o vício, o espírito do sacerdote deve, todavia, estar sempre aberto à compaixão. É imperioso combater com todas as forças o erro, mas amando intensamente o irmão que erra e conduzindo-o à salvação. Quanto bem não fizeram, quão admiráveis obras não realizaram os santos com a sua benignidade, mesmo em ambientes pervertidos pela mentira e degradados pelo vício. Trairia, por certo, seu ministério aquele que, para agradar aos homens, lhes lisonjeasse as inclinações malsãs ou se mostrasse indulgente com seu incorreto modo de pensar e de agir, com prejuízo para a doutrina cristã e a integridade dos costumes. Quando, no entanto, são observados os ensinamentos do evangelho e os que erram se mostram movidos por sincero desejo de retornar ao bom caminho, então deve recordar-se o sacerdote da resposta que o Senhor deu a Pedro, quando lhe perguntou quantas vezes se devia perdoar ao irmão: “Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete” (Mt 18,22).

Ser desinteressados

63. Este vosso zelo deve ter por objeto não as coisas terrenas e caducas, mas as eternas. Deve ser este o propósito dos sacerdotes que aspiram à santidade: trabalhar unicamente pela glória divina e salvação das almas. Quantos sacerdotes, mesmo nas graves dificuldades dos nossos tempos, vêm seguindo como norma os exemplos e advertências do apóstolo das gentes, que se contentava com o mínimo indispensável: “Tendo alimento e vestuário, contentemo-nos com isto” (1Tm 6,8).

64. Por esse desinteresse e desprendimento das coisas terrenas, unidos à confiança na Divina Providência, dignos do mais alto louvor, o ministério sacerdotal tem dado à Igreja ubérrimos frutos de bem espiritual e social.

Aperfeiçoar a cultura própria

65. Esse zelo operoso deve, enfim, ser iluminado pela luz da sabedoria e da disciplina e inflamado pela chama da caridade. Quem se determine à santificação própria e alheia, deve estar preparado por sólida doutrina, que abranja não somente a teologia, mas igualmente a sã cultura moderna profana, a fim de que, como bom pai de família, possa tirar “do seu tesouro coisas novas e velhas” (Mt 13,52), e tornar cada vez mais apreciado e fecundo o seu ministério. Inspire-se, antes de tudo, a vossa atividade e seja fielmente conforme às prescrições desta sede apostólica e as diretivas dos bispos. Não mais ocorra, diletos filhos, que se tornem mortas ou, por defeituosa direção, não correspondam às necessidades dos fiéis todas as novas formas de apostolado que são hoje tão oportunas, especialmente nas regiões onde o clero é pouco numeroso.

Aumentar o zelo operoso

66. Cresça, portanto, cada dia esse vosso operoso zelo, sustente a Igreja de Deus, sirva de exemplo aos fiéis e constitua um poderoso baluarte contra o qual se esboroem os ataques dos inimigos de Deus.

Satisfação pelos diretores espirituais

67. Desejamos, por isso, exprimir a nossa satisfação de modo particular aos sacerdotes que, com humildade e ardente caridade, auxiliam a santificação dos confrades, como conselheiros, confessores ou diretores espirituais. O incalculável bem que fazem à Igreja permanece na maioria dos casos oculto, mas será um dia patenteado no reino da glória divina.

Tomem s. José Cafasso como modelo

68. Nós, que, não há ainda muitos anos, com íntima satisfação para o nosso coração decretamos as honras dos altares para o sacerdote turinense José Cafasso – que em época dificílima foi guia espiritual, esclarecido e santo, de não poucos sacerdotes, aos quais fez progredir na virtude, tornando-lhes particularmente fecundo o ministério – alimentamos plena confiança em que também pelo seu valioso patrocínio o divino Redentor suscite numerosos sacerdotes de igual santidade, que saibam conduzir-se a si mesmos e aos seus Confrades a tão excelsa perfeição de vida, que os fiéis, admirando-lhes os exemplos, se sintam espontaneamente movidos a imitá-los.

III. NORMAS PRÁTICAS

69. Até aqui expusemos as principais verdades e normas fundamentais sobre as quais se baseiam o sacerdócio católico e o exercício do seu ministério. A essas verdades e normas conformam-se diligentemente na sua prática cotidiana todos os sacerdotes santos, enquanto violam as obrigações contraídas pela sagrada ordenação todos os desertores e trânsfugas.

Princípio fundamental: adaptar-se aos tempos

70. Para que, entretanto, nossa paternal exortação seja mais eficaz, julgamos oportuno indicar mais miudamente algumas coisas que estão estreitamente ligadas à prática da vida cotidiana. É isso tanto mais necessário porque na vida moderna se verificam certas situações e de nova maneira se apresentam certas questões, que reclamam mais diligente estudo e mais atentos cuidados. Por isso queremos exortar todos os sacerdotes, e de modo particular os bispos, a fim de que providenciem com a máxima solicitude a promoção de tudo quanto seja necessário aos nossos tempos, e reduzam ao reto caminho da verdade, probidade e virtude o que se desviou ou depravou.

