À medida em que os católicos vão descobrindo o poder da internet para a divulgação de informação, surgem mais e mais apostolados virtuais, em todas as áreas: espiritualidade, apologética, família, moral, modéstia…

Por mais positivo que isso seja, há também perigos embutidos nesse boom de apostolados virtuais.

Em julho de 2008, entreguei, em nome da Comunidade Católicos, do Orkut, uma carta ao Eminentíssimo Cardeal Eugênio Sales, que em um trecho, dizia (grifos acrescentados):

Milhares de católicos ávidos de formação e informação buscam na internet, todos os dias, respostas às suas dúvidas e questões de fé. Deriva daí, portanto, uma grande responsabilidade para aqueles que se propõem a oferecer tal conteúdo, não somente quanto à acessibilidade da informação, mas principal e essencialmente, quanto à ortodoxia doutrinária desta.

Mister se faz, dessa forma, que haja fontes limpas, a fim de que os fiéis, sedentos de conhecimento, possam ser saciados. A única forma aceitável e legítima de atuação de um apostolado virtual – seja site ou comunidade – é a obediência humilde e fiel à Tradição e ao Magistério Vivo da Igreja,sem pretender interpretar-lhes livremente as palavras, com base em convicções pessoais, mas antes preservando-lhes o sentido e a coerência.

A legitimidade primeira para ensinar – ainda mais em matéria de moral – é do clero, e mais e mais o Papa Bento XVI tem conclamado os sacerdotes a marcarem presença na web e na blogosfera. Quanto aos leigos, devem limitar-se a explicar o magistério a fim de que seja melhor compreendido, sem ampliar nem restringir o seu alcance.

Os apostolados leigos são multiplicadores, facilitadores, eles divulgam, traduzem, trocam em miúdos os ensinamentos do magistério, o seu papel não é interpretá-lo.

Não devem os leigos arvorarem-se em construções teológicas, redigindo “estudos”, recheando opiniões com citações fora de contexto, salpicadas aqui e acolá, vendendo suas opiniões e práticas como se moral católica fosse.

No entanto, o que se vê é o surgimento de um sem número de blogs, comunidades, perfis e grupos nas redes sociais, pregando a busca da perfeição pela adoção de padrões morais ultra- elevados – travestidos de magistério católico.

No discurso, bonito e eloquente, fala-se em modéstia, em ter Nossa Senhora como modelo. No entanto, pouco há de modéstia na adoção de uma postura puritana de negação radical da cultura contemporânea, com um vestuário que mais parece do século XIX.

Devemos buscar a santidade de acordo com o nosso estado e com o contexto em que estamos inseridos. Isso não significa relativizar a moral católica. A moral é objetiva, absoluta, mas a sua aplicação depende das circunstâncias. A Igreja fala de moral, que é absoluta, não de moda, que é uma aplicação circunstancial, portanto ontologicamente subjetiva e relativa, da moral em um dado tempo e espaço. Devemos nos vestir e nos comportar de acordo com nossa posição na sociedade e nossa dignidade. Além disso, a primeira impressão é a que fica. Não poderemos evangelizar sendo “ETs”. Como poderemos cumprir nossa missão de batizados, que é transformar o mundo?

Mas, como ser sensível às mudanças dos tempos sem cair no relativismo? É São Josemaría Escrivá que nos dá a resposta:

“Para ti, que desejas adquirir uma mentalidade católica, universal, transcrevo algumas características:

– amplidão de horizontes e aprofundamento enérgico do que é perenemente vivo na ortodoxia católica;

– esforço recto e são (frivolidade, nunca!) por renovar as doutrinas típicas do pensamento tradicional, na filosofia e na interpretação da História;

– cuidadosa atenção às orientações da ciência e do pensamento contemporâneos;

– e uma atitude positiva e aberta para com a transformação actual das estruturas sociais e das formas de vida.”(Sulco, 428).

Quanto à questão do vestuário, ensina o Pe. Daniel Guindón, LC, professor de Teologia Moral do Seminário Maria Mater Ecclesiae do Brasil:

O Papa João Paulo II deu o impulso fundamental à TOB, com as suas catequeses sobre o amor humano. Estas catequeses formam parte do ensinamento magisterial da Igreja, porque as apresentou como Papa. O conteúdo delas é teológico, não é um juízo pessoal sobre o tema da sexualidade humana. Ele nos apresenta o que Deus nos revelou sobre a sexualidade, a visão de Deus sobre o corpo humano. Expõe os princípios da nossa fé e da doutrina cristã. Ele não pretende responder às questões da moda variável, porque ali entra uma questão de cultura.

A partir do ensinamento da Igreja – quer dizer do Papa e dos bispos em comunhão com ele – os cristãos podem fazer certas “interpretações” ou “aplicações” à sua vida concreta. A Igreja não determina qual há de ser o modo de vestir das pessoas. A TOB pretende iluminar sobre o significado do corpo humano, do tipo de vestido, da moda, etc. A Igreja não despreza o valor da beleza, porque é Deus o seu Autor, ao contrário, a estima como um grande bem. Mas a beleza não é o valor absoluto; vai à par com a verdade e a bondade. A TOB quer que as pessoas tomem consciência do significado das suas escolhas, e que as tomem com responsabilidade.

Karol Wojtyla, que viria a se tornar o Papa João Paulo II, hoje beato, publicou, em 1960, a obra “Amor e Responsabilidade”, onde se lê:

“Já que a roupa é considerada em relação ao problema do pudor e do impudor, talvez seria proveitoso considerar o seu papel funcional. Pois, assim como há certas situações objetivas, nas quais até a total nudez do corpo não é impudica, porque a função própria desta nudez não é provocar nenhuma reação a respeito da pessoa como objeto de uso, assim também com certeza há várias funções das várias maneiras de vestir-se ligadas `a parcial ou total nudez do corpo, por ex., no trabalho físico, durante o calor, no banho, perante o médico. Tratando-se de qualificar moralmente a maneira de vestir-se, é preciso partir da variedade de funções, `as quais a roupa deve servir. Não deve considerar-se impudica a pessoa que usa determinada

roupa, mesmo que apareça a nudez parcial, se realiza uma função objetiva. No entanto, seria impudico o uso de tal roupa for a de sua própria função, e assim também deve ser percebido. Por exemplo: não é contrário ao pudor tomar banho de maiô, mas sê-lo-ia usá-lo na rua ou na avenida.”

Se a Igreja forma e informa, a fim de que tomemos nossas próprias decisões, com responsabilidade, leigos têm se dado ao direito de fazer o que a Igreja não faz, que é ditar normas – sim, um dress code : demonizam as calças compridas, o maiô de banho… e muitas mulheres, buscando uma alternativa à imoralidade do mundo moderno, acabam por aderir a esta proposta, como se fosse obrigatória a toda mulher católica.

Santa Gianna Beretta Molla, por exemplo, usava calças compridas, como se descobre no livro Saint Gianna Beretta Molla, A Woman’s Life de Giuliana Pelucchi, que conta com diversas fotos. O que dizer disso? Terá sido menos santa? Será que a Igreja errou ao canonizá-la? Quem decide? Os apostolados leigos?

Coloquemo-nos no nosso lugar: submissos ao magistério. Modéstia sem simplicidade é falsa modéstia. Nem moral de ocasião, nem moral de opinião.

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