• Autor: Martin J. Scott, sj
  • Fonte: Livro “Things Catholics Are Asked About” (1927) / Site “Una Fides, One Faith” (http://net2.netacc.net/~mafg)
  • Tradução: Carlos Martins Nabeto

Uma amarga controvérsia se deu [nas primeiras décadas do século XX] no seio dos cristãos não-católicos. Centrou-se no nascimento virginal de Cristo e na sua ressurreição. Mas esses dois pontos da controvérsia foram apenas “casos de teste” para um outro assunto que balançou o protestantismo nas suas bases. Subjacente a essas controvérsias, que lançaram as igrejas evangélicas em dois campos irreconciliáveis, estava a questão dos milagres: os modernistas negavam a sua possibilidade e os fundamentalistas a defendia.

[Durante as discussões], o bispo Brown, da Igreja Episcopal, apontou como razão para negar o nascimento virginal de que o mesmo era contrário à biologia e, portanto, impossível. Ele foi então acusado de heresia, julgado e considerado culpado. Os modernistas da sua igreja o apoiaram, declarando que o dogma do nascimento virginal era baseado em milagres e tal milagre era impossível.

[Em 1926], a controvérsia entre fundamentalistas e modernistas ficou tão amarga que fiéis conservadores de ambos os lados passaram a temer que isso atrapalhasse a igreja. Sábios conselhos foram dados, panos quentes foram colocados e por um tempo a tempestade reduziu. Mas apenas por um tempo. A diferença entre os dois lados é tão brutal que lhes é impossível continuar por muito tempo na mesma igreja. Um lado afirma o que o outro lado nega categoricamente, sendo o assunto em questão vital para ambos os lados. Que se diga desde logo que o Cristianismo é uma religião sobrenatural. Sinais sobrenaturais eram tão necessários para o estabelecimento da religião de Cristo quanto o ar o é para o ser humano. Cristo fez reivindicações sobrenaturais. Era necessário que Ele apresentasse credenciais sobrenaturais.

O próprio Cristo é o maior milagre. Cristo sem milagres seria um milagre ainda maior do que qualquer outro registrado no Evangelho. Em vez de nos surpreendermos com os milagres a respeito de Cristo e do Cristianismo, deveríamos nos surpreender se não existissem. Santo Agostinho declarou que o estabelecimento do Cristianismo sem milagres seria um milagre maior do que a ressurreição.

Cristo veio com uma mensagem para a humanidade que declarava provir do Deus Todopoderoso. Essa mensagem era de tal natureza que impunha, em muitos aspectos, àqueles que aceitavam uma inversão das ideias [prevalecentes] anteriores, uma mudança na perspectiva de vida, um novo e difícil código de moral e a aceitação de um corpo de doutrina que estava muito além da inteligência do homem em entendê-lo, e que deveria ser recebido sem nenhuma prova intrínseca. Cristo veio num dos períodos mais intelectuais da história da humanidade. Ele se dirigiu às pessoas mais conservadoras, críticas e hostis que este mundo conheceu. Ele proclamou ser Javé, o Criador do céu e da terra, o juiz dos vivos e dos mortos.

Ao invés de nos admirarmos que os milagres eram necessários, devemos nos maravilhar se não fossem. Cristo veio como um Ser sobrenatural, apresentando verdades sobrenaturais, ordenando uma vida de acordo com o Seu ensinamento. Era simplesmente impossível para alguém ter ouvintes, a menos que apresentasse uma confirmação sobrenatural de si mesmo e da sua missão.

Mesmo com Seus milagres, os judeus, na sua maioria, O rejeitaram. Mas eles nunca negaram os Seus milagres. Desesperados, disseram que Ele efetuava os Seus feitos maravilhosos por intermédio de Satanás. Se Ele não tivesse feito milagres, os judeus não teriam sido tão pressionados em sua oposição a Ele.