1. Formação do Clero

Sacerdotes seculares e religiosos unidos para o bem da Igreja

71. Depois das prolongadas e diversas vicissitudes da recente guerra, o número dos sacerdotes, tanto nos países católicos como nas missões, tornou-se insuficiente em face das sempre crescentes necessidades. Exortamos, portanto, todos os sacerdotes, tanto os do clero diocesano quanto os que pertencem a ordens ou congregações religiosas, a fim de que, estreitados os vínculos da caridade fraterna, prossigam em união de forças e de vontades na meta comum, que é o bem da Igreja, a santificação própria e dos fiéis. Todos, também os religiosos que vivem no retiro e no silêncio, devem contribuir para a eficácia do apostolado sacerdotal, pela oração e pelo sacrifício; e, quantos o podem, de boa mente ajudem também pela ação.

Recrutar novos operários

72. Mas é também necessário recrutar outros operários, com o auxílio da graça divina. Sobre este importantíssimo problema, em íntima conexão com o futuro da Igreja, chamamos, portanto, a atenção especialmente dos ordinários e de quantos se dedicam de qualquer modo à cura de almas. É verdade que não faltarão jamais à Igreja os sacerdotes necessários à sua missão; cabe contudo, estarmos vigilantes, lembrados da palavra do Senhor. “Grande é a messe, mas poucos são os operários!” (Lc 10,2), e empregarmos toda diligência para dar à Igreja numerosos e santos ministros.

Orar pelas vocações

73. O próprio nosso Senhor nos indica o caminho mais seguro para termos numerosas vocações: “Rogai… ao Senhor da messe que mande operários para a sua messe” (Lc 10,2): a oração humilde e confiante a Deus.

Suscitar grande estima pelo sacerdócio

74. É, porém, preciso que o espírito daqueles que são chamados por Deus esteja preparado para o impulso e a ação invisível do Espírito Santo; e a esse respeito, é precioso o contributo que podem dar os pais cristãos, os párocos, confessores, superiores de seminários, todos os sacerdotes e os fiéis que levam a peito as necessidades e o incremento da Igreja. Procurem os ministros de Deus, não somente na pregação e na instrução catequística, mas também nas conversações privadas, dissipar os preconceitos ainda tão difundidos contra o estado sacerdotal, mostrando a sua excelsa dignidade, beleza, necessidade e elevado mérito. Os pais e mães cristãos, pertençam a qualquer esfera social, devem rogar a Deus torná-los dignos de que ao menos um de seus filhos seja chamado ao seu serviço. Todos os cristãos, em suma, devem sentir o dever de favorecer e auxiliar aqueles que se sentem chamados ao sacerdócio.

Especialmente pela santidade de vida

75. A escolha dos candidatos ao sacerdócio, que o Código de direito canônico(24) recomenda aos pastores de almas, deve constituir a obrigação particular de todos os sacerdotes, que não só devem render humildes e generosas graças a Deus pelo dom inestimável recebido, mas devem igualmente ter como o mais querido e grato o encontrar e preparar para si um sucessor, dentre os jovens que reconhecem possuir os dotes necessários. Para mais eficazmente alcançar esse escopo, todo sacerdote deve esforçar-se por ser e mostrar-se como um exemplo de vida sacerdotal, para que possa constituir um ideal a imitar para os jovens que atrai e nos quais vislumbra os sinais do divino chamamento.

Seleção cuidadosa e prudente

76. Esta seleção cuidadosa e prudente se desenvolva sempre e em toda parte; não somente entre os jovens que já estão no seminário, mas também entre aqueles que completam seus estudos alhures, e de modo particular entre aqueles que prestam a sua colaboração nas várias atividades do apostolado católico. Estes, mesmo que atinjam o sacerdócio em idade avançada, são frequentemente possuidores de maiores e mais sólidas virtudes, estando já experimentados e tendo fortalecido o seu espírito no contato com as dificuldades da vida e tendo já colaborado num campo adentro das finalidades da ação sacerdotal.

Exame das vocações…

77. Carece, porém, examinar sempre diligentemente cada um dos aspirantes ao sacerdócio, para ver-se com quais intenções e causas tenham tomado semelhante resolução. De modo especial, quando se trata de rapazinhos, é preciso investigar se eles se acham dotados dos necessários dotes morais e físicos, e se aspiram ao sacerdócio unicamente levados pela sua sublimidade e pela utilidade espiritual própria e alheia.

…e das qualidades físicas dos candidatos

78. Conheceis, veneráveis irmãos, quais as condições de idoneidade moral que a Igreja exige nos jovens que aspiram ao sacerdócio, e reputamos supérfluo deter-nos sobre este argumento. Ao invés, reclamamos a vossa atenção sobre as condições de idoneidade física, e isso tanto mais porque a recente guerra deixou funestos traços e perturbou de diversas maneiras a geração jovem. Examinem-se, portanto, com particular atenção as qualidades físicas dos candidatos, recorrendo ainda, se preciso, ao exame por médico prudente.

Com essa escolha das vocações, feita com zelo e prudência, nos confiamos que surja por toda parte uma escolhida e numerosa falange de candidatos ao sacerdócio.

2. Cultivo das vocações

É um grave dever

79. Se muitos pastores sagrados estão preocupados com a diminuição das vocações, de não menores preocupações estão possuídos quando se trata do cuidado de jovens que já ingressaram no seminário. Conhecemos, veneráveis irmãos, quão árdua é esta obra e quantas dificuldades apresenta; mas do cumprimento de tão grave dever tirais grandíssima consolação, porquanto, como recorda o nosso predecessor Leão XIII, “da cura e das solicitudes postas na formação dos sacerdotes auferireis frutos sumamente apetecíveis, e experimentareis que o vosso ofício episcopal será mais facilmente exercido e muito mais fecundo em frutos”.(25)

Julgamos, portanto, oportuno dar-vos algumas normas, sugeridas pela necessidade, hoje mais sentida que outrora, de educar santos sacerdotes.

