Em cada lar, de cada família, a cada geração, uma gigantesca e antiquíssima batalha cultural se repete ao longo dos anos. A mãe, influência civilizadora por excelência, tenta, com sucesso apenas relativo, domar os selváticos instintos daquele divertidíssimo ser que carrega em si a potência de ser um dia um homem adulto: o molequinho.

O molequinho é um pequeno primata, facilmente reconhecível pelos joelhos ralados, pela roupa suada e pelo fascínio com tudo o que faz “bum”, “vrum” ou “zás”. Na verdade, estes vocábulos representam grande parte de seu vocabulário quando conta uma história.

A mãe veste-o com roupas limpas e passadas, e cinco minutos depois descobre – já na hora de sair, com a porta aberta e em cima da hora – que estão imundas. Pergunta-lhe como ele consegue; o serzinho, enxugando as mãozinhas suadas e sujas de chocolate na barriga da camisa nova, diz que não faz nem ideia. Dê-lhe uma boneca e ele fará dela uma pistola, “do tipo cabeludo”; dê-lhe um caixote e ele tem uma fortaleza a laser.

Os molequinhos são apenas a forma pura daquilo em que a experiência, o crescimento e o cuidado feminino um dia vão transformá-los; no fundo de cada homem vive ainda um molequinho, e o perigo de contágio e retrocesso está sempre presente. O homem adulto, deixado a sós com um molequinho, inevitavelmente verá despertado em si mesmo o molequinho que ali jazia, oculto. Quando a pobre mãe voltar, tranquila por ter confiado na influência civilizadora e cavalheiresca do adulto, encontrará não mais um, mas dois molequinhos, um barbado e outro animadíssimo, unidos em alguma brincadeira que faz “bum”, “vrum” ou “zás”.

O molequinho transparece no adulto, e pode ser percebido no entusiasmo proporcionado por tudo o que se move rapidamente: balas, mísseis, aviões, motocicletas e automóveis são, na verdade, apenas aspectos do mesmo arquétipo, fascinante para todo molequinho. O primeiro homem que, ao ver boiando um tronco de árvore tornado oco por um raio, entrou nele e pôs-se a remar nada mais era que um molequinho, tornado adulto pelo tempo e pelos hormônios, mas ainda plenamente membro da espécie. Toda invenção, toda descoberta, é na verdade obra deste molequinho oculto, que desmonta o brinquedo sem que saiba como vai montá-lo, que se enfia debaixo do sofá em busca de esconderijo.

Civilizá-lo plenamente é obra impossível e desumanizante; civilizá-lo parcialmente, contudo, é necessário e meritório, ainda que possível apenas à mais poderosa de todas as criaturas: a mulher que ama.

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