Eles nunca negaram as Suas obras sobrenaturais. Eles não podiam. Teria sido a maneira mais fácil e melhor de desacreditá-Lo. Ao invés disso, eles planejaram um assassinato deliberado, a fim de eliminar Lázaro, a evidência viva do poder de Cristo sobre os mortos. Lázaro esteve morto e sepultado. Passou quatro dias deitado no túmulo. Parece que seu corpo começou a se corromper, pois Marta disse a Jesus: “ele já cheira mal”. À voz de Jesus, esse cadáver levantou para a vida. Isso ocorreu na presença de um grande número de pessoas ilustres, amigas de Lázaro, que tinham vindo de Jerusalém à Betânia para oferecer suas condolências às suas irmãs, Marta e Maria. Depois disso, os judeus creram em Cristo. Grandes multidões O aclamaram Messias. Eles O seguiram aos milhares para Jerusalém. Os escribas, os fariseus e os líderes do povo, vendo isso, ficaram consternados. Eles estavam convencidos do poder de Jesus, mas não se converteram. Um homem pode estar convencido, mas se opor à conversão porque não quer se converter. Esses líderes foram pervertidos. Eles não queriam ver e portanto permaneceram cegos. Pior que cegos! Em sua ira por ver o triunfo de Jesus e sabendo que Seu triunfo era a queda deles, planejaram deliberadamente matar Lázaro. Note-se bem: eles não negaram a sua ressurreição, mas sendo homens maus e comprometidos com um mau caminho, eles não se desviariam [de mau caminho]. Antes de Cristo realizar esse milagre, Ele dissera em alta voz, diante do círculo de espectadores, que deveria fazê-lo como prova da Sua missão divina: “Para que saibam que Tu Me enviaste”. Os líderes sabiam disso. Alguns deles estiveram lá. Mas porque eles não estavam procurando a verdade, suas paixões os cegaram, como acontece com muitos hoje. A reação deles à demonstração do poder divino de Cristo foi reunir-se em Conselho e decidir sobre a morte de Lázaro e planejar ainda a morte de Cristo. Cristo sabia perfeitamente que, a não ser que apresentasse credenciais divinas, não poderia ser aceito. Por isso, ele disse aos judeus várias vezes: “Se não credes em Mim, crede nas obras que Eu faço: elas dão testemunho de Mim”. Os milagres foram um dos selos da divindade na missão de Cristo.

Agora, depois que a religião de Cristo triunfou sobre o paganismo do Império Romano, depois de dois mil anos de civilização cristã, para se questionar os milagres querem propor um milagre maior do que qualquer outro registrado na Bíblia. O estabelecimento do Cristianismo sem credenciais sobrenaturais seria tão impossível quanto a cachoeira do Niágara sem água. O Cristianismo significava a inversão da atitude do homem em relação à vida e ao futuro. Não ofereceu ao homem nenhum incentivo terreno, mas o inverso. Os primeiros cristãos foram presos, açoitados, exilados e mortos com torturas terríveis. E tudo isso por confessar que Cristo era Deus e praticar a Sua religião. O principal fundamento para a crença era a Sua palavra combinada com o Seu caráter e ações divinas. Eles criam firmemente que Ele era Deus e que, consequentemente, as Suas promessas eram verdadeiras,

Cristo veio como o Filho de Deus. Ele revelou verdades acima da capacidade de compreensão do homem. Ele legislou para toda a humanidade. Ele simplesmente teve que mostrar poder divino para ter a Sua missão creditada. Mas os opositores dos milagres afirmam que um milagre é contrário às leis da natureza e, portanto, uma impossibilidade.

Mas quem criou a natureza e quem deu à natureza as suas leis? Toda a natureza material está sob lei. Ela sempre age da mesma maneira nas mesmas circunstâncias. Nada material pode se ligar. Quem obriga a natureza a cumprir essas leis? Uma lei supõe um legislador. A natureza, portanto, tem um legislador. Deus, ao criar o mundo, não abandonou o controle dele. Ele ainda é o governante do mundo. Estamos acostumados a olhar para Deus como para nós mesmos. Com Deus não há passado ou futuro, tudo está no presente. Um viajante que percorre uma estrada pode ver o que passou e o que há na frente. A parte de trás é passada; a parte da frente é futura. Mas um piloto de avião, graças a ajuda de um vidro resistente, pode ver a estrada talvez do começo ao fim. Tudo está presente para ele.