Seja são e sereno o ambiente

80. É preciso recordar antes de tudo que os alunos dos seminários menores são adolescentes afastados do natural ambiente da família. É necessário, portanto, que a vida que os rapazes levam nos seminários corresponda, quanto possível, à vida normal dos outros rapazes; será dada, pois, grande importância à vida espiritual, mas em forma adequada à sua capacidade e ao seu grau de desenvolvimento: que tudo se processe num ambiente são e sereno. Mas ainda nisto se observe “a justa medida e moderação”, de modo a não suceder que aqueles que devem ser formados para a abnegação e para as virtudes evangélicas “vivam em casas suntuosas, nos prazeres e comodidades”.(26)

Formar o caráter com o senso da responsabilidade

81. Deve-se cuidar de modo especial da formação do caráter de cada rapaz, nele desenvolvendo o senso de responsabilidade, a capacidade de raciocínio, o espírito de iniciativa. Por isso aqueles que dirigem os seminários devem recorrer com moderação aos meios coercitivos, aliviando, ao passo que os jovens crescem em idade, o sistema da rigorosa vigilância e das restrições, preparando os jovens a guiar-se por si mesmos e a sentir a responsabilidade de seus atos. Concedam certa liberdade de ação em determinadas iniciativas, habituem os alunos à reflexão, a fim de que se lhes torne mais fácil a assimilação das verdades teóricas e práticas; não temam tê-los ao par dos acontecimentos do dia, que antes, além de lhes fornecerem elementos necessários para que possam formar e exprimir um reto juízo, ainda lhes dão ensejo de discuti-los, ajudando-os e habituando-os a julgar e avaliar com equilíbrio.

Instilar horror pela dissimulação

82. Deste modo os jovens são encaminhados para a honestidade e a lealdade, a estima da firmeza e a retidão de caráter e a aversão por toda forma de dissimulação. Quanto mais sinceros e simples forem eles, tanto melhor poderão ser conhecidos e bem guiados pelos superiores no difícil exame da vocação.

Não isolar inteiramente do mundo

83. Se os jovens – especialmente os que entraram no seminário em tenra idade – são formados num ambiente demasiado afastado do mundo, ao saírem do seminário poderão encontrar sérias dificuldades nas relações tanto com o povo simples, quanto com o laicato culto, e poderá ocorrer que assumam uma atitude errada e falsa em relação aos fiéis ou que considerem desfavoravelmente a formação recebida. Por esse motivo, é preciso diminuir gradativamente e com a devida prudência a separação entre o povo e o futuro sacerdote, a fim de que este, recebida a sagrada ordenação, quando iniciar seu ministério, não venha a sentir-se desorientado, o que não somente seria danoso para o seu espírito, como anularia até a eficácia do seu trabalho.

A formação intelectual, literária e científica…

84. Outro grave cuidado dos superiores é a formação intelectual dos alunos. Tendes certamente presentes, veneráveis irmãos, as ordenações e disposições que esta Sé Apostólica tem dado a respeito, e que nós recomendamos a todos já no primeiro encontro que tivemos com os alunos dos seminários e colégios de Roma no início do nosso pontificado.(27)

…não inferior à dos leigos

85. Desejamos aqui, antes de tudo, recomendar que a cultura literária e científica dos futuros sacerdotes seja pelo menos não inferior à dos leigos que freqüentam análogos cursos de estudos. Desse modo não somente será assegurada a seriedade da formação intelectual, mas ainda será facilitada a seleção dos elementos. Os seminaristas sentir-se-ão mais livres na escolha de estado e será afastado o perigo de que, pela falta de uma suficiente preparação cultural, que possa assegurar uma adaptação ao mundo, alguém se sinta de certo modo constrangido a prosseguir num rumo que não o seu, adotando a reflexão do administrador infiel: “Lavrar a terra não posso, de mendigar tenho vergonha” (Lc 16,3). Se, portanto, viesse a suceder que algum, sobre o qual se depositavam boas esperanças para a Igreja, se afastasse do seminário, não deveria isso causar preocupações, porque o jovem que tornar ao mundo não poderá deixar de recordar-se dos benefícios recebidos no seminário, e com a sua atividade poderá prestar notável contribuição de bem às obras do laicato católico.

Necessidade da doutrina filosófica e teológica

86. Embora não descurando os outros estudos, entre os quais relembramos os atinentes aos problemas sociais, tão necessários hoje, na formação intelectual dos jovens seminaristas deve-se dar a máxima importância à doutrina filosófica e teológica “consoante a norma do Doutor Angélico”(28) adequada aos tempos e informada sobre os erros modernos. O estudo dessas disciplinas é de suma importância e utilidade, seja para o espírito do próprio sacerdote, seja para o povo. Os mestres da vida espiritual afirmam que o estudo das ciências sagradas, desde que seja ministrado na devida forma e por um sistema apropriado, é um auxílio eficacíssimo para conservar e alimentar o espírito de fé, refrear as paixões e manter a alma unida a Deus. Adite-se que o sacerdote, “sal da terra” e “luz do mundo” (cf, Mt 5,13.14), deve dedicar-se à defesa da fé pregando o evangelho e rebatendo os erros das doutrinas adversas que hoje andam disseminadas sob todas as formas entre o povo. Mas semelhantes erros não podem ser combatidos eficazmente, se não se conhecem a fundo os inconcussos princípios da filosofia e da teologia católica.

Seguir o método escolástico

87. A esse propósito não vem fora de lugar recordar que o método escolástico tem particular eficácia para dar conceitos claros e mostrar que as doutrinas comadas, como sagrado depósito, à Igreja, mestra dos cristãos, são entre si organicamente conexas e coerentes. Não faltam hoje alguns que, afastando-se dos ensinamentos do magistério eclesiástico e negando a clareza e precisão das idéias, não somente abandonam o sadio método escolástico, como franqueiam caminho aos erros e confusões, como o demonstra uma triste experiência.

88. Para impedir, portanto, que nos estudos eclesiásticos se venham a lamentar flutuações e incertezas, exortamo-vos, veneráveis irmãos, a vigiar assiduamente, a fim de que as normas precisas, dadas por esta Sé Apostólica, para este estudo, sejam fielmente acolhidas e postas em prática.

3. Formação espiritual e moral

A ciência, em si, pode ser nociva

89. Se com tanta solicitude recomendamos forte preparação intelectual no clero, é fácil compreender quanto nos toca ao coração a formação intelectual e moral dos jovens clérigos, sem a qual mesmo uma ciência eminente se torna infrutífera e pode até produzir danos incalculáveis, pela soberba e orgulho que inocula nos corações. Por isso, a Igreja ansiosamente e acima de todas as coisas quer que nos Seminários se estabeleçam sólidos fundamentos à santidade, que o ministro de Deus deverá depois desenvolver e praticar durante toda a vida.

Dediquem-se os clérigos à vida interior

90. Como já o dissemos para os sacerdotes, assim agora recomendamos que os clérigos tenham uma sincera e profunda convicção da necessidade da vida espiritual, e portanto sintam o dever de empregar todo esforço para alcançá-la, para conservá-la e aumentá-la continuamente.

Seja convicta a sua piedade

91. No curso do dia, com ritmo mais ou menos uniforme, consoante os horários e programas, fazem eles várias práticas religiosas e participam de diversos exercícios de piedade. Há facilmente perigo de que aos exercícios externos de piedade não corresponda um movimento interior da alma, o que se poderá tornar habitual e até agravar-se quando, fora do seminário, o ministro de Deus se sentir atormentado pela necessidade de ação, não raro absorvente.

Executem tudo com fé

92. Haja, portanto, todo cuidado na formação dos jovens à vida interior, que é a vida do espírito e segundo o espírito; que eles tudo executem à luz da fé e em união com Cristo, convictos de que é este grave dever de consciência que incumbe a quem deverá receber um dia o caráter sacerdotal e representar o divino Mestre na Igreja. Para o seminarista seria a vida interior o meio mais eficaz para adquirir as virtudes sacerdotais, a força espontânea proveniente da íntima persuasão que faz superar as dificuldades e incita à realização dos santos propósitos.

Instilem neles os diretores as virtudes eclesiásticas…

93. Aqueles que dirigem a formação moral dos seminaristas tenham sempre em mente o objetivo de fazê-los adquirir todas as virtudes que a Igreja exige nos sacerdotes. A essas já nos referimos em outro ponto desta exortação e não pretendemos retornar sobre o mesmo argumento. Mas não podemos deixar de assinalar e recomendar, entre todas as virtudes que solidamente devem possuir os aspirantes ao sacerdócio, aquelas sobre as quais se apóia, como sobre inabaláveis pilares, toda a santidade sacerdotal.

…particularmente a submissão…

94. É necessário que os jovens adquiram o espírito de obediência, habituando-se a submeter sinceramente a sua vontade à de Deus, manifestada através da legítima autoridade dos superiores. Nada deverá existir na conduta do futuro sacerdote que se não conforme à vontade divina. Que esta obediência seja sempre inspirada pelo modelo perfeito do divino Mestre, que na terra teve um só e único programa: “Fazer, ó Deus, a tua vontade” (Hb 10, 7).

…e assim tornem-se verdadeiramente obedientes ao bispo

95. Aprenda desde o seminário o futuro sacerdote a prestar obediência filial e sincera a seus superiores, para estar depois sempre pronto a obedecer docilmente ao seu bispo, segundo o ensinamento do invicto confessor de Cristo, Inácio de Antioquia: “Obedecei todos ao bispo, como Jesus Cristo obedecia ao Pai”.(29) “Quem honra o bispo é honrado por Deus; quem age às ocultas do bispo serve ao demônio”.(30) “Não façais nada sem o bispo, guardai o vosso corpo como templo de Deus, amai a união, evitai as discórdias, sede imitadores de Jesus Cristo como ele o foi de seu Pai”.(31)

Seja solidamente possuída e longamente provada a castidade

96. Empregue-se, por outro lado, toda a diligência e solicitude, a fim de que os seminaristas apreciem, amem e guardem a castidade, porque a escolha do estado sacerdotal e a perseverança nela dependem em grande parte dessa virtude. Estando ela, na sociedade, exposta a maiores perigos, deve ser solidamente possuída e longamente provada. Esclareçam-se, portanto, os seminaristas sobre a natureza do celibato eclesiástico, sobre a castidade que devem observar e sobre as obrigações que isso comporta, (32) e sejam instruídos acerca dos perigos que se lhes podem deparar. Sejam advertidos a deles premunir-se desde a tenra idade, recorrendo fielmente aos meios que lhes oferece a ascética cristã para refrear as paixões; porque quanto mais firme e eficaz for o domínio sobre elas, tanto mais poderá a alma progredir nas outras virtudes e tanto mais segura será depois a ação do seu ministério. Quando, portanto, os jovens clérigos mostrarem a esse respeito tendências malsãs, e após a devida correção se mostrarem incorrigíveis, é absolutamente necessário eliminá-los do seminário, antes que atinjam as ordens sacras.