De alguma maneira, Deus enxerga de eternidade em eternidade. Prevendo tudo, Ele providenciou todas as coisas desde o início, que no decorrer do tempo elas ocorreriam de acordo com os Seus planos. Consequentemente, um milagre não é uma violação da lei da natureza. Pode ser um efeito produzido sem a aplicação de forças naturais ou a aplicação da lei natural de uma maneira possível apenas ao Autor e Governante da natureza. Um exemplo vai deixar isso claro: um inventor pode organizar o mecanismo da sua máquina que, para espanto dos espectadores, faz o inesperado em horários especificados. Para os espectadores, isso parece acidental, ou um problema do mecanismo, mas para o inventor é apenas uma aplicação de forças sob o seu controle.

Se um engenheiro civil fosse para a África, onde haveria uma montanha para ser removida e dar lugar a uma ferrovia, os habitantes dali diriam que tal coisa seria impossível. Eles poderiam afirmar que se cem mil homens estivessem envolvidos no trabalho, levaria cem anos para fazê-lo ou mais, já que tal montanha é rocha sólida. O engenheiro, no entanto, responderia que poderia nivelar tudo em um ano com o apoio de algumas centenas de homens. Para os selvagens, isso seria um milagre, mas para quem conhece o poder da dinamite e dos motores de escavação, a coisa toda se reduziria apenas à aplicação das leis da natureza de uma maneira desconhecida pela mente selvagem.

Nenhuma comparação é totalmente correta quando Deus está em questão. Mas, de alguma maneira, Deus pode agir quando há um milagre. Não há violação da lei da natureza, mas a aplicação de forças pelo Autor e Governante da natureza de uma maneira possível somente a Deus. A lei da natureza é a expressão da vontade de Deus na Criação. Deus não viola as leis da natureza por um milagre. Ele simplesmente dá um sinal de que o Criador do mundo está trabalhando. Portanto, um milagre é, por assim dizer, a linguagem de Deus. É por isso que Cristo apelou para os Seus milagres, provando que Deus era Seu Pai e que a Sua missão vinha do Céu. Ao realizar um milagre, Cristo estava demonstrando que Deus o estava aprovando e corroborando. O Apóstolo Pedro, no primeiro sermão após a ressurreição de Cristo, apelou para os milagres de Cristo como prova de que Ele era quem afirmava ser: “Vós, homens de Israel, ouví estas palavras: Jesus de Nazaré, um homem aprovado por Deus entre vós, pelos milagres, maravilhas e sinais que Deus fez por Ele entre de vós, como sabeis…”

Vemos que Pedro está falando com aqueles que testemunharam os milagres de Cristo. Em conseqüência deste primeiro sermão, milhares se tornaram seguidores de Jesus na mesma cidade onde Ele foi crucificado.

Como explicar a adoração ao Crucificado e a adoção do Seu código moral elevado e severo, a menos que Ele desse sinais sobrenaturais como prova de Sua missão? O Cristianismo é baseado em milagres e outros sinais sobrenaturais. Sem estes, o seu estabelecimento seria o maior de todos os milagres. Os modernistas que negam os milagres devem ser consistentes e abandonar completamente o Cristianismo. Sustentar e pregar uma religião sobrenatural e, ao mesmo tempo, negar o sobrenatural não é lógico e nem científico. Se o Cristianismo não é sobrenatural, nada é; pelo contrário, é uma fraude. Sua mensagem é sobrenatural, seus motivos são sobrenaturais, seus incentivos são sobrenaturais. Ordena aos homens que vivam principalmente pela vida eterna. Nada conta neste mundo, a menos que seja um meio para o mundo do além. Diz-nos que, embora devamos viver neste mundo, não devemos viver por ele: “De que adianta um homem ganhar o mundo inteiro e sofrer a perda da sua própria alma?” Se o Cristianismo não possui autoridade, não passa de um sistema ético ou dos ensinamentos de um sábio. Sem autoridade para vincular a consciência, a religião é meramente diretiva e opcional. A religião de Cristo era um mandamento. Ele falou como Deus, agiu como Deus, legislou como Deus. A menos que Ele tenha realizado maravilhas sobrenaturais, nunca poderia ter atingido, com autoritaridade, as consciências dos milhões que O adoraram e morreram por Ele. A menos que estejamos convencidos de que a religião de Cristo nos liga da mesma forma como se Deus Todo-Poderoso pessoalmente falasse conosco, não somos cristãos. Vamos acabar com essa insignificância em relação a Cristo e Sua religião. Se Ele não era Deus, era um impostor e o Cristianismo, uma farsa.