Cultivem a devoção ao ss. Sacramento e a nossa Senhora

97. Essas e todas as demais virtudes do sacerdote podem ser facilmente adquiridas e tenazmente possuídas pelos seminaristas, se, desde os primeiros anos, houverem eles aprendido e cultivado uma sincera e delicada devoção a Jesus presente “verdadeira, real e substancialmente” entre nós no sacramento do seu amor e fizerem do Deus sacramentado a causa e o fim de todas as suas ações, de suas aspirações e sacrifícios. E se à devoção a Jesus sacramentado unirem uma filial devoção a Maria, devoção que seja cheia de confiança e de abandono nela, e que excite a alma à imitação das suas virtudes, então a Igreja se regozijará porque não poderá mais faltar o fruto de um ministério ardente e zeloso num sacerdote cuja adolescência foi alimentada pelo amor a Jesus e a Maria.

Dispensar cuidados ao clero jovem

98. Aqui não podemos deixar de endereçar a vós, veneráveis irmãos, uma viva recomendação: dispensar um cuidado todo particular ao clero jovem.

Prepará-lo santamente para a vida de ministério

99. A passagem da vida resguardada e tranqüila do seminário à atividade do ministério pode ser perigosa para o sacerdote que ingressa no campo aberto do apostolado, se não estiver suficientemente preparado para tal gênero novo de vida. Podem fracassar as esperanças tão largamente depositadas em jovens sacerdotes, se estes não forem gradativamente iniciados no trabalho, sabiamente vigiados e paternalmente guiados nos primeiros passos do seu ministério.

Criar institutos adequados…

100. Nós aprovamos, portanto, que os jovens sacerdotes, quando for isto possível, sejam recolhidos durante alguns anos em Institutos especiais, onde, sob a direção de superiores experimentados, possam acrisolar-se na piedade e aperfeiçoar-se nas sagradas disciplinas e ser preparados para o ministério que melhor corresponda a sua índole e inclinações. Para tal fim desejamos que em cada diocese, ou ao menos em cada grupo de dioceses, juntamente, sejam instituídos semelhantes colégios.

…modelados pelo de santo Eugênio, de Roma

101. No que respeita a nossa cidade, nós mesmo já o fizemos, quando, ao se completar o 50° aniversário do nosso sacerdócio, erigimos o Instituto de santo Eugênio para jovens sacerdotes.(33)

Não encaminhar ao ministério sacerdotes inexperientes

102. Exortamo-vos, veneráveis irmãos, a que eviteis, na medida do possível, lançar em cheio na atividade pastoral sacerdotes ainda inexperientes, e mandá-los para pontos demasiado afastados da sede da diocese ou de outros centros maiores. Em semelhante situação, de fato, isolados, inexperientes, expostos a perigos e privados de mestres prudentes, somente poderão colher danos para si mesmos e para seu ministério.

Aproximá-los de sacerdotes provectos…

103. É, ao invés, particularmente recomendável que esses jovens sacerdotes sejam colocados ao lado de algum pároco, pois, desse modo, mediante a direção de pessoa avançada em anos, podem mais facilmente ser adestrados no sagrado ministério e aperfeiçoar o seu espírito de piedade. Lembramos a todos os pastores de almas que o futuro dos novos sacerdotes está em grande parte em suas mãos. O ardente zelo e os generosos propósitos de que vêm animados, ao iniciar seu ministério, podem ser apagados ou certamente entibiados pelo exemplo dos anciãos, se nestes não brilha o esplendor da virtude ou se, sob pretexto de não alterar velhos hábitos, se mostrassem amantes do ócio.

Promova-se a vida em comum do clero

104. Aprovamos e recomendamos vivamente quanto já está contido nos votos da Igreja, (34) isto é, que se introduza e se estenda o costume da vida em comum entre os sacerdotes de uma mesma paróquia ou de paróquias limítrofes.

As imensas vantagens que isso traz

105. Se essa prática da vida em comum comporta algum sacrifício, nenhuma dúvida há, entretanto, de que dela provêm grandes vantagens: antes de tudo, alimenta cotidianamente o zelo e o espírito de caridade entre os sacerdotes; dá, portanto, um admirável exemplo aos fiéis o desprendimento dos ministros de Deus dos interesses pessoais e da própria família; é, afinal, testemunho do cuidado escrupuloso com que eles resguardam a castidade sacerdotal.

Não interromper a vida de estudo

106. Devem, além disso, os sacerdotes cultivar o estudo, como sabiamente prescreve o Código de direito canônico: “Os clérigos não interrompam os estudos, especialmente os sagrados, depois de recebido o sacerdócio”.(35) O mesmo Código, depois, além dos exames que se devem fazer “ao menos cada ano, durante todo um triênio”,(36) que exige aos novos sacerdotes, prescreve outrossim que o clero tenha várias vezes por ano reuniões destinadas “a promover a ciência e a piedade”.(37)

Tornar eficientes as bibliotecas para sacerdotes…

107. Para estimular esses estudos, que se tornam às vezes difíceis pelas precárias condições econômicas do clero, seria sumamente oportuno que os ordinários, segundo as luminosas tradições da Igreja, restituíssem a dignidade e a eficiência às bibliotecas das catedrais, dos colégios ou das próprias paróquias.

108. Essas bibliotecas eclesiásticas, não obstante as espoliações e dispersões sofridas, não raramente possuem uma preciosa herança de pergaminhos, livros manuscritos e impressos, “testemunho eloqüente tanto da atividade e influência da Igreja, como da fé e piedade generosa dos antepassados, dos seus estudos ou do seu bom gosto”.(38) Que essas bibliotecas não sejam depósitos de livros abandonados, mas, ao contrário, estruturas vivas, com una sala adaptada à consulta dos livros e à leitura. Antes do mais, porém, sejam elas atualizadas e enriquecidas com obras de todos os gêneros, especialmente das relativas às questões religiosas e sociais dos nossos tempos, de modo que os professores, os párocos e particularmente os jovens sacerdotes possam aí adquirir a doutrina necessária para difundir as verdades do evangelho e para combater os erros.

IV. PERIGOS DO NOSSO TEMPO – PROBLEMAS DE ATUALIDADE

1. Perigos do nosso tempo

109. Julgamos ser, enfim, do nosso oficio, veneráveis irmãos, endereçar-vos uma advertência sobre as dificuldades peculiares ao nosso tempo. Já observastes que entre os sacerdotes, especialmente entre aqueles menos providos de doutrina e de vida menos severa, vai-se difundindo, de modo cada vez mais grave e preocupante, certo espírito de novidade.

Quando o espírito de novidade pode ser louvável

110. A novidade nunca foi por si mesma um critério de verdade, e só pode ser louvável quando confirma a verdade e leva à retidão e à virtude.

Novidades perniciosas contra as quais se deve estar em guarda

111. A época em que vivemos sofre de grave perturbação em todos os terrenos: sistemas filosóficos que nascem e morrem, sem em nada melhorarem os costumes; monstruosidade de certa arte, que no entanto pretende julgar-se cristã; critérios de governo que em muitos lugares se convertem antes na opressão dos cidadãos do que em bem comum; métodos de vida e de relações econômicas e sociais em que correm maior perigo os honestos do que os velhacos. Daí deriva quase naturalmente que não faltem de todo em nossos tempos sacerdotes infectados, de alguma maneira, de semelhante contágio, e que manifestam opiniões e levam um teor de vida, até no modo de vestir-se e cuidar de si, inteiramente contrários tanto à sua dignidade como à sua missão; que se deixam empolgar pela mania de novidades, seja no pregar aos fiéis, seja no modo de combater os erros dos adversários; e que comprometem, portanto, não somente sua consciência, mas ainda sua boa fama e, então, a eficácia do seu ministério.

Cabe aos ordinários a atualização dos métodos de apostolado

112. Sobre tudo isso, veneráveis irmãos, alertamos vivamente a vossa vigilância, certos de que vós, entre a ânsia de novidades e o exagerado apego ao passado, usareis aquela prudência que é sempre sábia e vigilante, mesmo quando experimenta novos rumos de atividade e de luta pelo triunfo da verdade. Bem longe estamos de pretender que o apostolado não se deva adaptar à realidade da vida moderna e não se devam promover iniciativas adequadas às necessidades do nosso tempo. Como, porém, todo o apostolado sacerdotal que a Igreja desenvolve é essencialmente hierárquico, não se introduzam novas formas senão com o beneplácito do ordinário. Os ordinários de uma mesma região ou de uma mesma nação procurem, nesta matéria, estabelecer entre si um entendimento com a finalidade de prover às necessidades locais e de estudar os métodos mais idôneos e consentâneos com o apostolado religioso. Assim tudo se fará em ordem e disciplina e se poderá ter certeza da eficácia da ação sacerdotal. Estejam todos persuadidos disto: que é preciso escutar a voz de Deus e não a do mundo, e regular a atividade do apostolado segundo as diretrizes da hierarquia e não segundo opiniões pessoais. É vã ilusão acreditar que se possa dissimular a própria pobreza interior e cooperar eficazmente na difusão do reino de Cristo com a extravagância e a incongruência dos métodos de ação.

2. O clero e a questão social

113. Semelhante retidão de atitude se impõe aos sacerdotes em face às doutrinas sociais do tempo presente.

Nenhuma incerteza contra o comunismo

114. Alguns existem que, frente à iniqüidade do comunismo, que visa a destruir a fé naqueles mesmos a quem promete o bem-estar material, se mostram atemorizados e incertos; mas esta Sé Apostólica, em documentos recentes, indicou claramente qual o caminho a seguir e do qual ninguém se poderá afastar, se não quiser faltar ao próprio dever.

Denunciar as conseqüências ruinosas do capitalismo

115. Outros, porém, se mostram tímidos e incertos quanto ao sistema econômico conhecido pelo nome de capitalismo, do qual a Igreja não tem cessado de denunciar as graves conseqüências. A Igreja, de fato, apontou não somente os abusos do capital e do próprio direito de propriedade que o mesmo sistema promove e defende, mas tem igualmente ensinado que o capital e a propriedade devem ser instrumentos da produção em proveito de toda a sociedade e meios de manutenção e de defesa da liberdade e da dignidade da pessoa humana. Os erros dos dois sistemas econômicos e as ruinosas conseqüências que deles derivam devem a todos convencer, e especialmente aos sacerdotes, a manter-se fiéis à doutrina social da Igreja e a difundir-lhe o conhecimento e a aplicação prática. Essa doutrina é, realmente, a única que pode remediar os males denunciados e tão dolorosamente difundidos: ela une e aperfeiçoa as exigências da justiça e os deveres da caridade, promove tal ordem social que não oprima os cidadãos e não os isole num egoísmo seco, mas a todos una na harmonia das relações e nos vínculos da solidariedade fraternal.