Se o milagre é impossível, o mesmo acontece com Cristo, o mesmo acontece com o Cristianismo. Mas Cristo é um fato e o Cristianismo é um fato. Milagre também é um fato. Abandone o milagre e você deve rasgar todas as páginas do Evangelho. Elimine o milagre e você faz de Cristo nada mais que um sábio, cujos conselhos podem ser aceitos ou rejeitados à vontade.

Se Cristo não era Deus, Suas palavras são os pronunciamentos mais insanos que já vieram de um cérebro desordenado. E Ele não seria Deus se milagres fossem impossíveis. Milagres foram uma das provas que Ele mesmo deu de que era Deus. Rejeite milagres e você não apenas desacredita Cristo como Deus, como também como homem, pois se milagres são impossíveis, Cristo era um impostor ou louco.

Que pessoa sã, a menos que fosse realmente Deus, poderia fazer as declarações que Cristo fazia continuamente? Ele disse: “Eu sou a Luz do mundo”; “Eu sou a ressurreição e a vida; aquele que crê em Mim, embora esteja morto, viverá”; “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida; ninguém vai ao Pai senão por Mim”; “Todo poder é dado a Mim no céu e na terra”; “Ide, pois, ensinar todas as nações, ensinando-as a observar todas as coisas que eu lhes ordenei; e eis que estou convosco todos os dias, até a consumação do mundo”; “Aquele que perde a vida por Minha causa a encontrará”; “Como o Pai ressuscita os mortos e dá vida, o Filho também dá vida a quem Ele quiser, para que todos possam honrar o Filho, como honram o Pai”…

Cristo afirma que Ele tem todo o poder de Deus Todopoderoso e reivindica a honra devida somente a Deus. Que blasfêmia ou insanidade, a menos que Ele fosse realmente Deus! Mas se milagres são impossíveis, Ele não era Deus. O próprio Cristo percebeu a natureza extraordinária das reivindicações que estava fazendo e a necessidade de sua confirmação divina. Quando o acusaram de blasfêmia porque Ele disse ser Deus, respondeu: “Vós dizeis ‘blasfêmia’ porque Eu disse que sou o Filho de Deus? Se eu não fizer as obras de Meu Pai, não acrediteis em Mim. Mas se não credes em Mim, crede nas obras, para que saibais e acrediteis que o Pai está em Mim e Eu no Pai”.

Nada poderia ser mais claro do que isso. Cristo nitidamente apela para Seus milagres e declara que eles atestam as Suas reivindicações divinas. Isso significa que, se milagres são impossíveis, Cristo era um blasfemador. Eles portanto, lógicos e consistentes, devem admitir milagres ou classificar Cristo como um blasfemador. O próprio Cristo convidou para essa questão. Ele abertamente baseou Suas reivindicações em milagres e desafiou os Seus oponentes nesse campo. Aqueles que negam milagres proclamam Cristo como um impostor e o Cristianismo como uma fraude. Mas Deus disse de Cristo: “Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo; ouçam-no”. E Cristo disse sobre a Sua Igreja: “Quem vos ouve, ouve a Mim”.

Milagres são um fato porque Cristo é um fato. Milagres são um fato porque o Cristianismo é um fato. Os modernistas estão tentando fazer o impossível para frear o Cristianismo e negar os milagres. O modernismo é o último estágio do protestantismo. O grande protesto iniciado no século XVI terminou em protesto contra o próprio sobrenatural. Agora, portanto, retornamos ao Paganismo ou à Catolicidade.

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