Ir ao encontro dos pobres e dos ricos

116. A exemplo do divino Mestre, vá o sacerdote ao encontro dos pobres, dos trabalhadores, daqueles todos que se encontram em angústia e miséria, entre os quais estão também muitos da classe média e não raros confrades de sacerdócio. Mas não se descuide tampouco daqueles que, embora ricos de bens de fortuna, são no entanto os mais pobres de alma e têm necessidade de ser chamados à renovação espiritual, para dizerem como Zaqueu: “Dou a metade dos meus bens aos pobres, e, se tiver defraudado alguém, restituirei o quádruplo” (Lc 19, 8). No campo das discórdias sociais, portanto, não perca jamais de vista o sacerdote o fim de sua missão. Com zelo, sem temor, deve apresentar os princípios católicos acerca da propriedade, das riquezas, da justiça social e da caridade cristã entre as diversas classes, e dar a todos exemplo manifesto de sua aplicação.

Preparar os leigos para os deveres sociais

117. Normalmente a realização desses princípios sociais cristãos na vida pública compete aos leigos; mas onde não os há capazes, ponha o sacerdote todo empenho em formá-los convenientemente.

3. Ajuda ao clero pobre

118. Este argumento nos obriga oportunamente a dizer uma palavra sobre as condições econômicas em que neste pós-guerra vieram a encontrar-se muitíssimos sacerdotes, particularmente nas regiões que majoritamente sentiram as conseqüências da guerra e da situação política determinada pelo recente conflito. Angustia-nos profundamente semelhante estado de coisas e nada temos poupado para aliviar, conforme as nossas possibilidades, as dificuldades, a miséria e extrema indigência de muitos.

Faculdades extraordinárias concedidas aos bispos

119. Vós, veneráveis irmãos, bem conheceis como interviemos nos lugares onde maior se fazia sentir a necessidade, até por intermédio da Sagrada Congregação do Concílio, concedendo aos bispos faculdades extraordinárias a fim de que fossem eliminadas clamorosas desproporções de condições econômicas entre sacerdotes de uma mesma diocese, e consta-nos que em numerosos lugares os sacerdotes atenderam aos convites de seus pastores de um modo digno de encômios; noutros lugares, porém, devido a graves dificuldades, ainda não foi possível pôr integralmente em prática as normas estabelecidas. Exortamo-vos, portanto, a prosseguir com ânimo paternal no rumo empreendido, e a notificar-nos dos frutos de vossos esforços, porque não é admissível que falte o pão cotidiano ao operário que trabalhou e continua a trabalhar na vinha do Senhor.

Promoção da previdência social para os sacerdotes

120. Louvamos vivamente, além disso, veneráveis irmãos, todas as iniciativas que tomardes de comum acordo, a fim de que não somente não falte aos sacerdotes o necessário para o dia de hoje, mas que lhes seja também assegurado o futuro, por meio do sistema de previdência já vigente e que tanto enaltecemos nas outras classes, e que asseguram uma conveniente assistência nos casos de moléstia, de invalidez e velhice. Desse modo libertareis os sacerdotes das preocupações conseqüentes da incerteza do futuro.

Encômio ao clero que socorre os confrades de sacerdócio

121. A esse propósito exprimimos a nossa paternal satisfação a todos os sacerdotes que, mesmo à custa de sacrifícios, tenham vindo ou vierem ainda ao encontro das necessidades dos confrades necessitados, especialmente se doentes ou idosos. Agindo dessa maneira, dão eles prova luminosa daquela caridade mútua que Jesus Cristo indicou como sinal distintivo dos seus discípulos: “Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros” (Jo 13, 35). E nós desejamos que esses vínculos de fraterna caridade se tornem cada vez mais estreitos entre os sacerdotes de todas as nações, a fim de que seja sempre mais manifesto que eles, ministros de Deus, Pai universal, pertençam a qualquer raça, estão entre si unidos pelo vínculo da caridade.

Ensinar os fiéis a socorrer o clero pobre

122. Vós, contudo, bem compreendereis que semelhante problema não poderá ser convenientemente resolvido, se os fiéis não sentirem intimamente o dever de auxiliar o clero, cada qual segundo suas possibilidades pessoais, e se não se adotarem todos os meios para atingir esse escopo.

123. Por isso, fazei compreender aos fiéis confiados aos vossos cuidados a obrigação que têm de ir em socorro dos seus sacerdotes que se encontrem necessitados, para o que é sempre oportuna a palavra do Senhor: “O operário é digno do seu salário” (Lc 10,7). Como se poderá esperar uma atividade fervorosa e alegre dos sacerdotes, se carecem eles do necessário? De resto, os fiéis que se descuidam desse dever, aplanam, embora involuntariamente, o caminho aos inimigos da Igreja, que em não poucos países procuram exatamente empobrecer o clero para poderem segará-lo dos legítimos pastores.

A obrigação que têm de o fazer os poderes públicos

124. Também os poderes públicos, conforme as diversas condições de cada país, têm a obrigação de prover às necessidades do clero, de cuja ação recebe a sociedade civil incalculáveis benefícios espirituais e morais.

Exortação final

Resumo e programa de vida

125. Pondo remate à nossa exortação, não nos podemos abster de reunir e repetir quanto desejamos se grave cada vez mais profundamente em vosso espírito, como programa da vossa vida e da vossa atividade. Somos sacerdotes de Cristo: por isso devemos dedicar-nos com todas as forças a que a redenção por ele realizada tenha a mais eficaz aplicação em todas as almas. Consideradas as imensas necessidades dos nossos tempos, devemos empregar todo esforço para reconduzir a Cristo os irmãos desviados pelo erro ou obcecados pelas paixões; para esclarecer os povos com as luzes da doutrina cristã, para guiá-los segundo os preceitos do evangelho e incutir-lhes uma consciência cristã mais perfeita, para, finalmente, incitá-los à luta pelo triunfo da verdade e da justiça.

Transfundindo-lhes a vida haurida de Jesus

126. Atingiremos a meta prefixada somente quando tivermos atingido a nossa santificação, de modo a podermos transfundir nos outros a vida que houvermos haurido de Cristo.

Mostrando-nos como modelos de bondade

A cada sacerdote repetimos, portanto, a palavra do Apóstolo: “Não negligencies a graça que está em ti e que te foi dada por profecia, com a imposição das mãos do presbitério” (1Tm 4,14); “Em tudo, mostra-te modelo de boas obras: na doutrina, integridade incorruptível, gravidade, linguagem sã, irrepreensível, para que o adversário seja confundido, não tendo mal algum que dizer de nós” (Tt 2,7-8).

Prezar a vocação e vivê-la santamente

127. Diletos filhos, tende em sumo conceito a graça da vossa vocação, e vivei-a de modo que produza copiosos frutos, para edificação da Igreja e para a conversão dos seus inimigos.

Renovar-se espiritualmente neste ano santo

A fim de que nossa exortação alcance o fim esperado, dirigimo-vos com particular afeto estas palavras, que, na ocorrência do ano santo, são tanto mais oportunas: “Renovai-vos no espírito do vosso entendimento, e revesti-vos do homem novo, que, segundo o ideal de Deus, foi criado em justiça e santidade da verdade” (Ef 4,23-24); “Sede… imitadores de Deus, como filhos muito amados, e andai na caridade, como também Cristo nos amou e se entregou por nós, como oferenda e sacrifício a Deus, em odor de suavidade” (Ef 5,1-2); “Enchei-vos do Espírito Santo, falando uns aos outros com salmos, hinos e cânticos espirituais, cantando e louvando ao Senhor em vossos corações” (Ef 5,18-19); “vigiando com todo fervor, suplicando por todos os santos” (Ef 6,18)

Exortação a que se faça um curso extraordinário de exercícios espirituais…

128. Meditando nesses incitamentos do apóstolo das gentes, parece-nos oportuno sugerir-vos que, no decorrer deste ano santo, façais um curso extraordinário de exercícios espirituais, de forma que, cheios de um novo fervor de piedade, possais conduzir também as outras almas aos tesouros da indulgência divina.

…e à confiança em Maria, Mãe dos sacerdotes…

129. E, enfim, quando experimentardes mais graves dificuldades no caminho da santidade e no exercício do vosso ministério, volvei confiantemente vossos olhos e vosso espírito àquela que é a Mãe do Eterno Sacerdote, e Mãe, portanto, de todos os sacerdotes católicos. Conheceis muito bem a bondade dessa Mãe, e até em muitas regiões fostes os humildes instrumentos da misericórdia do Coração imaculado de Maria no resguardo da fé e da caridade do povo cristão.

130. Se Maria a todos ama com terníssimo amor, de modo todo particular ela prefere os sacerdotes, que são a imagem viva do seu Jesus. Reconfortai-vos ao pensamento desse amor da Mãe divina a cada um de vós, e se tornarão para vós mais fáceis as fadigas da vossa santificação e do ministério sacerdotal.

…à qual o santo padre confia o clero de todo o mundo

131. À puríssima Mãe de Deus, mediadora das graças celestiais, nós confiamos os sacerdotes de todo o mundo, a fim de que, por sua intercessão, Deus faça descer uma larga efusão do seu Espírito, que impulsione todos os ministros do altar à santidade e, pelo seu ministério, renove espiritualmente a face da terra.

Bênção especial ao clero perseguido

132. Confiante no valioso patrocínio da imaculada Virgem Maria para a realização destes votos, imploramos a abundância das divinas graças sobre todos, mas especialmente sobre os bispos e os seus sacerdotes, que, pela defesa dos direitos e da liberdade da Igreja, sofrem perseguições, cárceres e exílios. A esses expressamos nosso vivíssimo afeto, e os exortamos com ânimo paternal a que continuem a dar exemplo de fortaleza e de virtudes sacerdotais.

Benção a todos os sacerdotes

Seja augúrio destas graças celestiais e testemunho de nossa paternal benevolência, a bênção apostólica que de todo coração concedemos a vós todos e a cada um, veneráveis irmãos, e a todos os vossos sacerdotes.

Dada em Roma, junto a S. Pedro, no dia 23 de setembro do ano santo de 1950, XII do nosso pontificado.

Pio XII Papa

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